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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

05
Fev18

Orações

Maria do Rosário Pedreira

Quando visitei o cemitério judeu em Praga, lugar belíssimo, fiquei intrigada com todos aqueles papelinhos dobrados e pousados sobre as pedras tumulares, como se fossem recados dos vivos para os mortos. Em Macau, num santuário, também vi as várias orações deixadas numa espécie de oratórios bastante coloridos onde ardiam pauzinhos de incenso. Sinto que uma oração é coisa privada e íntima, pelo que nunca me ocorreria desdobrar esses papelinhos para ver o que tinham escrito, mesmo que falasse as línguas dos seus autores. Lembrei-me de tudo isto a propósito de uma notícia curiosa lida no Público: a de que, no manto da imagem de Nossa Senhora da Soledad, da Basílica de Mafra, que estava em restauro, foram descobertos documentos manuscritos dobrados em quatro e cosidos à zona dos bordados, de forma que, de fora, não se desconfiava de nada. Presume-se que serão de meados do século XIX e já se pôs a hipótese (mera hipótese, sublinhe-se) de que se trate de pedidos feitos a  Nossa Senhora da Soledad por várias pessoas, uma vez que são sete (um número invulgarmente grande) e, aparentemente, escritos por «mãos diferentes». Os documentos não foram ainda lidos (até porque o manto continua em restauro e não se pode arrancar a papelada de qualquer maneira) e é provável, claro, que nunca venhamos a saber o seu conteúdo. (Talvez os especialistas sejam os únicos a poder devassar a intimidade.) Espero, evidentemente, que os pedidos tenham sido atendidos.

02
Fev18

Histórias que fazem bem

Maria do Rosário Pedreira

Descubro no meio do lixo todo que leio todos os dias (somos invadidos por ele e às vezes nem o podemos deter, porque aparece em cima do que estamos a consultar e obriga-nos a esperar x minutos para nos livrarmos dele) uma notícia muito bonita – ainda que, curiosamente, tenha também que ver com... lixo. É verdade: em Ancara, na Turquia, abriu em Setembro uma biblioteca pública formada quase exclusivamente por livros abandonados e deitados fora, que foram sendo recolhidos por homens do lixo. A ideia inicial era serem trocados entre eles e as respectivas famílias, o que aconteceu durante os primeiros meses, mas o número de livros foi crescendo e, a certa altura, já eram os habitantes da cidade que lhes vinham entregar livros e revistas que já não queriam. O projecto atingiu, assim, tais proporções que teve de dar origem a uma biblioteca física, e a autarquia apoiou a sua instalação numa fábrica de tijolos igualmente abandonada. A nova biblioteca já tem cerca de 6000 títulos! Haja esperança. Bom fim-de-semana. A ler, claro.

 

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01
Fev18

De Israel

Maria do Rosário Pedreira

Na sua última edição, o Man Booker International Prize foi para o escritor israelita David Grossman, com o romance Um Cavalo Entra num Bar, título suficientemente estranho para chamar logo a nossa atenção. A frase resulta ser o princípio de uma anedota, já que o protagonista (um dos protagonistas) deste livro é um artista de stand-up comedy passado dos 50 anos, a cuja exibição assistimos «em directo» enquanto lemos – e, céus!, garanto-vos que David Grossman tem um manancial de truques e graças para nos fazer rir, tal como a personagem ao seu público. Não, porém, a todo: porque o narrador deste romance, um juiz que privou com o comediante num certo período da adolescência, está a assistir ao espectáculo a pedido do próprio artista, mas são mais as vezes que reflecte e se preocupa do que aquelas em que lhe acha genuinamente graça. Tirando algumas piadas demasiado «judias» (ui, algumas de um humor negro terrível) ou «locais», mais difíceis de perceber por quem não é do contexto, faço a vénia a um escritor que consegue transpor para as páginas de um livro, como se estivesse de pé, ao microfone, um show incómodo que põe o dedo em muitas feridas. Quanto ao resto, ainda vou a meio e não sei o que ainda virá aí para cima do juiz… Nem ele, para já. A tradução, directamente do hebraico, é de Lúcia Liba Mucznik.

