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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Fev18

Pensamento emocional

Maria do Rosário Pedreira

«O dia não corre melhor se, antes de sairmos de casa, alguém nos disser umas palavras simpáticas?» Era assim que começava uma pequenina coluna do jornal Público a propósito de um encontro sobre «pensamento emocional» e a importância de trabalhar as emoções com os alunos, especialmente se oriundos de meios desfavorecidos e violentos, antes de tentar o evidentemente difícil sucesso escolar. Os professores de algumas escolas reuniram-se para trocarem ideias sobre a matéria, e uma das intervenientes – professora num agrupamento em TEIP (ou seja, Território Educativo de Intervenção Prioritária – as coisas que eu aprendo) – explica que trabalha com pessoas excepcionais e que numa escola problemática o campeão de kickboxing, filho de uma cigana e de um negro, Miguel Reis, dá aulas à miudagem e ensina a trabalhar as emoções de forma física (provavelmente, a libertar a agressividade desportivamente, e não em cima do colega do lado). Não conheço os resultados práticos deste trabalho, mas parece-me que, se as pessoas estiverem de facto mais contentes consigo mesmas, terão mais sucesso, na escola e no trabalho. Não devia era ser preciso debater isto, mas, enfim, sabemos como os problemas de indisciplina se têm multiplicado nas escolas e, por isso, não deve ser fácil aos professores e auxiliares educativos andarem a fazer elogios a alunos  que, provavelmente, preferiam ver pelas costas. Mesmo assim, é bom termos isto sempre presente: uma palavrinha simpática para o outro todos os dias vai fazer dele uma pessoa melhor. E de nós também.

15
Fev18

Pessoa em Madrid

Maria do Rosário Pedreira

Parece que o grande Fernando nunca terá ido a Madrid, mas Madrid agora tem Fernando e muito mais para mostrar. Trata-se de uma exposição no Museu Reina Sofía intitulada  Pessoa. Toda a Arte É Uma Forma de Literatura, título, de resto, arrancado a um dos heterónimos do mestre, desta feita o meu preferido, Álvaro de Campos. Sabe-se que os espanhóis (pelo menos, os mais cultos) conhecem a poesia de Pessoa, mas não estarão tão familiarizados com os artistas seus contemporâneos, alguns dos quais amigos próximos do escritor ou figuras presentes nas tertúlias do Martinho da Arcada e da Brasileira. Ao que sei, a exposição recebe os visitantes à entrada com o famoso retrato de Pessoa por Almada Negreiros, que também é autor de quadros sobre os três heterónimos mais conhecidos. E não faltará o grandíssimo artista Amadeo de Souza-Cardoso, ou as obras de António Carneiro, Abel Manta, Eduardo Viana, Mário Eloy, Júlio, Santa-Rita Pintor e, bem entendido, o casal Delaunay. Tudo combinado com os desenhos e as cartas de Teixeira de Pascoes, as outras cartas (astrais) do próprio Pessoa, fotografias do poeta e capas das famosas revistas para as quais escreveu que, por vezes, são outras obras de arte. O Museu espera, naturalmente, um público maioritariamente espanhol, mas parece-me que não faltarão portugueses para a visitar, assim o tempo e as finanças permitam.

14
Fev18

A arte da vida

Maria do Rosário Pedreira

Sinto-me sempre feliz quando mergulho num livro de um jovem autor e descubro nele coisas que, apesar de séculos de escrita, cheiram a novo. Desta vez passou-se com a argentina María Gainza, cujo O Nervo Ótico, muito elogiado por Vila-Matas, está desde ontem à venda. María Gainza é, na origem, crítica de arte e, quando escreve no seu romance sobre as vidas incríveis de El Greco, Courbet, Fujjita ou Toulouse-Lautrec, sobre o banquete que Picasso ofereceu em honra de Henri Rousseau entre a admiração e a troça, ou sobre as misteriosas razões por que Rothko se recusou a entregar ao luxuoso Four Seasons uma encomenda milionária, está também a falar do hospital em que o marido fez quimioterapia e onde uma prostituta andava de quarto em quarto, da decadência da sua própria família em Buenos Aires, do desaparecimento precoce de uma amiga, do desconforto da gravidez ou até do pânico de voar. Como num museu – lugar que, aliás, frequenta regularmente à maneira de uma sala de primeiros-socorros –, a sua vida tem obviamente obras-primas, mas também pequenos quadros escondidos em corredores escuros e estreitos. E, no entanto, todos eles importam. O Nervo Ótico é um livro de olhares: olhares dirigidos a pinturas e a quem as contempla. Singular e inclassificável, celebra o detalhe e inaugura um género literário no qual confluem, de forma absolutamente perfeita, a história da arte e a crónica íntima, num tom que oscila entre a comédia social e a ironia trágica. Traduzido por grandes editoras em todo o mundo, esta pequena obra de estreia, tão depressa ousada como subtil, apresenta-nos sem qualquer dúvida uma grande escritora contemporânea.

