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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

13
Dez13

Infâncias sombrias

Maria do Rosário Pedreira

Conheço mal a literatura nórdica, até porque só de há uns anos para cá as editoras portuguesas começaram a apostar nela (havia, claro, alguns clássicos, mas creio que só depois do sucesso da série Millennium se decidiu olhar com mais atenção para os escritores suecos, por exemplo). Já aqui falei de um autor que apreciei bastante (Per Petterson) e agora acabo de ler outro livro duro e bonito que tem muitos pontos de contacto com a última obra de Valter Hugo Mãe, Desumanização. Trata-se de A Casa com Alpendre de Vidro Cego, da escritora norueguesa Herbjørg Wassamo, que fala da vida de Tora, uma criança, numa ilha onde se vive essencialmente da pesca (e mal). Tora carrega o estigma de ser filha de um soldado alemão que se apaixonou pela mãe, Ingrid, durante a ocupação (e foi morto, sabe-se lá por quem, antes de poder regressar à pátria); mas, como se isso não bastasse, a sua infância é sacudida permanentemente pela perseguição do padrasto alcoólico, uma vez que Ingrid trabalha no turno da noite da fábrica de conservas e não pode acompanhar a filha. E, contudo, esta menina encontra formas de resistir absolutamente notáveis, entre as quais está a leitura de livros e as «conversas» com um rapazinho surdo-mudo chamado Frits. Numa Noruega ferida pela guerra e muito pobre, sempre cheia de frio e vento, esta infância é uma lição de sobrevivência – e a escrita de Wassamo verdadeiramente bela e mágica. Diz-se na contracapa que este é apenas o primeiro livro de uma trilogia. Venham os outros dois, pois estão a fazer falta.

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