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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Jan17

A nossa luta

Maria do Rosário Pedreira

Defendo que não há nada pior do que tentar apagar o passado, por pior que tenha sido, e creio que assistir a determinados documentários ou ler a verdade sobre o Holocausto, por exemplo, leva a que lutemos para que esse tipo de horrores não volte a acontecer. E, porém, fiquei um bocado assustada com a notícia de que Mein Kampf (A Minha Luta), a obra de Adolf Hitler que já não era publicada na Alemanha desde o final da Segunda Guerra Mundial, foi um dos livros mais vendidos naquele país contra todas as expectativas (aliás, a primeira tiragem foi de apenas 4000 exemplares e já se venderam 85 000!). O Instituto de História Contemporânea de Munique, que organizou um grande número de debates e apresentações à volta da obra, informa, porém, que esta edição anotada por especialistas do manifesto anti-semita do líder nazi, apesar de nunca ter saído do Top de vendas de livros de não-ficção desde que foi distribuída, tem servido sobretudo para promover o debate por toda a Europa sobre as consequências nefastas dos regimes autoritários e está longe de inflamar o neo-nazismo e a ideologia de extrema-direita que a obra expressa. Numa altura em que existe uma onda de xenofobia por toda a Europa, especialmente no que toca aos refugiados oriundos do Médio-Oriente, espero que seja mesmo assim: a nossa luta contra a luta de Hitler.

16
Jan17

Ignorância e cultura

Maria do Rosário Pedreira

Fui recentemente convidada para participar com duas outras pessoas – Carlos Mendes de Sousa, um professor especialista em Sophia de Mello Breyner, e Isabel Capeloa Gil, a reitora da Universidade Católica Portuguesa – naquele programa de televisão da autoria de Anabela Mota Ribeiro chamado Curso de Cultura Geral de que aqui falei e muitos dos Extraordinários viram e não gostaram (pelo menos, do primeiro «episódio»), mas, para o que aqui me traz hoje, tanto faz. O tema prendia-se com o que é hoje «ser culto» e, nos dias que decorreram entre o convite e a gravação, pensei muito no assunto e cheguei à conclusão de que, quanto mais cultos somos, maior é a noção que temos do que ainda nos falta saber. Por outras palavras: quanto mais coisas sabemos, mais ignorantes nos sentimos. Uns dias depois de o programa ter sido gravado (e como foi bom conhecer e ouvir os outros convidados, pessoas com tanto para dizer e tão interessantes!), li com curiosidade uma entrevista feita no site escritores.online a Bruno Vieira Amaral, o autor de As Pequenas Coisas (de que aqui já falei), romance galardoado com, entre outros, o mais recente Prémio Literário José Saramago da Fundação Círculo de Leitores. E, à pergunta sobre o que era para ele um bom livro, o escritor respondeu desta forma: «Qualquer um que nos revele a verdadeira dimensão da nossa ignorância.» Que bom que não seja só eu a pensá-lo. Para quem queira ler toda a entrevista, aqui vai o link:

 

http://escritores.online/entrevistas/bruno-vieira-amaral/

 

13
Jan17

Premiar a persistência

Maria do Rosário Pedreira

Pouco depois de o poeta Vasco Graça Moura, uma espécie de príncipe da Renascença dos nossos tempos, ter morrido, foi criado, para o homenagear, o Prémio de Cidadania Cultural com o seu nome, visando pessoas especialmente activas e empenhadas na divulgação da cultura. Nesta segunda edição (na primeira o prémio foi entregue a Eduardo Lourenço), o galardão foi atribuído ao conhecido jornalista José Carlos Vasconcelos, um veterano da acção cultural, que o júri definiu como «um dos raros exemplos de persistência na imprensa portuguesa de âmbito cultural» e é, desde há muito, a alma do Jornal de Letras, Artes e Ideias, um das poucas publicações periódicas dedicada à cultura que tem conseguido sobreviver a todas as intempéries. José Carlos Vasconcelos é também poeta, com cerca de uma dezena de livros publicados, fez Direito em Coimbra, onde presidiu à Associação Académica da Universidade, foi chefe de redacção da Vértice, uma revista emblemática que haveria de dar a conhecer muitíssimos autores, e ainda actor do teatro universitário quando estudante. Depois ingressou na carreira jornalística – Diário de Lisboa, Diário de Notícias, O Jornal, Visão… – mas sem nunca perder o pé à luta pela liberdade de expressão, tendo sido dirigente sindical e presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa. A sua ligação ao Brasil é conhecida e, nesse âmbito, foi membro da Comissão de Honra das Comemorações dos 500 Anos da Descoberta do Brasil e é sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras. Tem 76 anos e continua a trabalhar todos os dias na divulgação de escritores e artistas de todas as áreas. Parabéns, José Carlos Vasconcelos, pela sua persistência.

