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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

22
Jan18

Nervosíssimos

Maria do Rosário Pedreira

No último dia 12, saiu uma nova revista chamada Nervo – Colectivo de poesia, que vai ser publicada três vezes por ano, em Janeiro, Maio e Setembro, para ficarmos nervosíssimos enquanto esperamos pelo próximo número. O seu objectivo é divulgar a poesia contemporânea, cruzando autores de várias gerações sem os hierarquizar e mostrando o que alguns andam a escrever, combinando estilos distintos e linguagens poéticas pessoais numa revista colectiva. (A Nervo projecta ainda a descoberta de novas vozes e recebe naturalmente textos para avaliação e eventual publicação.) Além dos poetas portugueses, haverá uma secção de poesia de autores estrangeiros (dos PALOP e de outros sítios), estando, neste primeiro número, representados os seguintes países: Brasil, Moçambique, Costa Rica, Índia e Eslováquia. Mais informações no link abaixo:

nervo.colectivodepoesia@gmail.com

19
Jan18

Com ou sem história

Maria do Rosário Pedreira

No ano passado, o programa da Câmara de Lisboa que classifica alguns estabelecimentos da capital como estabelecimentos com história (desde luvarias a lojas de velas e  ferragens) passou a incluir a Livraria Aillaud & Lellos, na movimentada Rua do Carmo, aberta ao público desde 1931 e com clientes certos há décadas – sobretudo desde que o comércio de livros se massificou e, com ele, se deteriorou o atendimento ao público. Mas, como já tinha infelizmente acontecido com a Livraria Portugal (e Pacheco Pereira escreveu na altura sobre o assunto um belo artigo), a Aillaud & Lellos fechou portas no dia 29 de Dezembro de 2017, mesmo sendo uma «loja com história», porque não era simplesmente possível suportar o aumento da renda… Pois bem, acabo de saber que fechou também a Livraria Bulhosa do Centro Comercial das Amoreiras e caíram-me os queixos, pois tinha ideia de que era um estabelecimento que vendia muitos livros e dava dinheiro aos proprietários (talvez a renda tenha também aumentado para lá do imaginável, já não digo nada). Com ou sem história, a verdade é que as livrarias estão todas a fechar. Dizem-me que as FNAC estão já a pensar vender electrodomésticos grandes, máquinas de lavar e frigoríficos... Para onde irão os livros quando isso acontecer?

 

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18
Jan18

Ricos e pobres

Maria do Rosário Pedreira

Estamos sempre a ler que o fosso entre ricos e pobres está cada vez maior – e que oito ou nove pessoas no mundo têm o mesmo que todas as outras juntas. Uma situação terrível, claro, mas que tem bases muito antigas… Digo isto por causa de uma notícia deliciosa sobre a recente aquisição de uma lista de compras da rainha Carlota Joaquina, mulher de D. João VI, para o espólio do Palácio Nacional de Queluz. A lista de coisas a comprar em Paris para a família real (ao que parece orientada pela baronesa Ardisson, uma vez que os reis estão no Brasil por causa das Invasões Francesas) inclui roupa, calçado, jóias e acessórios de moda (meias, luvas, etc.) nos mais importantes retalhistas parisienses e tem… não se riam… 71 páginas! Só lenços de mão são para cima de 500, sem esquecer os milhentos leques em marfim, que no Brasil farão certamente falta à rainha para se abanar a toda a hora, dado o calor. Em 1816 – data da lista de compras – o fosso entre pobres e ricos, digo eu, também era grandinho… O rol manuscrito fazia parte de uma colecção privada inglesa e foi leiloado pela famosa Sotheby’s. Não faço ideia de quanto custou, mas talvez menos do que as compras de Carlota Joaquina…

