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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Out17

O menino e a menina

Maria do Rosário Pedreira

O politicamente correcto às vezes (quase sempre) enerva… E aquela história de não poder haver livros e brinquedos diferentes para meninas e meninos é um bocado irritante. Todos conhecemos meninas que adoram ser princesas e rapazes que só querem carros e bolas, e isso é tão normal que até se diz que uma menina é maria-rapaz se preferir correrias ao ar livre a brincar aos pais e às mães (era o meu caso, supostamente por ter um irmão pouco mais velho). Enfim, tudo quanto é demais é erro, e agora foi a vez da Real Academia Espanhola (RAE) se insurgir contra a forma como os políticos se dirigem ao eleitorado, com um «caros e caras» e «todos e todas», que considera um abuso do politicamente correcto, uma vez que os falantes de espanhol (e o mesmo acontece com os de português) não estão necessariamente a discriminar quando usam o plural masculino «caros» ou «todos» para se referirem a homens e mulheres, nem precisam de mudar a sua língua para fugir ao sexismo. O relatório da RAE critica as novas tendências linguísticas usadas por universidades, sindicatos e governos regionais em Espanha, que propõem a utilização de palavras como «cidadania» para substituir «os cidadãos» (cá também houve a polémica do Cartão de Cidadão acho que por causa do BE) ou «o professorado» para falar de professores dos dois sexos. O jornal argentino La Nación concorda, dizendo que não é preciso ser lexicógrafo para perceber que a palavra «infância» não equivale a dizer «os miúdos». O autor do relatório defende que «o uso genérico do masculino para designar os dois géneros está muito enraizado no sistema gramatical espanhol» e que não faz sentido «forçar as estruturas linguísticas». E foi aprovado por unanimidade pelos membros da Academia, da qual fazem parte muuuuuuuuuitos escritores. Então, aqui no blogue, quando eu falar de Extraordinários, não estou a omitir as mulheres, certo?

30
Out17

Influência e influências

Maria do Rosário Pedreira

Numa recente entrevista ao vivo conduzida pela jornalista Isabel Lucas na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, o grande romancista norte-americano Jonathan Franzen «pediu» para não responder a uma pergunta sobre os autores que mais o influenciaram. Essa pergunta é sempre incómoda para um escritor (e também para os escritores que não cita e ainda estão vivos e gostariam de ter influenciado os mais novos); incómoda porque talvez um crítico a sério perceba melhor quais são as influências de um escritor do que ele próprio (por vezes, até as inventam – como quando disseram que a minha poesia era claramente influenciada por um livro que nunca li). Contudo, o mesmo Jonathan Franzen, numa entrevista ao The Guardian, confessou que a obra que certamente teve mais influência na circunstância de se tornar escritor (atentem na nuance, pois não é a mesma coisa que Isabel Lucas lhe perguntou em Lisboa) era As Crónicas de Narnia, essa série juvenil do britânico C. S. Lewis que vendeu mais de 100 milhões de exemplares em todo o mundo e na qual as crianças entram num guarda-fatos e saem do outro lado num mundo mágico. Aí convivem com feiticeiras boas e más, animais humanizados, criaturas míticas, estrelas, anões e sei lá que mais. Embora durante muitos anos esta colecção de aventuras fantásticas tenha parecido a muitos uma obra menor, a verdade é que levanta questões muito interessantes e tem um leque de personagens capaz de fazer qualquer jovem querer ser outra pessoa – ou, como no caso de Franzen, querer ser escritor. Nesta perspectiva, o poeta que mais me influenciou a escrever poesia foi seguramente João de Deus – mas isso não tem nada que ver com as outras influências de que ela provavelmente sofre.

27
Out17

Descobertas

Maria do Rosário Pedreira

No ano passado (ou no anterior, já não sei muito bem) fui a Coimbra à Casa da Escrita participar numa apresentação da minha Poesia Reunida por uma investigadora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Teresa Carvalho. Não a conhecia até então, mas passei a estar mais atenta ao seu nome e descobri que não só escrevia regularmente artigos sobre literatura portuguesa ou recensões na imprensa como também era presença regular em festivais na qualidade de entrevistadora e apresentadora de autores. Ontem, muito por acaso, à procura de um livro de que precisava e já não sabia onde tinha metido, descobri uma edição da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) de uma obra intitulada 55 Vidas e Obras de Grandes Autores Portugueses, assinada justamente por Teresa Carvalho (a edição já tem uns cinco anos), obra que lhe foi encomendada na sequência de uma exposição (A Celebração dos Autores) na qual a SPA homenageava cerca de quatro dezenas de autores portugueses, todos eles membros daquela Sociedade. A colecção de olhares sobre as figuras inclui nomes como Alexandre O'Neill ou Aquilino Ribeiro, David Mourão-Ferreira ou Eugénio de Andrade, António Botto ou Fernando Namora. Mas os autores não são apenas escritores, e constam do volume nomes de criadores como o de António Variações ou Frederico de Brito (um homem do fado), Mário Viegas ou Viana da Mota, Carlos Paredes ou Jorge Peixinho… e, por exemplo, alguns menos óbvios como Humberto Delgado e Ribeirinho. Enfim, vou espreitar. Não sei se só os membros da SPA tiveram direito a um exemplar, mas tenho sorte de ter sido uma feliz contemplada.

