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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Jan11

Perder o comboio

Maria do Rosário Pedreira

As ditaduras assustam quem já passou por elas e fiquei contente com o que aconteceu recentemente na Tunísia, tal como quando vi pela televisão desmantelarem o muro de Berlim. Assistir, mesmo que não ao vivo e a cores, a acontecimentos deste tipo é magnífico, mas sê-lo-á ainda mais para quem lutou, tantas vezes na sombra, por que um dia se tornassem possíveis. E, no entanto, estas alegrias não dispensam o reverso da medalha. Um escritor dissidente, como por exemplo Soljenitsine – autor do polémico O Arquipélago do Gulag, que denunciava as práticas nos campos de trabalho soviéticos –, se não tivesse morrido em 2008, assistiria certamente a um decréscimo do número de leitores da sua obra, muitos deles nascidos já em países independentes e livres e sem memória da ditadura soviética; e Milan Kundera, autor do inesquecível A Insustentável Leveza do Ser, apesar de continuar a publicar, perdeu certamente impacto desde 1989 e, embora mereça, possivelmente já não será lido nem acarinhado hoje como o foi internacionalmente nos anos 80. Tantas vezes apontado para o Nobel da Literatura, a verdade é que, apesar do seu talento e do interesse da sua obra para lá da política, pode ter perdido claramente o comboio e, se não for nos tempos mais próximos, deixará quase naturalmente de ser um candidato ao dito galardão.

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