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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Jun17

Envelhecer

Maria do Rosário Pedreira

O País enfrenta um problema grave: a falta de natalidade aliada ao envelhecimento de cada vez mais pessoas. Seja Feita a Tua Vontade é, por isso, um livro extremamente actual. Conta a história de um médico octogenário que decide que não quer continuar a viver. Metódico e informado, prepara a sua morte: ocupa um quarto da casa, comunica à família as suas intenções e deixa, pura e simplesmente, de se alimentar. Apesar do choque inicial que a notícia provoca, um dos netos resolve ajudá-lo a cumprir esta sua última vontade. Visita-o diariamente, e as horas que passam juntos a rememorar o passado e a conversar sobre os tempos que se aproximam constituem uma terna despedida, uma espécie de luto pacificado. Mas eis que, numa reviravolta completamente inesperada, o médico acorda um dia com uma súbita vontade de viver… E essa atitude intempestiva, em lugar de representar um alívio, abala a já conquistada serenidade, dando lugar a uma convulsão em que mesmo o afecto é posto em causa. Num momento em que a eutanásia e a qualidade de vida dos mais velhos estão na ordem do dia, Paulo M. Morais constrói neste romance, que foi finalista do Prémio LeYa, uma narrativa fulgurante que nos leva a pensar como a família – e a sociedade – se deve estruturar para lidar com a morte próxima de um dos seus elementos. A ler, pois claro.

 

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14
Jun17

Livros e raparigas

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes, em conversa com a mulher de um jornalista, escritor e (grande) tradutor brasileiro, falávamos de Os Desastres de Sofia e da famosa colecção Biblioteca das Raparigas que todas as pessoas da nossa idade liam (no Brasil, não se devia chamar das Raparigas, claro, mas das Moças). No entanto, o título deste post tem pouco que ver com isso... Refere-se, antes de tudo, a raparigas que gostam de ler e que não se importaram de ser fotografadas com um dos seus livros favoritos ou aquele que mais as marcou. Foi, de resto, pelo blogue de uma delas – o Planetamarcia, da Márcia – que soube da iniciativa do fotógrafo Mário Pires. Ele propôs-se retratar nada mais nada menos do que 98 raparigas que amam os livros e agora o resultado desse trabalho, que nasceu de um blogue, é uma exposição chamada Book Loving Girls que pode ser vista na FNAC de Cascais desde o dia 5 de Junho. Junto das fotografias, um texto da autoria das fotografadas justifica a escolha do livro que seguram nas mãos. E Mário Pires, que esteve a fotografar seis anos, diz que os livros têm um poder transformador e que isso é bem visível nas fotografias. De Sophia de Mello Breyner a Paul Auster, de Vargas Llosa a Clarice Lispector, de Lídia Jorge a V. S. Naipaul, de Agustina a José Mauro de Vasconcelos, as nossas raparigas lêem mesmo de tudo. Basta ver no link abaixo.

 

http://booklovingirls.tumblr.com/

 

12
Jun17

Epitáfios

Maria do Rosário Pedreira

Perguntam por vezes aos famosos o que gostariam de ver escrito nos seus túmulos – e há respostas bem divertidas, tendo em conta que estar morto deve ser mesmo muito chato. E hoje, que estava com falta de imaginação, vou aproveitar-me descaradamente de algumas lápides que alguém partilhou um dia destes no Facebook e reproduzir o que tinham escrito: «Aqui jaz a minha esposa (nome)... fria como sempre.» (Sinceridade acima de tudo.) «Eu bem vos disse que o médico não valia nada.» (Não sei se a família se arrependeu, mas a acusação sobrevive ao morto.) «Um amigo e eu apostámos quem conseguia estar mais tempo debaixo de água. E eu ganhei.» (Não lhe serviu de grande coisa, diria eu). «Agora você está com o Senhor. Senhor, cuidado com a carteira.» Por último, um túmulo apenas com as datas de nascimento e morte que diz: «Finalmente.» (Podia ser um marido insuportável e violento, nunca saberemos.)  Enfim, há gente para tudo, mortos incluídos. Pode ser um exercício engraçado pensarmos no que gostaríamos de ver escrito na nossa lápide. Eu, mesmo assim, prefiro ser cremada.

