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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Mai17

Pimenta na língua

Maria do Rosário Pedreira

Não, não se trata de dizer asneiras… Pelo contrário, de falar muito a sério. Todos sabemos que hoje, no mundo inteiro, o inglês é a língua de comunicação por excelência entre pessoas de diferentes nacionalidades e que, em Portugal, até já há muita gente que a utiliza no meio de palavras da sua língua (sexy, input, top model, online, designer, fitness… ui, são tantas!), alegando que os vocábulos ingleses exprimem melhor o que querem dizer do que os seus correspondentes nacionais. O inglês instalou-se por causa das músicas, dos filmes, das séries – e, talvez, grosso modo, por causa do tamanho e da importância da América nas nossas vidas (foi por isso que a eleição de Trump foi tão falada por cá). Mas o senhor Jean-Claude Juncker, ao discursar para um grupo de diplomatas em Florença, nas vésperas das eleições francesas, sobre as negociações que o Brexit implica, disse não ter quaisquer dúvidas de que a língua inglesa vai perder importância na Europa (mesmo que isso vá acontecer lentamente) – e disse-o em inglês, para Theresa May ouvir lá na terra dela, passando imediatamente ao francês, quiçá para avisar os Gauleses que tivessem tino ao votar e não escolhessem ninguém que se lembrasse de referendar a saída da França da União Europeia. Pois, calculo que Juncker esteja chateado com os ingleses e queira pôr pimenta na língua do Reino Unido, falando tão pouco inglês quanto possível; mas não sei se tem razão ao dizer que a língua inglesa vai perder peso na Europa. Será?... É que as séries, os filmes, as músicas... continuarão, acho eu, a ser maioritariamente em inglês. E isso, creio, faz toda a diferença.

16
Mai17

Exercício sobre o futuro

Maria do Rosário Pedreira

Nuno Gomes Garcia, que há uns anos foi finalista do Prémio LeYa com um romance que acompanhava as aventuras de Pêro da Covilhã até às terras do Preste João (O Dia em que o Sol Se Apagou), vira-se desta feita para um tempo em que a sociedade está desumanizada desde que uma certa Marine terá alcançado o poder, transformando a França numa nação totalitária, mecânica, fria e demasiado padronizada. São as mulheres agora «donas» dos homens, reduzidos à condição de escravos – machos domesticados que, vivendo no medo e na ignorância, lavam, cozinham, obedecem, calam, saem à rua cobertos da cabeça aos pés pelos seus cache-tout (metáfora muito conseguida das burkas). Neste cenário, a cidadã Francine Bonne é aconselhada pelas autoridades a escolher um segundo marido, depois de Pierre ter sido considerado um peso morto; mas desconhece que, ao trazer para casa um macho que foge ao cânone e cuja origem está envolta em mistério, a sua vida e a de Pierre sofrerão uma absoluta transformação, a ponto de o regime se sentir abalado com a possibilidade de um suposto retrocesso civilizacional… Amores proibidos, subversão, crime, reeducação coerciva – tudo se combina magnificamente neste romance a um tempo sensual e cerebral: uma distopia à maneira de 1984, de George Orwell, que reflecte de forma lúcida e desafiante sobre as problemáticas que caracterizam a sociedade actual. Acaba de sair.

 

