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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

29
Set17

As sequelas

Maria do Rosário Pedreira

No meu tempo, «sequelas» eram efeitos ou consequências (marcas de uma doença, por exemplo), mas hoje o termo é usado a torto e a direito para designar a continuação (o seguimento, a sequência) de uma obra literária ou cinematográfica; e, a reboque, até se inventou o termo «prequela» quando o livro ou filme é sobre um período anterior ao tratado na obra original. Enfim, parece que as prequelas e sequelas estão na moda – e o mais estranho é que, no caso das escritas, até podem ser narradas e compostas por outros autores que não os legítimos, ou seja, os que criaram o enredo principal e as personagens. No entanto, que peso terá a questão do estilo contra o perigo de se interromper a saída e venda de um bom produto?… Veja-se, por exemplo, a série sueca Millenium, que não deixou de ser publicada depois de o autor ter morrido e vai certamente continuar a alimentar filmes suecos e americanos. Veja-se também a ideia de recriar Orgulho e Preconceito com zombies (sim, não estou a brincar) ou contratar um novo escritor para seguir com as aventuras de… Bond, James Bond. Os casos não param: desde Os Crimes do Monograma de Agatha Christie (mas escritos por Sophie Hannah) até ao Peter Pan e ao Drácula de Bram Stoker, passando pela sequência de E Tudo o Vento Levou e as aventuras de Winnie de Pooh, há de tudo, e os herdeiros dos criadores, pelos vistos, nem se importam muito.

28
Set17

De volta

Maria do Rosário Pedreira

Agora, que o Outono já se instalou, regressam as sessões Ler no Chiado organizadas e conduzidas pela jornalista Anabela Mota Ribeiro na Livraria Bertrand (do Chiado, claro), a mais antiga livraria portuguesa e uma das mais antigas do mundo ainda com actividade. Desta feita, o tema da conversa é pessoa e autor (não escrevi «escritor» porque é muito mais do que isso, e «autor» engloba também a sua actividade nas artes plásticas); mais concretamente, o senhor Almada Negreiros, que ainda recentemente foi objecto de uma exposição retrospectiva na Fundação Calouste Gulbenkian, cuja curadora, Mariana Pinto dos Santos, será, de resto, uma das intervenientes na sessão de hoje (às 18h30, faltou dizer). Além dela, poder-se-á ouvir o especialista em modernismo português Fernando Cabral Martins, professor da Universidade Nova de Lisboa, e ainda a grande actriz Maria do Céu Guerra, que, segundo leio na informação da iniciativa, se estreou justamente com um texto de Almada. Tudo boas razões para chegar mais tarde a casa.

27
Set17

Cemitérios

Maria do Rosário Pedreira

Na passagem da lista maior para a lista mais pequena (a dos seis finalistas) do Man Booker Prize, caiu curiosamente o livro de Arundhati Roy, O Ministério da Felicidade Suprema (ASA), candidato vinte anos depois de o seu antecessor, o romance-maravilha O Deus das Pequenas Coisas, ter ganho o galardão. O segundo romance da escritora indiana (pelo meio, ela escreveu muitos artigos e ensaios, mas não ficção) é um livro menos susceptível de reunir o consenso dos leitores, embora nele se mantenha esse estilo único da senhora Roy e o desenho de algumas personagens que dificilmente esqueceremos, como a hermafrodita Anjum ou a bela Tilo (que li algures ser uma espécie de alter ego da autora). Existindo muitas mais personagens neste livro do que no anterior, a verdade é que a profusão de nomes indianos (que não descortinamos imediatamente pertencerem a homens ou mulheres) emperra um pouco a leitura; e, se por um lado parece necessário ter já algumas noções sobre a questão de Caxemira para compreender o verdadeiro alcance desta história, por outro lado, aqui e ali também sentimos que existe uma certa pedagogia que torna o enredo um pouco menos fluido. Mesmo assim, ele deve ser lido, até porque tem algumas ideias belíssimas, como a da Casa de Hóspedes construída à roda das lápides de um cemitério num país onde, por acaso, os hindus não enterram os mortos. Também é num cemitério que decorre o polifónico romance de George Saunders, Lincoln no Bardo (Relógio d’Água), onde Abraham Lincoln passa uma noite junto ao túmulo do filho, morto uns dias antes. O autor – até aqui só de contos – foi sobejamente elogiado por esta obra, entre outros, por Zadie Smith, Jonathan Franzen e Thomas Pynchon. E o livro – esse – continua na short list do Man Booker. Os cemitérios estão na moda em literatura.

