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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Jul17

Mulheres inspiradoras

Maria do Rosário Pedreira

Pouco importa discutir agora se as obras literárias têm sempre um fundo autobiográfico; algumas têm – e é isso que me traz hoje aqui para falar de várias mulheres de carne e osso que inspiraram personagens de livros de todos os tempos. A primeira é Beatrice Portinari, que Dante viu quando era criança e amou platonicamente o resto da vida, colocando-a em A Divina Comédia como aquela por quem sente um amor que não pode ser terreno e que o há-de guiar ao Paraíso. A heroína de Romeu e Julieta (Giulietta Capuletto) existiu também na realidade e pode ainda hoje visitar-se a sua casa em Verona, o que também acontece com a de Dulcineia (a do Dom Quixote) algures na Mancha. A Dama das Camélias, do livro homónimo de Alexandre Dumas, chamava-se na realidade Marie Duplessis e parece ter sido ela quem inspirou também a ópera de Verdi La Traviata. Quase nem vale a pena mencionar Alice Lidell (a de Alice no País Maravilhas) que Lewis Carroll fotografou e cujo rosto conhecemos bem; e, apesar de Flaubert ter dito que Emma Bovary não era senão ele mesmo, há a suspeita de que existiu uma senhora chamada Delphine Delamare, filha de um grande proprietário de terras francês, que terá inspirado a personagem de Madame Bovary. Há obviamente mais casos, mas fico-me por aqui para deixar os Extraordinários lembrarem heroínas que acabaram nas páginas de romances.

13
Jul17

Mr. Brontë

Maria do Rosário Pedreira

Conhece certamente as três manas Brontë (Charlotte, Emily e Anne), mas sabia que as pequenas tinham um irmão? Pois é verdade: chamava-se Branwell e, aproveitando o facto de este ano ser o bicentenário do seu nascimento, o The Guardian dedicou-lhe recentemente um interessante artigo, ilustrado, aliás, com o quadro das três irmãs que costuma aparecer sempre que se escreve sobre elas – e que é da autoria do próprio Branwell! Sim, o mano Brontë era um artista e poeta, mas nunca atingiu o estatuto conseguido pelas irmãs (sobretudo por Emily e Charlotte, embora haja quem prefira de longe a obra de Anne); além disso, por causa de um desgosto de amor, acabou por se tornar alcoólico e dependente de opicáceos, morrendo com apenas 31 anos. Agora, porém, uma exposição sobre os 200 anos dos Brontë, de que o poeta Simon Armitage é uma espécie de curador no que respeita à obra literária de Branwell, vem mostrar que, longe de ser apenas o patinho feio dos Brontë, ele influenciou decisivamente as irmãs, era imaginativo nos enredos que inventava para lhes contar e um estímulo extremamente importante para que as raparigas tivessem opiniões próprias e as exprimissem nas suas obras. Portanto, deixemos de recordar Branwell apenas como o fracassado da família, uma vez que o seu papel contribuiu, afinal, para que os livros das maninhas fossem o que são.

 

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12
Jul17

Mais Bolaño

Maria do Rosário Pedreira

O escritor chileno Roberto Bolaño morreu aos 50 anos, demasiado novo para tudo o que ainda nos poderia vir a dar. Mesmo assim, a sua obra não foi tão parca como isso (se pensarmos, sobretudo, no número de páginas de um livro como 2666…) e a editora Quetzal tem estado a traduzi-la e publicá-la em Portugal a um bom ritmo. Chamou, de resto, a 2017 o «Ano Bolaño» e, neste mês de Julho, acaba de brindar os leitores daquele que foi considerado o melhor escritor de língua espanhola da sua geração (e os que não o conhecem bem podem tornar-se seus leitores, nunca é tarde para isso) com um livro intitulado Putas Assassinas, um conjunto de ficções publicadas originalmente no ano 2001 (creio que é o último livro que Bolaño publicou em vida) que – e isto são claramente boas notícias – incluem algumas personagens que irão repetir-se em livros posteriores, nomeadamente, o Artur Belano do fabuloso Detectives Salvagens, romance do qual se prepara também para o final do ano uma nova tradução. Um livro de contos é uma boa maneira de conhecer um autor – e é uma excelente forma de confirmar o seu talento para quem já o leu em obras mais extensas. Portanto, do que está à espera? Bolaño merece.

