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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Fev17

Sucesso pela tradução

Maria do Rosário Pedreira

Há tantos autores a escreverem hoje em dia em todo o mundo que, como já aqui tenho dito, são poucos os que se internacionalizam e conseguem traduções noutras línguas. É, porém, bastante curioso que alguns dos que o conseguem comecem a ter êxito e reputação justamente por causa delas. O chileno Luís Sepúlveda, por exemplo, vende incomparavelmente mais livros em Portugal e na Itália do que no seu Chile natal, e Paul Auster confidenciou um dia ao Manel que vendia muito mais livros em França do que nos EUA, onde podia andar pelas ruas à vontade sem ser reconhecido. Há muitos anos as Publicações Dom Quixote publicaram Elena Ferrante, mas nessa altura ela não era célebre como hoje e os livros passaram despercebidos; o que efectivamente a tornou famosa em todo o mundo foi a edição americana de A Amiga Genial. O mesmo para Roberto Bolaño: a tradução das suas obras nos Estados Unidos contribuiu para que se tornasse um mito e fosse publicado em todo o lado, mesmo depois da morte. Num artigo sobre a matéria publicado no The Guardian, leio que uma data de escritores só passaram a ser levados a sério nos seus países de origem depois de alcançarem notoriedade num país estrangeiro: Laura Kasischke, por exemplo, que foi capa do jornal Le Monde em França, enquanto nos Estados Unidos dava aulas numa pequena comunidade do Michigan e ninguém sabia quem era; e também os autores britânicos Robert McLiam Wilson, David Mark e Rosamunde Pilcher, que atingiram números de vendas e admiradores substanciais em França e na Alemanha antes de o Reino Unido lhes prestar atenção; ou mesmo a grande Donna Leon, que diz que os Europeus sempre gostaram mais dela do que os Americanos, pois estão simplesmente mais habituados a ler literatura séria e, além disso, ela sempre viveu na Europa. Durante muito tempo, o nosso querido Rentes de Carvalho tinha um sucesso enorme na Holanda, onde vivia, e cá quase ninguém o conhecia…Enfim, parabéns aos tradutores no meio de tudo isto.

02
Fev17

Ler ou não ler

Maria do Rosário Pedreira

Há uns tempos, fui cortar o cabelo. Uma das senhoras que frequentam o cabeleireiro e sabe que sou editora, estava preocupada: na escola da neta, que tem treze anos, a professora de Português mandara ler o primeiro romance de Valter Hugo Mãe, O Nosso Reino, e a mãe da miúda tinha espreitado o livro e achado que não era adequado para aquela faixa etária. Disse-lhe que, de facto, o acharia mais apropriado a estudantes do Secundário. Na semana seguinte, descobri no jornal Expresso uma polémica relativa à Escola Pedro Nunes, cujos professores também recomendaram o romance: os pais de muitos alunos discordam em absoluto da leitura da obra pelos seus filhos do oitavo ano (talvez porque inclui linguagem muito crua em certas passagens, embora poucas) e foram à escola indignar-se e propor a sua imediata substituição. Enquanto a senhora que vai ao meu cabeleireiro já me avisou que, afinal, a professora da neta desistiu da ideia de os seus alunos lerem o livro (pelos vistos, ela própria ainda não o lera e, ao fazê-lo, acabou por concordar que era pesado para miúdos de 13 e 14 anos; que professora é esta que recomenda um livro que não leu?), na Escola Pedro Nunes houve professores que fizeram finca-pé e dizem que os alunos já não são crianças e que a literatura também serve para incomodar; além disso, o Plano Nacional de Leitura recomendava a obra para o 3º ciclo do Básico, ou seja, do 7º ao 9º ano (ao que parece, houve um erro informático na classificação). Ora, diante dessa decisão, houve pais que proibiram simplesmente os filhos de ler o livro (arcando com as consequências, entre elas a de que os miúdos o vão ler às escondidas, claro) e pais que se deram ao trabalho de pintar por cima das passagens mais vernaculares (como se a literatura pudesse ser amputada)… Eu, que conheço bem este romance porque fui eu o publiquei pela primeira vez, acho que, para o ler – as suas páginas sem maiúsculas ou pontos de interrogação, a sua linguagem elaborada, as questões tratadas (políticas, filosóficas, místicas) –, é preciso já ter alguma maturidade intelectual e bons hábitos de leitura, e custa-me muito a crer que em turmas do oitavo ano haja alunos suficientes com estas características que possam realmente fruir o texto em todas as suas vertentes. Tenho uma sobrinha de 14 anos bastante boa aluna e informada (quis ir pessoalmente assinar o livro de condolências de Mário Soares, por exemplo), mas não me parece, mesmo assim, que ela fosse entender este romance em toda a sua grandeza. Nunca proibiria um filho de o ler (eu própria li muita coisa em miúda que não era para a minha idade) só por causa de meia dúzia de palavras que, fora do contexto, podem parecer chocantes (os jovens, sempre com o nariz na Internet, já leram certamente coisas muito piores); mas, que me desculpe ou agradeça o Valter, parece-me que a sua leitura por gente desta idade pode simplesmente queimar futuros leitores para a sua obra.