17
Jan18

Ler com companhia

Maria do Rosário Pedreira

Como alguns que vêm a este blogue deverão lembrar-se, porque o referi pouco depois da sua morte, David Bowie era um grande leitor e terá inclusivamente publicado a lista dos seus cem livros preferidos em 2013 e afirmando numa entrevista que, se não tivesse sido músico, provavelmente teria escrito romances. O seu filho, o cineasta Duncan Jones, sente-se agora quase no dever de cumprir a maratona de ler esses cem livros (ou os que conseguir, vá lá), mas não lhe apetece fazê-lo sozinho e, como tal, teve a ideia de fundar uma espécie de «clube de leitura de David Bowie» que, não se sabendo ainda exactamente como vai funcionar, terá de certezinha muitíssimos adeptos e quiçá levará muitos fracos leitores a interessarem-se por autores que não conhecem e livros que, de outro modo, provavelmente nunca leriam. É uma bela homenagem de um filho a um pai que, ainda por cima, pode ajudar pessoas em todo o mundo a encontrar o prazer de ler ou a descoberta de um escritor. Uma boa ideia.

16
Jan18

Ambiente propício

Maria do Rosário Pedreira

As salas de aulas do 1º Ciclo do Ensino Básico passarão, no Município de Leiria, a ter espaços de leitura – se as escolas, claro, assim o entenderem e quiserem aderir ao projecto. E, se quiserem, a Câmara propõe oferecer-lhes uma estante, um tapete, 15 livros, um sofá, um conjunto de almofadas e sabe-se lá o que mais que possa tornar esse espaço convidativo para as crianças (por acaso, até se sabe, e é um tablet, rrrr). Segundo leio no Público, que divulga a notícia, a ideia é colocar a promoção da leitura no centro dos esforços da escola primária, criando para isso um ambiente favorável dentro do próprio lugar de aprendizagem. Supostamente, as escolas candidatar-se-ão a esta «renovação de mobiliário» (estou  brincar, mas nunca se sabe) e quinze serão contempladas. Esperemos que essas candidaturas venham de facto de professores motivados e amantes dos livros. Porque, por mais ambiente que exista, se os professores não interagirem com as crianças no momento da leitura nem criarem rotinas nas suas aulas, de nada servirá um tapete felpudo, um sofá confortável ou meia dúzia de coxins. O tablet, esse, será certamente muito utilizado… Em todo o caso, parabéns a Leiria.

15
Jan18

Capas

Maria do Rosário Pedreira

Não há dúvida de que uma pessoa que se apresenta lavada e arranjadinha convoca mais facilmente a simpatia dos outros do que um balda sujinho e com a fralda de fora. Com os livros passa-se o mesmo – e a capa é uma peça importantíssima para captar a atenção do leitor. Mas o marketing ultrapassou há muito o poder da (mera) arte e, infelizmente, as capas foram-se tornando nesta última década perigosamente pobres e semelhantes entre si, já não sendo possível a partir delas compreender muitas vezes o teor do recheio. Mesmo assim, o director de arte do The New York Times selecciona anualmente as capas que acha as mais bonitas ou as melhores em termos gráficos – e são essas que hoje vos mostro no link abaixo. A capa da tradução de O Livro de Desassossego, do heterónimo pessoano, está entre elas. Vale a pena ver.

 

https://www.nytimes.com/interactive/2017/books/review/best-covers.html?smid=fb-share

12
Jan18

Ouvir os mestres

Maria do Rosário Pedreira

Anabela Mota Ribeiro anuncia-se de novo imparável; e promete para 2018 continuar a coordenar as sessões Ler no Chiado, uma nova leva de emissões do programa Curso de Cultura Geral na RTP 2 e ainda, um domingo por mês, no CCB, o ciclo (Quase) Toda Uma Vida, que nos traz os mais sábios de todos, os mais velhos. No domingo, estará, de resto, a conversar com o historiador António Borges Coelho, um homem nascido em Trás-os-Montes que admiro muito (esteve preso seis anos no Forte de Peniche no tempo do fascismo) e que, depois de uma longa carreira universitária (era professor na Faculdade de Letras de Lisboa quando eu lá andava e foi até professor de um dos meus irmãos), decidiu começar a escrever uma História de Portugal – e sozinho! – aos 80 anos, mais coisa menos coisa, que está a sair com a chancela da Caminho  e da qual já estão disponíveis seis volumes (caramba!). Portanto, se puder ir ouvir este grande senhor, a conversa promete e de certeza que aprende muita coisa.