26
Set17

Releituras

Maria do Rosário Pedreira

Não tenho o hábito de reler o que escrevo depois de estar publicado – excepto, evidentemente, uma meia dúzia de poemas que soam bem em voz alta e repito na maioria das leituras ao vivo. Não sei, porém, como procedem os outros poetas: se se lêem com regularidade, se fazem como eu e acabam por se surpreender quando um dia encontram um texto seu que não se lembravam de ter escrito. Imagino que a tarefa seja, contudo, muito mais complicada para os romancistas. Não estou a ver um ficcionista ler um velho romance seu enquanto escreve um novo, mas, enfim, tudo é possível. Lembram-se de que há uns tempos Philip Roth disse que iria parar de escrever? Pois bem, enquanto não produziu obra literária, esteve a reler todos os romances que escreveu. Quase me apetece dizer: é obra! Num livro recente que colige a sua obra não ficcional – Why Write?, com entrevistas, discursos e artigos –, Roth, depois da releitura de O Complexo de Portnoy (escrito 45 anos antes), confessa que ficou simultaneamente chocado e contente com o que fez; chocado por ter sido na altura tão ousado, feliz por o livro o ter recordado disso mesmo. E, relativamente ao conjunto da obra ficcional, o balanço é afinal positivo: «Depois de acabar de a reler, concluo, fazendo eco das palavras de Joe Louis, um boxeur que é dos meus heróis: ‘Fiz o melhor que podia com o que tinha.’» Uma releitura que, pelos vistos, valeu a pena.

25
Set17

Escritor-Editor

Maria do Rosário Pedreira

Quando me pedem um depoimento sobre qualquer coisa, não é raro que debaixo do meu nome apareça escrito: Editora e escritora (ou vice versa). Não sou caso único em Portugal (lembro-me, por exemplo, de Francisco José Viegas, mas há outros exemplos); a mesma pessoa escrever e editar livros é, de resto, uma circunstância bastante comum no universo de língua inglesa. A grande escritora Toni Morrison (que ganhou o Nobel da Literatura) trabalhou muitos anos na Random House como editora, primeiro na área escolar e, depois de publicar o seu primeiro romance, no departamento de ficção. A canadiana Margaret Atwood teve a mesma função numa editora do seu país, tendo inclusivamente editado livros de Michael Ondaatje, o autor do famoso O Paciente Inglês. Também David Ebershoff, autor de livros como A Rapariga Dinamarquesa, foi até há bem pouco tempo editor e, ao que dizem, de muitos autores premiados, entre os quais Teju Cole, Joyce Carol Oates e David Mitchell. O mesmo acontece com o romancista Max Porter (não li ainda nada dele) que é, na Granta, o editor de autores como Rebecca Solnit e Han Kang e que diz que «o editor tem de ser parte revisor de provas, parte terapeuta». A lista inclui outros escritores, embora não muito conhecidos entre nós, dos quais destaco Gordon Lish, editor do celebérrimo Raymond Carver, que, segundo leio, tem peças de teatro que seriam uma boa réplica americana a Samuel Beckett e Thomas Bernhard, mas que é mais conhecido pelo seu trabalho na edição. Neste post, «editor» deve ser lido como pronúncia inglesa, pois não corresponde ao que publica, mas ao que lê e corrige o texto e organiza edições.

22
Set17

Oceanos

Maria do Rosário Pedreira

Com a venda da Portugal Telecom, o conhecido prémio literário PT, para obras em língua portuguesa publicadas no Brasil, esteve em risco de acabar, e valeu aos organizadores o Banco Itaú, que se tornou seu patrocinador, renomeando-o como Prémio Oceanos; com a mudança, o galardão deixou também de contemplar apenas livros publicados no Brasil, passando, a partir deste ano, a incluir títulos  publicados em Portugal nas categorias de poesia, romance e conto, tendo, de resto, uma curadora portuguesa (a jornalista Ana Sousa Dias). A primeira selecção está feita e há 51 livros na semifinal. Destes, 19 são de autores portugueses, desde logo os veteranos Lídia Jorge e Mário de Carvalho na categoria de conto. Na poesia, temos nada mais nada menos do que uma dezena de concorrentes de idades muito diferentes, de António Osório a Rui Lage ou Filipa Leal, a mostrar que os nossos poetas de todas as gerações se recomendam. Por fim, são sete os romances seleccionados – e fico muito contente porque publiquei três deles: Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho, Um Postal de Detroit, de João Ricardo Pedro, e Rio do Esquecimento, de Isabel Rio Novo. Vão ombrear com livros de Ana Teresa Pereira, Jaime Rocha ou Afonso Cruz e, claro, com muitíssimos romances de escritores brasileiros. Agora, há que esperar e ter esperança.

21
Set17

Censura russa

Maria do Rosário Pedreira

Dois dias depois de ter visto um interessante documentário sobre as Pussy Riot (não sei se se lembram delas), leio no The Guardian uma história tremenda que mostra bem o estado a que chegou o preconceito e o autoritarismo na Rússia, cem anos passados sobre a Revolução. A inglesa V. E. Schwab é autora de uma trilogia de livros fantásticos, Shades of Magic, com a qual obteve um enorme sucesso no Reino Unido, tendo mais de 50 000 seguidores só no Twitter. Os livros, que contam as aventuras de Kell, um mago que viaja através de quatro versões paralelas da cidade de Londres, são pouco convencionais no seu género, uma vez que incluem, entre outras personagens, um príncipe bissexual e uma carteirista de sexo indefinido (penso que ela se terá inspirado nas 50 Shades (Sombras) of Grey...). Como em muitos outros países, a trilogia foi vendida na Rússia e lá publicada – e a sua autora ficou obviamente contente por a ver traduzida. Porém, depois de os livros terem saído por lá, e através de um leitor russo que conhecia ambas as versões, descobriu que lhe cortaram todas as cenas gay e reescreveram uma boa parte do enredo sem lhe pedirem sequer permissão… Uma lei assinada pelo senhor Putin bane todas as referências a relacionamentos sexuais “não tradicionais” e, como tal, a obra foi censurada… Será que também modificaram Reviver o Passado em Brideshead e outros clássicos? Não me admirava nada...

