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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

24
Nov17

Confissões

Maria do Rosário Pedreira

João Morales não pára e há três anos consecutivos que organiza a actividade Confesso Que Li com o apoio da Câmara Municipal de Almada. A sessão contempla sempre uma entrevista feita pelo jornalista a uma personalidade mais ou menos conhecida do público (em Setembro, por exemplo, foi dedicada às leituras do compositor Tozé Brito) que traz consigo alguns livros (ou os títulos) que permitam falar acerca do seu passado, das suas escolhas, recordações, percurso pessoal e profissional. É já amanha, às 16h30, que tem lugar a terceira sessão da edição de 2017, cujo convidado será o curador e crítico de arte Delfim Sardo, também autor de vários livros, que foi – entre outras coisas – curador da Trienal da Arquitectura de Lisboa e colaborou com a Fundação Calouste Gulbenkian, o Centro Cultural de Belém ou a Culturgest, à qual ainda está hoje ligado. Desta vez, a conversa decorre na Biblioteca José Saramago, no Feijó. Se quer saber o que leu (e lê) Delfim Sardo, a entrada é livre.

23
Nov17

Aniversário

Maria do Rosário Pedreira

Falo muitas vezes aqui das Quintas de Leitura do Teatro de Campo Alegre, no Porto, mas existem outras, as 5.as, assim escritas, que acontecem na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz uma vez por mês (à quinta, claro), depois do jantar, e que festejam agora o seu oitavo aniversário. Já lá estive com imensos autores: João Ricardo Pedro, Paulo Moreiras, Ana Margarida de Carvalho, Nuno Camarneiro, Gabriela Ruivo Trindade, Afonso Reis Cabral e muitos outros, assistindo e acompanhando boas conversas com o público; e hoje, no âmbito das festividades, participo numa sessão com a presença dos escritores Mário Cláudio e João de Melo, ambos publicados pela chancela da Dom Quixote, que, embora vivendo longe um do outro, são amigos há muito tempo e têm uma afinidade difícil de encontrar em autores consagrados: gostam de ler livros de autores mais jovens e acompanhar a cena editorial nacional (são, aliás, muito requisitados por principiantes para lerem as suas obras). O presidente da Câmara da Figueira da Foz dá as boas-vindas e modera a conversa. Mas o público terá certamente muita coisa para perguntar. Se estiver, pois, para aqueles lados, apareça e venha trocar ideias connosco.

 

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22
Nov17

Uma centena

Maria do Rosário Pedreira

Adoro organizar antologias e percebi isso há relativamente pouco tempo, quando me convidaram para antologiar os poetas eruditos que escreveram para fado ou a quem os fadistas roubaram poemas que transformaram em letras (às vezes com um nadinha de liberdade a mais). Mas, se me pedissem para reunir num volume os autores ou textos de que mais gostasse, ui, acho que ficaria uma eternidade a pensar e dificilmente conseguiria decidir. Admiro por isso o jornalista José Mário Silva, o responsável pela secção de livros no seminário Expresso, ao juntar num mesmo volume Os (seus) Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos (a editora é a Companhia das Letras), que abrangem Pessoa, Sophia ou Herberto, evidentemente, mas também Inês Dias, Matilde Campilho ou Rosa Oliveira, poetas que começaram há menos tempo. No prefácio, ele admite que o livro não é senão a sua escolha pessoal – e, como tal, subjectiva – mas claro que no Facebook já houve quem discutisse presenças e ausências, como se o livro afinal devesse ser um desses tesouros da literatura que antes se publicavam e que contemplavam quase sempre os mesmos batidíssimos versos. Neste livro, admito que muita gente que habitualmente não lê poesia, levada pelo «melhores» do título, vá pela primeira vez ler muitos dos autores (Jorge Sousa Braga, Daniel Faria, Luís Quintais, Miguel-Manso, eu?…) e se interesse por algum, começando a comprar os seus livros. Mas para outros leitores, como eu, o divertimento está sobretudo em ver o que faríamos diferente na escolha dos nomes e dos poemas. Provavelmente, quase tudo… Bem, se quer uma amostra da poesia que se escreve de há um século para cá, aqui tem um bom ponto de partida.