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15
Mai17

Críticos e escritores

Maria do Rosário Pedreira

Aconteceu em Espanha, mas vale a pena reter em qualquer lado. Um escritor viu um romance seu duramente criticado num jornal. Num texto curto, o crítico aproveitava mesmo assim mais de metade do espaço para dizer que o facto de a crítica ter vindo a perder prestígio fez com que o mercado ganhasse poder e muitos autores, para satisfazerem as exigências comerciais das editoras, entregassem produtos de qualidade duvidosa. Comentava o escritor atingido que a crítica tem, obviamente, razões para se queixar: recebe cada vez menos dinheiro e tem cada vez menos espaço (até porque aumentou o número de blogues literários, alguns mais lidos do que os suplementos dos jornais); mas contestava a afirmação de que, sem a vigilância da crítica, os escritores se tivessem tornado escravos do mercado, como se os críticos estivessem numa espécie de intocável Olimpo e não fizessem parte desse mesmíssimo mercado. É sabido que a imprensa actual tem tantos ou mais constrangimentos do que os escritores e que, especialmente em Espanha, há grandes grupos que detêm editoras e jornais e que, por isso, alguns jornais nunca criticam negativamente livros de autores publicados por chancelas do seu grupo… Além disso, diz o escritor, sempre houve livros bons e maus, independentemente do prestígio da crítica, tal como sempre houve bons e maus críticos, independentemente de os livros terem ou não qualidade. Curiosamente, ele não contesta o que o crítico diz sobre o seu livro (subtil e inteligente), mas apenas a sua arrogância, a sua superioridade moral, ao suspeitar dos escritores sem pensar por um segundo que os críticos estarão sob a mesmíssima suspeita. Porém, o mais interessante é quando, no final, reivindica um espaço de diálogo para críticos e escritores, uma vez que a relação é desigual: os críticos têm poder sobre a recepção e a aceitação da obra de um escritor, enquanto os escritores não o têm sobre o que os críticos escrevem. E conclui: emitir juízos de valor de cima de um pedestal não é útil nem para o leitor nem para a literatura – e talvez essa seja também uma das razões por que a crítica tem vindo a perder prestígio. Muito interessante.

 

12
Mai17

Os trabalhos dos escritores

Maria do Rosário Pedreira

Hoje, nos países que têm um mercado considerável na área do livro (não o nosso, infelizmente, que ainda é uma ervilha), o ofício de escrever já é visto como qualquer outro; em certos territórios, como os EUA, é inclusivamente muito bem pago (os autores que foram destacados na revista Granta de que aqui falei anteontem, por exemplo, devem receber adiantamentos milionários das editoras que os publicam). Nesses lugares, quase todos os autores de ficção vivem exclusivamente do que escrevem (e vivem bem); mas nem sempre foi assim e, no dia 1 de Maio, por ser Dia do Trabalhador, li num jornal espanhol um artigo muito interessante sobre os trabalhos que alguns escritores hoje conceituados tiveram de fazer para sobreviver e pagar a renda de casa quando estavam a começar. Juan Marsé, por exemplo, trabalhou desde muito jovem como ourives (e diz que isso o ajudou a ter atenção ao detalhe nas suas narrativas), enquanto Vargas Llosa foi, entre outras coisas, escritor-fantasma de novelas para uma senhora endinheirada (o que lhe terá servido certamente de inspiração para as radionovelas que aparecem em A Tia Júlia e o Escrevedor). Kafka, como se sabe, vendia seguros; Borges era bibliotecário (mas não me parece que tenha sido por precisar de dinheiro); Jack London foi caçador de baleias no Árctico; Colette trabalhou como cabeleireira e George Orwell saiu da Birmânia (onde era polícia) para ir lavar pratos em Londres. Bolaño vendeu quinquilharia e lâmpadas no México e Charles Bukowski foi carteiro durante muitos anos. Enfim, trabalhos que, pelos vistos, não prejudicaram o ofício de escritor.

11
Mai17

Inspirações

Maria do Rosário Pedreira

Podemos aprender a gostar de poesia com poetas assim-assim, e não com os melhores; e podemos acordar para o desejo de nos tornarmos escritores por termos lido determinado livro que não tem necessariamente de ser uma obra-prima (se calhar, as obras-primas são tão perfeitas que nos inibiriam de experimentar). Li recentemente um artigo engraçado sobre os livros que fizeram com que alguns escritores hoje conhecidos quisessem começar a escrever. E, desde logo, achei curioso que um autor como Jay McInerney (As Mil Luzes de Nova Iorque) tivesse sido inspirado sobretudo pelos poemas de Dylan Thomas (é que nada o faria prever). Rachel Kushner parece mais consistente quando diz que foi Cormac McCarthy quem a inspirou, bem como a mais leve Jodi Picoult, que parece ter sido despertada para a escrita por E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell. Já a sul-africana Nadine Gordimer (Prémio Nobel da Literatura em 1991) admite que foi Evelyn Waugh (o autor de Reviver o Passado em Brideshead) quem a fez querer ser escritora, enquanto Richard Ford aponta Faulkner como o autor que o levou à ficção. Desconheço se todos os escritores sabem o livro ou o autor exacto que os fez, passe a redundância, escritores, mas eu acho que comecei a gostar de escrever poesia por causa de João de Deus.

