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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

26
Mai17

Para Madrid!

Maria do Rosário Pedreira

Hoje começa a Feira do Livro de Madrid, no Parque do Retiro; e, em 76 edições que o certame já conta, esta é a primeira vez que Portugal conseguiu a proeza de ser o convidado de honra. Vamos, por isso, até ao dia 11 de Junho, levar os nossos livros e escritores até à capital do país vizinho, onde a literatura portuguesa é mal conhecida e está, infelizmente, ainda pouco traduzida. A conferência inaugural está a cargo de Eduardo Lourenço, que será certamente ouvido pelo nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, uma vez que se confirma a sua presença na abertura da feira. O programa de actividades juntou o clássico ao contemporâneo – e tanto se vai ouvir falar de Camões, Eça e Pessoa (obrigatórios nestas coisas – já para não falar de Saramago, muito popular em Espanha) como de Herberto, Sophia, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral ou Lídia Jorge, como ainda nos mais jovens José Luís Peixoto, Gonçalo Tavares ou Valter Hugo Mãe. Eu própria estarei no Pavilhão de Portugal no dia 5 de Junho, às 18h30, para a apresentação de uma antologia da minha poesia em espanhol, traduzida pela poetisa Verónica Aranda (o convite partiu dela e eu não podia senão aceitar). Por isso, a partir de amanhã pode certamente acompanhar pelos meios de comunicação social a nossa presença junto de nuestros hermanos!

                                                 

25
Mai17

Latino e americano

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez por outra, há um jornalista que fala de América do Sul para se referir à América Latina, esquecendo-se, sem dar por isso, do grande México e de todos aqueles pequenos países do istmo que liga a América do Norte à América do Sul (Guatemala, Nicarágua, Belize, Costa Rica…), já para não falar de umas quantas ilhas (Cuba, Porto Rico e outras). Porém, no recente Festival Literário da Gardunha verifiquei que essa não é a única incorrecção praticada com regularidade quanto ao universo latino-americano. Quando falamos em literatura latino-americana ou literatura da América Latina, pensamos, regra geral, na literatura dos países que nos deram grandes escritores como García Márquez, Mario Vargas Llosa, Borges, Cortázar, Rulfo, Neruda, enfim, toda essa constelação de países que, embora muitíssimo diferentes uns dos outros, têm um denominador comum: grandes escritores que escrevem em espanhol (pronto, para os que vierem já a seguir corrigir, «castelhano»). Mas, como dizia no referido encontro o cronista, tradutor e activista brasileiro Eric Nepomuceno (tradutor premiadíssimo de grandes obras como Cem Anos de Solidão e uma pessoa com muito de interessante para contar), a literatura brasileira também é latina e também é americana – então porque é que nunca se mencionam livros de autores brasileiros quando se fala de literatura latino-americana? Tem razão, evidentemente. Ainda vamos a tempo de corrigir isto, não?

24
Mai17

A morte do artista

Maria do Rosário Pedreira

Somos muito parcos em revistas literárias (falo dos portugueses), mas há por aí uma revista novinha em folha que é mesmo A Morte do Artista (sim, este foi o título escolhido pela sua equipa). Foi lançada, segundo sei, na Biblioteca Camões, em Lisboa, naquele mesmo dia 13 em que houve inúmeros ataques informáticos e o Papa canonizou os pastorinhos, pelos seus «donos», quatro amigos que se juntaram para dar corpo a um sonho: Manuel Halpern, João Eduardo Ferreira, Fernanda Cunha e Firmino Bernardo – para lá do artista plástico, fotógrafo e videasta Paulo Romão Brás, responsável pelo grafismo da revista. Tal como a saudosa Ficções e como a mais recente Granta, esta nova publicação pretende ser um repositório de originais – e terá poesia, ficção, ensaio e ilustrações. Desta feita o autor em destaque é Mário de Carvalho, que tem neste número inaugural justamente uma ficção da sua autoria nunca antes publicada e um ensaio de Natália Constâncio sobre a sua obra (este não sei se inédito). Mas, tanto quanto julgo ter percebido, também aqueles autores desconhecidos que têm textos dispersos que não conseguem publicar, terão nesta revista uma possibilidade de os partilhar com o público. Parabéns aos artistas (e que vivam muito tempo).

