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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

24
Mar17

Ir ou não ir?

Maria do Rosário Pedreira

Há algum tempo, depois de a Hungria anunciar que iria construir um muro para conter a entrada de refugiados, uma escritora convidada para um festival literário em Budapeste pôs a hipótese de desistir da sua participação por se encontrar nos antípodas dessa decisão. Estava, obviamente, no seu direito, embora os organizadores do dito festival pensassem muito provavelmente como ela e não devessem ser os mais castigados com a sua ausência. Num interessante artigo publicado no Guardian, diz-se que os activistas políticos tentam frequentemente convencer os escritores e artistas a boicotar determinados certames, enquanto os organizadores alegam que, se eles lá forem, há uma maior probabilidade de se debaterem questões fundamentais e de se denunciarem situações inaceitáveis. Por outro lado, também há quem acuse certos países de realizarem eventos considerados plurais, com gente de todo o mundo, só para fingirem que são abertos e liberais quando, no fundo, tudo não passa de uma fachada; mas um estrangeiro recusar um convite para falar num país em que os locais não podem abrir a boca não será colocar mais um tijolo na barreira à liberdade de expressão? Um filósofo inglês que fez várias palestras sobre liberdade de expressão num país em que há censura ficou a perguntar-se se valeu a pena e se o que disse terá tido alguma influência; e acha que não. Como decidir então nos casos em que os direitos humanos não são cumpridos no país que convida? Ir? Não ir?

23
Mar17

Milhões por um livro

Maria do Rosário Pedreira

Num país do tamanho de uma ervilha, como é o nosso, um escritor não vai financeiramente longe (se sonhar com uma casa com piscina, claro), a menos que seja uma estrela televisiva ou consiga ser traduzido no mundo inteiro e vender muitos exemplares da sua obra. Fico, por isso, sempre bastante confusa, e a fazer contas de cabeça, quando, em certos livros norte-americanos (A Vida Amorosa de Nathaniel P., por exemplo) com escritores como personagens (muitas vezes principiantes, apenas com contos e poemas publicados em revistas), aparecem editores a oferecer-lhes adiantamentos que seriam impensáveis no nosso jardinzinho à beira-mar plantado (até referem o número de dígitos). Mas agora caiu-me nas mãos uma lista de obras que custaram milhões aos seus editores – e isto, creio, por terem oferecido a Obama e à mulher quantias astronómicas para escreverem livros. Eu própria publiquei em tempos cá em Portugal a autobiografia de Bill Clinton, mas desconhecia que ele tinha recebido 15 milhões de dólares à cabeça… E que o romancista Ken Follet, num negócio para uma trilogia, ganhou logo ali 50 milhões de dólares; e que João Paulo II (ou o Vaticano, sei lá) foi contemplado com 8,5 milhões de dólares em 1994… Imagino que a autora do Harry Potter também ganhe assim muito dinheiro e, quanto a esta última, talvez tenha feito bem em sair aqui da ervilha onde viveu tantos anos.

 

P.S. Hoje, se estiver na Figueira da Foz, haverá na Biblioteca uma conversa com os autores Isabel Rio Novo e Paulo M. Morais que promete ser interessante.

22
Mar17

Escritores de canções

Maria do Rosário Pedreira

Apesar de Sérgio Godinho sempre ter insistido na expressão «escritor de canções», não costumamos considerar escritores aqueles que fazem letras e poemas para serem cantados. Mas a Academia Nobel, ao premiar Bob Dylan com o maior galardão que existe para a Literatura, mostrou que eles têm, afinal, tanto direito a serem denominados escritores como os que se dedicam à escrita de romances, poesia ou peças de teatro. Talvez por isso, foi divulgado com alguma pompa e circunstância na revista The New Yorker que a Biblioteca Pública de Nova Iorque ficará com o espólio de Lou Reed – e quem o anunciou foi a cantora Laurie Anderson, sua viúva, no dia em que Reed, se fosse vivo, faria 75 anos. Por aqui não creio que as nossas bibliotecas se interessem muito ou estejam preparadas para gerir o espólio de um músico: gravações electrónicas, registos em papel, pautas, vídeos e discos sem fim, além de objectos pessoais, fotografias, cadernos… Não temos um grande museu para a música e os músicos, e as nossas bibliotecas olham mais pelos espólios dos escritores à moda antiga. Mas talvez as coisas mudem com a introdução da expressão «escritor de canções» na nossa língua e com o Nobel da Literatura atribuído a um músico.

