Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Jul17

Personagens de férias

Maria do Rosário Pedreira

Vêm aí as férias e as minhas começam já amanhã. Ao contrário do que é costume, interrompo-as a meio do mês e venho trabalhar semana e meia para voltar a partir dia 25 rumo aos Açores, onde se casa um sobrinho meu e ficarei até dia 3. Do blogue estarei ausente até dia 4 de Setembro (preciso de tempo para ler e passar um mês inteirinho sem compromissos para além dos estritamente necessários). Mas, antes de me ir embora, deixo-vos aqui os títulos de alguns livros nos quais os protagonistas estão de férias e que podem ler no Verão. Para começar, Um Quarto com Vista, de E. M. Foster, em que uma inglesa passa férias em Florença. Depois, claro, Morte em Veneza, de Thomas Mann (e também podem ver o sublime filme de Visconti com um Gustav von Aschenbach decadente na pele de Dirk Bogarde). Um bom policial será Um Crime no Expresso do Oriente, de Agatha Christie, no qual o pobre Poirot percebe que nunca deveria ter ido de férias… Lembro-me ainda de A Ilha, de Sándor Marai, com um professor de férias num hotel repleto de famílias barulhentas, ou O Aquista, de Hermann Hesse, durante uma estadia nas termas de Baden. Hilariante, o romance de David Lodge intitulado Notícias do Paraíso, um gozo às férias organizadas pelas agências de viagens nos supostos locais paradisíacos (mas que nem sempre são o que parecem). E pronto, boas férias a todos: descansem, aproveitem, leiam!

27
Jul17

O senhor do Olimpo

Maria do Rosário Pedreira

Um colega passou-me uma entrevista bastante interessante concedida ao jornal espanhol El País por Antoine Gallimard, o senhor que manda na editora que leva o seu apelido e que, fundada há mais de cem anos, é uma espécie de Olimpo das letras gaulesas, publicando autores como – só para verem a montra – Proust, Céline, Camus, Cocteau, Saint-Exupéry, Sartre, Duras, De Beauvoir, Simenon, Kundera, e os mais recentes Prémios Nobel da Literatura Patrick Modiano ou Le Clézio. Embora não fosse o primogénito, Antoine bateu-se pela sucessão ao trono (e ganhou); conviveu desde pequeno com escritores – Faulkner, Aragon, Jean Genet (a este último levava envelopes com dinheiro quando era o avô quem estava à frente da empresa, porque ele se recusava a abrir conta num banco). Há mais de trinta anos a comandar a Gallimard, diz que o editor é uma espécie de faroleiro a espalhar luz (literatura) na escuridão, mas que o seu ofício está em vias de extinção porque já ninguém quer realmente ler o que publica. Explica que a geração dos que liam três ou quatro livros por semana desapareceu com a chegada dos «ecrãs» e que no dia em que os editores forem economistas e financeiros tudo terminará. E, ao fim de tantos anos de experiência, revela que nem sempre é bom afeiçoar-se aos autores, pois por vezes estes conseguem ser de uma espantosa ingratidão. A sua «número dois» conta que Antoine Gallimard tem um sangue-frio incrível e que, durante o conflito nos Balcãs, tiveram uma vez de atravessar a frente de guerra num automóvel e que o depósito de gasolina foi atingido; mas ele, assim que percebeu que não podiam fazer nada, adormeceu no banco de trás… A edição não é para todos.

26
Jul17

Pré-leitores

Maria do Rosário Pedreira

Embora eu ache que o gosto pelos livros e pela leitura é uma lotaria – e esse clique maravilhoso nem sempre acontece, fazendo com que alguns desistam às primeiras tentativas –, os especialistas dizem que o primeiro passo para que uma criança se torne leitora é ler-lhe desde pequenina, desde o berço ou antes ainda. Normalmente, o que os pais lêem aos filhos são histórias, mas num recente artigo de Catarina Homem Marques no Observador – citando um outro do New York Times, de Pamela Paul e Maria Russo, especialistas em literatura infanto-juvenil –, aprendi que o mais importante de tudo é a cadência da leitura, e não o que se lê – e por isso, para os pré-leitores de fraldas e chucha, podem ler-se receitas de bolos, manuais de instruções de electrodomésticos, bulas de remédio ou dicionários, porque tudo serve; no fundo, é como uma música – e os bebés, já se sabe, gostam de música, mesmo na barriga das mães. Claro que ouvir não chega e, mais tarde, os outros sentidos também contam: deixar os bebés mexerem nos livros, virarem as páginas mesmo antes de os pais lhas terem lido, receberem festinhas enquanto é feita a leitura para a associarem a uma boa companhia e à presença de alguém querido, tudo isso, numa primeira fase, é talvez mais importante do que o texto propriamente dito. E esta, hein?