 

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12
Fev18

Almas sensíveis

Maria do Rosário Pedreira

Portugal, primeira metade do século XX. Entre os males que assolam um país isolado e retrógrado, a tuberculose ressalta como uma das principais causas de morte. Ainda sem recursos farmacológicos para a combater, os médicos recomendam o internamento em sanatórios instalados em zonas de altitude. Na serra do Caramulo, outrora uma região pobre e agreste, cresce uma estância sofisticada. É para lá que irá o jovem Armando, uma das personagens centrais deste livro que, com a sua família, atravessará o enredo de A Febre das Almas Sensíveis, o novo romance de Isabel Rio Novo, acabadinho de sair. Mas dele faz também parte uma rapariga que investiga escritores que sofreram de tuberculose  – Soares de Passos, Júlio Dinis, António Nobre...  – e um misterioso manuscrito encontrado nas ruínas do Caramulo. Combinando o registo histórico e a toada fantástica que produziram a magia de Rio do Esquecimento, neste seu novo romance, mais uma vez finalista do Prémio LeYa, Isabel Rio Novo recupera a memória de uma doença que marcou a sociedade de uma época e o nosso imaginário romântico.

 

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09
Fev18

Cérebros afins

Maria do Rosário Pedreira

Gosto de ter afinidades com outras pessoas e sinto que ter os mesmos interesses facilita a empatia e favorece a amizade. Mas tenho também amigos que pensam de maneira completamente diferente de mim – em termos políticos, por exemplo – sem que isso afecte a nossa relação, e a maioria dos meus amigos mais próximos não trabalha sequer na minha área de actividade, bem pelo contrário, embora quase todos gostem de ler. Sobre isto de os amigos terem coisas parecidas e diferentes de nós, leio um artigo super-interessante no Público a propósito de um estudo científico publicado na revista Nature Communications, que revela que os amigos reagem ao mundo de forma muito semelhante e que isso se vê nos respectivos cérebros. Uau! A amostra foi recolhida numa universidade em que os estudantes disseram quem eram os seus amigos e foram postos numa sala a ver vídeos de política, ciência, música e muito mais. As reacções dos cérebros eram vigiadas através de ressonâncias magnéticas funcionais e, tratando-se de amigos, eram exactamente as mesmas (o artigo diz «excepcionalmente similares»). Segundo a revista, estes resultados permitem prever se duas pessoas são amigas e ter uma noção da distância social entre elas. E esta, hein?

08
Fev18

3 em 14

Maria do Rosário Pedreira

Vêm aí as Correntes d’Escritas – mais para diante, com o programa definitivo na mão, falarei delas com detalhe – e, como todos os anos, os finalistas do prémio literário promovido por este encontro de escritores com o apoio do Casino da Póvoa já foram anunciados. No presente ano a modalidade é ficção e engloba a produção literária de dois anos (ou seja, as balizas têm muito campo de discussão pelo meio). Não sei o que vai acontecer porque são catorze finalistas (penso que costumam ser menos) e combinam livros já premiados (A Resistência, de Julián Fuks, por exemplo, que ganhou o Prémio Literário José Saramago há uns meses; ou Karen, de Ana Teresa Pereira, que venceu o Oceanos) com obras de estreia (Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida), autores consagrados (Juan Marsé) com livros pouco conhecidos (A Brecha, do açoriano João Pedro Porto, por exemplo). Verifico, no entanto, que tenho três livros nos catorze: além do já referido Esse Cabelo, o romance Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho, e Um Postal de Detroit, de João Ricardo Pedro. Agora é esperar.

