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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

20
Jul17

Mrs Freud

Maria do Rosário Pedreira

Ser filho ou parente próximo de alguém importante e conhecido não deve ser nada fácil – e louvo a coragem daqueles que, tendo pais artistas ou escritores, por exemplo, lhes seguem as pisadas. Mas às vezes existem nomes simplesmente tão grandes e poderosos que ameaçam apagar tudo à sua volta. Todos sabemos quem foi Sigmund Freud, o pai da psicanálise, mas até haver outro Freud famoso (o pintor Lucian Freud), foi preciso, no fundo, deixar passar uma geração (e olhem que o primeiro Freud tinha montes de filhos). O problema é que havia uma talentosíssima sobrinha do senhor Sigmund que ficou por conhecer durante anos… Chamava-se Martha, estudou desenho e pintura e ilustrou belíssimos livros infantis, mas assinava com um pseudónimo masculino (Tom Seidmann Freud) porque achava que o facto de ser mulher poderia representar um empecilho. Martha teve uma vida trágica, acabando por se suicidar (o tio sempre a achou um pouco louca), mas deixou uma extensa obra que hoje os críticos de arte estão a ressuscitar, retirando-a do esquecimento. Uma justiça talvez tardia.

 

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19
Jul17

Curtos

Maria do Rosário Pedreira

Ultimamente, guardo os romances extensos para as férias, pois não gosto nada da sensação de nunca mais acabar o livro que tenho em mãos e, durante o período de trabalho, sobra-me efectivamente pouco tempo para ler apenas por prazer (só um niquinho da noite, pois costumo dar uma caminhada de cerca de uma hora depois do jantar quando o tempo está bom). Gosto, pois, de livros mais curtos para os poder despachar durante a semana aos bochechinhos (como, por exemplo, O Sentido do Fim, de Julian Barnes, ou O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell; deste último falarei aqui um dia destes) e, por acaso, descobri na Internet uma página que fala de alguns pequenos romances que não conseguimos parar de ler e nos roubarão apenas uma noite se decidirmos não dormir. Um deles é, curiosamente, A Vegetariana, de Han Kang, que publiquei o ano passado, mas consta da lista o clássico O Processo, de Franz Kafka, A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares (o amigo de Borges) ou Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector – bem como as obras de duas autoras que quero muito ler em breve: a argentina Samanta Schweblin (só conhecia contos, mas o seu romance Distancia de rescate tem sido finalista de prémios importantes como o Man Booker International) e Anne Carson (que escreveu um romance em verso, Autobiography of Red). Romances à medida da minha disponibilidade.

18
Jul17

O essencial

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui contei uma vez a história de quando a minha mãe começou a descrever uma cena com demasiados detalhes e frequentes desvios (nunca mais chegava ao fim) e o meu irmão mais velho, impaciente, lhe disse que deixasse, por favor, o Proust de lado e fosse direita ao assunto. Tratando-se de criação literária, nem todos os autores são como Proust, evidentemente, mas é muito difícil encontrar um romancista que diga apenas o essencial, que seja contido, económico, seco e mesmo assim agradável. Serão poucas as obras de ficção que não têm aquilo a que chamamos «palha», algumas passagens ou páginas que por vezes nem decorativas são e, portanto, podiam sair; mas, enfim, ficaram lá talvez apenas porque é muito complicado para um autor deitar fora o que escreveu. Por falar em contenção, em reduzir as coisas ao essencial, encontrei por aí esta maravilha que vos deixo abaixo. Devia ser dia de futebol, o padre que ficou sozinho na igreja queria, provavelmente, ir ver um jogo da sua equipa e, além disso, devia andar fartinho das confissões proustianas dos seus paroquianos. É preciso ter muita coragem para afixar uma coisa destas na porta de um confessionário. Mas é de se tirar o chapéu!

 

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17
Jul17

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Maria do Rosário Pedreira

Sabe o que é o Banco dos Bens Doados? Pois eu confesso que nunca tinha ouvido falar dele ou lido a seu respeito e só muito recentemente, por causa do envio de uma circular, tomei conhecimento da parceria que esta instituição de entreajuda fez com a APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (mas, atenção, a ignorância é minha, porque nem sequer é a primeira vez que acontece). Durante a última Feira do Livro de Lisboa decorreu uma campanha de angariação de livros usados, sob o mote Dê nova vida ao livro – Porque todos os livros merecem um final feliz!, que seriam posteriormente distribuídos por uma rede de instituições sociais, sobretudo as que albergam crianças desfavorecidas e sem capacidade para comprar livros. Num pavilhão específico (como é que eu não dei por ele?), os visitantes eram convidados a pôr livros nas estantes e – pasme-se – no fim da feira foram mais de 7000 os livros oferecidos, quase o dobro do ano passado. O desafio de dar livros a quem não os pode comprar foi lançado pela APEL  e tem tido grande acolhimento. Parabéns pela boa ideia!