25
Jul17

Teatro

Maria do Rosário Pedreira

Existem relativamente poucos romances que abordem, mesmo que indirectamente, o  mundo da edição; há vários estrangeiros (de Laurent Binet ou Vila-Matas), mas em português lembro-me sobretudo de História do Cerco de Lisboa, de José Saramago, no qual são personagens fundamentais um revisor (Raimundo) e a sua chefe, uma editora chamada Maria Sara. Ao rever uma obra sobre o cerco de Lisboa, Raimundo decide introduzir a palavra «não» numa determinada frase (que tem que ver com a ajuda dos Cruzados na conquista de Lisboa aos mouros), mudando, de certa forma, o que foi a História… Pelo caminho, apaixona-se por Maria Sara (outra conquista, enfim). Falo deste livro agora porque li que, no Festival de Teatro de Almada, nada menos do que quatro companhias de teatro se juntaram para encenar uma adaptação do romance: a ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, a Companhia de Teatro de Almada, a Companhia de Teatro de Braga e o Teatro dos Aloés. A dramaturgia esteve a cargo de Gabriel Antunaño e a encenação é de um outro espanhol, Ignacio García, contando os cenários com o talento de José Manuel Castanheira. A peça estreou-se no festival, mais vai regressar em Setembro e passar pelos vários teatros envolvidos, dando um pouco a volta ao País, de norte a sul. Uma boa ocasião para a ver e ler o romance de Saramago.

24
Jul17

Dobradinha

Maria do Rosário Pedreira

Foi há uns dias revelada a lista de finalistas do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (prémio relativo a livros publicados em 2016). Além de José Correia Tavares, da APE, este ano os jurados são Isabel Cristina Rodrigues, José Carlos Seabra Pereira, Luís Mourão, Paula Mendes Coelho e Teresa Duarte Carvalho que, entre 94 títulos publicados, seleccionaram apenas 5 (deve ter sido uma carga de trabalhos): Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho; A Gorda, de Isabela Figueiredo; Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes; Pequena Europa, de Mafalda Ivo Cruz; e Deus-Dará, de Alexandra Lucas Coelho. Muitíssimo curioso é o facto de só um destes autores (Isabela Figueiredo) nunca ter recebido este prémio… Ana Margarida de Carvalho ganhou-o com o romance anterior, de 2013, Que Importa a Fúria do Mar (e ser nomeada duas vezes seguidas é muito bom sinal); Alexandra Lucas Coelho com A Noite Roda, do ano seguinte (idem); Mafalda Ivo Cruz, que andava desaparecida há muitos anos, teve-o em 2003 com Vermelho; e Paulo Varela Gomes, com Era Uma Vez em Goa, editado em 2015. Será que isto quer dizer que o prémio vai para A Gorda, ou vai haver «dobradinha»? Mais curioso ainda é não constar da lista de finalistas nenhum romance de um escritor, digamos assim, mais rodado…

21
Jul17

O segredo de Joe Gould

Maria do Rosário Pedreira

Ler um livro que não é ficção e, porém, ter a cada instante a impressão de que se está a ler um romance é magnífico. A personagem – Joe Gould – parece mesmo inventada: um velho escanzelado deambulando por Manhattan, com roupa que já foi decente mas agora muito suja, bebendo e comendo sempre à custa de alguém (um empregado de um bar ou um cliente, que até podia ser o poeta E. E. Cummings) ou passando uma fome de cão, o que também acontece frequentemente. Um homem que, mesmo assim, estudou em Harvard, era filho e neto de médicos, mediu crânios a centenas de índios e anda a escrever há que tempos uma obra aparentemente interminável chamada Uma História Oral da Humanidade em cadernos que espalha por todo o lado. Mas não, não se trata da imaginação de Joseph Mitchell, o autor, que publicou os dois textos sobre Joe Gould que constam deste O Segredo de Joe Gould na revista New Yorker, onde trabalhou durante anos. São também muitos anos os que separam estes dois «capítulos» do livro, mas Joe Gould é o mesmíssimo nos dois perfis que o escritor lhe traçou – e, apesar de ter existido, é o protagonista que todos os que escrevem ficção gostariam de ter numa obra sua. Lobo Antunes, que assina um pequeno prefácio, diz que há muito tempo que não encontrava nada assim. Nem eu. Este livro não se pode perder.

