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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Mai17

Brincar com o fado

Maria do Rosário Pedreira

Há quem goste de fado e quem não goste – nesta arte, o mais difícil é mesmo o meio termo. Ouvi uma vez o fadista Camané dizer numa entrevista que, em criança e no início da adolescência, até tinha vergonha de dizer aos amigos e colegas que gostava de ouvir fado, não fossem considerá-lo uma carta fora do baralho... Efectivamente, não é lá muito fácil encontrar miúdos que ouçam regularmente a canção típica de Lisboa, mas ela não é um bicho de sete cabeças e, além de fazer parte do Património Imaterial da Humanidade, há que dizer que a sua história se mistura com a da própria cidade e dos seus bairros, bairros tantas vezes referidos nas suas letras: Mouraria, Alfama, Madragoa, Bairro Alto... E por isso é muito bem-vindo um instrumento que acaba de chegar para desmistificar essa imagem escura e pesada que o fado ainda possa ter para os mais novos: um livro intitulado Brincar aos Fados, que será apresentado amanhã, em pleno Dia da Criança, no Museu do Fado, pelas 17h00. Temos razões para ficar expectantes: a obra é assinada por variadíssimos escritores – David Machado, Nuno Camarneiro, José Fialho Gouveia, Filipa Martins, Maria Inês Almeida (quase todos com obra publicada para a infância) – mas também por alguns especialistas em fado, nomeadamente o letrista Tiago Torres da Silva e o fadista Rodrigo da Costa Félix. Não poderei lá estar - amanhã explico porquê – e por isso não ouvirei também os fadistas que irão abrilhantar a sessão, mas vou de certezinha comprar para os meus sobrinhos mais novos, para eles saberem o que é isso do fado.

30
Mai17

Debaixo da pele

Maria do Rosário Pedreira

Hoje sai para as livrarias o mais recente romance de David Machado, Debaixo da Pele, que nos mostra de forma muito especial como todos os nossos gestos têm consequências... Júlia nunca contou a verdade sobre o que lhe aconteceu. Nem aos pais, que a sentem cada vez mais distante; nem às amigas, que não vê há meses. Acreditou que dessa forma seria possível esquecer tudo; mas a memória que o seu corpo guarda não pode ser apagada, e por isso, apesar dos seus dezanove anos, Júlia só deseja ficar quieta, encolhida numa vida vazia, longe de tudo e de todos. No prédio onde mora, vive Catarina, a fiha de uns vizinhos cujas discussões violentas Júlia escuta através das paredes. Salvar essa criança torna-se então essencial à sua própria salvação. Mas será possível fugir do passado quando ele permanece debaixo da pele? Eis o ponto de partida deste romance fascinante e profundamente actual, que acompanhará os momentos cruciais das vidas de Júlia e Catarina ao longo de muitos anos. No mesmo ano em que se estreia o filme de Joaquim Leitão adaptado do seu romance anterior (Índice Médio de Felicidade), David Machado oferece-nos mais uma obra em que os jovens desempenham um papel crucial.

 

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29
Mai17

Digitalmente vigiados

Maria do Rosário Pedreira

Tenho um sobrinho que se vai casar este Verão nos Açores – e porque, apesar de ter viajado bastante, nunca me calhou ir ao arquipélago, achei que devia aproveitar a ocasião para passar uns dias por lá e visitar, já agora, umas quantas ilhas. Tanto o Manel como eu estivemos a fazer pesquisas de voos e hotéis e a comparar preços, para a coisa não nos sair demasiado cara, ao longo de duas ou três noites. Resultado: durante um mês, se não mais, o meu mural do Facebook encheu-se de propostas açorianas (mesmo depois de eu já ter tudo marcado) a toda a hora. Irritei-me. Porque é que o raio do Facebook tem de saber das minhas consultas? Quando vou à Internet investigar qualquer coisa sobre um livro ou um país, da vez seguinte que entro na rede tenho logo de gramar com sugestões que se está mesmo a ver só aparecem por causa da dita busca. O algoritmo é tramado, assim fica difícil respirar… Gosto de procurar, mas não aprecio que encontrem as coisas por mim, nem que me venham fazer sugestões sem eu as pedir. Vivemos digitalmente«vigiados» e nem há maneira de iludirmos essa vigilância porque precisamos dos computadores para trabalhar e isso marca-nos logo como consumidores de um determinado tipo, a quem dizem que se comprámos tal livro também iríamos certamente gostar de ler um outro que, frequentemente, não tem nada a ver. Sou só eu que não gosto disto?

26
Mai17

Para Madrid!