 

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23
Mai17

De barriga cheia

Maria do Rosário Pedreira

Tenho vindo a reparar que, de há uns tempos para cá, as listas dos livros mais vendidos em Portugal têm sempre, nos primeiros lugares, livros de culinária (agora a vedeta é Marco Costa e o seu Receitas com Segredo – e temo dizer que não faço a mais pequena ideia de quem é Marco Costa, mas suponho que alguém vindo da TV, porque vende mesmo muitos livros!). Eu bem sei que nem sou o que se pode chamar um bom garfo, nem uma boa cozinheira (aliás, só cozinho mesmo quando tem de ser porque cozinhar me dá stress e, ainda por cima, o resultado é normalmente uma coisa sem piada); mesmo assim, acho que há claramente um exagero no número de livros e programas de TV dedicados à gastronomia em geral e à cozinha em particular nos dias de hoje: livros de receitas de famosos (Sá Pessoa, Avillez, Rui Paula, etc.), o que até seria mais ou menos esperado, mas também muitos outros de tias, primas, amigas e tipos giros de avental que gostam de cozinhar e põem toda a gente a dar-lhes atenção, já para não falar das receitas adequadas a quem quer emagrecer, ou é vegetariano, ou é alérgico à lactose, ao glúten e a outras coisas. Até o Manel foi fazer um dia destes um curso de cozinha para principiantes e já comprou mais uns livritos (embora ainda não tenha feito nada a partir deles, já me brindou com um excelente Bacalhau à Brás... ou Braz?). Alguém me explica este súbito interesse pela comida e os livros de receitas por parte de tanta gente?

22
Mai17

Viagens com livros

Maria do Rosário Pedreira

Quando viajo, seja de avião, seja de comboio, levo sempre um livro comigo. Agora, que as pessoas vivem agarradas ao telemóvel e algumas falam ao telefone ou recebem mensagens com apitos durante toda a viagem, é mais difícil ler no comboio do que no avião. Mesmo assim, há quem tenha decidido que vale a pena tentar aumentar os níveis de literacia e os hábitos de leitura dos portugueses disponibilizando, em algumas viagens do Alfa-Pendular, um livro para ler durante o percurso. Este estará, em princípio, pousado no assento quando o passageiro chega ao seu lugar; mas, se não estiver, pode ser pedido na carruagem-bar, onde há, pelos vistos, um bom número de exemplares de reserva. O lema deste programa é «viagens com livros» – e os livros, mesmo os de autores estrangeiros como Edgar Allen Poe, são facultados em tradução portuguesa. Curiosamente, a iniciativa está a cargo de uma instituição de crédito – a Cetelem – numa parceria com a CP e no âmbito da política de responsabilidade social da empresa. Por isso, se viajar nos comboios que vão de Lisboa a Braga (ou vice-versa) neste mês de Maio, terá um livro à sua espera. Desconheço se, finda a viagem, pode ficar com ele.