26
Out17

Escândalo

Maria do Rosário Pedreira

Por causa de alguém que pôs no Facebook um artigo sobre os ghost writers portugueses (aqui, se lhe apetecer ler ou reler: http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-05-08-Os-fantasmas-que-escrevem-os-livros-dos-famosos), lembrei-me de uma história que há uns anos se passou em Espanha e que fala dos riscos de recorrer a alguém assim, que não assina o livro que escreve (além, claro, de a pessoa poder abrir o bico e contar a verdade). Uma senhora da socialite quis por força escrever um desses romances cor-de-rosa moderninhos e contratou um ghost writer que, por acaso, era o próprio cunhado. Só que o jeitoso nem escritor-fantasma foi porque, na verdade, praticamente não escreveu uma linha: retirou parágrafos de variadíssimas obras já publicadas (entre elas, muitos romances da prolixa autora norte-americana Danielle Steel) e construiu um mosaico ao qual só foi necessário acrescentar as ligações (confesso que deve ter sido preciso talento para construir uma história a partir do já feito). Ignorante de tal procedimento, a autora (?) famosa convidou a mulher de José María Aznar, então primeiro-ministro, para lhe apresentar o livro, o que aconteceu. O pior foi o vexame para ambas quando uma leitora aficionada da senhora Steel começou a perceber que já lera aquilo em qualquer lado e resolveu denunciar a situação. Suponho que a senhora não mais dirigiu a palavra ao cunhado… E a editora teve de tirar o livro das lojas imediatamente. A senhora Aznar, acredito, nunca mais aceitou apresentar um livro.

25
Out17

Livros em viagem

Maria do Rosário Pedreira

Hoje, quando pensamos em militares, mais depressa os associamos a actividades físicas do que a intelectuais. Haverá de tudo, evidentemente. No entanto, entre militares famosos de outros tempos estiveram cabeças muito bem-pensantes, grandes estrategas e gente muito lida. Napoleão, segundo alguns dos seus biógrafos, fazia-se sempre acompanhar de um certo número de livros favoritos para onde quer que fosse. E parece que até concebeu os desenhos de bibliotecas portáteis que acabaram fazendo parte da sua bagagem corrente. Leio esta informação no blogue do escritor e ilustrador Austin Kleon (https://austinkleon.com/about/) que, por sua vez,  a divulga a partir das declarações de Louis Barbier, bibliotecário do Louvre durante muitos anos e cujo pai foi o bibliotecário do próprio Napoleão. Conta ele que essas bibliotecas eram uma espécie de caixas com prateleiras dentro, que comportavam cerca de 60 volumes. Feitas inicialmente de mogno, passaram depois a ser de carvalho, por ser uma madeira mais resistente. O interior era forrado a veludo ou cabedal verde e os livros encadernados a pele. Cada um destes «estojos» tinha o respectivo catálogo, que mencionava o número de cada obra para que não se perdesse tempo à procura de um livro. Havia, porém, alguns títulos que Napoleão gostaria de consultar nas suas viagens que não constavam destas bibliotecas por serem demasiado volumosos; então, ele escreveu ao senhor Barbier-pai, encomendando uma biblioteca de 1000 títulos!, na qual os livros, compostos numa letra bonita, fossem impressos sem margens e com capas moles e flexíveis para poupar espaço, abarcando poesia, ensaio, teatro, ficção, religião, história e muito mais. Militares leitores destes já não há...

 

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24
Out17

Sprechen Sie Deutsch?

Maria do Rosário Pedreira

Há exactamente vinte anos, neste mesmo mês de Outubro, mas em 1997, Portugal era o convidado de honra da Feira Internacional do Livro de Frankfurt (FILF), o mais importante certame à roda do livro e da venda de direitos de autor em todo o mundo. Era então primeiro-ministro o engenheiro António Guterres e ministro da Cultura o professor Manuel Maria Carrilho, mas quem liderava a equipa (à qual me orgulho de ter pertencido) e produzia o programa de festas era o escritor e gestor cultural António Mega Ferreira (e na Alemanha trabalhavam também para o evento o livreiro Teo Mesquita e a agente literária Ray-Güde Mertin, então agente de Saramago). A operação, que incluiu actividades espalhadas por toda a cidade de Frankfurt – teatros, museus, bibliotecas, etc. – visou não apenas a literatura (estiverem lá, evidentemente, dezenas de escritores em mesas-redondas e leituras), mas exposições de pintura, arquitectura e fotografia, concertos de música popular e erudita, espectáculos de dança e uma mostra de cinema. Foi uma presença extraordinariamente bem-sucedida e, durante os anos que se seguiram, Portugal esteve mesmo na mó de cima em termos de festivais literários e prémios (o Nobel veio no ano imediatamente a seguir), tendo sido convidado de honra em Paris, em Genebra e no Rio de Janeiro, pelo menos. Para comemorar os 20 anos de Portugal como país-tema da FILF, Jochen  Nix vai falar e ler Pessoa & heterónimos na Casa Fernando Pessoa logo mais à tarde e  amanhã ler passagens de O Ano da Morte de Ricardo Reis na Fundação Saramago. Em alemão. A programação vai abaixo, em português.