11
Jan18

Lugar para os novos

Maria do Rosário Pedreira

Fico muitas vezes com a sensação de que determinadas pessoas, chegadas a uma certa idade, perdem a coragem para experimentar autores novinhos em folha e guardam o resto da sua vida para os clássicos (que não comportam assim tantos riscos). Por um lado, percebo-as. Mas, por outro, também saúdo as escolas de Escrita Criativa que recorrem frequentemente a novos talentos e os convidam a partilhar o espaço de uma aula com potenciais futuros autores ou gente que, simplesmente, quer aprender umas dicas para escrever melhor. Neste mês de Janeiro, a EC.ON, de que aqui já falei de outras vezes, recebeu Afonso Cruz para falar da sua obra, em especial do livro Jalan Jalan – Uma Leitura do Mundo, no dia 6; e no próximo dia 20 será a vez de Ana Margarida de Carvalho ir trocar impressões com os «alunos» a respeito do seu livro de contos, Pequenos Delírios Domésticos, recentemente publicado, e dos seus dois romances premiados. Daqui a dois meses, no dia 10 de Março, também João Ricardo Pedro irá falar do seu romance Um Postal de Detroit, que se seguiu ao aplaudidíssimo Prémio LeYa. Haja lugar para os novos.

 

P.S. Mais uma vez, peço moderação nos vossos comentários. Ontem isto parecia, como dantes se dizia, uma «peixeirada». Pensem só duas vezes antes de escrever. De contrário, passarei a apagar os comentários que considerar ofensivos. Não sujem a sala de estar. Obrigada.

10
Jan18

As palavras e os actos

Maria do Rosário Pedreira

A Sociedade Portuguesa de Autores vai organizar um ciclo de conferências neste primeiro semestre de 2018, «para reflectir sobre as palavras e os actos que moldam e impulsionam algumas das grandes questões que se colocam na actualidade». As figuras convidadas a dirigir ao público as suas ideias são todas pessoas conhecidas, seja na área política como na cultural ou académica. Ana Gomes, Manuel Maria Carrilho, Francisco Seixas da Costa, José Barata-Moura, Pacheco Pereira e Viriato Soromenho Marques são alguns dos conferencistas convidados para partilharem, um em cada mês, as suas reflexões sobre a cultura, a política, o desenvolvimento das tecnologias e o papel das palavras e dos actos na «comunicação», que é, digo eu, uma das palavras mais importantes deste século XXI. Oportunamente será tornado público o calendário das conferências. Fiquemos, pois, atentos.

09
Jan18

A magia de aprender

Maria do Rosário Pedreira

Descobrem-se coisas muito interessantes no Facebook (esta foi via Maria Sequeira Mendes, professora universitária e amiga que trabalhou comigo na Temas e Debates enquanto fazia o mestrado), entre elas que «aprender» está seguramente ligado, pelo menos em termos etimológicos, a uma certa ideia de magia ou encantamento. Senão, vejamos: a palavra portuguesa «grimório» (acredito que desconhecida de muitos) diz respeito a uma espécie de manual de magia, uma colectânea medieval de feitiços, amuletos, cartas astrológicas, mezinhas para lançar conjuros, listas de anjos e demónios e muito mais. Ora, «grimório» vem do francês antigo «gramarye», que significava «aprender» e que não só deu origem a palavras como «grammaire» (gramática), mas também a essa expressão actualmente usada e abusada que é «glamour» (e que, na base, quer dizer justamento feitiço ou encantamento). Por isso, não sei realmente porque tantos resistem à leitura e à aprendizagem: não só descobrir coisas novas é um coisa verdadeiramente mágica, mas também glamorosa. Abaixo, segue um link sobre os grimórios mais conhecidos, entre os quais se encontra o Livro de S. Cipriano.

 

https://www.theguardian.com/books/2009/apr/08/history

 

grimorio-dark-star-frete-gratis-livrodassombras.jp

 

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