07
Fev18

Ler ou ouvir

Maria do Rosário Pedreira

O semanário Expresso lançou recentemente uma colecção de livros com inéditos de autores que, na maioria, podemos considerar a geração mais nova mas já «confirmada» da literatura portuguesa (e depois há também alguns craques a fazer-lhes companhia). Cada livro tem dois «contos», e já foram publicados os pares Afonso Cruz/João Tordo e Clara Ferreira Alves/Bruno Vieira Amaral, a estes seguindo-se as duplas Patrícia Reis/Maria Teresa Horta, Afonso Reis Cabral/Isabela Figueiredo, Nuno Camarneiro/Isabel Rio Novo e, por fim, Nuno Júdice/Matilde Campilho. São absolutamente gratuitos para quem comprar o jornal e muito manuseáveis, o ideal para quando esperamos pela consulta do dentista ou só temos um restinho de noite (o meu caso) depois de jantarmos, lavarmos a loiça e irmos espreitar o Facebook (cada vez menos interessante) ou acabarmos uma coisa que deixámos a meio na véspera. O mais original é podermos igualmente ouvir estes contos contados por vozes bonitas (Rita Redshoes ou Bento Rodrigues): na capa de cada exemplar existe um código e basta ir à página do Expresso, inscrever esse código e seguir as instruções. (Pode levar-se a tábua de engomar para perto do computador, se for preciso.) É uma boa forma de ficarmos com uma panorâmica do que se anda a escrever em 2018. Boas leituras!

06
Fev18

A arder

Maria do Rosário Pedreira

Fahrenheit 451 é um livro de Ray Bradbury publicado nos anos 1950 que deu depois origem a um filme de François Truffaut  com a fantástica Julie Christie. Trata-se de uma distopia ambientada num mundo onde os livros são proibidos e os bombeiros obrigados a queimá-los (451 graus Fahrenheit é a temperatura a que os livros ardem.) Pois bem, apesar de se tratar de uma obra clássica, que nunca deixou de ser reimpressa e reeditada em todo o mundo, nada faria prever que alguém se lembrasse da maluqueira de criar uma edição especial na qual, para ler, é preciso deitar fogo às suas páginas… Foi, porém, esta iniciativa que levou a cabo o Laboratório Charles Nypel, com sede na Holanda, em colaboração com uma empresa de design gráfico. Ao que parece, os criadores partilharam inclusivamente um vídeo no Instragram explicando a sua ideia e mostrando a função «incendiária»; nos comentários, confessam que planeiam multiplicar a produção deste objecto experimental… Será que o vão pôr à venda? Bem, leiam Bradbury, mas não se queimem.

 

05
Fev18

Orações

Maria do Rosário Pedreira

Quando visitei o cemitério judeu em Praga, lugar belíssimo, fiquei intrigada com todos aqueles papelinhos dobrados e pousados sobre as pedras tumulares, como se fossem recados dos vivos para os mortos. Em Macau, num santuário, também vi as várias orações deixadas numa espécie de oratórios bastante coloridos onde ardiam pauzinhos de incenso. Sinto que uma oração é coisa privada e íntima, pelo que nunca me ocorreria desdobrar esses papelinhos para ver o que tinham escrito, mesmo que falasse as línguas dos seus autores. Lembrei-me de tudo isto a propósito de uma notícia curiosa lida no Público: a de que, no manto da imagem de Nossa Senhora da Soledad, da Basílica de Mafra, que estava em restauro, foram descobertos documentos manuscritos dobrados em quatro e cosidos à zona dos bordados, de forma que, de fora, não se desconfiava de nada. Presume-se que serão de meados do século XIX e já se pôs a hipótese (mera hipótese, sublinhe-se) de que se trate de pedidos feitos a  Nossa Senhora da Soledad por várias pessoas, uma vez que são sete (um número invulgarmente grande) e, aparentemente, escritos por «mãos diferentes». Os documentos não foram ainda lidos (até porque o manto continua em restauro e não se pode arrancar a papelada de qualquer maneira) e é provável, claro, que nunca venhamos a saber o seu conteúdo. (Talvez os especialistas sejam os únicos a poder devassar a intimidade.) Espero, evidentemente, que os pedidos tenham sido atendidos.

02
Fev18

Histórias que fazem bem

Maria do Rosário Pedreira

Descubro no meio do lixo todo que leio todos os dias (somos invadidos por ele e às vezes nem o podemos deter, porque aparece em cima do que estamos a consultar e obriga-nos a esperar x minutos para nos livrarmos dele) uma notícia muito bonita – ainda que, curiosamente, tenha também que ver com... lixo. É verdade: em Ancara, na Turquia, abriu em Setembro uma biblioteca pública formada quase exclusivamente por livros abandonados e deitados fora, que foram sendo recolhidos por homens do lixo. A ideia inicial era serem trocados entre eles e as respectivas famílias, o que aconteceu durante os primeiros meses, mas o número de livros foi crescendo e, a certa altura, já eram os habitantes da cidade que lhes vinham entregar livros e revistas que já não queriam. O projecto atingiu, assim, tais proporções que teve de dar origem a uma biblioteca física, e a autarquia apoiou a sua instalação numa fábrica de tijolos igualmente abandonada. A nova biblioteca já tem cerca de 6000 títulos! Haja esperança. Bom fim-de-semana. A ler, claro.

 

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