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09
Jun17

Outra maneira de comprar livros

Maria do Rosário Pedreira

A grande Amazon já não é apenas uma livraria online – e há pouco tempo abriu a sua primeira loja física em Nova Iorque, planeando abrir mais uma dúzia até final do ano. Ou seja, em lugar de ir ao site da livraria, um cliente da Amazon pode entrar agora nessa loja e comprar livros usando os muitos computadores-tablets da própria loja. Há, porém, quem ache que este sistema tira todo o prazer a um comprador de livros habituado às livrarias: ver livros ao vivo, folheá-los, encaixá-los no lugar da estante donde os tirou para cheirar, espreitar capas, trocar opiniões com os funcionários ou as pessoas que vêm com ele. É que, na loja da Amazon, os livros, aparentemente, não estarão lá para isso; só haverá, na verdade, exemplares dos maiores êxitos de vendas. Existirão ecrãs por todo o lado para os mostrar, serão ouvidos slogans e frases sobre esses best sellers, e a ideia-base é que as pessoas estarão obviamente! interessadas em comprar os livros que a Amazon mais vende online e irão lá só para saber quais são. Ainda por cima, o preço dos livros na loja é mais caro do que no site se não se for já um «Prime member» da Amazon, o que leva a crer que estas livrarias físicas sirvam também para fidelizar pessoas a essa espécie de clube. Sob os títulos expostos (poucos, parece-me), mostra-se a percentagem de leitores que lhes atribuiu a pontuação máxima, mas o autor parece a coisa menos importante de todas. Segundo leio, é tudo bastante desumanizado – ninguém na loja que possa, por exemplo, tirar uma dúvida ou aconselhar um título. Dizem que isto arruma todo o prazer que se tem de comprar livros.

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08
Jun17

Exclamar!

Maria do Rosário Pedreira

Confesso que embirro bastante com pontos de exclamação, mais ainda se forem constantes. Uma frase precisa, por vezes, de ser exclamativa, mas uma narrativa coberta de pontos de exclamação faz-me sempre pensar num diário adolescente («Estou tão triste! Ninguém gosta de mim! Os meus pais não me compreendem!»). Leio um artigo sobre a matéria, no Atlantic Daily, no qual nos dizem quantos pontos de exclamação usaram grandes escritores ao longo da sua carreira. Elmore Leonard, nas suas 10 Regras para Escrever, aconselha a não usar mais de dois ou três por cada 100 000 palavras; porém, nos seus mais de 40 romances, que totalizam 3,4 milhões de palavras, deveria ter usado apenas 102, mas parece que usou mais de 1600... Mesmo assim, a sua média é muito baixa: 49 pontos de exclamação em cada 100 000 palavras; Joyce, com apenas três romances, conseguiu uma média de 1105, Fitzgerald de 356, Hemingway de 59, Salman Rushdie de 204, Virginia Woolf de 258, Jane Austen de 449. Nenhum destes escritores é conhecido por ser especialmente exclamativo, e porém... Espero que ninguém se lembre de contabilizar os pontos de exclamação de Shakespeare – ou a regra de Leonard cairá por terra, obrigando-me também a rever a minha embirração.

07
Jun17

Estupefacção

Maria do Rosário Pedreira

Vendo a história como ma venderam a mim – e tomara que não seja verdade. Foi um bibliotecário que ma contou e fiquei, no mínimo, estupefacta. Todos os que lêem este blogue sabem que existem editoras que ganham dinheiro com livros pelos quais provavelmente nem passam os olhos, livros que os autores pagam para serem publicados (mediante a compra de um determinado número de exemplares que cobrem os custos de produção – e tudo o que se venda a mais é lucro puro e duro). Esse bibliotecário tem uma velha amiga, cujo filho – um jovem ainda – escreveu um livro; um livro que foi publicado nestes moldes. Houve um lançamento na terra do rapaz para amigos e familiares; e, sendo amigo da mãe, o bibliotecário lá estava. Mas fez a «asneira» de folhear o livro e encontrou não só gralhas, mas erros ortográficos. Estando presente um representante da editora, não resistiu a dizer-lho, ao que ele respondeu simplesmente que o jovem tinha dispensado o serviço de revisão, pois custava mais cerca de 80 cêntimos por página. Estupefacção completa. Este livro está por aí à venda nas livrarias e pode ser comprado por qualquer pessoa. Pode até ser comprado por gente que não domina a sua língua e vai ficar a pensar que algumas palavras que sempre escreveu de determinada maneira se escrevem, afinal, de outra. Para mim, que passo os livros que publico a pente fino – e, mesmo assim, quantas vezes me penalizo com qualquer coisa que inadvertidamente deixei passar – isto chocou-me. Não me vou pronunciar sobre o negócio que vive à custa do ego alheio (se calhar, a cosmética e as curas de emagrecimento também), mas pôr à venda um livro crivado de erros é uma desfaçatez e uma falta de respeito pelo autor e por todos os leitores.

