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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Jul11

A lotaria

Maria do Rosário Pedreira

Um homem mudou de religião várias vezes ao longo da vida, pois pedia incessantemente ao deus de cada uma delas que o fizesse ganhar a lotaria, mas, como isso não acontecia, transferia-se para um credo diferente com a esperança de que a respectiva divindade lhe desse ouvidos. E reza a anedota que Deus (que, pelos vistos, era sempre o mesmo), fartinho de o ouvir, mandou um anjo ir ter com ele e dizer-lhe: «Deus já percebeu exactamente o que desejas, mas confessa que não pode fazer nada se não comprares pelo menos uma cautela.» Pois é, eu não costumo comprar lotaria (nem pedir a Deus para a ganhar), mas faço parte desse imenso grupo de pessoas que joga semanalmente no Euromilhões com a secreta esperança de um dia ganhar um dinheirinho que lhe permita ser independente e decidir o que fazer da vida. O Manel também faz parte do grupo e sei que, se um dia fosse bafejado pela sorte grande, faria uma editora só dele, na qual só publicaria livros de que gostasse muito, mesmo que não se vendessem por aí além. Eu, quando levada pelo mesmo delírio, concebo erguer uma fundação para a literatura, que educasse as crianças para a leitura inteligente e apoiasse escritores em dificuldades por todo o mundo. Claro que pode ser mais nobre auxiliar a investigação científica, o tratamento de doenças, a erradicação da fome. Mas uma vida longa sem bons livros é demasiado assustadora para me tirar do meu caminho.

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