11
Jul17

Mais censura

Maria do Rosário Pedreira

Comprei recentemente os direitos de tradução para português do romance de uma jovem alemã descendente de russos, romance cuja história se inicia justamente há cem anos, com a Revolução Russa, e termina com o recente golpe de estado (encenado?) na Turquia. Promete, até porque a prosa é moderna e pega nos episódios históricos pelo lado menos esperado. Mas, falando da Turquia, que é o que agora me importa, a verdade é que as coisas estão bastante difíceis para os escritores turcos. Asli Erdogan (que partilha o nome do senhor que manda na Turquia, mas pensa de maneira oposta à dele) foi há uns tempos acordada de uma sesta para lhe revistarem a casa e apreenderem todos os livros que tinha sobre curdos, acusando-a de apoiar o terrorismo. Foi presa, esteve numa solitária, e só cerca de quatro meses depois lhe deram a hipótese de se defender judicialmente. Acabou por ser libertada, mas, se for condenada no final do processo, enfrentará  provavelmente a prisão perpétua. Tendo ganho um prémio importante na Alemanha, o Prémio da Paz Erich Maria Remarque (já atribuído a outros escritores activistas como, por exemplo, a bielorrussa Svetlana Alexeievich ou o poeta sírio Adónis), pediu uma licença especial para sair da Turquia, que foi dada, mas os advogados duvidam de que o senhor Erdogan devolva à escritora o passaporte que tem na sua posse. Além disso, Asli é talvez a mais mediática, mas não a única escritora turca a ter problemas – e, ao que dizem alguns observadores, como um membro do P.E.N. Club norueguês, desde o golpe de estado que as coisas só têm piorado para quem escreve.

10
Jul17

A biblioteca do futuro

Maria do Rosário Pedreira

Plantar árvores? Sim, decididamente! E desta vez são abetos, um milhar de lindos abetos, que crescerão (já estão a crescer, aliás) nos arredores de Oslo. Para quê? Ora leiam, que a história é bem bonita. Desde 2014, escritores de vários países enriquecem todos os anos aquilo que será a biblioteca do futuro, oferecendo um manuscrito de sua autoria para ser impresso apenas em 2114, quando os abetos agora plantados forem centenários; então, serão cortados e transformados em papel, dando origem a antologias que reunirão textos de todos os autores envolvidos no projecto (depois da escritora canadiana Margaret Atwood, que foi a primeira convidada, a biblioteca do futuro já recebeu um texto do britânico David Mitchell e, em 2017, foi o poeta islandês Sjon, autor de algumas letras para canções de Björk, a oferecer o seu manuscrito). A graça – dizem os autores – está em escrever para um público que ainda não nasceu e será obviamente muito diferente dos leitores actuais das suas obras. Espera-se por isso que cada autor contribua com algo próprio da sua época que ilustre essa nova geração sobre o passado. Esta longa espera por um livro – cem anos – faz parte de um projecto de celebração da slow life na Noruega, de que fazem já parte uma espécie de Arca de Noé vegetal, que é uma reserva de sementes destinada a preservar a diversidade, e uma slow TV. Ideias bonitas.