Maria do Rosário Pedreira

Hoje começa a Feira do Livro de Madrid, no Parque do Retiro; e, em 76 edições que o certame já conta, esta é a primeira vez que Portugal conseguiu a proeza de ser o convidado de honra. Vamos, por isso, até ao dia 11 de Junho, levar os nossos livros e escritores até à capital do país vizinho, onde a literatura portuguesa é mal conhecida e está, infelizmente, ainda pouco traduzida. A conferência inaugural está a cargo de Eduardo Lourenço, que será certamente ouvido pelo nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, uma vez que se confirma a sua presença na abertura da feira. O programa de actividades juntou o clássico ao contemporâneo – e tanto se vai ouvir falar de Camões, Eça e Pessoa (obrigatórios nestas coisas – já para não falar de Saramago, muito popular em Espanha) como de Herberto, Sophia, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral ou Lídia Jorge, como ainda nos mais jovens José Luís Peixoto, Gonçalo Tavares ou Valter Hugo Mãe. Eu própria estarei no Pavilhão de Portugal no dia 5 de Junho, às 18h30, para a apresentação de uma antologia da minha poesia em espanhol, traduzida pela poetisa Verónica Aranda (o convite partiu dela e eu não podia senão aceitar). Por isso, a partir de amanhã pode certamente acompanhar pelos meios de comunicação social a nossa presença junto de nuestros hermanos!

                                                 

25
Mai17

Latino e americano

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez por outra, há um jornalista que fala de América do Sul para se referir à América Latina, esquecendo-se, sem dar por isso, do grande México e de todos aqueles pequenos países do istmo que liga a América do Norte à América do Sul (Guatemala, Nicarágua, Belize, Costa Rica…), já para não falar de umas quantas ilhas (Cuba, Porto Rico e outras). Porém, no recente Festival Literário da Gardunha verifiquei que essa não é a única incorrecção praticada com regularidade quanto ao universo latino-americano. Quando falamos em literatura latino-americana ou literatura da América Latina, pensamos, regra geral, na literatura dos países que nos deram grandes escritores como García Márquez, Mario Vargas Llosa, Borges, Cortázar, Rulfo, Neruda, enfim, toda essa constelação de países que, embora muitíssimo diferentes uns dos outros, têm um denominador comum: grandes escritores que escrevem em espanhol (pronto, para os que vierem já a seguir corrigir, «castelhano»). Mas, como dizia no referido encontro o cronista, tradutor e activista brasileiro Eric Nepomuceno (tradutor premiadíssimo de grandes obras como Cem Anos de Solidão e uma pessoa com muito de interessante para contar), a literatura brasileira também é latina e também é americana – então porque é que nunca se mencionam livros de autores brasileiros quando se fala de literatura latino-americana? Tem razão, evidentemente. Ainda vamos a tempo de corrigir isto, não?

24
Mai17

A morte do artista

Maria do Rosário Pedreira

Somos muito parcos em revistas literárias (falo dos portugueses), mas há por aí uma revista novinha em folha que é mesmo A Morte do Artista (sim, este foi o título escolhido pela sua equipa). Foi lançada, segundo sei, na Biblioteca Camões, em Lisboa, naquele mesmo dia 13 em que houve inúmeros ataques informáticos e o Papa canonizou os pastorinhos, pelos seus «donos», quatro amigos que se juntaram para dar corpo a um sonho: Manuel Halpern, João Eduardo Ferreira, Fernanda Cunha e Firmino Bernardo – para lá do artista plástico, fotógrafo e videasta Paulo Romão Brás, responsável pelo grafismo da revista. Tal como a saudosa Ficções e como a mais recente Granta, esta nova publicação pretende ser um repositório de originais – e terá poesia, ficção, ensaio e ilustrações. Desta feita o autor em destaque é Mário de Carvalho, que tem neste número inaugural justamente uma ficção da sua autoria nunca antes publicada e um ensaio de Natália Constâncio sobre a sua obra (este não sei se inédito). Mas, tanto quanto julgo ter percebido, também aqueles autores desconhecidos que têm textos dispersos que não conseguem publicar, terão nesta revista uma possibilidade de os partilhar com o público. Parabéns aos artistas (e que vivam muito tempo).

 

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23
Mai17

De barriga cheia

Maria do Rosário Pedreira

Tenho vindo a reparar que, de há uns tempos para cá, as listas dos livros mais vendidos em Portugal têm sempre, nos primeiros lugares, livros de culinária (agora a vedeta é Marco Costa e o seu Receitas com Segredo – e temo dizer que não faço a mais pequena ideia de quem é Marco Costa, mas suponho que alguém vindo da TV, porque vende mesmo muitos livros!). Eu bem sei que nem sou o que se pode chamar um bom garfo, nem uma boa cozinheira (aliás, só cozinho mesmo quando tem de ser porque cozinhar me dá stress e, ainda por cima, o resultado é normalmente uma coisa sem piada); mesmo assim, acho que há claramente um exagero no número de livros e programas de TV dedicados à gastronomia em geral e à cozinha em particular nos dias de hoje: livros de receitas de famosos (Sá Pessoa, Avillez, Rui Paula, etc.), o que até seria mais ou menos esperado, mas também muitos outros de tias, primas, amigas e tipos giros de avental que gostam de cozinhar e põem toda a gente a dar-lhes atenção, já para não falar das receitas adequadas a quem quer emagrecer, ou é vegetariano, ou é alérgico à lactose, ao glúten e a outras coisas. Até o Manel foi fazer um dia destes um curso de cozinha para principiantes e já comprou mais uns livritos (embora ainda não tenha feito nada a partir deles, já me brindou com um excelente Bacalhau à Brás... ou Braz?). Alguém me explica este súbito interesse pela comida e os livros de receitas por parte de tanta gente?

