Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Mar17

Porquê sozinho?

Maria do Rosário Pedreira

Ler é uma actividade solitária, é um facto. Claro que se pode ler em voz alta para alguém que não vê, ou até em grupo, numa aula de Língua Portuguesa, lendo um texto a várias vozes. No entanto, para uma leitura atenta requer-se algum recolhimento. E, porém, se há pessoas que não gostam de ir ao cinema sozinhas – por não terem depois com quem trocar impressões sobre o filme –, agora também há muitas maneiras de ir ter com alguém para discutir um livro que se acabou de ler. A revista Time Out/Lisboa publicou, de resto, uma lista de clubes e comunidades de leitura espalhados pela cidade. Parece que o mais antigo destes clubes se chama Missa e tem como objectivo falar sobre a Bíblia, mas há muitos mais. As livrarias (Leituria, Ler, Almedina...) têm quase todas actividades relacionadas com a leitura e debate à volta dos livros, bem como algumas instituições (a Culturgest, por exemplo) que todos os anos organizam comunidades de leitores que se debruçam sobre livros relacionados com temas específicos. Além delas, porém, alguns bares (Povo, A Viagem, Titanic sur Mer...) oferecem também agora a possibilidade de ler poesia ou falar de livros em vez de beber e dançar (ou ao mesmo tempo). Assim, se está desesperado por falar com alguém acerca do que leu, não fique sozinho: escolha o lugar que lhe parecer melhor.

02
Mar17

Em desuso

Maria do Rosário Pedreira

Já há muito tempo que não dedicava um post a palavras ou expressões que caíram ou estão a cair em desuso; e foi porque o Manel chamou a alguém à minha frente «rapioqueiro» – aplicável a quem gosta de folia – que, de repente, me lembrei do assunto e resolvi recolher alguns termos de que gosto e já raramente ouço por aí.  Os sinónimos apresentados para «rapioqueiro» no Dicionário Priberam são, de resto, quase todos pouco correntes nos dias de hoje, como «pândego», «patusco» (que gosta de «patuscadas»), «gaiteiro» ou «farrista». O «pândego», vocábulo que a minha avó usava frequentemente para designar alguém que fazia rir e se sabia divertir, levou-me a outros com que ela me definia em criança e que acho estarem também a desaparecer, pelo menos da boca dos mais jovens: «rabina», «arisca», «diabrete», «mafarrica» e «levada da breca». Esta última expressão era utilizada por ela não só com o sentido de «travesso» ou «irrequieto», mas também com a acepção de «desembaraçado» ou «despachado». Aos saloios, a minha avó chamava «pategos» – já não ouço ninguém dizer isto há que tempos, mas o termo constava daquele excerto do Júlio Dantas que mostrei aqui no blogue há dias; e também se servia de uma palavra que aprecio muito – «ratatinhado» –, que nenhum dos dicionários que consultei regista (com muita pena minha), referindo-se a coisa mal feita, apressada, atamancada ou a uma roupa que devia ser o número acima. Acrescento ainda a palavra «cotomiço» (alguém pequeno) e a expressão «já a formiga tem catarro» (esta ainda se usa, creio, mas é um achado). E, por hoje, é isto.

01
Mar17

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Ando a saltitar entre dois livros, curiosamente da mesma editora e ambos com belíssimas capas. O primeiro foi-me oferecido pela sua tradutora, Maria do Carmo Figueira, no Natal passado, e escreveu-o uma nigeriana – Helen Oyeyemi – que tem uma frescura e uma imaginação difíceis de encontrar. Chama-se O Que não É Teu não É Teu e é uma colectânea de contos, alguns bastante longos, todos eles relacionados com chaves (ou fechaduras) que, como a contracapa anuncia, são um «convite à descoberta de um universo onde a beleza poderá existir». E existe – pelo menos no fraseado original e no delírio às vezes um pouco «latino-americano» da sua autora, que é seguramente um nome a reter e a acompanhar. Entre um conto e outro, espreito também A Avó e a Neve Russa, do português João Reis (também ele tradutor, e de gente bem respeitável como Knut Hamsun), um ainda jovem escritor que nos oferece – até onde li, umas cinquenta páginas – uma narrativa cheia de ternura e  humor sobre a relação entre um menino de dez anos (o narrador) e a sua querida Babushka, a avó russa que foi vítima do desastre nuclear de Chernobyl e alguns anos depois, a residir no Canadá, continua a sofrer as sequelas do acidente na forma de uma tosse persistente que não prenuncia nada de bom. Acho que vou continuar assim, a entremear ambos os livros, até chegar ao fim de um deles. Para já diria que os dois valem a pena!

Pág. 3/3