21
Mar17

Mulher de escritor

Maria do Rosário Pedreira

Li um artigo muito interessante publicado no Dia da Mulher em jeito de homenagem às caras-metades de alguns escritores. Começava por dizer que não é fácil viver com alguém que carrega permanentemente dentro de si histórias e personagens, dedicando menos tempo do que seria desejável à realidade, e que depois passa por frequentes crises de vazio e depressão entre livros. Mas algumas das mulheres mencionadas no artigo não estiveram apenas a tratar da casa e dos filhos, ou a gerir as contas domésticas (também houve mulheres assim, claro); algumas estiveram mais ao lado do escritor do que à sua sombra e foram determinantes para o trabalho dos maridos. A mulher de Tolstoi, por exemplo, copiou nada mais nada menos do que sete versões de Guerra e Paz, e a de Nabokov, além de dactilografar e comentar os seus romances, era a sua motorista particular: levava-o à Universidade num Oldsmobile e ouvia as suas aulas entre os estudantes… Houve ainda tradutoras e editoras entre as mulheres de alguns escritores – a jovem mulher de Dostoiévski tê-lo-á, segundo se diz, ajudado a terminar o original de O Jogador. Nem todas, porém, tiveram a sorte de participar positivamente na vida dos maridos e houve quem tivesse até desistido da própria carreira – como a mulher de Hermann Hesse que, maltratada pelo marido e louca com as suas infidelidades, acabou por deixar de tocar (era pianista) e terminou os seus dias num hospital psiquiátrico.

20
Mar17

Dias da poesia

Maria do Rosário Pedreira

Um dos segredos do sucesso da Feira do Livro de Lisboa, diz-se, é o facto de acontecer ao ar livre e permitir a quem passa pegar descontraidamente num livro, espreitar, ler algumas linhas, não ter – em suma – medo de mexer, o que nem sempre acontece no espaço mais fechado e formal de uma livraria. E, porque Março é mês de poesia (o Dia Mundial da Poesia comemora-se amanhã), a Casa Fernando Pessoa junta-se à freguesia de Campo d’Ourique e à Livraria Ler (no mesmo bairro) e organiza uma feira do livro de poesia no Jardim da Parada até amanhã, para que aqueles que ali passam (e são muitos) possam folhear e comprar poemas à sua vontade. Mas as novidades não ficam por aí, porque a poesia vai tornar Campo de Ourique um lugar propício para ler e falar de livros, estando previstas oficinas para crianças, música, visitas temáticas guiadas à Casa Fernando Pessoa, leituras de poesia e muito mais. Amanhã à noite, por exemplo, Amélia Muge dará a voz a Ondula como Um Canto, acompanhada ao piano pelo excelente Filipe Raposo. Mais informações no site da Casa Fernando Pessoa.

17
Mar17

David Machado em grande

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de lançamento em Lisboa de Os Naufrágios de Camões, de Mário Cláudio, apresentado na Biblioteca Nacional por Manuel Alegre às 18h30 (apareçam). E, além disso, aqui na LeYa é também dia da nossa reunião mensal de apresentação das novidades de Abril ao departamento comercial, pelo que estou atarefadíssima e com o tempo muito contado. Mas queria dizer que estou muito contente porque um dos meus autores, David Machado, verá este ano o seu romance Índice Médio de Felicidade (que recebeu o Prémio Literário da União Europeia) adaptado ao cinema por Joaquim Leitão (a estreia está prevista para Julho) e será o autor português escolhido para integrar com um conto – «A Noite Repetida do Comandante» – uma colectânea intitulada Best European Fiction 2017, publicada pela editora norte-americana Dalkey Archive. Este ano, a tradução de Índice Médio de Felicidade foi também publicada nos Estados Unidos nas versões papel, e-book e audiobook e, para a Feira do Livro de Lisboa, sairá o novo romance deste autor que, entre outras coisas, fala de um tema extremamente actual: a violência no namoro. Fico feliz que a carreira de David Machado vá de vento em popa e agora vou a correr tratar da minha vida, desejando a todos um excelente fim-de-semana.

 

P.S. A partir de hoje, e até dia 22, realiza-se o festival Ronda Poética, em Leiria, com leituras, debates e outras actividades. Se estiver por lá, tem muito por onde escolher. Pode consultar a programação no seguinte link:

http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Paginas/Ronda-Po%C3%A9tica-2017.aspx

 

