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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Mar17

David Machado em grande

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de lançamento em Lisboa de Os Naufrágios de Camões, de Mário Cláudio, apresentado na Biblioteca Nacional por Manuel Alegre às 18h30 (apareçam). E, além disso, aqui na LeYa é também dia da nossa reunião mensal de apresentação das novidades de Abril ao departamento comercial, pelo que estou atarefadíssima e com o tempo muito contado. Mas queria dizer que estou muito contente porque um dos meus autores, David Machado, verá este ano o seu romance Índice Médio de Felicidade (que recebeu o Prémio Literário da União Europeia) adaptado ao cinema por Joaquim Leitão (a estreia está prevista para Julho) e será o autor português escolhido para integrar com um conto – «A Noite Repetida do Comandante» – uma colectânea intitulada Best European Fiction 2017, publicada pela editora norte-americana Dalkey Archive. Este ano, a tradução de Índice Médio de Felicidade foi também publicada nos Estados Unidos nas versões papel, e-book e audiobook e, para a Feira do Livro de Lisboa, sairá o novo romance deste autor que, entre outras coisas, fala de um tema extremamente actual: a violência no namoro. Fico feliz que a carreira de David Machado vá de vento em popa e agora vou a correr tratar da minha vida, desejando a todos um excelente fim-de-semana.

 

P.S. A partir de hoje, e até dia 22, realiza-se o festival Ronda Poética, em Leiria, com leituras, debates e outras actividades. Se estiver por lá, tem muito por onde escolher. Pode consultar a programação no seguinte link:

http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Paginas/Ronda-Po%C3%A9tica-2017.aspx

 

16
Mar17

Literatura russa

Maria do Rosário Pedreira

No próximo mês de Outubro comemora-se o centenário da Revolução Russa e é bem provável que a rentrée nos vá brindar com um bom número de livros sobre o assunto. Enquanto isso, Putin vai fazendo e dizendo das suas, até porque a Rússia, mesmo com o fim da Guerra Fria, nunca deixou as parangonas dos jornais – e nem sempre pelas melhores razões. Mas há coisas formidáveis vindas desse país frio, e a literatura é só uma delas. Quando perguntam a um escritor que obras reputa essenciais e imperdíveis ou que livros o tornaram leitor, a verdade é que não raro aparecem os nomes de Tolstoi ou Dostoievsky; mas ao lado destes também poderiam estar Gogol ou Turgeniev, Soljenitsine ou Tchekhov, Anna Akhmatova e mesmo o poeta Josef Brodsky, que se exilou nos Estados Unidos, começou a escrever directamente em inglês e acabou a ganhar o Prémio Nobel da Literatura. Hoje à tarde, na Bertrand do Chiado, Anabela Mota Ribeiro vai capitanear uma sessão da Ler no Chiado inteiramente dedicada à literatura russa e vão acompanhá-la Ana Matoso, que fez um doutoramento sobre Tolstoi, a russa Anastasia Lukovnikova, que estudou Ciência Política e Cinema, e ainda Helena Vasconcelos, crítica literária e leitora, entre outras coisas, dos escritores russos. É, como sempre, às 18h30 – e de certeza que se vai aprender muita coisa boa.

15
Mar17

Menina e Moça

Maria do Rosário Pedreira

Conheço esta «menina e moça» quase desde que nasceu. Foi, aliás, o seu pai – o professor António Manuel Baptista, a quem estarei eternamente grata – que me meteu no mundo da edição no longínquo ano de 1987; mas nessa altura nenhum dos dois (nem ele, nem eu) fazia a mais pequena ideia de que a Cristina Ovídio, que era a mais nova dos seus quatro filhos, também acabaria por ir parar ao mundo dos livros. E depois de ser editora muitos anos na Oficina do Livro e também na editora Clube do Autor, com a qual continua a colaborar como freelancer, a Cristina resolveu abraçar um projecto belíssimo de fazer inveja a todo o amante da leitura e de espaços para ler descontraidamente e comprar livros. Trata-se da nova livraria Menina e Moça, que é também um bar muito simpático, e fica no Cais do Sodré, em Lisboa. Decorada com excelente gosto (o tecto é da autoria do grande ilustrador João Fazenda) e cheia de fotografias de escritores espalhadas pelas prateleiras, é o local ideal para os leitores lisboetas se abastecerem de material de leitura e se sentarem logo numa mesinha a bisbilhotar as primeiras páginas. A Menina e Moça está aberta entre o meio-dia e as duas da manhã e promete em breve uma programação cheia de actividades de promoção da leitura. Não perca a ocasião de a visitar!