20
Jul17

Mrs Freud

Maria do Rosário Pedreira

Ser filho ou parente próximo de alguém importante e conhecido não deve ser nada fácil – e louvo a coragem daqueles que, tendo pais artistas ou escritores, por exemplo, lhes seguem as pisadas. Mas às vezes existem nomes simplesmente tão grandes e poderosos que ameaçam apagar tudo à sua volta. Todos sabemos quem foi Sigmund Freud, o pai da psicanálise, mas até haver outro Freud famoso (o pintor Lucian Freud), foi preciso, no fundo, deixar passar uma geração (e olhem que o primeiro Freud tinha montes de filhos). O problema é que havia uma talentosíssima sobrinha do senhor Sigmund que ficou por conhecer durante anos… Chamava-se Martha, estudou desenho e pintura e ilustrou belíssimos livros infantis, mas assinava com um pseudónimo masculino (Tom Seidmann Freud) porque achava que o facto de ser mulher poderia representar um empecilho. Martha teve uma vida trágica, acabando por se suicidar (o tio sempre a achou um pouco louca), mas deixou uma extensa obra que hoje os críticos de arte estão a ressuscitar, retirando-a do esquecimento. Uma justiça talvez tardia.

 

sobrina-freud3.jpg

 

19
Jul17

Curtos

Maria do Rosário Pedreira

Ultimamente, guardo os romances extensos para as férias, pois não gosto nada da sensação de nunca mais acabar o livro que tenho em mãos e, durante o período de trabalho, sobra-me efectivamente pouco tempo para ler apenas por prazer (só um niquinho da noite, pois costumo dar uma caminhada de cerca de uma hora depois do jantar quando o tempo está bom). Gosto, pois, de livros mais curtos para os poder despachar durante a semana aos bochechinhos (como, por exemplo, O Sentido do Fim, de Julian Barnes, ou O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell; deste último falarei aqui um dia destes) e, por acaso, descobri na Internet uma página que fala de alguns pequenos romances que não conseguimos parar de ler e nos roubarão apenas uma noite se decidirmos não dormir. Um deles é, curiosamente, A Vegetariana, de Han Kang, que publiquei o ano passado, mas consta da lista o clássico O Processo, de Franz Kafka, A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares (o amigo de Borges) ou Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector – bem como as obras de duas autoras que quero muito ler em breve: a argentina Samanta Schweblin (só conhecia contos, mas o seu romance Distancia de rescate tem sido finalista de prémios importantes como o Man Booker International) e Anne Carson (que escreveu um romance em verso, Autobiography of Red). Romances à medida da minha disponibilidade.

18
Jul17

O essencial

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui contei uma vez a história de quando a minha mãe começou a descrever uma cena com demasiados detalhes e frequentes desvios (nunca mais chegava ao fim) e o meu irmão mais velho, impaciente, lhe disse que deixasse, por favor, o Proust de lado e fosse direita ao assunto. Tratando-se de criação literária, nem todos os autores são como Proust, evidentemente, mas é muito difícil encontrar um romancista que diga apenas o essencial, que seja contido, económico, seco e mesmo assim agradável. Serão poucas as obras de ficção que não têm aquilo a que chamamos «palha», algumas passagens ou páginas que por vezes nem decorativas são e, portanto, podiam sair; mas, enfim, ficaram lá talvez apenas porque é muito complicado para um autor deitar fora o que escreveu. Por falar em contenção, em reduzir as coisas ao essencial, encontrei por aí esta maravilha que vos deixo abaixo. Devia ser dia de futebol, o padre que ficou sozinho na igreja queria, provavelmente, ir ver um jogo da sua equipa e, além disso, devia andar fartinho das confissões proustianas dos seus paroquianos. É preciso ter muita coragem para afixar uma coisa destas na porta de um confessionário. Mas é de se tirar o chapéu!

 

Attachment-1.jpeg

 

17
Jul17

Partilhar

Maria do Rosário Pedreira

Sabe o que é o Banco dos Bens Doados? Pois eu confesso que nunca tinha ouvido falar dele ou lido a seu respeito e só muito recentemente, por causa do envio de uma circular, tomei conhecimento da parceria que esta instituição de entreajuda fez com a APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (mas, atenção, a ignorância é minha, porque nem sequer é a primeira vez que acontece). Durante a última Feira do Livro de Lisboa decorreu uma campanha de angariação de livros usados, sob o mote Dê nova vida ao livro – Porque todos os livros merecem um final feliz!, que seriam posteriormente distribuídos por uma rede de instituições sociais, sobretudo as que albergam crianças desfavorecidas e sem capacidade para comprar livros. Num pavilhão específico (como é que eu não dei por ele?), os visitantes eram convidados a pôr livros nas estantes e – pasme-se – no fim da feira foram mais de 7000 os livros oferecidos, quase o dobro do ano passado. O desafio de dar livros a quem não os pode comprar foi lançado pela APEL  e tem tido grande acolhimento. Parabéns pela boa ideia!

Pág. 1/2