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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

23
Dez13

A velha guarda

Maria do Rosário Pedreira

Quando Cavaco Silva ganhou as eleições e tomou posse como Presidente da República, logo se percebeu que a sua relação com a cultura era absolutamente nula (quer dizer, já se desconfiava, mas deu para confirmar). O professor de números é bastante parco em conhecimentos literários e artísticos; e, mesmo para os que nunca gostaram de Soares e Sampaio, é inegável o fosso que existe entre o que estes dois senhores sabiam de literatura, música e pintura e o que Cavaco Silva (não) domina. Não é, claro, o único político ignorante (antes fosse) – e a nova geração de políticos formatados nas juventudes partidárias é toda mais ou menos desinteressante e com pouco ou nenhum mundo (além de Cuba, Cancún e Punta Cana, suponho). No dia 2 deste mês, fui a uma sessão comemorativa dos 25 anos da publicação de Gente Feliz com Lágrimas, o multipremiado romance de João de Melo – que é, de resto, a sua obra mais emblemática e acaba de ter uma edição especial. Para falar dela, além do autor, estava o jornalista Fernando Alves (brilhante condutor da conversa) e Jaime Gama – sim, esse mesmo, que foi, além de deputado e ministro, presidente da Assembleia da República aqui há uns anos (e é açoriano como o autor). Devo dizer que fiquei absolutamente boquiaberta com a sua prestação. Já sabia que se tratava de alguém inteligente, o que não sabia era que tinha tanta bagagem cultural (perdemos o hábito de acreditar em políticos cultos, lá está) e, melhor ainda, que tivesse capacidade para fazer uma leitura crítica do romance digna de um professor universitário de literatura (relacionando o romance com obras de muitos outros autores ou situando-a num contexto de ruptura com movimentos e escolas anteriores) e, ao mesmo tempo, que expusesse o seu ponto de vista com clareza suficiente para que todos os presentes o acompanhassem sem quaisquer espinhos (não levava papel, note-se). Já no fim da sessão, percebi que todos estavam igualmente maravilhados com ele e que tudo o que se comentava a esse respeito era que a geração de Jaime Gama (não importa de que partido) era, de facto, de outra cepa e que, a partir dela, tem sido sempre a descer... Ora, se o exemplo vem de cima, como diz o povo, estamos mesmo com um irremediável azar.

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