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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

21
Jan11

Politicamente correcto?

Maria do Rosário Pedreira

Miguel Real escreveu há poucos anos um excelente romance (se não me engano, finalista do prémio da APE no ano em que Francisco José Viegas o arrebatou com Longe de Manaus). Chama-se O Último Negreiro e é sobre o último grande traficante de escravos português, Francisco Félix de Sousa, que teve mais de cem filhos a quem, sem excepção, deu baptismo cristão e escolaridade. Ao contrário daquilo que o público poderia esperar, embora longe de fazer a apologia da figura, o escritor também nunca atira o homem para a fogueira, situando-o no contexto histórico, e não olhando-o pelos olhos escandalizados do nosso século (onde, apesar de tudo, o tráfico e os escravos permanecem). Há dias, soube que uma editora norte-americana se prepara para substituir as mais de duzentas ocorrências da palavra «nigger» do livro As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, pelo mais sedoso e moderado vocábulo «escravo», a fim de que a obra não seja banida nas escolas. Politicamente correcto? Pode ser, mas a minha resposta é: não, obrigada. Em primeiro lugar, porque ninguém tem o direito de pôr a mão no texto de um génio; em segundo lugar, porque a obra tem de ser lida não apenas como literatura, mas – como disse Sarah Churchwell, professora de Literatura Americana citada pelo Público – como documento histórico que também é, no qual «a palavra em causa é icónica, porque codifica toda a violência da escravatura» e a sua rasura ocultará dos leitores a «evolução moral do carácter» do protagonista. Será que daqui a uns anos nos proíbem de ler A Arte de Amar, de Ovídio, por ser, aos olhos do século XXI, um texto machista?

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