21
Nov17

O medo e outras histórias

Maria do Rosário Pedreira

Não costumo ler biografias, menos ainda de vivos (talvez prefira a ficção à realidade), mas deitei a mão uma destas noites a um livro que acaba de ser publicado pela Bertrand – De Que Cor É o Medo, assinado pela jornalista Sílvia de Oliveira, que é uma biografia autorizada de Paulo Teixeira Pinto. A maioria das pessoas conhece-o como o banqueiro do BCP, mas eu gosto mais de o referenciar como ex-editor da Babel e ex-presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, pois foi nessas funções que o conheci pessoalmente, embora o pudesse mencionar também como artista, pois ele teve a generosidade de, há uns anos, nos oferecer um quadro da sua autoria que está na parede maior da nossa casa da Ericeira. Foi, aliás, para saber o que acontecerá realmente à Babel (hoje em decadência absoluta) que abri o livro e o folheei, mas não resisti a investigar igualmente o que sente alguém que descobre numa consulta de rotina que tem Parkinson (e que contempla a possibilidade da eutanásia se um dia se tornar apenas um fardo para os outros); ou como se sobrevive à morte súbita de um filho de 22 anos que não estava doente, sobretudo quando a autópsia é inconclusiva (um filho que era uma espécie de «santo» nas palavras do pai); ou como, depois de se pertencer durante anos a uma instituição como a Opus Dei, se deixa de acreditar em Deus da noite para o dia. O livro não é profundo, fala destas e de outras coisas um pouco ao de leve, pela rama, mas se calhar, para o biografado falar, a condição era capaz de ser não ir muito ao fundo das questões. A capa é que é mesmo esquisita: Paulo Teixeira Pinto parece estar a assustar-nos… e ele, ao que sei e percebo por este livro, é tudo menos agressivo. Escreve o prefácio Pedro Abrunhosa.

20
Nov17

Em Timor

Maria do Rosário Pedreira

Recebi um convite para ir à estreia do novo filme de Luís Filipe Rocha, intitulado Rosas de Ermera; e, como gosto muito do realizador e do seu cinema, não pude faltar. Não era um filme de ficção, como os que vi dele, mas um filme de não-ficção em torno da família de Zeca Afonso, narrado, aliás, pelo seu irmão mais velho (João Afonso dos Santos, com cerca de noventa anos) e a sua irmã mais nova (Mariazinha, a que cheirou as rosas de Ermera, com mais de oitenta). Mas não pensem que é um filme sobre a carreira do Zeca, pois não tem que ver com isso, mas com a separação da família no final dos anos 1930: vivendo em Lourenço Marques, o pai – que era juiz – concorreu a um lugar em Timor. Como no sítio para onde ia, Lahane, não havia liceu, os dois rapazes vieram estudar para Coimbra, e a menina, ainda na escola primária, acompanhou os pais. Ora, quando rebentou a Segunda Guerra Mundial, a ilha de Timor foi invadida por tropas japonesas – e Mariazinha e os pais ficaram impossibilitados de comunicar com o exterior, pelo que durante vários anos João e Zeca não souberam deles e puseram mesmo a hipótese de se terem tornado órfãos. Conhecia mal esta história da ocupação japonesa de Timor e a forma como uma coluna de timorenses se aliou aos japoneses contra o colonizador português. O filme é maravilhoso também pelos seus protagonistas e narradores; mas, como vai fazer itinerância pelo País, vejam se não o perdem nas vossas cidades e, entretanto leiam o livro de João Afonso dos Santos sobre o mesmo assunto, O Último dos Colonos. Às vezes, a realidade supera a ficção.

17
Nov17

Desassossego

Maria do Rosário Pedreira

Ui, esta palavra tem muitos SS e quem anda aos SS anda desassossegado. Ontem começaram em Lisboa os Dias do Desassossego de 2017, esse período do ano em que as ruas da capital se enchem de música, leituras, oficinas, exposições e muito mais à roda da obra de Fernando Pessoa e José Saramago (e não só). A festa decorre até final do mês e, já este fim de semana, estão previstos pelas dez da manhã passeios literários dedicados aos dois escritores, Lisboa de Fernando Pessoa e José Saramago e o Memorial do Convento. No sábado, para quem tiver filhos, a Fundação José Saramago organiza uma oficina de «postais desassossegados» e, para os mais velhos, o lançamento de um livro com 145 poemas de Kavafis, traduzidos do grego por Manuel Resende. E, na semana que vem, há concerto no Teatro Municipal S. Luiz, uma aula, uma conferência, teatro, mesas-redondas, arte urbana... Enfim, o suficiente para nos desassossegar até dia 30, dia em que a Casa Fernando Pessoa faz vinte e quatro anos! Ufa!