20
Set17

Especialização

Maria do Rosário Pedreira

Sempre achei que, para escrever, é preciso ter talento – e que, por mais que os cursos de escrita criativa ajudem alguém a organizar-se e fazer opções mais sensatas e originais, tem de haver qualquer coisa inata em termos de génio e criatividade. Mesmo assim, não nego que partilhar ideias com um especialista ou alguém mais informado sobre literatura é certamente profícuo para quem queira dedicar-se à escrita – e, como tal, não deixo de partilhar neste blogue o anúncio de uma pós-graduação (penso que seja a primeira numa universidade portuguesa) em Escrita de Ficção, que terá lugar na Universidade Lusófona, em Lisboa, com direcção da escritora e jornalista Filipa Melo e colaboração dos Booktailors. Cito o dito anúncio: “O curso propõe aos estudantes um programa exclusivamente focado na escrita de ficção e visa proporcionar-lhes contacto com os principais momentos e conceitos da história da literatura, as técnicas e convenções mais relevantes da criação do texto ficcional e os elementos básicos da ficção.
 
A segunda fase de candidaturas decorre até 23 de setembro, com resultados a 28 do mesmo mês.” Se estiver interessado, pode consultar aqui:

 

https://www.ulusofona.pt/pos-graduacoes/escrita-de-ficcao?utm_source=booktailors&utm_medium=email&utm_campaign=assinatura

19
Set17

Atlas literário

Maria do Rosário Pedreira

A ideia é boa, embora me pareça que o trabalho seja interminável enquanto os escritores forem escrevendo livros passados em Portugal. Trata-se de um atlas da paisagem portuguesa que consta da literatura (O Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental, em execução), um projecto coordenado pela investigadora Ana Isabel Queiroz que compreende mais de 350 obras de mais de 170 escritores, do século XIX aos nossos dias, e pretende ser um “repositório de excertos literários” de livros escritos por autores do mundo inteiro (portugueses também – ou sobretudo) que incluam referências à paisagem portuguesa, assim permitindo aos leitores uma viagem pela literatura e pelo território ao mesmo tempo. A notícia dá como exemplo uma descrição da Praça do Comércio, em Lisboa, feita nada mais nada menos do que por Hans Christian Andersen, por causa de uma visita que fez à capital portuguesa em 1866; mas o atlas incluirá naturalmente muitos excertos de Viagens na Minha Terra, de Garrett, Portugal Pequenino, de Raul Brandão, Praias de Portugal, de Ramalho Ortigão, A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, Contos da Montanha, de Miguel Torga, ou Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco – e só estou a mencionar o mais óbvio. O mapa deve ser trabalho para muitas mãos e desconheço quando fica pronto, mas lá que vou gostar de lhe meter o nariz, não nego.

18
Set17

Traduzir o paraíso

Maria do Rosário Pedreira

Quando ainda editava obras de não-ficção, publiquei a certa altura um livro de Bill Gates, no qual se dizia que o mundo tinha mudado mais nos últimos 50 anos do que nos 500 anteriores. Pois bem, o número de traduções desse longuíssimo poema do século XVII chamado Paradise Lost (Paraíso Perdido), de John Milton – considerado um dos melhores livros de todos os tempos (Harold Bloom incluiu-o em O Cânone Ocidental, que também publiquei na Temas e Debates) –, foi, nos últimos 30 anos, muito maior do que nos 300 anos anteriores. A obra (que está dividida em dez livros) tem cerca de 300 traduções em 57 línguas, das mais «normais» (francês, alemão, hebraico ou castelhano) às mais estranhas (tâmil, persa, tonganês, galês e frísio). Estudiosos em todo o mundo reuniram-se para perceber quantas são as versões e porque, em certos países, houve mais de uma, chegando a interessantes conclusões, tais como que a publicação da obra coincide frequentemente com períodos de nacionalismo exacerbado ou de rebelião (e tudo vai estar explicado num livro intitulado Milton in Translation). Publicado originalmente em 1667, o poema sobre a desobediência de Adão ao comer o fruto proibido está disponível em português na editora Livros Cotovia com tradução do poeta Daniel Jonas, mas a obra já tinha tido uma tradução de Fernando da Costa Soares e Raul Mateus da Silva (feita, julgo eu, a partir da versão francesa), que também ainda se encontra à venda pela editora Húmus, e, pelo menos, outra mais antiga, do século XIX, pela pena do doutor António José de Lima Leitão. O pecado original nunca passa de moda.

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