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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

12
Mai17

Os trabalhos dos escritores

Maria do Rosário Pedreira

Hoje, nos países que têm um mercado considerável na área do livro (não o nosso, infelizmente, que ainda é uma ervilha), o ofício de escrever já é visto como qualquer outro; em certos territórios, como os EUA, é inclusivamente muito bem pago (os autores que foram destacados na revista Granta de que aqui falei anteontem, por exemplo, devem receber adiantamentos milionários das editoras que os publicam). Nesses lugares, quase todos os autores de ficção vivem exclusivamente do que escrevem (e vivem bem); mas nem sempre foi assim e, no dia 1 de Maio, por ser Dia do Trabalhador, li num jornal espanhol um artigo muito interessante sobre os trabalhos que alguns escritores hoje conceituados tiveram de fazer para sobreviver e pagar a renda de casa quando estavam a começar. Juan Marsé, por exemplo, trabalhou desde muito jovem como ourives (e diz que isso o ajudou a ter atenção ao detalhe nas suas narrativas), enquanto Vargas Llosa foi, entre outras coisas, escritor-fantasma de novelas para uma senhora endinheirada (o que lhe terá servido certamente de inspiração para as radionovelas que aparecem em A Tia Júlia e o Escrevedor). Kafka, como se sabe, vendia seguros; Borges era bibliotecário (mas não me parece que tenha sido por precisar de dinheiro); Jack London foi caçador de baleias no Árctico; Colette trabalhou como cabeleireira e George Orwell saiu da Birmânia (onde era polícia) para ir lavar pratos em Londres. Bolaño vendeu quinquilharia e lâmpadas no México e Charles Bukowski foi carteiro durante muitos anos. Enfim, trabalhos que, pelos vistos, não prejudicaram o ofício de escritor.

11
Mai17

Inspirações

Maria do Rosário Pedreira

Podemos aprender a gostar de poesia com poetas assim-assim, e não com os melhores; e podemos acordar para o desejo de nos tornarmos escritores por termos lido determinado livro que não tem necessariamente de ser uma obra-prima (se calhar, as obras-primas são tão perfeitas que nos inibiriam de experimentar). Li recentemente um artigo engraçado sobre os livros que fizeram com que alguns escritores hoje conhecidos quisessem começar a escrever. E, desde logo, achei curioso que um autor como Jay McInerney (As Mil Luzes de Nova Iorque) tivesse sido inspirado sobretudo pelos poemas de Dylan Thomas (é que nada o faria prever). Rachel Kushner parece mais consistente quando diz que foi Cormac McCarthy quem a inspirou, bem como a mais leve Jodi Picoult, que parece ter sido despertada para a escrita por E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell. Já a sul-africana Nadine Gordimer (Prémio Nobel da Literatura em 1991) admite que foi Evelyn Waugh (o autor de Reviver o Passado em Brideshead) quem a fez querer ser escritora, enquanto Richard Ford aponta Faulkner como o autor que o levou à ficção. Desconheço se todos os escritores sabem o livro ou o autor exacto que os fez, passe a redundância, escritores, mas eu acho que comecei a gostar de escrever poesia por causa de João de Deus.

10
Mai17

Os mais talentosos da América

Maria do Rosário Pedreira

De dez em dez anos, a famosa revista Granta publica um número especial, dedicado aos jovens escritores (jovens quer dizer com menos de 40 anos) mais talentosos dos EUA. São geralmente nomes a que devemos prestar atenção, pois a maioria acaba mesmo por vingar num mercado que é imenso – e grande parte consegue traduções em várias línguas. Há dez anos, por exemplo, estava nessa lista um autor que fez as minhas delícias – Jonathan Safran Foer, de quem publiquei um notável romance intitulado Está Tudo Iluminado na Temas e Debates e que, uns anos mais tarde, pariria Extremamente Alto e Incrivelmente Perto (hoje na Quetzal), de que se devem lembrar porque deu origem a um filme que, se não me engano, foi aos Óscares. A lista deste ano inclui alguns autores que têm saído na Teorema pela mão da minha colega Carmen Serrano (a quem tiro o chapéu pelo feeling): Ben Lerner (já falei aqui do livro 10:04), Anthony Marra (O Czar do Amor e do Tecno) ou Garth Risk Hallberg (o autor de A Cidade em Chamas, muito comentado em todo o lado). Mas há mais nomes, como os de Ottessa Moshfegh, que integrou a shortlist do Booker Prize de 2016 com o romance Eileen, ou Rachel B. Glaser, Chinelo Okparanta, Sana Krasikov, Claire Vaye Watkins, embora ainda cá não estejam traduzidos. O número da Granta que conta tudo saiu no dia 4 de Maio. Em inglês, claro.