14
Jul17

Mulheres inspiradoras

Maria do Rosário Pedreira

Pouco importa discutir agora se as obras literárias têm sempre um fundo autobiográfico; algumas têm – e é isso que me traz hoje aqui para falar de várias mulheres de carne e osso que inspiraram personagens de livros de todos os tempos. A primeira é Beatrice Portinari, que Dante viu quando era criança e amou platonicamente o resto da vida, colocando-a em A Divina Comédia como aquela por quem sente um amor que não pode ser terreno e que o há-de guiar ao Paraíso. A heroína de Romeu e Julieta (Giulietta Capuletto) existiu também na realidade e pode ainda hoje visitar-se a sua casa em Verona, o que também acontece com a de Dulcineia (a do Dom Quixote) algures na Mancha. A Dama das Camélias, do livro homónimo de Alexandre Dumas, chamava-se na realidade Marie Duplessis e parece ter sido ela quem inspirou também a ópera de Verdi La Traviata. Quase nem vale a pena mencionar Alice Lidell (a de Alice no País Maravilhas) que Lewis Carroll fotografou e cujo rosto conhecemos bem; e, apesar de Flaubert ter dito que Emma Bovary não era senão ele mesmo, há a suspeita de que existiu uma senhora chamada Delphine Delamare, filha de um grande proprietário de terras francês, que terá inspirado a personagem de Madame Bovary. Há obviamente mais casos, mas fico-me por aqui para deixar os Extraordinários lembrarem heroínas que acabaram nas páginas de romances.

13
Jul17

Mr. Brontë

Maria do Rosário Pedreira

Conhece certamente as três manas Brontë (Charlotte, Emily e Anne), mas sabia que as pequenas tinham um irmão? Pois é verdade: chamava-se Branwell e, aproveitando o facto de este ano ser o bicentenário do seu nascimento, o The Guardian dedicou-lhe recentemente um interessante artigo, ilustrado, aliás, com o quadro das três irmãs que costuma aparecer sempre que se escreve sobre elas – e que é da autoria do próprio Branwell! Sim, o mano Brontë era um artista e poeta, mas nunca atingiu o estatuto conseguido pelas irmãs (sobretudo por Emily e Charlotte, embora haja quem prefira de longe a obra de Anne); além disso, por causa de um desgosto de amor, acabou por se tornar alcoólico e dependente de opicáceos, morrendo com apenas 31 anos. Agora, porém, uma exposição sobre os 200 anos dos Brontë, de que o poeta Simon Armitage é uma espécie de curador no que respeita à obra literária de Branwell, vem mostrar que, longe de ser apenas o patinho feio dos Brontë, ele influenciou decisivamente as irmãs, era imaginativo nos enredos que inventava para lhes contar e um estímulo extremamente importante para que as raparigas tivessem opiniões próprias e as exprimissem nas suas obras. Portanto, deixemos de recordar Branwell apenas como o fracassado da família, uma vez que o seu papel contribuiu, afinal, para que os livros das maninhas fossem o que são.

 

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12
Jul17

Mais Bolaño

Maria do Rosário Pedreira

O escritor chileno Roberto Bolaño morreu aos 50 anos, demasiado novo para tudo o que ainda nos poderia vir a dar. Mesmo assim, a sua obra não foi tão parca como isso (se pensarmos, sobretudo, no número de páginas de um livro como 2666…) e a editora Quetzal tem estado a traduzi-la e publicá-la em Portugal a um bom ritmo. Chamou, de resto, a 2017 o «Ano Bolaño» e, neste mês de Julho, acaba de brindar os leitores daquele que foi considerado o melhor escritor de língua espanhola da sua geração (e os que não o conhecem bem podem tornar-se seus leitores, nunca é tarde para isso) com um livro intitulado Putas Assassinas, um conjunto de ficções publicadas originalmente no ano 2001 (creio que é o último livro que Bolaño publicou em vida) que – e isto são claramente boas notícias – incluem algumas personagens que irão repetir-se em livros posteriores, nomeadamente, o Artur Belano do fabuloso Detectives Salvagens, romance do qual se prepara também para o final do ano uma nova tradução. Um livro de contos é uma boa maneira de conhecer um autor – e é uma excelente forma de confirmar o seu talento para quem já o leu em obras mais extensas. Portanto, do que está à espera? Bolaño merece.

