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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

08
Set17

FIC

Maria do Rosário Pedreira

Vá ao FIC e fique no FIC, que vale muito a pena! Desculpem estar armada em publicitária mas antes de ir de férias devia ter-me lembrado de avisar que este ano o festival cultural de Cascais tinha outra vez convidados de peso, entre eles Paul Auster ou Arundhati Roy, cujos livros novos saíram em Portugal há relativamente pouco tempo (ainda vai a tempo de ouvir Paul Auster, no dia 10!). Na altura em que ambos disseram que sim ao convite que a Câmara de Cascais lhes fez, nenhum dos dois sabia que eram concorrentes, pois só mais tarde foi anunciada a lista dos candidatos ao Man Booker Prize deste ano e ambos estão entre os escolhidos (respectivamente, com os romances 4 3 2 1 e O Ministério da Felicidade Suprema). Mas, além deste par, o FIC recebe Rosa Montero e Selva Almada, duas autoras que escrevem em castelhano mas de gerações e países distintos (Espanha e Argentina), bem como Hélia Correia, Nuno Júdice, Manuel Alegre, José Tolentino Mendonça e muitos mais. Além de literatura, há música – e Salvador Sobral estará no Casino para interpretar os poemas ingleses de Alexander Search. Vamos lá?

07
Set17

Epístolas

Maria do Rosário Pedreira

Quando era jovem, escrevia muitas cartas. Cartas de amor, claro, sobretudo se me encontrava a passar férias com a família longe do namorado; mas também cartas aos amigos durante o Verão e cartas aos colegas que tinham ido viver para outros países (o que era comum na minha geração). Tinha especial cuidado com o que escrevia, fazia um rascunho e depois passava a limpo, e fazia os possíveis por que essas cartas fossem, se quiserem, algo literárias, e não meia dúzia de frases banais só para dizer «olá» e «saudades» (para isso existiam os postais ilustrados, que também, julgo eu, já pouco se mandam). A emergência do digital matou, no fundo, a correspondência (o meio não favoreceu este cuidado de que falei, antes uma rapidez de escrita e leitura que não se coaduna com a atenção e o tempo que a velha correspondência exigia); como dizia um dia destes a reitora da Universade Católica Portuguesa numa entrevista, «a ausência de pegada mediática torna o indivíduo invisível» e, por isso, a literatura epistolar tende a desaparecer nas próximas décadas, o que é uma pena. Porém, ainda se vão encontrando boas surpresas – e durante a última Festa Literária de Paraty (a famosa FLIP) foi lançada a compilação de uma troca de cartas entre Saramago e Jorge Amado com o belo título Com o Mar por Meio; segundo dizem, uma «curta mas tocante troca de inconfidências» entre dois grandes escritores do século XX. A publicação é da Companhia das Letras. Valha-nos este tipo de lançamentos.

06
Set17

Guadalajara

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há uns anos – se não me engano, em 2013 – a mexicana Feira do Livro de Guadalajara, que então fazia 25 anos e tinha como convidada de honra a Alemanha, convidou-me para lá ir (com tudo pago) e traçou-me um programa fantástico, intelectual e social, do qual, se bem se lembram os que lêem este blogue há muito tempo, fez parte uma mesa redonda inaugural com Vargas Llosa e Herta Müller (um luxo). Na altura, tive uma reunião em que, de forma delicada, me pediram que fizesse lobby para que Portugal pudesse ser o convidado de honra da feira dois anos mais tarde, mas, infelizmente, era mesmo um dos piores períodos da crise, com a Troika e o FMI a chupar-nos até ao tutano, e o pouco que disse elogiando a feira (sem fazer favor nenhum, porque é um magnífico certame à roda da literatura) não serviu de grande coisa (quando não há dinheiro não há vícios). Porém, os tempos estão melhores agora – e em 2018 Portugal vai ser finalmente o convidado de honra da Feira do Livro de Guadalajara. Portugal e o México já assinaram o convénio em finais de Julho na belíssima biblioteca do Palácio da Ajuda (se puderem, visitem-na porque vale a pena), o director da feira, Raúl Padilla, esteve em Portugal, e Manuela Júdice, secretária-geral da Casa da América Latina, será a comissária responsável pelo programa e respectivos convidados. Fico contente com a iniciativa e espero sinceramente que deste acontecimento possa surgir um estreitamento das relações entre as literaturas portuguesa e mexicana.