31
Jan18

Empréstimos

Maria do Rosário Pedreira

As bibliotecas emprestam livros desde sempre a quem os queira levar para casa e devolver no fim da leitura (dantes, quem se atrasava pagava multa e quem não devolvia nunca mais podia pedir livros); mas é mais raro, digo eu, alguém emprestar livros seus a uma biblioteca, trazê-los de casa e deixá-los nas estantes para quem se interessar. É o que faz, porém, várias vezes o físico e grande divulgador de ciência Carlos Fiolhais em relação à Biblioteca Rómulo de Carvalho, na Universidade de Coimbra, uma biblioteca especializada em livros de ciência onde, segundo leio, não há espaço para manuais, mas obras que abordem a ciência de qualquer perspectiva, incluindo BD, ficção científica e, dado o patrono, até poesia! Carlos Fiolhais é um homem da Universidade, claro, mas é uma figura que ama os livros (pintava muito bem em jovem e, com o prémio de pintura que ganhou, comprou… livros!) e tem muitas histórias fascinantes para contar sobre essa sua paixão. Leia-se, pois, esta entrevista de Vera Novais que não se pode perder. Como quem deixa um livro novo na estante, aqui fica o link.

 

http://observador.pt/especiais/carlos-fiolhais-fiquei-preso-na-gruta-de-mira-de-aire-parece-que-estamos-sepultados-vivos/

 

30
Jan18

Ainda as mulheres

Maria do Rosário Pedreira

Por causa de um trabalho que estou a fazer, tenho descoberto uma data de coisas sobre escritoras portuguesas que desconhecia, sobretudo aquelas que escreveram numa altura em que a maioria das mulheres era analfabeta, e cuja «obra» (quase sempre manuscrita, não publicada) ficou frequentemente no espólio da família ao longo de gerações e só acabou por «transbordar» para o público quando os estudos literários resolveram remexer em caves e arquivos e desencantar cartas, diários e outros documentos muito interessantes. Na sequência desta investigação, descobri igualmente um site muito interessante, da responsabilidade da Faculdade de Letras de Lisboa, dedicado às escritoras portuguesas anteriores a 1900, entendendo-se aqui «escritoras» e «portuguesas» no seu sentido mais amplo. Na pesquisa por nome, aparece a identificação da senhora em causa (naturalidade, filiação, datas de nascimento e morte), seguida da informação sobre o que escreveu e o que se escreveu sobre ela. Não raras vezes, a bibliografia própria é bem mais reduzida do que a passiva – veja-se o caso de Francisca Possolo da Costa (ou «Francília, Pastora do Tejo», seu pseudónimo), por exemplo, nascida no final do século XVIII. Para quem se interesse, aqui vai o link:

 

http://escritoras-em-portugues.eu/1446822572-HOMEPT

 

29
Jan18

Mulheres em alta

Maria do Rosário Pedreira

As mulheres estão em alta. Há mais mulheres licenciadas todos os anos em Portugal e mais mulheres do que homens nas universidades portuguesas. Nos EUA, as mulheres resolveram queixar-se dos homens e tramaram muitos deles para o resto da vida. No Reino Unido, as mulheres escritoras dominam o Top de vendas. A principal responsável é a TV, por causa das séries baseadas nos livros de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale e Alias Grace; mas, nos restantes oito lugares do Top 10, só existe um homem, Murakami. Fazem parte da lista A Serpente do Essex, de Sarah Perry, dois livros (um romance e uma colectânea de poemas) de Helen Dunmore (o facto de ter morrido recentemente não deve ser estranho ao aumento da procura, é um clássico); a eterna Elena Ferrante, Naomi Alderman (que ganhou o prémio de ficção escrita por mulheres com The Power) e ainda Ali Smith, Zadie Smith, Maggie O’Farrell e Arundhati Roy. Nem o Prémio Nobel entregue em Outubro a Kazuo Ishiguro ajudou o sexo masculino desta vez… Talvez tenha começado uma era das mulheres. Nunca se sabe.

 

P.S. Porque já tinha avisado, os comentários que considerei ofensivos e disparatados foram eliminados. Perdoem-me os que comentaram esses comentários e que também desapareceram, mas não fazia sentido deixá-los.