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07
Jul17

Perplexidade e horror

Maria do Rosário Pedreira

A propósito de uma crónica de Ana Sousa Dias no Diário de Notícias (ou, melhor, de uma não-crónica, pois foi sobre o que não escreveu que eu acabei por ir bisbilhotar), descobri uma história tão romanesca que tinha mesmo de se transformar em livro (que eu saiba, ainda não traduzido entre nós, mas pode ser que alguém se lembre disso). Sacha Batthyany, um jornalista húngaro, sabia que descendia de aristocratas e que tinha tido uma tia-avó condessa muito respeitada, mas, como vivia na Suíça desde pequeno, estava mais ou menos afastado desse ramo da família. Um dia, porém, uma colega do jornal mostrou-lhe uma história terrível que acabava de ser publicada – e fê-lo porque o apelido do jornalista era incomum e coincidia com o de uma das personagens envolvidas na reportagem. Tratava-se do relato de uma festa em 1945, pouco antes do fim da guerra, num castelo que pertencia à tia-avó do jornalista, em que, a seguir ao jantar, os convidados tinham assassinado 180 judeus que trabalhavam como escravos na propriedade... e a convite do amante da anfitriã. O jornalista ficou perplexo e horrorizado e decidiu tirar tudo a limpo. Começou por interrogar o pai – que sabia da história – e foi descobrindo que não só a maior parte da família estava a par desse baile que acabara em tragédia para os judeus, mas também alguns dos seus membros nem sequer reprovavam realmente o que acontecera. Decidiu então pedir uma licença no jornal, investigar apesar das pressões da família para não o fazer (a tia-avó, ao que parece, ajudara muita gente no final da guerra a fugir para a Suíça) e escrever um livro que, na versão inglesa, se chama A Crime in the Family e narra o terrível episódio que desencadeou tudo, mas também os entraves e todas as peripécias da investigação.

 

06
Jul17

Enchouriçada

Maria do Rosário Pedreira

Eu bem sei que, às vezes, faço uns posts que são mais ou menos «encher chouriços» (até já me acusaram disso aqui), mas a verdade é que é raro o dia em que não ponha o dedo no ar aqui no blogue e, por isso, tenho desculpa (perdoo-me a mim mesma, pelo menos) para a falta de imaginação e de assunto. De qualquer maneira, talvez isso não seja razão para que regularmente me mandem convites da Confraria Gastronómica dos Enchidos (estou a falar a sério) e, ainda por cima, da parte do seu Grão-Mestre… Não sou assim uma grande consumidora de enchidos na forma alimentar (já na literária a profissão obriga-me a ler muito livro que também não passa de encher chouriços) e, no geral, nem sequer leio muito sobre comida. Fico, porém, surpreendida com a produção livresca à volta do tema dos enchidos de que sou mensalmente informada; e, desta feita, a obra para cujo lançamento sou convidada (dia 15, às 17h30, no Centro de Exposição de Odivelas) chama-se Bodas de Madeira da Confraria dos Enchidos e, para comemorar as ditas bodas (cinco anos), conta a história dos enchidos, falando dos diversos tipos de enchidos, apresentando receitas que incluem enchidos e juntando depoimentos de outras confrarias (do Mel, da Chanfana…) sobre a matéria. Enfim, para quem goste de enchidos, pode ser uma boa opção. E eu lá enchi mais um chouriço.

05
Jul17

Imperdível

Maria do Rosário Pedreira

A editora E-Primatur está a fazer um trabalho notável na recuperação de obras e autores portugueses um pouco esquecidos e, mesmo que não ignorados, por vezes mal tratados. Já aqui falei da Obra Essencial de Mário de Sá Carneiro preparada por Pessoa para a Presença (e muito bem tratada por Vasco Silva) e, desta feita, refiro-me à proeza que significa a publicação das Obras Completas de Mário-Henrique Leiria, de quem, aliás, a mesma editora já tinha publicado, numa espécie de ante-estreia, Casos de Direito Galático e Outros Textos Esquecidos. Este primeiro dos três volumes das Obras (com introdução, organização e notas de Tania Martuscelli, especialista em modernismo português e brasileiro e professora universitária no Colorado) inclui, entre outros, os mais emblemáticos textos do grande Mário-Henrique Leiria, quase lendários, cheios de humor negro e muito políticos, os Contos  do Gin Tonic (ao que parece bebia-se bastante gin no seu grupo de amigos surrealistas, de que faziam parte Cesariny e Cruzeiro Seixas), que ainda tenho numa edição da Estampa, com um friso de carantonhas feias na capa e o título dentro de uma bola (é isto a velhice?). O segundo volume reunirá os textos poéticos e o terceiro os manifestos e ensaios, além de cartas e desenhos, já que o autor era também artista plástico. Imperdível.