09
Mai17

Mentiras

Maria do Rosário Pedreira

Talvez mentir seja uma coisa a que ninguém escapa, pelo menos durante a infância, para evitar um castigo. Eu, que não gosto nada de mentiras, também já terei pregado algumas petas, sobretudo para fugir a reuniões indesejadas (sociais e profissionais). Quando cheguei à edição, quase «de fraldas», alguém me disse que devia estar preparada para as mentiras que a gente do meio contava sobre o que tinha lido (mas que, afinal, não tinha lido). E houve até quem sugerisse que, quando eu estivesse desconfiada de que determinada pessoa não tinha lido um livro que fingia ter lido, lhe falasse da cena do cão para ver o que dizia, pois raramente há cão – e aí se apanharia facilmente o mentiroso... Pois bem, leio agora no The Guardian que mentir sobre o que (não) se leu é, efectivamente, prática corrente (e não exclusivamente de editores e escritores); e que – calculem – até existe há vários anos um Top dos livros que as pessoas dizem ter lido, mas não leram, actualizado com regularidade. Curiosa, fui espreitar. Pensava que se tratasse de Proust, Joyce, Tolstoi ou mesmo a Bíblia, mas fiquei altamente surpreendida ao perceber que as leituras sobre as quais mais se mente são de obras como O Senhor dos Anéis, O Código Da Vinci ou a série James Bond, de Ian Fleming... Não vou mentir-vos: a verdade é que não li nenhum dos três, mas não tenho qualquer vergonha de o confessar. No Reino Unido, porém, não ter lido os livros que serviram de base a filmes de sucesso deve parecer quase pecado. Ou será, no fundo, que os tempos estão mesmo a mudar e a exigência baixou drasticamente?

08
Mai17

A oeste

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã começa mais um festival Livros a Oeste, organizado pela Câmara Municipal da Lourinhã (é a sexta edição!), cuja programação é desde o início traçada pelo crítico e jornalista João Morales (também responsável pela rubrica Recordar os Esquecidos, de que já aqui falei, na Livraria Almedina, em Lisboa). Além de uma feira do livro, como é costume, haverá actividades ligadas às escolas (concursos literários, conversas com autores, peças de teatro) e outras abertas ao público, que poderá assistir a mesas-redondas, tertúlias, leituras de poesia e apresentações de livros até ao dia 13, destacando-se a sessão em torno da última edição de O Canto e as Armas, de Manuel Alegre, comemorando o cinquentenário da publicação, com a presença do autor. O festival inclui ainda exposições – uma da ilustradora Tânia Clímaco, outra, feita por alunos de um agrupamento de escolas, de microcontos e microlivros (deve ser micro-engraçada!), outra feita por professores. No último dia à noite, para um fecho em beleza, haverá um concerto de Sérgio Godinho. Cristina Norton, Miguel Real, Rui Zink e Fernando Pinto do Amaral estão entre os escritores convidados. Mais informações no blogue do festival:

 

http://livrosaoestefestival.blogspot.pt/

05
Mai17

À conversa

Maria do Rosário Pedreira

Dizem muitos escritores que os computadores foram uma invenção de estalo que lhes facilitou enormemente a vida, pois a mão nem sempre consegue acompanhar a velocidade a que pensam (claro que há quem prefira ainda escrever à mão e só depois passar ao computador, mas é uma minoria). O arquitecto Siza Vieira, porém, afirma que pensa a desenhar e que «há uma ligação entre mão e mente muito estreita». Mesmo depois de receber todos os prémios que podiam orgulhar alguém da sua profissão – o Pritzker, o RIBA, o Mies van der Rohe… – continua a achar que os prémios são menos importantes do que a arquitectura que se deixa – e Siza deixa muita coisa, cá e no estrangeiro, porque, embora tenha querido ser escultor, tornou-se um dos mais famosos arquitectos do mundo. É sobre a sua vida, de resto, que vai falar no próximo dia 7, às 17h00, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, no âmbito das conversas (Quase) Toda Uma Vida, dedicadas a seniores e moderadas por Anabela Mota Ribeiro, que ali acontecem uma vez por mês. Tenho também curiosidade sobre o que lê, pode ser que fale nisso.

 

P.S. Infelizmente, fiz este post antes de ir de férias e a conversa, pelos vistos, não vai acontecer neste dia. Mas, como verão abaixo, o substituto é de peso...

