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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

24
Jun10

Pronto, eu vou contar

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui disse que associava um dos nomes maiores da cultura portuguesa (para mim, o maior) ao papel higiénico, a propósito de um post que escrevi sobre estranhas associações. Pois bem, depois de alguns pedidos, vou explicar porquê de uma vez por todas. Quando me despedi da editora onde trabalhava em 1996, fui arregimentada como directora de publicações pelo gabinete que então organizava a presença de Portugal como país-convidado da Feira Internacional do Livro de Frankfurt. A dada altura, tinha de reunir e editar textos para um livro sobre o que de melhor se fazia em Portugal (falo de literatura, pintura, música, dança, etc.) e um desses textos era… nem mais: de Eduardo Lourenço! Eduardo Lourenço escrevia sempre à mão (creio que ainda o faz) e, além disso, o e-mail mal tinha saído da pré-história. Recebi o seu texto pelo correio e, apesar de ninguém perceber a letra, eu cheguei lá rapidamente (não me vanglorio, era apenas parecida com a do meu pai) e bati o texto no computador. Porém, quis certificar-me de que não metera a pata na poça e enviei-lho por fax. Mas o nosso querido professor dizia que só recebia folhas brancas… Fizemos um brevíssimo brainstorming e chegámos à conclusão de que ele colocara mal o papel no aparelho de fax. Dissemos-lho. «Mas há mais de uma maneira de colocar o papel?», indagou, admirado, ao telefone. Pensei no assunto e respondi-lhe: «Senhor professor, pense num rolo de papel higiénico: há pessoas que gostam de puxar a folha de cima e outras que preferem puxá-la de baixo.» Percebeu imediatamente, e o texto chegou-lhe em três tempos, com todas as letras na folha branca. Mas agora, quando estou sentada num certo sítio e estendo a mão para o rolo de papel higiénico, em quem penso eu? Eduardo Lourenço. Não é uma injustiça de todo o tamanho?

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