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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

07
Abr17

Judaica

Maria do Rosário Pedreira

Existe um festival anual chamado Judaica – que, como o nome indica, serve para divulgar e debater as questões do judaísmo. Distribui-se por vários locais – Lisboa, Cascais e ainda Belmonte e Castelo de Vide, terras que tiveram (ou têm) comunidades de judeus – e inclui, entre outras coisas, uma interessante mostra de cinema. No âmbito deste festival cultural, acontecerá amanhã uma conversa moderada pela jornalista Filipa Melo com três escritores cujos livros mais recentes tocam o judaísmo: Cristina Norton, com O Rapaz e o Pombo (finalista do Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores); João Pinto Coelho com Perguntem a Sarah Gross, um romance que fala, entre outras coisas, do Holocausto e dos seus efeitos, e Tiago Salazar com A Escada de Istambul, uma narrativa sobre os Camondo, família de judeus que se instalou no século XVIII em Istambul e foi das mais prósperas do império otomano. O debate terá lugar em Cascais, no Cinema da Villa, às 18h00, e os autores vão, no fundo, explicar por que razão escolheram judeus reais e imaginários como personagens. Um bom programa para o fim da tarde, junto ao mar. Bom fim-de-semana.

06
Abr17

Rotina e desencanto

Maria do Rosário Pedreira

Tenho ideia de que, quando o trabalho se repete demasiado dia após dia, mesmo que se goste do que se faz, isso acaba por levar a que se perca o encanto inicial e, em última análise, o prazer de trabalhar. Foi isso mesmo que entrevi nos relatos de dois jovens livreiros que, adorando ler, mas trabalhando num lugar com demasiadas regras e uma rotina imutável, começaram a desencantar-se com a profissão. Resolveram então, para o seu próprio bem, sair de cena e montar juntos um negócio parecido com aquilo com que sempre tinham sonhado; e, mesmo que ser proprietário lhes possa trazer outros problemas, a verdade é que parecem felizes na fotografia na qual o jornal i os mostrava um dia destes ao falar da sua livraria, chamada Flâneur, na cidade do Porto. Atrás deles, as prateleiras algo desarrumadas pareciam-se com as estantes lá de casa, mas a ideia, segundo percebi, é tornar o espaço o menos rígido possível, ter e aconselhar livros de que os donos gostem, cultivar uma certa intimidade com os leitores, desenhando aos poucos o perfil destes, procurando os livros que podem agradar-lhes e até – curioso! – levá-los, se preciso for, de bicicleta a sua casa. Às vezes, em nome da sanidade mental, é preciso dar um passo arriscado e virar a vida do avesso (conheço várias pessoas que o fizeram nos últimos tempos); e, ainda que o lucro em termos de dinheiro possa ser poucochinho numa livraria deste tipo, há de certeza absoluta um lucro para o prazer de viver e trabalhar que faz toda a diferença.

05
Abr17

Outra Amália

Maria do Rosário Pedreira

Mais logo, no Museu do Fado, será lançado o novo livro de Fernando Dacosta, jornalista que, inicialmente premiado por trabalhos de investigação (um dos quais sobre os retornados) e peças de teatro, acabou por se tornar ficcionista e usar grandes personalidades nas suas obras (entre elas, o doutor Salazar, sobre quem escreveu um romance e de quem organizou a fotobiografia). As mulheres estão também presentes nos seus livros – e um dos mais recentes, O Botequim da Liberdade, centra-se na figura de Natália Correia, tomando o título de um bar que a poetisa tinha no bairro da Graça. Fico agora muito curiosa com este Amália – Uma Ressurreição que vai ser apresentado hoje às 19h00 numa espécie tertúlia; e fico curiosa porque, tendo lido muito sobre a fadista, até por razões profissionais (escrevi há uns anos a sua biografia para crianças), nunca pus os olhos em nenhum trabalho de ficção digno a seu respeito (não digo que não haja, mas que me passou despercebido); além disso, sei que este romance não será propriamente um espectáculo de La Féria posto por escrito, mas algo certamente mais profundo, ou polémico, até por causa desse «Uma Ressurreição» que acompanha o nome de Amália no título e que preciso de perceber o que quer dizer. Se descobrirem antes de mim, avisem-me.

04
Abr17

De peso

Maria do Rosário Pedreira

Num jantar que se realizou recentemente – e no qual houve, no final, um sorteio de livros – confesso que fui um bocadinho batoteira e fiz o que pude para que me calhasse uma autêntica maravilha, coisa de peso, a Obra Essencial de Mário de Sá Carneiro preparada por Fernando Pessoa para a revista Presença em 1928, que não chegou a sair na altura mas foi agora tratada – e muito bem! – por Vasco Silva, ex-editor da Ática (a editora original das obras de Pessoa). Tomando o plano do grande amigo de Sá Carneiro como ponto de partida, bem como as cartas trocadas entre os dois poetas e outros documentos, Vasco Silva compôs agora este volume que todos vão querer ter e ler (e pelo qual fiz batota). Mas, como num só mês podem caber dois livros de peso (o que acabo de referir tem quase 600 páginas), eis outra obra-prima que me veio parar às mãos sem batota mas quase por milagre: as Memórias de Raul Brandão, reunidas pela primeira vez num volume único (anteriormente, eram três), uma excelente forma de ajudar a celebrar os 150 anos do nascimento do escritor. Trata-se de uma obra notável, que inclui não só memórias mais pessoais do autor de Húmus, mas o relato dos momentos históricos tão particulares a que assistiu (o regicídio, a queda da monarquia, a implantação da República), formando um raro testamento literário, político e biográfico. Coisas de peso que não se devem perder.

 

03
Abr17

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Embora seja atípico, o que ando a ler neste momento não é um livro, mas muitos ao mesmo tempo; isto porque ando de volta de poemas que originaram fados e, como tal, não cesso de abrir poemários de tudo quanto é gente, desde cancioneiros a obras de autores muito recentes, como, por exemplo, Fernando Pinto do Amaral, que escreveu uns belíssimos fados. Mas, porque devo seleccionar alguma coisa para vos aconselhar, parece-me oportuno falar-vos de Carlos de Oliveira – um poeta que merece ser lido por todas as razões (e, se alguém não for leitor de poesia aqui no blogue, tem excelentes livros em prosa do autor a que deitar a mão, nomeadamente Finisterra, que é um dos meus preferidos). Carlos de Oliveira retirou da sua obra um lindíssimo poema dedicado à mulher e intitulado «Carta a Ângela» (que ideia estapafúrdia «apagar» um poema tão maravilhoso), que foi cantado em versão de fado por Carlos do Carmo. E esse poema vem bastante a propósito porque neste momento está patente no Museu do Neo-Realismo uma exposição dedicada justamente a Carlos de Oliveira, «Carlos de Oliveira: A Parte Submersa do Iceberg», com curadoria do professor de literatura da Universidade de Coimbra Osvaldo Silvestre, que ficará aberta até 29 de Outubro para quem a queira visitar e que tem uma choruda programação complementar a consultar no link abaixo. No âmbito dessa programação foi lançado há uns dias um livro chamado justamente Carta a Ângela, que vou seguramente espiolhar. Leiam Carlos de Oliveira – poesia ou romance – e não se arrependerão.

 

http://www.cm-vfxira.pt/frontoffice/pages/50?news_id=3254

 

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