26
Jan18

Premiado

Maria do Rosário Pedreira

Às  vezes nem sabemos bem dizer porque simpatizamos com determinado jornalista – e não só pelo que escreve, mas pela pessoa de carne e osso. Conheço mal Nuno Pacheco – e creio ter-me cruzado com ele ao vivo pela primeira vez nas exéquias de Eduardo Prado Coelho; depois disso, sobretudo em concertos de fado – e poucos. Mas leio sempre o que escreve – e não só normalmente concordo com as suas escolhas, como gosto de o ver aguerridamente ocupar o vazio deixado por Vasco Graça Moura na polémica sobre o Acordo Ortográfico. Ora, diz-me a Sociedade Portuguesa de Autores na sua newsletter que decidiu atribuir o seu Prémio de Jornalismo Cultural este ano a Nuno Pacheco, jornalista do Público desde a fundação e que há anos escreve sobre música portuguesa e brasileira, acompanhando o nascimento de novos talentos e os talentos já instalados. Este prémio foi entregue pela primeira vez no ano passado ao director da Antena 2, João Almeida. Parabéns, Nuno Pacheco. Gosto de saber que foi premiado.

25
Jan18

Ler Saramago no Chiado

Maria do Rosário Pedreira

Não sei se têm isto bem presente, mas este é o ano em que se comemora o vigésimo aniversário da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago. A editora do mestre (com a colaboração da Fundação José Saramago, certamente) tem previstas várias celebrações e actividades ao longo de 2018, mas hoje à tarde o Ler no Chiado vai dedicar-se inteiramente ao nosso (único) escritor laureado. Na Bertrand do Chiado, como de costume às 18h30, Anabela Mota Ribeiro vai falar com Pilar del Río, a viúva, e José Carlos Vasconcelos, um jornalista que acompanhou o percurso do escritor do início ao fim, tomando como pretexto o livro lançado há uns meses na FLIP, no Brasil, e recentemente também em Portugal, sobre a grande amizade que uniu Saramago e Jorge Amado e que se traduz numa correspondência... «com o mar pelo meio». Se quer saber tudo sobre este par de escritores e não tem planos para esta tarde, não falte.

24
Jan18

Os homens preferem as louras

Maria do Rosário Pedreira

Há uns tempos, Lobo Antunes acusou Pessoa de ter «fornicado» pouco... Na verdade, até há pouquíssimo tempo, a única mulher que se lhe conhecia era Ofélia Queiroz (da família do poeta Carlos Queiroz), que tinha 19 anos quando Fernando se apaixonou por ela, sendo ele bastante mais velho (32, parece-me). A paixão foi clara, basta ler as cartas que estão há muito publicadas, nas quais o grande poeta desce ao domínio dos mortais e se torna quase um adolescente embasbacado e «ridículo» (como as «cartas de amor» de Álvaro de Campos). Depois de cerca de oito meses de namoro, a relação terminou; e, nove anos mais tarde, houve ainda uns meses em que namoricaram. E foi tudo quanto a amores na vida do génio... Ou parecia. José Blanco e o poeta espanhol Ángel Crespo insistiram em que havia outra, por causa de uns poemas escritos mais para o final da vida do poeta que mencionam uma loura, mas nunca conseguiram chegar a um nome; e, por mero acaso, o historiador José Barreto (que se interessa mais pelo lado filosófico do autor) encontrou duas cartas e somou dois mais dois, revelando que afinal a loira era real. Trata-se de uma inglesa a quem Fernando chamava Madge (Margaret Anderson) e era irmã de uma sua cunhada (além de mais tarde se ter tornado uma decifradora de códigos secretos durante a Segunda Guerra Mundial). Um artigo de Rita Cipriano recentemente publicado no Observador conta tudo, mas o melhor mesmo é ir à revista Pessoa Plural, em que Barreto explica como chegou lá.

23
Jan18

Parem os relógios

Maria do Rosário Pedreira

Aos trinta e seis anos, a professora de literatura Helena Remington apaixona-se por um italiano de visita a Lisboa. O romance entre os dois é, porém, abruptamente interrompido por um acidente de automóvel na costa italiana, onde ambos passavam férias. Decorridos vinte anos sem notícias de Fabrizio, Helena recebe uma carta da filha dele com um pedido urgente. Para o satisfazer, terá de lançar-se na mais arriscada aventura da sua vida, envolvendo-se com gente perigosa numa autêntica corrida contra o tempo. Muitos anos mais tarde, Carlos – o sobrinho-neto preferido de Helena – conhece Francesca, uma rapariga italiana... Este é só o princípio de Parem Todos os Relógios, de Nuno Amado, um romance que foi finalista do Prémio LeYa e acaba de sair para os escaparates. Na quinta-feira estaremos a falar dele na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz às 21h30. No dia 31 acontecerá o lançamento em Lisboa, na Livraria Buchholz, às 18h30, com apresentação de Luísa Mellid-Franco. Esteja onde estiver, leia.

 

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