 

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04
Mai17

Ver passar comboios

Maria do Rosário Pedreira

Um dos amigos que ganhei com o casamento é um engenheiro que se especializou em transportes e que sabe absolutamente tudo o que há para saber sobre comboios (alta velocidade, ramais, construção, linhas desactivadas, percursos, acidentes, etc.). É fascinante, de resto, ouvi-lo falar do assunto e aprender tanta coisa que nunca me tinha sequer passado pela cabeça. Os comboios atraem muita gente e há um certo romantismo em redor das longas viagens ferroviárias – o Expresso do Oriente, o Transiberiano – mas também um lado trágico por detrás da construção dos caminhos-de-ferro, sobretudo em territórios com condições climáticas extremas (em alguns lugares, as mortes foram numerosas). Raramente, porém, se fala dos profissionais que dedicam a vida aos comboios – e agora o jornalista Carlos Cipriano, mediante entrevistas e recolha de testemunhos, resolveu fazer, em Guardas de Passagem de Nível, o retrato de quem está na base da pirâmide: heroínas anónimas que, longe de ver apenas passar os comboios, vivem à beira da linha, em lugares tantas vezes inóspitos aonde a tecnologia ainda não chegou, e garantem que «a composição» pode seguir e que os transportes rodoviários e os peões não atravessam a passagem de nível. Para quem goste de comboios, como eu, é para espreitar. O livro é publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

03
Mai17

Livros saídos da casca

Maria do Rosário Pedreira

Diz a sabedoria popular que, quando Maomé não vai à montanha, vem a montanha a Maomé. É mais ou menos este o princípio que rege uma iniciativa da Biblioteca Municipal de Aveiro que consiste em fazer com que os livros vão ter com os leitores, já que eles, se calhar, não se lembrariam de ir à biblioteca buscá-los ou sentar-se por lá a lê-los. O nome do projecto é «Saio da estante e vou ter contigo num instante», frase bem achada e com laivos de musicalidade; e, pelo que sei, implica que três funcionários da biblioteca (entre os quais, a mentora da ideia, Jeanete Conceição) percorram as ruas do Bairro da Beira Mar duas vezes por semana e se aventurem na conquista de novos leitores com um trolley carregadinho de livros, revistas e CD. A acção foi precedida de um inquérito porta a porta, que permitiu saber quem eram os interessados – sobretudo os mais velhos, que já pouco saem – em receber em sua casa estes materiais, mas rapidamente se estendeu a muitos «vizinhos», que não só parecem apreciar o que estes funcionários lhes levam, mas também os dois dedos de conversa que com eles podem trocar. Todas as terças e quintas há distribuição – excepto se chover; mas, agora que o Verão vem aí, não há-de haver muitas «folgas».

02
Mai17

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Interesso-me, naturalmente, pelo que produzem alguns escritores que começaram a publicar já neste século XXI – e não passei, por isso, ao lado do romance de estreia de Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas, de que falei aqui no blogue na altura em que saiu e que, mais tarde, ganharia o Prémio Literário José Saramago, entre outros. Mas, sendo esse um livro bastante peculiar, com uma longuíssima lista de personagens que, frequentemente, não chegam a cruzar-se, era muito difícil saber o que o autor faria a seguir, sobretudo em termos de estrutura. O que ando a ler é justamente o seu segundo romance, Hoje Estarás Comigo no Paraíso, recentemente publicado pela Quetzal. E é um livro muito diferente (o que são boas notícias), mais articulado, de grande maturidade (literária e não só), que poderia claramente ter sido escrito por alguém mais velho, dada a ampla reflexão sobre uma panóplia de assuntos e a cultura que habita o texto sem nunca se exibir. Partindo da história real do assassínio de um primo do próprio autor aos vinte e um anos – morte violenta –, o romance é, a um tempo, a investigação sobre os factos e as suas razões e uma permanente revisitação da vida familiar e social do narrador, com páginas belíssimas (e também tristíssimas) sobre a infância e figuras inesquecíveis, como, de resto, já se encontravam na obra anterior. A ler, evidentemente.

24
Abr17

Ferrante na TV

Maria do Rosário Pedreira

Não terminei  A Amiga Genial (refiro-me à tetralogia de Elena Ferrante que fez furor), deixando o último volume por ler há sensivelmente um ano e não tendo desde então pegado nele. Terei de o fazer um dia destes para saber o fim da história, até porque o primeiro volume abria com o desaparecimento de Lila e só no desfecho do último volume se saberá com certeza do seu paradeiro. Parece, porém, que a popularidade que os livros atingiram em todo o mundo contribuiu para que uma boa produtora de televisão, a HBO (séries como Sete Palmos de Terra, que adorei, são da sua responsabilidade), quisesse fazer uma série com o mesmo nome, associando-se à televisão italiana (RAI) e pedindo inclusivamente o envolvimento da autora na adaptação do guião, que será escrito por Francesco Piccolo, Laura Paolucci e Saverio Constanzo (como agora já se sabe quem é Ferrante, a colaboração poderá ser mais fácil). Começarão por A Amiga Genial (falo agora do primeiro volume) – e prevê-se que a primeira temporada, com oito episódios, comece a ser rodada já este Verão e seja transmitida em 2018. É mais do que previsível que a tetralogia ganhe ainda mais leitores depois disto.

 

P.S. Entre amanhã e o dia 2 de Maio estarei de férias e não haverá Horas Extraordinárias, só horas de descanso. Até breve e passem bem.