12
Jan17

Que há-de ser de nós

Maria do Rosário Pedreira

Anabela Mota Ribeiro é imparável: escreve livros, organiza festivais, faz entrevistas, grava programas de TV, alimenta um blogue… Ufa! Há gente que tem um enorme talento para organizar o próprio tempo! As sessões Ler no Chiado, na Livraria Bertrand, são também da sua responsabilidade uma vez por mês, e hoje os versos da canção de Sérgio Godinho «Que há-de ser da longa batalha/ que nos fez partir à aventura?/ que será, que foi/ quanto é, quanto dura?» servirão de mote para uma conversa que se adivinha bem interessante, até porque, em tempos de «trumpismo», são chamados a dividir as suas opiniões sobre «o que vai ser de nós» o escritor norte-americano-português-de-alma Richard Zimler – um excelente comunicador –, o professor de Direito Eduardo Paz Ferreira (um homem cujo saber é profundamente abrangente e publicou recentemente o livro de ensaios e crónicas Por Uma Sociedade Decente) e a escritora e jornalista muito premiada Ana Margarida de Carvalho. Modera quem? Ora, Anabela Mota Ribeiro. É às 18h30, na Bertrand do Chiado.

11
Jan17

Viagem literária

Maria do Rosário Pedreira

É óbvio que só podemos visitar Avalon, Oz, a Atlântida ou Macondo através dos livros dos autores que criaram esses mundos, mas há bastante ficção à roda de lugares reais – e um dia destes, em conversa com amigos, decidimos que haveríamos de começar a visitar cidades, vilas e aldeias de que ouvimos falar desde sempre mas que, na verdade, não conhecemos senão dos títulos e enredos de certos romances. Por exemplo, eu não sabia onde ficava a Casa Grande de Romarigães (a do Aquilino, bem entendido) até ir ao Google e ver que era perto de Paredes de Coura (hei-de lá ir depois de ler o romance, o que ainda não fiz), nem que Prazins (a da Brasileira, de Camilo) pertencia ao concelho de Guimarães. Vai daí o Manel teve a ideia de irmos a Tormes (a Tormes do absolutamente notável A Cidade e as Serras), onde Eça de Queirós não chegou a viver (pernoitou apenas), mas que hoje alberga a Fundação com o seu nome, parte da sua biblioteca e os móveis que, depois da morte do escritor, vieram da sua residência em Paris. Além da visita guiada à casa, em que se fica a saber muita coisa sobre Eça e a família, existe um restaurante que serve os petiscos queirosianos, pelo que não falhámos a ementa que foi, pelos vistos, ali servida ao próprio Eça quando visitou Tormes: canja, frango alourado com arroz de favas e creme queimado. Estamos agora a pensar que lugar dos livros vamos visitar a seguir…

10
Jan17

Estímulo à natalidade

Maria do Rosário Pedreira

Sou, com muito gosto, membro da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), até porque, sozinha, nunca conseguiria apurar os direitos que geram as letras que escrevo para fados e canções. Recebo, por isso, quase diariamente, uma newsletter que a SPA envia a todos os seus membros e, pouco antes do Natal, fiquei muito bem impressionada como uma das medidas recentemente tomadas pela cooperativa: a de dar a todos os seus funcionários com filhos até aos sete anos a quantia de 100 Euros por mês, também como estímulo à natalidade, num país em que quase não nascem bebés. Claro que não se cria uma criança com 100 Euros mensais, mas considero esse valor uma boa ajuda, inclusivamente porque a SPA já oferece aos respectivos trabalhadores os manuais escolares para os filhos em todos os graus da escolaridade obrigatória. Diz o texto do comunicado: «Compatível com a disponibilidade financeira da cooperativa, esta medida de apoio social irá contemplar de imediato um total de 30 crianças, o que representa um encargo mensal para a SPA de 3000 euros, contributo dos autores portugueses para o crescimento e desenvolvimento dos filhos dos trabalhadores da cooperativa que os representa e defende.» Sendo eu autora e membro da SPA, sinto-me orgulhosa por poder contribuir.

09
Jan17

Leitores e livreiros

Maria do Rosário Pedreira

À semelhança do que acontece em outros países do mundo, em que livreiros elegem uma obra entre todos os livros publicados em determinado ano (o Prémio FNAC em França, por exemplo), a cadeia de Livrarias Bertrand resolveu criar o Prémio Livro do Ano Bertrand para uma obra em prosa (romance, conto ou novela) publicada entre Novembro de 2015 e Novembro de 2016. O júri é composto por todos os livreiros da rede Bertrand e bem assim pelos Leitores Bertrand, aqueles que possuem o cartão de fidelização da livraria. A selecção dos livros, que são 55 no total e podem ser vistos (capinhas e tudo) no site da Bertrand, contou com o apoio dos jornalistas Anabela Mota Ribeiro e José Mário Silva, que recomendaram cinco livros cada um (não fosse ficar alguma coisa importante de fora), e foi grande o meu contentamento quando vi que a lista contemplava quatro títulos que publiquei (A Vegetariana, Um Postal de Detroit, O Coro dos Defuntos e Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato), pois considero que, com tanto livro a sair todas as semanas por tantas editoras, ter lá um quinto da minha produção anual é francamente bom. Até dia 15 deste mês, os portadores do cartão Bertrand podem votar (só uma vez cada um) no seu livro preferido (deixo abaixo o link para os interessados) e, no final do mês, surgirá então a lista dos dez títulos finalistas, dos quais nascerá um pouco mais tarde a obra vencedora. Essa terá a sorte de ter exposição nas livararias do grupo durante todo o ano de 2017. Pode ser que me calhe essa sorte...

