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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Jun10

A primeira vez

Maria do Rosário Pedreira

Aprendi as primeiras letras em casa, bastante cedo, com uma professora que dava aulas à minha irmã. (A minha irmã tinha sido operada e não podia ir à escola.) Já conhecia, pois, as vogais e algumas consoantes quando entrei para a primeira classe, com seis anos acabadinhos de fazer; mas lembro-me de aprender o resto com a ajuda da Cartilha Maternal, de João de Deus, num exemplar de grande formato que a professora pousava num cavalete para que todas as meninas da sala a conseguissem ver. Quando terminou o primeiro período e já conhecíamos o alfabeto inteiro e várias combinações de letras e sílabas, passávamos então ao livro de leitura. O meu chamava-se O Livro da Capa Verde e, para além de ter mesmo a capa verde, tinha a seguinte frase escrita na contracapa: «Ó Pedro, que é do livro de capa verde que te deu o avô?» Pode parecer estranho que me lembre tão bem de uma coisa destas, mas a verdade é que recordo até hoje a minha primeira hora extraordinária. Sim, é isso mesmo, a primeira vez que li um texto, e não apenas conjuntos de sílabas ou palavras soltas. Intitulava-se (imaginem!) «Tourada à vara larga» e começava assim: «Pela vila vai movimento desusado.» Foi uma experiência marcante. Mas, se me perguntarem alguma coisa sobre a dita tourada, bem, disso é que já não sei dizer nada.

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