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14
Mar17

Oceanos

Maria do Rosário Pedreira

É um oceano aquilo que evidentemente nos separa do Brasil; e a língua portuguesa, que tantas vezes achamos que também nos separa, vai agora unir-nos numa excelente iniciativa; o Prémio Oceanos (antigo Prémio Literário Portugal Telecom), ao qual até ao ano passado só podiam concorrer livros em língua portuguesa publicados no Brasil, passou há menos de uma semana a contemplar também todos os livros publicados em Portugal nas várias categorias a concurso. A sua curadora em Portugal será a jornalista Ana Sousa Dias. São boas notícias, claro, pelo valor e pela importância do galardão, já ganho, de resto, por alguns escritores portugueses, entre os quais Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe, embora com as edições brasileiras dos seus romances. O oceano vai também estreitar-se daqui a uns mesinhos, no momento em que abrir a Feira do Livro de Lisboa, pois o Pavilhão do Brasil, ausente do certame há meia dúzia de anos, vai regressar em força e dar um ar da sua graça entre 1 e 18 de Junho próximos (a feira este ano começa mais tarde). Tanto mar, tanto mar, mas afinal não tão difícil de navegar no que toca às letras.

13
Mar17

Uma odisseia

Maria do Rosário Pedreira

Em inglês, Ulisses é Odysseus – e o Ulisses de James Joyce, ainda que hoje seja considerado em todo o mundo um dos grandes clássicos da literatura do século XX, passou por uma autêntica odisseia até ser publicado e reconhecido como tal. Há até quem diga que a história da sua publicação terá sido tão complexa como o processo de escrita a que o autor irlandês dedicou muitos anos da sua vida. Segundo leio num blogue espanhol, quem o conta é Kevin Birmingham numa obra que se lê como um verdadeiro livro de aventuras e que relata como Ulisses, depois de ser considerado imoral no Reino Unido e ter tido, por isso, enormes problemas de distribuição, foi proibido nos EUA por causa de certas leis anti-pornografia e objecto de contrabando, entrando no território pela fronteira com o Canadá ou camuflado por outros produtos em barcos que chegavam da Europa. A primeira edição americana foi, aliás, uma edição pirata (um editor atrevido que sabia que tinha muitos leitores interessados no título censurado) e só nos anos 1930 foi possível publicar o livro livremente na América, conseguindo a grande editora Random House, certamente com a ajuda de bons advogados, ganhar um processo judicial que mudou a perspectiva do livro que tinham alguns juízes. Para quem quiser espreitar esta odisseia do outro Ulisses, o livro de Kevin Birmingham, na tradução espanhola, chama-se El libro más peligroso: James Joyce y la batalla por Ulises.

10
Mar17

Pecar

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã já deverá estar à venda em algumas livrarias (e até terça-feira nas restantes) o mais recente ensaio de Miguel Real, intitulado Nova Teoria do Pecado, sobre um assunto – o pecado, claro está – que, segundo a Bíblia, foi o início da nossa perdição (e tudo porque queríamos saber mais, comendo o fruto da árvore do conhecimento, o que hoje seria talvez razão para sermos elogiados). Mas este pequeno livro, na senda de outros do mesmo autor que formam já uma colecção (Nova Teoria do Mal, Nova Teoria da Felicidade, etc.), vai bastante longe, procurando os motivos pelos quais certos comportamentos foram considerados pecados pela Igreja e analisando as relações entre medo, culpa e poder, recuando até aos primórdios da História da humanidade. No final, reflecte também se nesta sociedade contemporânea em que vivemos (e que parece cada vez mais indiferente a tudo) ainda faz sentido falarmos de pecado ou castigo e se os muitos crimes que hoje se praticam pesam de facto nas consciências de quem os comete. Muito interessante, garanto.

 

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09
Mar17

Ressacar

Maria do Rosário Pedreira

Há quem adquira sentido de humor e uma alegria estonteante ao beber álcool, mas no dia seguinte é que são elas... Há também quem esteja de tal modo viciado em drogas duras que faça tudo (roubar, por exemplo) para que não lhe falte a dose seguinte, já que a ressaca acarreta, pelo que sei, dores insuportáveis. Nada disto se pode comparar, obviamente, com o vício da leitura; mas leio num blogue chamado Liprópatas que há gente que tem verdadeiras ressacas depois de ler determinados livros de forma intensa e intensiva. Começa logo porque o livro fatalmente tem um fim (presumo que o medo de que acabe seja uma pré-ressaca) e depois surge uma espécie de vazio (é ainda cedo para o substituir e, por isso, existe a tentação de voltar a ele e reler ou sublinhar as partes de que mais se gostou). Mas os efeitos secundários desta ressaca de leitura incluem também procurar todas as informações disponíveis sobre o autor na Internet, comprar todos os seus livros e, inclusivamente, tentar contactá-lo nas redes sociais e em clubes de fãs para exprimir opiniões pessoais e fazer elogios... O blog aconselha, para minimizar a ressaca, procurar um amigo que tenha lido o mesmo livro e falar com ele sobre a experiência. Se pensarmos naquele romance de Stephen King que deu origem a um filme – Misery –, facilmente concordaremos que o escritor deve ser deixado de fora das nossas ressacas.