19
Mai17

Le temps des cerises

Maria do Rosário Pedreira

Quem gosta de cerejas procura sobretudo as de Resende ou então, mais fáceis de encontrar, as do Fundão (dizem que muitas vão direitinhas para a fábrica dos bombons Mon Chérimon cherry também soaria bem – mas ainda é possível encontrar muitas cerejinhas de qualidade nas frutarias portuguesas). E, neste tempo de cerejas, é mesmo para o Fundão que vou mais logo com o Manel e a minha amiga fadista Aldina Duarte, para participarmos no Festival Literário da Gardunha, que decorrerá durante todo o fim-de-semana. O festival inclui residências literárias e artísticas, uma feira do livro, exposições, teatro, música e actividades nas escolas. Além disso, o programa compreende vários lançamentos de livros e revistas literárias e uma série de mesas-redondas dedicadas ao tema da viagem (numa multiplicidade de sentidos), nas quais poderemos ouvir, entre outros, Carlos Mendes de Sousa, Lopito Feijó, Nelson Motta, Laborinho Lúcio, Manuel da Silva Ramos, Afonso Cruz ou Miguel Manso. Sábado à noite Cristina Branco vai cantar canções de Chico Buarque com o acompanhamento do trio de Mário Laginha e, no domingo de manhã, haverá uma caminhada poética de duas horas e meia (se quem caminha duas horas e meia vai dizer poemas, vamos ouvir certamente ofegar). Enfim, um bom programa de fim-de-semana, com muitas cerejas para a sobremesa. O pior vai ser voltar na segunda...

18
Mai17

Um novo romancista?

Maria do Rosário Pedreira

Há vários anos, ainda na Temas e Debates, publiquei, com o Círculo de Leitores, a biografia de Bill Clinton – My Life, no original – um verdadeiro tijolo com revelações extremamente interessantes, sobretudo na época (a edição mundial foi, creio eu, em 2005 e tivemos de correr muito para traduzir tudo e ter o livro pronto na data). Não me recordo de o ex-presidente ter uma escrita especialmente elegante – e fiquei agora surpreendida com a notícia de que, em breve, escreverá a sua primeira ficção: The President is Missing. Ao que sei, Clinton vai ter, porém, uma ajudinha do seu companheiro de golfe, nada mais nada menos do que o ultrapopular James Patterson, que colecciona best-sellers nos Estados Unidos, embora por cá ainda não tenha realmente vingado. Intriga, suspense e drama nos corredores do poder é o que promete esta dupla, que também já explicou que o thriller anda à roda da Casa Branca, lugar de que Bill Clinton tem um conhecimento privilegiado, o que fará deste romance muito provavelmente um dos mais «informados» sobre a matéria. Poder-se-ia pensar que Clinton teve a ideia e que a sugeriu ao amigo escritor (os dois ganhariam com o livro a meias, penso eu), mas a verdade é que a ideia partiu de uma terceira pessoa. Quem? O advogado de ambos… Está-se mesmo a ver o que não vai o senhor doutor ganhar com isso.

17
Mai17

Pimenta na língua

Maria do Rosário Pedreira

Não, não se trata de dizer asneiras… Pelo contrário, de falar muito a sério. Todos sabemos que hoje, no mundo inteiro, o inglês é a língua de comunicação por excelência entre pessoas de diferentes nacionalidades e que, em Portugal, até já há muita gente que a utiliza no meio de palavras da sua língua (sexy, input, top model, online, designer, fitness… ui, são tantas!), alegando que os vocábulos ingleses exprimem melhor o que querem dizer do que os seus correspondentes nacionais. O inglês instalou-se por causa das músicas, dos filmes, das séries – e, talvez, grosso modo, por causa do tamanho e da importância da América nas nossas vidas (foi por isso que a eleição de Trump foi tão falada por cá). Mas o senhor Jean-Claude Juncker, ao discursar para um grupo de diplomatas em Florença, nas vésperas das eleições francesas, sobre as negociações que o Brexit implica, disse não ter quaisquer dúvidas de que a língua inglesa vai perder importância na Europa (mesmo que isso vá acontecer lentamente) – e disse-o em inglês, para Theresa May ouvir lá na terra dela, passando imediatamente ao francês, quiçá para avisar os Gauleses que tivessem tino ao votar e não escolhessem ninguém que se lembrasse de referendar a saída da França da União Europeia. Pois, calculo que Juncker esteja chateado com os ingleses e queira pôr pimenta na língua do Reino Unido, falando tão pouco inglês quanto possível; mas não sei se tem razão ao dizer que a língua inglesa vai perder peso na Europa. Será?... É que as séries, os filmes, as músicas... continuarão, acho eu, a ser maioritariamente em inglês. E isso, creio, faz toda a diferença.

