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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

21
Jun10

Crianças que sabem o que querem

Maria do Rosário Pedreira

Passei horas extraordinárias na barraquinha da Gradiva durante muitas feiras do livro de Lisboa; desse «balcão de livraria», acreditem ou não, aprendi muita coisa sobre os leitores. Mas a mais extraordinária dessas horas foi há muitos anos, num Dia da Criança, quando tínhamos de abrir a feira logo às 9 da manhã e éramos visitados por bandos de crianças de bibe e panamá, mesmo quando nada tínhamos que lhes pudesse interessar. Pelo menos, era o que eu pensava até que, nesse dia, um casal de crianças pequenas, com cinco ou seis anos, pareceu demorar-se no nosso pavilhão mais do que seria normal, ficando o rapazinho praticamente hipnotizado diante de um livro de um Prémio Nobel da Física, Richard Feynman. Atribuímos o seu interesse ao facto de a capa ter uma caricatura do físico e de esse divertido desenho o poder ter levado ao engano. Mas enganados estávamos nós. O garotinho perguntou, timidamente, o preço do livro. Lembro-me de que custava 1040$00, quantia que ele, infelizmente, não tinha (nesse tempo, 1000$00 ainda era bastante dinheiro, sobretudo para uma criança). Então, perante o seu ar desolado, o colega que estava a fazer a feira comigo quis consolá-lo, dizendo-lhe que não ficasse triste, uma vez que se tratava de um livro muito difícil que, decididamente, não era para a sua idade. Surpreendentemente, a menina que o acompanhava (e tinha ar de irmã mais nova) largou-lhe a mão de repente e aproximou-se do pavilhão, confidenciando-nos: «Sabem? É que ele quer ser cientista.» Acabámos por lhe oferecer o livro, evidentemente.

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