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08
Mar17

Livro-retrato

Maria do Rosário Pedreira

Será que as nossas bibliotecas dizem realmente quem somos? Quantos dos livros que temos na estante foram efectivamente lidos por nós? Quantos estarão lá apenas porque alguém no-los ofereceu (e não estou a pensar em presentes dados por amigos e familiares que julgam, pelo menos, conhecer-nos, mas nessa grande quantidade de obras que nos vêm parar às mãos em festivais, congressos, bibliotecas públicas, câmaras e muito mais sem, na verdade, o desejarmos). É possível traçarem-nos um retrato fiel pelos livros que guardamos em casa? Bem, depois da morte de Doris Lessing, que recebeu o Prémio Nobel da Literatura, Nick Holdstock foi convidado a organizar a sua biblioteca (4000 volumes!) e, ao contrário do que esperava, o caos que encontrou não definia a sua proprietária: ela tinha de tudo, e muito desarrumado – filosofia ao lado de ilusionismo; mesmo na cozinha, havia muito mais do que livros de culinária, nomeadamente uma obra sobre os gulags na Albânia que não poderia certamente ser tida por uma receita saudável. Além disso, os livros não tinham praticamente vestígios da Doris Lessing leitora: nem cantos dobrados, nem sublinhados, nem mesmo o nome dela no frontispício, ainda que trouxessem frequentemente a marca dos seus autores em dedicatórias (de Raymond Carver, Alberto Manguel, Allen Ginsberg, entre outros). Nick Holdstock pensava que, ao folhear os exemplares, encontraria anotações importantes que queria seleccionar para um possível futuro biógrafo de Lessing, mas as voltas saíram-lhe trocadas... Agora, que o Manel e eu decidimos reunir as nossas duas bibliotecas para nos livrarmos dos repetidos e arranjarmos espaço para o que ainda virá, é que já ninguém nos poderá tirar o retrato como leitores.

07
Mar17

Camões no Porto

Maria do Rosário Pedreira

Uma das coisas que mais admiro no escritor Mário Cláudio é a sua generosidade. Ao contrário de muitos outros autores consagrados, que não lêem nada das gerações que se lhes seguem, Mário Cláudio disponibiliza-se frequentemente para ler as obras de jovens e principiantes e lhes dar a sua sincera opinião (outra virtude, porque não é pessoa para mentir). Foi, de resto, por ter lido o texto de uma autora que considerou merecedora de uma boa chancela editorial para os seus escritos que me encaminhou há tempos um romance de Isabel Rio Novo. Na altura, eu tinha tanta coisa para ler que, enquanto as costas não folgassem, como diz o ditado, sugeri à Isabel que concorresse ao Prémio LeYa – e o seu romance (Rio do Esquecimento) acabou por ser finalista nesse ano. Mário Cláudio ficou contente por ver que não era o único a reconhecer o talento desta escritora – e agora decidiu ir ainda mais além, convidando-a para apresentar no Porto o seu Os Naufrágios de Camões, recentemente publicado. Não era qualquer escritor firmado que escolheria para apresentar livro seu uma escritora não muito conhecida e com obra ainda relativamente escassa. Tiro-lhe o chapéu, claro, e aproveito para convidar todos os que estão perto da Invicta para vir ouvir este par logo à tarde, num lugar muito bonito, a condizer com a literatura.

 

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06
Mar17

O rato do campo e o rato da cidade

Maria do Rosário Pedreira

O título deste post é o de uma fábula que li na infância; e veio-me à cabeça por causa de um artigo publicado no Diário de Notícias sobre escritores que se afastaram da cidade e migraram para a "província". É sabido que, por exemplo, Alexandre Herculano, decepcionado com o rumo que a nação tomava, se exilou em Vale de Lobos e resolveu dedicar-se à agricultura; o mesmo fez o brasileiro Raduan Nassar, vencedor da mais recente edição do Prémio Camões, que escreveu três pequenos livros admiráveis e logo se recolheu numa fazenda. Mas, embora alguns autores que vivem longe da capital se queixem que é por isso mesmo que têm menos atenção da crítica e do público, hoje há muitos escritores activos que moram longe das grandes urbes – e não é por isso que perdem notoriedade. Sai-lhes seguramente mais barato (é o que diz o poeta Miguel Manso, que se mudou para perto da Sertã) e, quando precisam de parar para resolver alguns problemas das suas narrativas, o ar livre e a ausência de barulho e poluição tornam-se bastante mais agradáveis e inspiradores (é o que diz Luísa Costa Gomes a respeito dos quilómetros de areal que tem como vizinhos todo o ano). Com as estradas modernas e as comunicações sofisticadas, é hoje muito mais fácil viver fora dos grandes centros e não perder com isso. Mesmo assim, todos os entrevistados do artigo – Joel Neto e Afonso Cruz, além dos já mencionados – já viveram em Lisboa e foi aí, provavelmente, que o seu nome se firmou.