11
Jul17

Mais censura

Maria do Rosário Pedreira

Comprei recentemente os direitos de tradução para português do romance de uma jovem alemã descendente de russos, romance cuja história se inicia justamente há cem anos, com a Revolução Russa, e termina com o recente golpe de estado (encenado?) na Turquia. Promete, até porque a prosa é moderna e pega nos episódios históricos pelo lado menos esperado. Mas, falando da Turquia, que é o que agora me importa, a verdade é que as coisas estão bastante difíceis para os escritores turcos. Asli Erdogan (que partilha o nome do senhor que manda na Turquia, mas pensa de maneira oposta à dele) foi há uns tempos acordada de uma sesta para lhe revistarem a casa e apreenderem todos os livros que tinha sobre curdos, acusando-a de apoiar o terrorismo. Foi presa, esteve numa solitária, e só cerca de quatro meses depois lhe deram a hipótese de se defender judicialmente. Acabou por ser libertada, mas, se for condenada no final do processo, enfrentará  provavelmente a prisão perpétua. Tendo ganho um prémio importante na Alemanha, o Prémio da Paz Erich Maria Remarque (já atribuído a outros escritores activistas como, por exemplo, a bielorrussa Svetlana Alexeievich ou o poeta sírio Adónis), pediu uma licença especial para sair da Turquia, que foi dada, mas os advogados duvidam de que o senhor Erdogan devolva à escritora o passaporte que tem na sua posse. Além disso, Asli é talvez a mais mediática, mas não a única escritora turca a ter problemas – e, ao que dizem alguns observadores, como um membro do P.E.N. Club norueguês, desde o golpe de estado que as coisas só têm piorado para quem escreve.

10
Jul17

A biblioteca do futuro

Maria do Rosário Pedreira

Plantar árvores? Sim, decididamente! E desta vez são abetos, um milhar de lindos abetos, que crescerão (já estão a crescer, aliás) nos arredores de Oslo. Para quê? Ora leiam, que a história é bem bonita. Desde 2014, escritores de vários países enriquecem todos os anos aquilo que será a biblioteca do futuro, oferecendo um manuscrito de sua autoria para ser impresso apenas em 2114, quando os abetos agora plantados forem centenários; então, serão cortados e transformados em papel, dando origem a antologias que reunirão textos de todos os autores envolvidos no projecto (depois da escritora canadiana Margaret Atwood, que foi a primeira convidada, a biblioteca do futuro já recebeu um texto do britânico David Mitchell e, em 2017, foi o poeta islandês Sjon, autor de algumas letras para canções de Björk, a oferecer o seu manuscrito). A graça – dizem os autores – está em escrever para um público que ainda não nasceu e será obviamente muito diferente dos leitores actuais das suas obras. Espera-se por isso que cada autor contribua com algo próprio da sua época que ilustre essa nova geração sobre o passado. Esta longa espera por um livro – cem anos – faz parte de um projecto de celebração da slow life na Noruega, de que fazem já parte uma espécie de Arca de Noé vegetal, que é uma reserva de sementes destinada a preservar a diversidade, e uma slow TV. Ideias bonitas.

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07
Jul17

Perplexidade e horror

Maria do Rosário Pedreira

A propósito de uma crónica de Ana Sousa Dias no Diário de Notícias (ou, melhor, de uma não-crónica, pois foi sobre o que não escreveu que eu acabei por ir bisbilhotar), descobri uma história tão romanesca que tinha mesmo de se transformar em livro (que eu saiba, ainda não traduzido entre nós, mas pode ser que alguém se lembre disso). Sacha Batthyany, um jornalista húngaro, sabia que descendia de aristocratas e que tinha tido uma tia-avó condessa muito respeitada, mas, como vivia na Suíça desde pequeno, estava mais ou menos afastado desse ramo da família. Um dia, porém, uma colega do jornal mostrou-lhe uma história terrível que acabava de ser publicada – e fê-lo porque o apelido do jornalista era incomum e coincidia com o de uma das personagens envolvidas na reportagem. Tratava-se do relato de uma festa em 1945, pouco antes do fim da guerra, num castelo que pertencia à tia-avó do jornalista, em que, a seguir ao jantar, os convidados tinham assassinado 180 judeus que trabalhavam como escravos na propriedade... e a convite do amante da anfitriã. O jornalista ficou perplexo e horrorizado e decidiu tirar tudo a limpo. Começou por interrogar o pai – que sabia da história – e foi descobrindo que não só a maior parte da família estava a par desse baile que acabara em tragédia para os judeus, mas também alguns dos seus membros nem sequer reprovavam realmente o que acontecera. Decidiu então pedir uma licença no jornal, investigar apesar das pressões da família para não o fazer (a tia-avó, ao que parece, ajudara muita gente no final da guerra a fugir para a Suíça) e escrever um livro que, na versão inglesa, se chama A Crime in the Family e narra o terrível episódio que desencadeou tudo, mas também os entraves e todas as peripécias da investigação.

 

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