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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Mai17

Livros saídos da casca

Maria do Rosário Pedreira

Diz a sabedoria popular que, quando Maomé não vai à montanha, vem a montanha a Maomé. É mais ou menos este o princípio que rege uma iniciativa da Biblioteca Municipal de Aveiro que consiste em fazer com que os livros vão ter com os leitores, já que eles, se calhar, não se lembrariam de ir à biblioteca buscá-los ou sentar-se por lá a lê-los. O nome do projecto é «Saio da estante e vou ter contigo num instante», frase bem achada e com laivos de musicalidade; e, pelo que sei, implica que três funcionários da biblioteca (entre os quais, a mentora da ideia, Jeanete Conceição) percorram as ruas do Bairro da Beira Mar duas vezes por semana e se aventurem na conquista de novos leitores com um trolley carregadinho de livros, revistas e CD. A acção foi precedida de um inquérito porta a porta, que permitiu saber quem eram os interessados – sobretudo os mais velhos, que já pouco saem – em receber em sua casa estes materiais, mas rapidamente se estendeu a muitos «vizinhos», que não só parecem apreciar o que estes funcionários lhes levam, mas também os dois dedos de conversa que com eles podem trocar. Todas as terças e quintas há distribuição – excepto se chover; mas, agora que o Verão vem aí, não há-de haver muitas «folgas».

02
Mai17

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Interesso-me, naturalmente, pelo que produzem alguns escritores que começaram a publicar já neste século XXI – e não passei, por isso, ao lado do romance de estreia de Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas, de que falei aqui no blogue na altura em que saiu e que, mais tarde, ganharia o Prémio Literário José Saramago, entre outros. Mas, sendo esse um livro bastante peculiar, com uma longuíssima lista de personagens que, frequentemente, não chegam a cruzar-se, era muito difícil saber o que o autor faria a seguir, sobretudo em termos de estrutura. O que ando a ler é justamente o seu segundo romance, Hoje Estarás Comigo no Paraíso, recentemente publicado pela Quetzal. E é um livro muito diferente (o que são boas notícias), mais articulado, de grande maturidade (literária e não só), que poderia claramente ter sido escrito por alguém mais velho, dada a ampla reflexão sobre uma panóplia de assuntos e a cultura que habita o texto sem nunca se exibir. Partindo da história real do assassínio de um primo do próprio autor aos vinte e um anos – morte violenta –, o romance é, a um tempo, a investigação sobre os factos e as suas razões e uma permanente revisitação da vida familiar e social do narrador, com páginas belíssimas (e também tristíssimas) sobre a infância e figuras inesquecíveis, como, de resto, já se encontravam na obra anterior. A ler, evidentemente.

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