10
Mai17

Os mais talentosos da América

Maria do Rosário Pedreira

De dez em dez anos, a famosa revista Granta publica um número especial, dedicado aos jovens escritores (jovens quer dizer com menos de 40 anos) mais talentosos dos EUA. São geralmente nomes a que devemos prestar atenção, pois a maioria acaba mesmo por vingar num mercado que é imenso – e grande parte consegue traduções em várias línguas. Há dez anos, por exemplo, estava nessa lista um autor que fez as minhas delícias – Jonathan Safran Foer, de quem publiquei um notável romance intitulado Está Tudo Iluminado na Temas e Debates e que, uns anos mais tarde, pariria Extremamente Alto e Incrivelmente Perto (hoje na Quetzal), de que se devem lembrar porque deu origem a um filme que, se não me engano, foi aos Óscares. A lista deste ano inclui alguns autores que têm saído na Teorema pela mão da minha colega Carmen Serrano (a quem tiro o chapéu pelo feeling): Ben Lerner (já falei aqui do livro 10:04), Anthony Marra (O Czar do Amor e do Tecno) ou Garth Risk Hallberg (o autor de A Cidade em Chamas, muito comentado em todo o lado). Mas há mais nomes, como os de Ottessa Moshfegh, que integrou a shortlist do Booker Prize de 2016 com o romance Eileen, ou Rachel B. Glaser, Chinelo Okparanta, Sana Krasikov, Claire Vaye Watkins, embora ainda cá não estejam traduzidos. O número da Granta que conta tudo saiu no dia 4 de Maio. Em inglês, claro.

09
Mai17

Mentiras

Maria do Rosário Pedreira

Talvez mentir seja uma coisa a que ninguém escapa, pelo menos durante a infância, para evitar um castigo. Eu, que não gosto nada de mentiras, também já terei pregado algumas petas, sobretudo para fugir a reuniões indesejadas (sociais e profissionais). Quando cheguei à edição, quase «de fraldas», alguém me disse que devia estar preparada para as mentiras que a gente do meio contava sobre o que tinha lido (mas que, afinal, não tinha lido). E houve até quem sugerisse que, quando eu estivesse desconfiada de que determinada pessoa não tinha lido um livro que fingia ter lido, lhe falasse da cena do cão para ver o que dizia, pois raramente há cão – e aí se apanharia facilmente o mentiroso... Pois bem, leio agora no The Guardian que mentir sobre o que (não) se leu é, efectivamente, prática corrente (e não exclusivamente de editores e escritores); e que – calculem – até existe há vários anos um Top dos livros que as pessoas dizem ter lido, mas não leram, actualizado com regularidade. Curiosa, fui espreitar. Pensava que se tratasse de Proust, Joyce, Tolstoi ou mesmo a Bíblia, mas fiquei altamente surpreendida ao perceber que as leituras sobre as quais mais se mente são de obras como O Senhor dos Anéis, O Código Da Vinci ou a série James Bond, de Ian Fleming... Não vou mentir-vos: a verdade é que não li nenhum dos três, mas não tenho qualquer vergonha de o confessar. No Reino Unido, porém, não ter lido os livros que serviram de base a filmes de sucesso deve parecer quase pecado. Ou será, no fundo, que os tempos estão mesmo a mudar e a exigência baixou drasticamente?