04
Jul17

A importância de se chamar...

Maria do Rosário Pedreira

Acaba de sair para o mercado um livro intitulado Os Apelidos Portugueses, de Carlos Bobone, que é decerto bastante oportuno, tendo em conta que os Portugueses são muito ciosos de alguns dos seus apelidos, mesmo num mundo cada vez mais informal. Mas não espere uma lista de nomes e a explicação da origem de cada um, pois não é nada disso. Mais interessante, a obra conta como os apelidos surgiram ao longo do tempo – muitas vezes baseados no nome do progenitor (Rodrigues, filho de Rodrigo), mas também inspirados nos nomes de terras ou lugares donde as pessoas eram oriundas (da Maia, como o protagonista do Eça), em alcunhas, maneiras por que as pessoas eram conhecidas (conheço uns Bastos que moravam numa calçada e acabaram sendo os Calçada Bastos), títulos, etc. De três apelidos simples em 1932 (um da mãe e dois do pai), em 1958 passámos a poder usar quatro apelidos simples e, em 1997, quatro apelidos simples ou compostos (nomes como Castelo-Branco ou Espírito Santo) a que podem ainda somar-se os dos cônjuges (até quatro, parece-me!). E a ordem é hoje muitas vezes arbitrária, porque as famílias querem manter certos apelidos finos e, por vezes, se só há raparigas, está tudo tramado. Do mesmo modo, há irmãos que vão buscar apelidos diferentes aos pais – e até filhos que têm apelidos de avós que os pais não têm. Enfim, a obra, que conta muita da nossa mania das fidalguias sobretudo com os «de» e os «e» para tornar os apelidos mais sonantes, conta a história de um senhor que se apresentou na casa de outro como D. Luiz Fernandes de Rello de Vasconcelos e Menezes. Ouvindo esse nome comprido ao mordomo, o anfitrião comentou que eram precisas então várias cadeiras... Vale a pena espreitar, pois aprende-se sempre qualquer coisa.

03
Jul17

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

 

Depois de o seu romance Teoria Geral do Esquecimento ter sido vencido por A Vegetariana na final do Man Booker International Prize de 2016, José Eduardo Agualusa conseguiu agora, com o mesmo livro, arrecadar o International Dublin Literary Award, no valor de 100 000 euros (25 000 dos quais vão para o tradutor, o que é justo). Estavam a concurso autores importantes como Pamuk, Anne Enright (de quem publiquei um romance há muito tempo) e o nosso querido Mia Couto – e o prémio é tão mais gratificante porque quem nomeia os candidatos são bibliotecas públicas de todo o mundo que também participam na votação dos livros finalistas. Numa forma de felicitar Agualusa por esta proeza, leio então o seu mais recente romance, A Sociedade dos Sonhadores Involuntários (mesmo que me tenha intrigado o título, pois acho difícil sonhar-se voluntariamente, mas que sei eu?), que junta, por causa dos sonhos, um jornalista cujo sogro, próximo do poder, é bastante castrador, uma artista plástica moçambicana radicada na Cidade do Cabo, um neurocientista brasileiro, um ex-guerrilheiro, todos num país dominado por um regime totalitário (está-se mesmo a ver qual é o país). Dedicado, entre outros, a Luaty Beirão e Nito Alves, este romance, segundo Mia Couto, «é tecido com os mais delicados materiais da poesia». Eu cá ainda vou  na página 40 e estou dentro de uma espécie de resort com bungalows, a ler a história de um menino que recolheu do zoo um leãozinho. Vamos ver no que vai dar. A edição é da Quetzal.

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