 

http://www.bertrand.pt/premio-livro-do-ano-2016

06
Jan17

Cultura geral

Maria do Rosário Pedreira

Nós, portugueses, temos fama de nos queixarmos constantemente de tudo – o mau tempo, a falta de dinheiro, as políticas do governo… – e, se é um facto indesmentível que o mundo anda mesmo às avessas, a verdade é que também há coisas que estão a melhorar, e eu diria que a RTP é uma delas, sobretudo a RTP2, que está a saber combinar serviço público e entretenimento da melhor maneira. No próximo domingo à noite, é lá que vai estrear-se um programa da autoria de Anabela Mota Ribeiro que promete: chama-se Curso de Cultura Geral e propõe aos convidados que falem do que é hoje ser culto, baseando-se nas suas experiências pessoais e numa lista de coisas que viram, leram, ouviram, sentiram, e os marcaram para a vida. Haverá gente de todas as áreas, famosos e desconhecidos, especialistas e aprendizes, bancários, padres, jovens e muito mais. A produção avisa que a paridade foi uma preocupação e que, em 13 programas, participarão 39 mulheres. Eu também lá vou estar (sobre isso falarei um destes dias), mas não é por ter sido convidada que recomendo o programa, antes porque estou certa de que todos os que lá vão aprendem tanto como os que os ouvirem a partir de casa. No próximo domingo, cerca das 22h30, ligue a televisão e fique a saber mais coisas.

05
Jan17

Uma gralha caríssima

Maria do Rosário Pedreira

Ninguém é perfeito – e todos os editores sabem que não há livros sem gralhas. Quando estamos a contraprovar (ver se as emendas marcadas na primeira prova foram todas feitas), acontece regularmente que, num grupo de páginas seguidas, não se fizeram quase correcções; isso corresponde a um momento em que o paginador estava já cansado e devia fazer um intervalo, tomar um café e regressar mais fresquinho. É horrível ler um livro cheio de gralhas, bem sei, mas umas são insignificantes, enquanto outras podem ser realmente muito chatas. Li num divertido artigo sobre o assunto que, numa versão da Bíblia em Inglaterra, um dos Dez Mandamentos saiu «adulterado», dizendo «Thou shalt commit adultery» (oh, meu Deus!, a Bíblia a mandar cometer adultério!). Mas muito pior foi o que aconteceu na Austrália com um livro que era, supostamente, outra Bíblia, a da Pasta, e em que o autor escreveu muito provavelmente o que não queria. Numa das receitas, de tagliatelle com sardinhas (eu cá não a experimentaria), em lugar de acrescentar «salt and black pepper» (sal e pimenta preta), o que ficou escrito foi «salt and black people»… Quando se deu pela calamidade, foi preciso tirar os livros do mercado (mais de 7000), o que custou à empresa cerca de 20 000 dólares australianos! Por isso, sempre que encontrarem gralhas nos livros que publico, por favor usem o endereço de e-mail associado a este blogue e comuniquem-mas: assim, numa segunda edição, corrigi-las-emos.

04
Jan17

Museu de BD

Maria do Rosário Pedreira

Tenho um amigo que adora Banda Desenhada e possui uma colecção impressionante; e, como vive actualmente em Bruxelas, imagino que a tenha enriquecido muito nos últimos anos, já que a Bélgica tem uma enorme tradição neste género particular. A França também, claro, organizando anualmente um festival de BD em Angoulême, a que acorrem todos os fanáticos de pranchas e vinhetas que queiram andar actualizados. Em Portugal, já temos muitos autores de BD de grande qualidade e um festival na Amadora que tem vindo a ganhar importância nos últimos anos. Mas faltava-nos um Museu da Banda Desenhada – e a autarquia de Beja chegou-se à frente, segundo explicou um dos seus técnicos, Paulo Monteiro, que – se não erro – é também um belíssimo ilustrador português. A história da BD em Portugal – desde o primeiro «álbum», da autoria de António Nogueira da Silva, de 1850 – vai ser contada pela primeira vez numa estrutura museológica, sempre articulada com a história mais ampla da BD no mundo, até porque a Câmara de Beja promete juntar ao acervo que já tem na Bedeteca da cidade um número significativo de obras de autores estrangeiros, nomeadamente franceses, italianos, espanhóis, brasileiros e argentinos. A data para a abertura do museu ainda não está marcada, mas esperemos que não demore muito. Actualmente, leio pouca banda desenhada, mas foi com os livros do Tintim do meu irmão mais velho que aprendi os rudimentos do francês e gosto muito de regressar a alguns autores da minha adolescência.