 

O programa completo aqui: http://diasdodesassossego.org

 

16
Nov17

O que vamos ler em 2018

Maria do Rosário Pedreira

Não, não pensem que sei mais do que devia e que vou aqui apresentar uma lista de títulos que serão publicados no ano que vem por muitas editoras. Na verdade, trata-se apenas do título de uma sessão à volta de livros que ocorrerá esta tarde no Museu da Farmácia em Lisboa e para a qual a entrada é livre. Numa mesa em que estarei acompanhada pelo Manel (Porto Editora), por Diogo Madre Deus (Cavalo de Ferro), Francisco Vale (Relógio d'Água), Bárbara Bulhosa (Tinta-da-Chuna) e mais algumas pessoas, contaremos com a moderação do jornalista Luís Caetano para falar de muitos assuntos, tais como a vida dos editores e dos críticos literários, a apresentação de algumas novidades ao público presente (presumo que também estejam farmacêuticos que gostem de ler) e um cheirinho do que vai ser o ano de 2018. Antes ainda de o debate se abrir ao público, teremos tempo para escolher um livro de outro editor, ali presente ou não. É logo às 18h00 num lugar mágico e contamos com a sua presença!

 

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15
Nov17

A noite não é eterna

Maria do Rosário Pedreira

Depois de várias nomeações com o seu romance anterior, Cristina Silva foi este ano galardoada com o Prémio Fernando Namora da Estoril Sol pelo seu romance mais recente, A Noite não É Eterna, cuja acção decorre nos anos de chumbo da Roménia, sob o jugo do ditador Nicolae Ceausescu, com a população enfraquecida pela fome e dominada pelo terror. Seguindo as orientações do Presidente para a criação de um exército no qual os soldados são treinados desde crianças, Paul, um ambicioso funcionário do partido, decide levar de casa o filho de três anos e entregá-lo aos cuidados do Estado. Quando a mãe se apercebe do desaparecimento do pequeno Drago, a culpa e o desgosto já não a abandonarão, bem como o firme desejo de acabar com a vida do marido. Correndo riscos tremendos, Nadia não desistirá, porém, de procurar o menino, ainda que para isso tenha de forjar uma nova identidade. Mas será que o seu sofrimento pode ser aplacado enquanto Paul for vivo? Enquanto o ditador for vivo? Leia para saber.

 

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14
Nov17

Papões e outras criaturas

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há tempos, num encontro literário que se realiza no Fundão, conheci duas pessoas extraordinárias que vivem em Alcobaça e têm uma pequena editora – a Escafandro. Trata-se da Rita Nabais e do Nuno Matos Valente, ambos professores, ele autor também de alguns livros, nomeadamente  o que aqui me traz hoje: Bestiário Tradicional Português. Conta o Nuno numa entrevista ao Observador que, há uns tempos, se apercebeu de que as criaturas das antigas histórias portuguesas – bruxas, monstros, almas penadas, papões, gigantes, etc. – começaram a perder claramente terreno para o massificado Halloween, por exemplo, que pouco ou nada tem que ver com as nossas tradições. Surgiu-lhe então a ideia de recolher as histórias tradicionais que incluem estas figuras (enquanto há quem se lembre de as ouvir de pais e avós). Fez uma pesquisa ao longo de quatro anos, mergulhando na obra de Leite de Vasconcelos, Alexandre Herculano, Teófilo Braga e muitos outros autores – e também ouvindo relatos em muitas partes deste nosso Portugal, chegando, de resto, à conclusão de que muitas histórias se repetem, mesmo que os nomes das criaturas não sejam sempre os mesmos. E o resultado é então um livro que vai já em segunda edição e agrada tanto a crianças como a adultos. Publicado pela Escafandro e ilustrado por Natacha Costa Pereira.

13
Nov17

Sempre na moda

Maria do Rosário Pedreira

Releio livros e revejo filmes de que gostei muito quando li e vi pela primeira vez, mas que agora me parecem tremendamente datados, e garanto-vos que não é por não haver neles telemóveis ou computadores. É uma coisa que se sente – e até já me aconteceu com autores importantes, como Vergílio Ferreira, ou filmes muito «badalados», como American Gigolo. Mas há autores que, por mais que se vão tornando de nicho, nunca passam de moda – e é o caso de Eça de Queirós (que até se permite ser «continuado» por outras mãos no século XXI) ou Camilo Castelo Branco, que, usando embora linguagem que hoje os jovens acharão decerto rebuscada, permanece profundamente actual, como nesta passagem, em que descreve com primor um «novo-rico»:

 

«No Chiado abjurou um chapéu de molas de merino, e comprou outro de castor, à inglesa. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas da sua vida. No vesti-las arrostou com dificuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo tempo, e ajudou-o na árdua empresa.

Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da inexperiência do sujeito desconhecido. Um deles, confiado na inépcia tolerante do provinciano ou suposto brasileiro, disse, a meia voz, ao outro:

– Quatro pés nunca vestiram luvas.

Calisto encarou nele com sorriso minacíssimo, e disse à luveira:

– As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos.»

 

Pertence a A Queda de Um Anjo. Que maravilha, não é?

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