16
Mar17

Literatura russa

Maria do Rosário Pedreira

No próximo mês de Outubro comemora-se o centenário da Revolução Russa e é bem provável que a rentrée nos vá brindar com um bom número de livros sobre o assunto. Enquanto isso, Putin vai fazendo e dizendo das suas, até porque a Rússia, mesmo com o fim da Guerra Fria, nunca deixou as parangonas dos jornais – e nem sempre pelas melhores razões. Mas há coisas formidáveis vindas desse país frio, e a literatura é só uma delas. Quando perguntam a um escritor que obras reputa essenciais e imperdíveis ou que livros o tornaram leitor, a verdade é que não raro aparecem os nomes de Tolstoi ou Dostoievsky; mas ao lado destes também poderiam estar Gogol ou Turgeniev, Soljenitsine ou Tchekhov, Anna Akhmatova e mesmo o poeta Josef Brodsky, que se exilou nos Estados Unidos, começou a escrever directamente em inglês e acabou a ganhar o Prémio Nobel da Literatura. Hoje à tarde, na Bertrand do Chiado, Anabela Mota Ribeiro vai capitanear uma sessão da Ler no Chiado inteiramente dedicada à literatura russa e vão acompanhá-la Ana Matoso, que fez um doutoramento sobre Tolstoi, a russa Anastasia Lukovnikova, que estudou Ciência Política e Cinema, e ainda Helena Vasconcelos, crítica literária e leitora, entre outras coisas, dos escritores russos. É, como sempre, às 18h30 – e de certeza que se vai aprender muita coisa boa.

15
Mar17

Menina e Moça

Maria do Rosário Pedreira

Conheço esta «menina e moça» quase desde que nasceu. Foi, aliás, o seu pai – o professor António Manuel Baptista, a quem estarei eternamente grata – que me meteu no mundo da edição no longínquo ano de 1987; mas nessa altura nenhum dos dois (nem ele, nem eu) fazia a mais pequena ideia de que a Cristina Ovídio, que era a mais nova dos seus quatro filhos, também acabaria por ir parar ao mundo dos livros. E depois de ser editora muitos anos na Oficina do Livro e também na editora Clube do Autor, com a qual continua a colaborar como freelancer, a Cristina resolveu abraçar um projecto belíssimo de fazer inveja a todo o amante da leitura e de espaços para ler descontraidamente e comprar livros. Trata-se da nova livraria Menina e Moça, que é também um bar muito simpático, e fica no Cais do Sodré, em Lisboa. Decorada com excelente gosto (o tecto é da autoria do grande ilustrador João Fazenda) e cheia de fotografias de escritores espalhadas pelas prateleiras, é o local ideal para os leitores lisboetas se abastecerem de material de leitura e se sentarem logo numa mesinha a bisbilhotar as primeiras páginas. A Menina e Moça está aberta entre o meio-dia e as duas da manhã e promete em breve uma programação cheia de actividades de promoção da leitura. Não perca a ocasião de a visitar!

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14
Mar17

Oceanos

Maria do Rosário Pedreira

É um oceano aquilo que evidentemente nos separa do Brasil; e a língua portuguesa, que tantas vezes achamos que também nos separa, vai agora unir-nos numa excelente iniciativa; o Prémio Oceanos (antigo Prémio Literário Portugal Telecom), ao qual até ao ano passado só podiam concorrer livros em língua portuguesa publicados no Brasil, passou há menos de uma semana a contemplar também todos os livros publicados em Portugal nas várias categorias a concurso. A sua curadora em Portugal será a jornalista Ana Sousa Dias. São boas notícias, claro, pelo valor e pela importância do galardão, já ganho, de resto, por alguns escritores portugueses, entre os quais Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe, embora com as edições brasileiras dos seus romances. O oceano vai também estreitar-se daqui a uns mesinhos, no momento em que abrir a Feira do Livro de Lisboa, pois o Pavilhão do Brasil, ausente do certame há meia dúzia de anos, vai regressar em força e dar um ar da sua graça entre 1 e 18 de Junho próximos (a feira este ano começa mais tarde). Tanto mar, tanto mar, mas afinal não tão difícil de navegar no que toca às letras.

13
Mar17

Uma odisseia

Maria do Rosário Pedreira

Em inglês, Ulisses é Odysseus – e o Ulisses de James Joyce, ainda que hoje seja considerado em todo o mundo um dos grandes clássicos da literatura do século XX, passou por uma autêntica odisseia até ser publicado e reconhecido como tal. Há até quem diga que a história da sua publicação terá sido tão complexa como o processo de escrita a que o autor irlandês dedicou muitos anos da sua vida. Segundo leio num blogue espanhol, quem o conta é Kevin Birmingham numa obra que se lê como um verdadeiro livro de aventuras e que relata como Ulisses, depois de ser considerado imoral no Reino Unido e ter tido, por isso, enormes problemas de distribuição, foi proibido nos EUA por causa de certas leis anti-pornografia e objecto de contrabando, entrando no território pela fronteira com o Canadá ou camuflado por outros produtos em barcos que chegavam da Europa. A primeira edição americana foi, aliás, uma edição pirata (um editor atrevido que sabia que tinha muitos leitores interessados no título censurado) e só nos anos 1930 foi possível publicar o livro livremente na América, conseguindo a grande editora Random House, certamente com a ajuda de bons advogados, ganhar um processo judicial que mudou a perspectiva do livro que tinham alguns juízes. Para quem quiser espreitar esta odisseia do outro Ulisses, o livro de Kevin Birmingham, na tradução espanhola, chama-se El libro más peligroso: James Joyce y la batalla por Ulises.

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