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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Jan17

O poder das personagens

Maria do Rosário Pedreira

Quando alguém diz que uma situação é «kafkiana» ou «dantesca», não podemos senão concluir que Kafka e Dante passaram o teste do tempo e dificilmente desaparecerão da vida dos homens, mesmo que não leitores. O mesmo acontece com certas personagens de obras clássicas – e leio um interessante artigo sobre como o nome de tantos distúrbios psíquicos contemporâneos foi, afinal, roubado a figuras de romances e peças de teatro. Já para não falar do complexo de Édipo ou de Electra, que todos conhecem, descubro por exemplo que aqueles que padecem de um ciúme obsessivo, que tantas vezes os leva a matar o objecto do seu «amor», sofrem de uma doença chamada Síndrome de Otelo (o Otelo de Shakespeare, bem entendido, que matou a pobre Desdémona sem razão). Aos que se recusam a crescer diagnostica-se geralmente a Síndrome de Peter Pan e aos que se preocupam excessivamente com a aparência e não querem envelhecer, a Síndrome de Dorian Gray (do romance de Oscar Wilde, claro). As mulheres que têm fobia de ser autónomas sofrem do Complexo de Cinderela e, no outro extremo, as pessoas que se superam constantemente só pelo prazer de se sentirem heróicas têm Complexo de Super-Homem.  Bela Adormecida é o nome comum dado à Síndrome de Kleine-Levin, um distúrbio neurológico em que o paciente fica letárgico e apático a maioria do tempo; e, para não citar todos os casos do artigo, termino com a Síndrome de Ofélia (a namorada de Hamlet, bem entendido), nome com que um neuropsiquiatra baptizou a doença da filha – confusão mental, falta de memória, dificuldade em articular o discurso, alucinações e depressão – que muitas vezes está associada ao facto de os pacientes terem um linfoma. Que outras doenças encontraremos no futuro com nomes de personagens literárias?

02
Jan17

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Ora então sejam bem-vindos ao Horas Extraordinárias neste ano novo, depois de umas pequenas férias muito soalheiras e repousantes (pelo menos, para mim) e provavelmente uns quilitos a mais e uns quantos livros lidos. Como hoje é o primeiro dia útil do mês, cabe-me de resto falar do que ando a ler – e por acaso leio um romance bem bom, de Isabela Figueiredo, de quem já tinha lido o Caderno de Memórias Coloniais (acho que terei falado dele aqui no blogue). A obra que tenho em mãos – A Gorda – é realmente impactante, e basta a primeira página para nos agarrar. Contada na primeira pessoa, num tom que é bastante cru e não isento de um inteligente cinismo, a história começa por referir a perda de 40 quilos de Maria Luísa numa gastrectomia (essa operação que diminui o estômago) dois anos depois da morte da mãe, levando-nos então de volta à sua infância e adolescência, com e sem os pais, e aos dramas por que passam as gordas nessas idades, mas sem nada de patético ou lamecha, até porque Maria Luísa nunca se verga. Original é também a forma como a autora nos apresenta os vários episódios da vida da protagonista, dividindo os capítulos do seu romance em partes de uma casa – a Porta de Entrada, O Quarto de Solteira, a Sala de Estar… –, lugares que lhe servem para relatar momentos fundamentais da vida da «gorda» e que podem estar relacionados com os hábitos dos bairros suburbanos, com as memórias da vida colonial, com a iniciação amorosa, com a escrita de correspondência e não só. Numa prosa intensa, às vezes desarmante (aplaudo as descrições das cenas de sexo que, na literatura portuguesa, costumam resvalar frequentemente para o mau gosto), este é um livro mesmo muito bom que ninguém deve deixar de ler. Para magros, gordos e assim-assim.

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