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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

29
Mai10

Crianças desaparecidas

Maria do Rosário Pedreira

Quando Maddie desapareceu e, durante meses, não se falava de outra coisa em Portugal, estranhei que não tivesse renascido nas livrarias essa maravilha intitulada A Criança no Tempo, de Ian McEwan. Li tudo do autor (menos Solar, mas já o tenho) e, se me puser a pensar, continuo a dizer-me que não há outro livro do autor tão bom como esse. É certo que poderá ser um texto um pouco datado – e que quem não tenha vivido a era Thatcher, dificilmente atingirá na sua plenitude; é certo também que, apesar da tradução belíssima de Fernanda Pinto Rodrigues, o livro em português fica aquém do original (até porque Prime Minister não tem sexo – e em Portugal tem, e é masculino). Mas a história do homem que vai ao supermercado com a filha de três anos e a perde para sempre num instante de distracção é só o ponto de partida para um dos mais profundos romances que li sobre desespero, culpa, educação, tragédia, remissão, amor e política. No tempo em que o livro foi publicado, os computadores ainda estavam na pré-história e não apresentavam retratos aproximados de crianças desaparecidas ao longo dos anos; mas este pai de A Criança no Tempo nunca desiste de procurar a filha nos rostos de todas as crianças que têm a idade que ela vai tendo na sua ausência. E, simultaneamente (que ironia!), a sua ocupação é colaborar na realização de um manual estatal para a educação das crianças, que é um logro no qual um pai dilacerado não merecia ter caído. Sublime em todos os sentidos.

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