 

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23
Out17

Desdizer

Maria do Rosário Pedreira

Aprendi muito sobre paradoxos no início da minha carreira editorial por trabalhar numa editora que então se dedicava à divulgação científica e ter lido os livros divertidos de Martin Gardner com capítulos sobre paradoxos, círculos viciosos e outras matérias aliciantes. Lembro-me, por exemplo, da história de um viajante que chega a uma cidade em cuja rua principal há dois barbeiros: um com o cabelo muito bem cortado, o outro com o cabelo numa desgraça. Como precisa de cortar o cabelo, o viajante não hesita em escolher o primeiro. Mas faz mal. Porquê? Ora, porque as pessoas raramente cortam o cabelo a si próprias! Recordo também o paradoxo do mentiroso, que vou parafrasear. Alguém escreve um cartaz que diz: «Todos os lisboetas são mentirosos.» Mas, se quem escreve a frase é um lisboeta, em que ficamos? Giro, não é? Lembrei-me disto a propósito de duas palavras muito portuguesinhas que, portadoras do prefixo «-des» (como em «destruir» ou «desleal») deveriam significar o contrário de uma coisa, mas, paradoxalmente, não significam senão essa mesmíssima coisa. São elas «desandar» (quando dizemos a uma pessoa que desande, o que queremos é que ande, e depressinha, para longe de nós) e «deslargar» (nunca esqueci a Maria Vieira num programa do Hermann José a agarrar  as mãos de um tipo ao seu lado e a apalpar-se com elas, dizendo: «Deslarga-me! Deslarga-me!»). Enfim, hoje era isto que vinha aqui dizer e agora ocorreu-me que «desdizer» também não é ficar calado.

20
Out17

A manta do tempo

Maria do Rosário Pedreira

A terrível velocidade dos tempos que correm (eu até disse «correm») é, na verdade, bastante recente. Talvez os miúdos de hoje já nasçam acelerados, mas quem nasceu antes da invenção dos computadores e dos telemóveis sente que o mundo avança de forma vertiginosa e fica muito stressado (o meu caso). É bastante curioso que no livro que aqui me traz hoje – Num Tempo Que Já Lá Vai, escrito por Rosário Alçada Araújo e ilustrado por Patrícia Furtado – seja a Laura, uma menina, a notar que as coisas estão a andar demasiado depressa e que não devem ter sido sempre assim. Pergunta à avó, que a leva à escola, como era no seu tempo – e essa pergunta inaugura uma bonita história com uma manta tricotada que, ao desfazer-se de volta ao novelo, fala de tempos que já lá vão, quando a trisavó de Laura ainda era viva e o padeiro trazia o pão à porta, havia pregões, varinas, ardinas, bacios de louça, relógios de dar corda, ferros a carvão e muito mais coisas que entretanto se tornaram obsoletas e inúteis. Mas não é um livro saudosista, pelo contrário, nele guarda-se o passado como relíquia mas ensina-se que todos os tempos têm coisas boas e más e, sobretudo, pessoas que vivem, trabalham, conversam, amam – tal como avó e neta nesta história. A edição é da Gailivro e o lançamento é amanhã, ao meio-dia, na Livraria Buchholz, em Lisboa.

19
Out17

Soma e segue

Maria do Rosário Pedreira

Há uma expressão popular divertida («Cada tiro, cada melro») que hoje faz todo o sentido ser aqui usada. Na manhã de ontem, soube-se que Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho, era uma das dez obras finalistas do Prémio Oceanos no Brasil. À tarde, porém, veio uma notícia ainda melhor: a obra vencera o Grande Prémio de Romance e Novela da APE-DGLAB! Lembro aqui os leitores do blogue que Ana Margarida já tinha ganho o mesmo prémio com o seu primeiro romance, Que Importa a Fúria do Mar, e agora repetiu a proeza, sendo que só seis escritores em 35 anos o conseguiram: Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes e Mário Cláudio; Agustina Bessa-Luís, Maria Gabriela Llansol e agora ela própria! Nenhum deles, contudo, com duas obras seguidas. O júri, constituído por José Correia Tavares, que presidiu, Isabel Cristina Rodrigues, José Carlos Seabra Pereira, Luís Mourão, Paula Mendes Coelho e Teresa Carvalho, deliberou por maioria, pois Luís Mourão votou em A Gorda, de Isabela Figueiredo (um romance publicado pelo meu colega Zeferino Coelho, da Caminho, de que também gostei muito). Neste ano, concorreram 93 livros, dos quais 60 eram de homens (2 deles eram produtivos: tinham 2 romances) e 31 eram de mulheres, publicados por 44 editoras. Parabéns, Ana Margarida de Carvalho! Agora é esperar pelo Prémio Oceanos e ver o que dá.

 

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