08
Mai17

A oeste

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã começa mais um festival Livros a Oeste, organizado pela Câmara Municipal da Lourinhã (é a sexta edição!), cuja programação é desde o início traçada pelo crítico e jornalista João Morales (também responsável pela rubrica Recordar os Esquecidos, de que já aqui falei, na Livraria Almedina, em Lisboa). Além de uma feira do livro, como é costume, haverá actividades ligadas às escolas (concursos literários, conversas com autores, peças de teatro) e outras abertas ao público, que poderá assistir a mesas-redondas, tertúlias, leituras de poesia e apresentações de livros até ao dia 13, destacando-se a sessão em torno da última edição de O Canto e as Armas, de Manuel Alegre, comemorando o cinquentenário da publicação, com a presença do autor. O festival inclui ainda exposições – uma da ilustradora Tânia Clímaco, outra, feita por alunos de um agrupamento de escolas, de microcontos e microlivros (deve ser micro-engraçada!), outra feita por professores. No último dia à noite, para um fecho em beleza, haverá um concerto de Sérgio Godinho. Cristina Norton, Miguel Real, Rui Zink e Fernando Pinto do Amaral estão entre os escritores convidados. Mais informações no blogue do festival:

 

http://livrosaoestefestival.blogspot.pt/

05
Mai17

À conversa

Maria do Rosário Pedreira

Dizem muitos escritores que os computadores foram uma invenção de estalo que lhes facilitou enormemente a vida, pois a mão nem sempre consegue acompanhar a velocidade a que pensam (claro que há quem prefira ainda escrever à mão e só depois passar ao computador, mas é uma minoria). O arquitecto Siza Vieira, porém, afirma que pensa a desenhar e que «há uma ligação entre mão e mente muito estreita». Mesmo depois de receber todos os prémios que podiam orgulhar alguém da sua profissão – o Pritzker, o RIBA, o Mies van der Rohe… – continua a achar que os prémios são menos importantes do que a arquitectura que se deixa – e Siza deixa muita coisa, cá e no estrangeiro, porque, embora tenha querido ser escultor, tornou-se um dos mais famosos arquitectos do mundo. É sobre a sua vida, de resto, que vai falar no próximo dia 7, às 17h00, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, no âmbito das conversas (Quase) Toda Uma Vida, dedicadas a seniores e moderadas por Anabela Mota Ribeiro, que ali acontecem uma vez por mês. Tenho também curiosidade sobre o que lê, pode ser que fale nisso.

 

P.S. Infelizmente, fiz este post antes de ir de férias e a conversa, pelos vistos, não vai acontecer neste dia. Mas, como verão abaixo, o substituto é de peso...

 

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04
Mai17

Ver passar comboios

Maria do Rosário Pedreira

Um dos amigos que ganhei com o casamento é um engenheiro que se especializou em transportes e que sabe absolutamente tudo o que há para saber sobre comboios (alta velocidade, ramais, construção, linhas desactivadas, percursos, acidentes, etc.). É fascinante, de resto, ouvi-lo falar do assunto e aprender tanta coisa que nunca me tinha sequer passado pela cabeça. Os comboios atraem muita gente e há um certo romantismo em redor das longas viagens ferroviárias – o Expresso do Oriente, o Transiberiano – mas também um lado trágico por detrás da construção dos caminhos-de-ferro, sobretudo em territórios com condições climáticas extremas (em alguns lugares, as mortes foram numerosas). Raramente, porém, se fala dos profissionais que dedicam a vida aos comboios – e agora o jornalista Carlos Cipriano, mediante entrevistas e recolha de testemunhos, resolveu fazer, em Guardas de Passagem de Nível, o retrato de quem está na base da pirâmide: heroínas anónimas que, longe de ver apenas passar os comboios, vivem à beira da linha, em lugares tantas vezes inóspitos aonde a tecnologia ainda não chegou, e garantem que «a composição» pode seguir e que os transportes rodoviários e os peões não atravessam a passagem de nível. Para quem goste de comboios, como eu, é para espreitar. O livro é publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.