 

P.S. Não me perguntem por Madrid. Não fui. Uma tristeza. Febre e dores em vez de alegria e livros. Enfim, melhores dias virão.

 

02
Jun17

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Pronto, agora é a sério... Ontem disse que estava a reler um romance de Han Kang – e é verdade –, mas também preciso de ler alguma coisa musical para ir intercalando com a prosa da sul-coreana que, neste novo livro, dá vários nós no peito, na garganta e no estômago, mesmo à segunda vez (é que agora já a estou a ler na nossa língua e isso muda tudo). E nada melhor do que o luminoso Vinicius de Moraes para encher o coração de coisas boas. Falo de uma das grandes ideias que a Companhia das Letras teve nos últimos tempos, a de publicar em Portugal o Livro de Letras do poeta brasileiro, que inclui tudo aquilo que cantamos de cor enquanto lemos, relembrando as músicas que nos afeiçoaram a essas palavras (de Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, Pixinguinha) e as vozes que no-las trouxeram (Elizeth Cardoso, Chico Buarque, Maria Creuza, Odete Lara, Amália Rodrigues, além, claro, da do próprio Vinicius, que ora cantava, ora recitava, e era sempre um show). O volume, imperdível, inclui ainda um artigo de Alexandre O’Neill sobre um concerto que Vinicius deu em Lisboa em 1969, um ensaio bastante extenso do crítico José Castello e ainda outro, mais curto, de Eucanaã Ferraz, o poeta que organizou a poesia completa de Vinicius de Moraes. Coisa para me acompanhar “por toda a minha vida”.

 

P.S. Nos próximos dias 5 e 6, não haverá post, vou a Madrid para a Feira do Livro dedicada a Portugal e a sessão de lançamento do meu livro em castelhano. Até dia 7!

01
Jun17

O que... vou ler

Maria do Rosário Pedreira

Bem sei que hoje era dia de escrever sobre o que ando a ler (na verdade, releio o romance de Han Kang que há de sair daqui no Verão porque a autora virá em princípio a Portugal em Setembro – mas temos tempo, falarei dele quando estiver nas livrarias). No entanto, há um assunto que se impõe: a Feira do Livro de Lisboa, claro, que abre hoje! É nela que comprarei certamente o que andarei a ler a partir de meados do mês, por isso, acho que estou perdoada por quebrar a rotina. A Feira é, para mim, um dos pontos altos do ano, em que consigo encontrar escritores que não vejo habitualmente e sentar-me com os meus, aqueles que publico, para umas horinhas de conversa entre autógrafos. E, mesmo que ela pareça mudar pouco ao longo dos anos, a verdade é que a Feira tem sempre novidades. Este ano, faz-se simpática e acolhedora para cães e bebés, por exemplo, pois passa a ter um fraldário à disposição, bem como um lugar denominado Refrescão para os animais de quatro patas, que ainda não leem, mas podem parar ali para  beber água enquanto acompanham os donos ao longo de um passeio pelos pavilhões - que serão mais de 280 desta vez, o que quer dizer que haverá mesmo muito por onde escolher na hora de comprar, sobretudo a preço baixo, porque essa invenção da Hora H se vai, felizmente manter. Nos tempos mais próximos, andarei por lá, especialmente ao fim-de-semana, entre outras coisas, a comprar livros. Aproveite também para o fazer até dia 18, que o tempo foge e os livros estão à espera.

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