05
Set17

Sempre a subir

Maria do Rosário Pedreira

Livro sensação da última Feira do Livro de Frankfurt, o romance do italiano Paolo Cognetti intitulado As Oito Montanhas acabou por ser vendido rapidamente para mais de trinta países, incluindo Portugal. É uma história de amizade improvável entre Bruno, um rapaz da montanha que guarda rebanhos para um tio bruto (como, de resto, o pai, a mãe e os primos, todos brutos como a rocha), e Pietro, um menino da cidade, filho único, com um pai de personalidade bastante difícil que venera as montanhas e teima em subi-las todos os verões, arrastando para isso mulher e filho. Com personagens muito bem desenhadas, nunca a duas dimensões (e como seria fácil tender para a caricatura num ambiente atrasado como o que nos é dado ver na aldeia de Grana, onde se passa a história), este romance é mesmo sempre a subir, como uma montanha que é preciso ir escalando até se perceber por que motivo certas pessoas são como são (o pai de Pietro, por exemplo, ou mesmo Bruno, que desce uma única vez à cidade grande para ver como é). Hino à amizade, mas nada óbvio no tratamento do tema e tudo menos lamechas, é uma obra com qualquer coisa de clássico que, acredito, veio para ficar.

 

04
Set17

Regresso

Maria do Rosário Pedreira

Olá, espero que tenham tido umas boas férias. As minhas passaram, como sempre, a voar (e, claro, manchadas com tantas tragédias, atentados e catástrofes naturais); mas está na hora de voltar ao trabalho e enfrentar a rentrée, por isso cá estamos. Hoje seria o dia de vos dizer o que ando a ler, bem sei, mas poderei deixar isso para amanhã, porque prefiro dizer-vos o que ando a ver. Ou, na verdade, o que devem ir ver os leitores do Horas Extraordinárias. Trata-se de um filme de Joaquim Leitão, produzido por Tino Navarro e baseado no romance Índice Médio de Felicidade, de David Machado, que ganhou o Prémio da União Europeia para a Literatura em 2015 e foi já traduzido para várias línguas, incluindo o inglês. David Machado é, de resto, um dos autores do guião (nestas coisas, é sempre bom saber que o autor não deixou o barco à deriva), trabalho em que teve também a companhia de Tiago R. Santos, um reputado guionista português e também autor de um romance. Assim, tenham ou não lido o livro, sugiro que vão ver o filme um dia destes. Deixo-vos o link do trailer para aguçar o apetite. Até amanhã.

 

https://www.youtube.com/watch?v=pCAooqwEMfI

 

28
Jul17

Personagens de férias

Maria do Rosário Pedreira

Vêm aí as férias e as minhas começam já amanhã. Ao contrário do que é costume, interrompo-as a meio do mês e venho trabalhar semana e meia para voltar a partir dia 25 rumo aos Açores, onde se casa um sobrinho meu e ficarei até dia 3. Do blogue estarei ausente até dia 4 de Setembro (preciso de tempo para ler e passar um mês inteirinho sem compromissos para além dos estritamente necessários). Mas, antes de me ir embora, deixo-vos aqui os títulos de alguns livros nos quais os protagonistas estão de férias e que podem ler no Verão. Para começar, Um Quarto com Vista, de E. M. Foster, em que uma inglesa passa férias em Florença. Depois, claro, Morte em Veneza, de Thomas Mann (e também podem ver o sublime filme de Visconti com um Gustav von Aschenbach decadente na pele de Dirk Bogarde). Um bom policial será Um Crime no Expresso do Oriente, de Agatha Christie, no qual o pobre Poirot percebe que nunca deveria ter ido de férias… Lembro-me ainda de A Ilha, de Sándor Marai, com um professor de férias num hotel repleto de famílias barulhentas, ou O Aquista, de Hermann Hesse, durante uma estadia nas termas de Baden. Hilariante, o romance de David Lodge intitulado Notícias do Paraíso, um gozo às férias organizadas pelas agências de viagens nos supostos locais paradisíacos (mas que nem sempre são o que parecem). E pronto, boas férias a todos: descansem, aproveitem, leiam!

27
Jul17

O senhor do Olimpo

Maria do Rosário Pedreira

Um colega passou-me uma entrevista bastante interessante concedida ao jornal espanhol El País por Antoine Gallimard, o senhor que manda na editora que leva o seu apelido e que, fundada há mais de cem anos, é uma espécie de Olimpo das letras gaulesas, publicando autores como – só para verem a montra – Proust, Céline, Camus, Cocteau, Saint-Exupéry, Sartre, Duras, De Beauvoir, Simenon, Kundera, e os mais recentes Prémios Nobel da Literatura Patrick Modiano ou Le Clézio. Embora não fosse o primogénito, Antoine bateu-se pela sucessão ao trono (e ganhou); conviveu desde pequeno com escritores – Faulkner, Aragon, Jean Genet (a este último levava envelopes com dinheiro quando era o avô quem estava à frente da empresa, porque ele se recusava a abrir conta num banco). Há mais de trinta anos a comandar a Gallimard, diz que o editor é uma espécie de faroleiro a espalhar luz (literatura) na escuridão, mas que o seu ofício está em vias de extinção porque já ninguém quer realmente ler o que publica. Explica que a geração dos que liam três ou quatro livros por semana desapareceu com a chegada dos «ecrãs» e que no dia em que os editores forem economistas e financeiros tudo terminará. E, ao fim de tantos anos de experiência, revela que nem sempre é bom afeiçoar-se aos autores, pois por vezes estes conseguem ser de uma espantosa ingratidão. A sua «número dois» conta que Antoine Gallimard tem um sangue-frio incrível e que, durante o conflito nos Balcãs, tiveram uma vez de atravessar a frente de guerra num automóvel e que o depósito de gasolina foi atingido; mas ele, assim que percebeu que não podiam fazer nada, adormeceu no banco de trás… A edição não é para todos.