16
Mai17

Exercício sobre o futuro

Maria do Rosário Pedreira

Nuno Gomes Garcia, que há uns anos foi finalista do Prémio LeYa com um romance que acompanhava as aventuras de Pêro da Covilhã até às terras do Preste João (O Dia em que o Sol Se Apagou), vira-se desta feita para um tempo em que a sociedade está desumanizada desde que uma certa Marine terá alcançado o poder, transformando a França numa nação totalitária, mecânica, fria e demasiado padronizada. São as mulheres agora «donas» dos homens, reduzidos à condição de escravos – machos domesticados que, vivendo no medo e na ignorância, lavam, cozinham, obedecem, calam, saem à rua cobertos da cabeça aos pés pelos seus cache-tout (metáfora muito conseguida das burkas). Neste cenário, a cidadã Francine Bonne é aconselhada pelas autoridades a escolher um segundo marido, depois de Pierre ter sido considerado um peso morto; mas desconhece que, ao trazer para casa um macho que foge ao cânone e cuja origem está envolta em mistério, a sua vida e a de Pierre sofrerão uma absoluta transformação, a ponto de o regime se sentir abalado com a possibilidade de um suposto retrocesso civilizacional… Amores proibidos, subversão, crime, reeducação coerciva – tudo se combina magnificamente neste romance a um tempo sensual e cerebral: uma distopia à maneira de 1984, de George Orwell, que reflecte de forma lúcida e desafiante sobre as problemáticas que caracterizam a sociedade actual. Acaba de sair.

 

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15
Mai17

Críticos e escritores

Maria do Rosário Pedreira

Aconteceu em Espanha, mas vale a pena reter em qualquer lado. Um escritor viu um romance seu duramente criticado num jornal. Num texto curto, o crítico aproveitava mesmo assim mais de metade do espaço para dizer que o facto de a crítica ter vindo a perder prestígio fez com que o mercado ganhasse poder e muitos autores, para satisfazerem as exigências comerciais das editoras, entregassem produtos de qualidade duvidosa. Comentava o escritor atingido que a crítica tem, obviamente, razões para se queixar: recebe cada vez menos dinheiro e tem cada vez menos espaço (até porque aumentou o número de blogues literários, alguns mais lidos do que os suplementos dos jornais); mas contestava a afirmação de que, sem a vigilância da crítica, os escritores se tivessem tornado escravos do mercado, como se os críticos estivessem numa espécie de intocável Olimpo e não fizessem parte desse mesmíssimo mercado. É sabido que a imprensa actual tem tantos ou mais constrangimentos do que os escritores e que, especialmente em Espanha, há grandes grupos que detêm editoras e jornais e que, por isso, alguns jornais nunca criticam negativamente livros de autores publicados por chancelas do seu grupo… Além disso, diz o escritor, sempre houve livros bons e maus, independentemente do prestígio da crítica, tal como sempre houve bons e maus críticos, independentemente de os livros terem ou não qualidade. Curiosamente, ele não contesta o que o crítico diz sobre o seu livro (subtil e inteligente), mas apenas a sua arrogância, a sua superioridade moral, ao suspeitar dos escritores sem pensar por um segundo que os críticos estarão sob a mesmíssima suspeita. Porém, o mais interessante é quando, no final, reivindica um espaço de diálogo para críticos e escritores, uma vez que a relação é desigual: os críticos têm poder sobre a recepção e a aceitação da obra de um escritor, enquanto os escritores não o têm sobre o que os críticos escrevem. E conclui: emitir juízos de valor de cima de um pedestal não é útil nem para o leitor nem para a literatura – e talvez essa seja também uma das razões por que a crítica tem vindo a perder prestígio. Muito interessante.

 

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