22
Mai17

Viagens com livros

Maria do Rosário Pedreira

Quando viajo, seja de avião, seja de comboio, levo sempre um livro comigo. Agora, que as pessoas vivem agarradas ao telemóvel e algumas falam ao telefone ou recebem mensagens com apitos durante toda a viagem, é mais difícil ler no comboio do que no avião. Mesmo assim, há quem tenha decidido que vale a pena tentar aumentar os níveis de literacia e os hábitos de leitura dos portugueses disponibilizando, em algumas viagens do Alfa-Pendular, um livro para ler durante o percurso. Este estará, em princípio, pousado no assento quando o passageiro chega ao seu lugar; mas, se não estiver, pode ser pedido na carruagem-bar, onde há, pelos vistos, um bom número de exemplares de reserva. O lema deste programa é «viagens com livros» – e os livros, mesmo os de autores estrangeiros como Edgar Allen Poe, são facultados em tradução portuguesa. Curiosamente, a iniciativa está a cargo de uma instituição de crédito – a Cetelem – numa parceria com a CP e no âmbito da política de responsabilidade social da empresa. Por isso, se viajar nos comboios que vão de Lisboa a Braga (ou vice-versa) neste mês de Maio, terá um livro à sua espera. Desconheço se, finda a viagem, pode ficar com ele.

19
Mai17

Le temps des cerises

Maria do Rosário Pedreira

Quem gosta de cerejas procura sobretudo as de Resende ou então, mais fáceis de encontrar, as do Fundão (dizem que muitas vão direitinhas para a fábrica dos bombons Mon Chérimon cherry também soaria bem – mas ainda é possível encontrar muitas cerejinhas de qualidade nas frutarias portuguesas). E, neste tempo de cerejas, é mesmo para o Fundão que vou mais logo com o Manel e a minha amiga fadista Aldina Duarte, para participarmos no Festival Literário da Gardunha, que decorrerá durante todo o fim-de-semana. O festival inclui residências literárias e artísticas, uma feira do livro, exposições, teatro, música e actividades nas escolas. Além disso, o programa compreende vários lançamentos de livros e revistas literárias e uma série de mesas-redondas dedicadas ao tema da viagem (numa multiplicidade de sentidos), nas quais poderemos ouvir, entre outros, Carlos Mendes de Sousa, Lopito Feijó, Nelson Motta, Laborinho Lúcio, Manuel da Silva Ramos, Afonso Cruz ou Miguel Manso. Sábado à noite Cristina Branco vai cantar canções de Chico Buarque com o acompanhamento do trio de Mário Laginha e, no domingo de manhã, haverá uma caminhada poética de duas horas e meia (se quem caminha duas horas e meia vai dizer poemas, vamos ouvir certamente ofegar). Enfim, um bom programa de fim-de-semana, com muitas cerejas para a sobremesa. O pior vai ser voltar na segunda...

18
Mai17

Um novo romancista?

Maria do Rosário Pedreira

Há vários anos, ainda na Temas e Debates, publiquei, com o Círculo de Leitores, a biografia de Bill Clinton – My Life, no original – um verdadeiro tijolo com revelações extremamente interessantes, sobretudo na época (a edição mundial foi, creio eu, em 2005 e tivemos de correr muito para traduzir tudo e ter o livro pronto na data). Não me recordo de o ex-presidente ter uma escrita especialmente elegante – e fiquei agora surpreendida com a notícia de que, em breve, escreverá a sua primeira ficção: The President is Missing. Ao que sei, Clinton vai ter, porém, uma ajudinha do seu companheiro de golfe, nada mais nada menos do que o ultrapopular James Patterson, que colecciona best-sellers nos Estados Unidos, embora por cá ainda não tenha realmente vingado. Intriga, suspense e drama nos corredores do poder é o que promete esta dupla, que também já explicou que o thriller anda à roda da Casa Branca, lugar de que Bill Clinton tem um conhecimento privilegiado, o que fará deste romance muito provavelmente um dos mais «informados» sobre a matéria. Poder-se-ia pensar que Clinton teve a ideia e que a sugeriu ao amigo escritor (os dois ganhariam com o livro a meias, penso eu), mas a verdade é que a ideia partiu de uma terceira pessoa. Quem? O advogado de ambos… Está-se mesmo a ver o que não vai o senhor doutor ganhar com isso.

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