26
Jul17

Pré-leitores

Maria do Rosário Pedreira

Embora eu ache que o gosto pelos livros e pela leitura é uma lotaria – e esse clique maravilhoso nem sempre acontece, fazendo com que alguns desistam às primeiras tentativas –, os especialistas dizem que o primeiro passo para que uma criança se torne leitora é ler-lhe desde pequenina, desde o berço ou antes ainda. Normalmente, o que os pais lêem aos filhos são histórias, mas num recente artigo de Catarina Homem Marques no Observador – citando um outro do New York Times, de Pamela Paul e Maria Russo, especialistas em literatura infanto-juvenil –, aprendi que o mais importante de tudo é a cadência da leitura, e não o que se lê – e por isso, para os pré-leitores de fraldas e chucha, podem ler-se receitas de bolos, manuais de instruções de electrodomésticos, bulas de remédio ou dicionários, porque tudo serve; no fundo, é como uma música – e os bebés, já se sabe, gostam de música, mesmo na barriga das mães. Claro que ouvir não chega e, mais tarde, os outros sentidos também contam: deixar os bebés mexerem nos livros, virarem as páginas mesmo antes de os pais lhas terem lido, receberem festinhas enquanto é feita a leitura para a associarem a uma boa companhia e à presença de alguém querido, tudo isso, numa primeira fase, é talvez mais importante do que o texto propriamente dito. E esta, hein?

25
Jul17

Teatro

Maria do Rosário Pedreira

Existem relativamente poucos romances que abordem, mesmo que indirectamente, o  mundo da edição; há vários estrangeiros (de Laurent Binet ou Vila-Matas), mas em português lembro-me sobretudo de História do Cerco de Lisboa, de José Saramago, no qual são personagens fundamentais um revisor (Raimundo) e a sua chefe, uma editora chamada Maria Sara. Ao rever uma obra sobre o cerco de Lisboa, Raimundo decide introduzir a palavra «não» numa determinada frase (que tem que ver com a ajuda dos Cruzados na conquista de Lisboa aos mouros), mudando, de certa forma, o que foi a História… Pelo caminho, apaixona-se por Maria Sara (outra conquista, enfim). Falo deste livro agora porque li que, no Festival de Teatro de Almada, nada menos do que quatro companhias de teatro se juntaram para encenar uma adaptação do romance: a ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, a Companhia de Teatro de Almada, a Companhia de Teatro de Braga e o Teatro dos Aloés. A dramaturgia esteve a cargo de Gabriel Antunaño e a encenação é de um outro espanhol, Ignacio García, contando os cenários com o talento de José Manuel Castanheira. A peça estreou-se no festival, mais vai regressar em Setembro e passar pelos vários teatros envolvidos, dando um pouco a volta ao País, de norte a sul. Uma boa ocasião para a ver e ler o romance de Saramago.

24
Jul17

Dobradinha

Maria do Rosário Pedreira

Foi há uns dias revelada a lista de finalistas do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (prémio relativo a livros publicados em 2016). Além de José Correia Tavares, da APE, este ano os jurados são Isabel Cristina Rodrigues, José Carlos Seabra Pereira, Luís Mourão, Paula Mendes Coelho e Teresa Duarte Carvalho que, entre 94 títulos publicados, seleccionaram apenas 5 (deve ter sido uma carga de trabalhos): Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho; A Gorda, de Isabela Figueiredo; Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes; Pequena Europa, de Mafalda Ivo Cruz; e Deus-Dará, de Alexandra Lucas Coelho. Muitíssimo curioso é o facto de só um destes autores (Isabela Figueiredo) nunca ter recebido este prémio… Ana Margarida de Carvalho ganhou-o com o romance anterior, de 2013, Que Importa a Fúria do Mar (e ser nomeada duas vezes seguidas é muito bom sinal); Alexandra Lucas Coelho com A Noite Roda, do ano seguinte (idem); Mafalda Ivo Cruz, que andava desaparecida há muitos anos, teve-o em 2003 com Vermelho; e Paulo Varela Gomes, com Era Uma Vez em Goa, editado em 2015. Será que isto quer dizer que o prémio vai para A Gorda, ou vai haver «dobradinha»? Mais curioso ainda é não constar da lista de finalistas nenhum romance de um escritor, digamos assim, mais rodado…