 

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01
Fev17

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

O meu querido irmão Jorge ofereceu-me no Natal o último livro de Ian McEwan, Numa Casca de Noz, traduzido por Ana Falcão Bastos, que tenho o prazer de conhecer há muitos anos. Possuo – julgo eu – a obra ficcional completa de McEwan (comecei a lê-lo pel’ O Jardim de Cimento em 1987, era ele um jovem e eu também), mas ainda não tinha conseguido pegar nesta maravilha que ando agora a ler. O protagonista do romance é – pasme-se! – um feto (enroladinho como se estivesse numa casca de noz) e, por acaso, já não lhe falta assim muito tempo para nascer. Concebido por Trudy (uma doidivanas manipuladora que bebe demasiado vinho, especialmente para uma grávida) e John (um editor de poesia melancólico que a ama desesperadamente), o bebé que fala connosco ouve tudo o que se passa dentro do corpo mãe (os pormenores são divinos) e bem assim cá fora, perto dela; e, por isso, não só anda preocupado com o estado do mundo a que virá aportar (Trudy gosta de ouvir rádio e as notícias raramente são animadoras), mas sobretudo com a família que lhe calhou em sorte, pois a mãe está em vias de trocar o marido pelo cunhado e, com a ajuda deste, «livrar-se» de John e… também, a seu tempo, da criança que tem na barriga. A cerca de duas semanas do parto, a indignação do bebé é grande e vamos ver como as coisas se vão desenrolar até lá, que ainda me faltam umas cem páginas, onde tudo pode acontecer. Uma escrita fantástica, uma leitura desafiante.

31
Jan17

Em Belém

Maria do Rosário Pedreira

Isabel Alçada – ex-ministra da Educação, escritora e fundadora do Plano Nacional de Leitura (PNL) – trabalha agora com o Presidente da República na área da Educação e montou, para alegria de Marcelo (que sempre gostou de livros), um programa que junta leitores e autores no Palácio de Belém uma vez por semana. À terça-feira, dois grupos de alunos de vários níveis de ensino de mais de 250 escolas públicas vão ter, assim, oportunidade de visitar a casa oficial do Presidente e falar com um determinado escritor (mais de 60 foram convidados) sobre a respectiva obra. (O escritor que tem, naturalmente, livros no PNL, ou seja, cuja leitura é já aconselhada). Os autores variam muito e podem produzir obra infantil – como António Torrado ou Alice Vieira, por exemplo – ou para adultos – como Afonso Cruz ou Valter Hugo Mãe – até porque, entre os estudantes que compõem as turmas do Secundário, já haverá quem leia como gente grande. E é suposto – em qualquer que seja o grau de ensino – os professores trabalharem na escola com os seus alunos os livros dos escritores com quem se encontrarão em Belém, para que as sessões sejam mais interessantes e os próprios escritores esclareçam dúvidas e matem a curiosidade aos seus interlocutores. De caminho, já se sabe, há sempre a possibilidade de tirar uma selfie com o Presidente.

30
Jan17

Contra-sensos

Maria do Rosário Pedreira

Li um dia destes no Diário de Notícias que o primeiro livro de Hergé da série Tintim – Tintim no País dos Sovietes –, que até agora só existia na sua versão original, a preto e branco, vai ser finalmente colorido. Mas talvez o país dos Sovietes fosse mesmo um bocadinho cinzentão e as cores agora não respeitem esse mundo obscuro... Espero pela publicação para ver se pintar o livro não será um contra-senso; mas, por falar em Sovietes, lembrei-me de que recentemente o semanário Expresso começou a oferecer em pequenos fascículos uma biografia de Estaline da autoria de Simon Sebag Montefiore, biografia que já tinha sido publicada entre nós num único volume bastante gordo. Exclusivamente para a edição oferecida com o jornal, pediram um prefácio a Francisco Louçã, o que, estou convencida, enriquece a obra; porém, segundo o Manel, que já o leu, o prefaciador não poupa nas críticas à tradução do livro... Não será então um contra-senso oferecê-lo aos leitores tal como estava, não ter aproveitado os reparos para fazer uma boa revisão? É que, mesmo que algumas pessoas não dessem pela calamidade, ficam logo avisadas de que o que têm na mão vem com defeito...

 

27
Jan17

A palavra intraduzível

Maria do Rosário Pedreira

Nós, portugueses, costumamos dizer que temos uma palavra intraduzível: saudade. Não é a mesma coisa que nostalgia (palavra quase igual em muitas línguas) e exprime um sentimento de tristeza pela ausência de alguém. Um dia destes, perguntei-me se “saudade” teria a mesma origem de “saudar” (são tão próximas) e pensei que, no fundo, a saudade talvez significasse um desgosto por não poder cumprimentar alguém que está longe. Mas não: ao que apurei, “saudar” vem de saúde, pelo que ainda hoje os espanhóis se despedem nas cartas com “saludos” e os italianos com “saluti”, querendo no fundo dizer que desejam que os outros estejam ou fiquem bem de saúde, tal como César dizia “salve” e, ao batermos os copos para um brinde, fazemos nós mesmos uma “saúde”. A saudade vem do latim (solitus+atis, uma espécie de solidão, uma vez que solus significa “a um”, ou seja, sozinho). É por o outro se encontrar longe que estamos sozinhos e sentimos a sua falta, expressão que em inglês e francês é mais directa (“I miss you”, sinto a tua falta; “tu me manques”, faltas-me); em espanhol, o correspondente a “tenho saudades tuas” é “te extraño”, que não pode traduzir-se por “estranho-te”, mas que é um pouco o avesso do que se “entranha”, isto é, o que está afastado. Franceses e espanhóis passam o ónus do desgosto para quem falta, nós e os ingleses assumimos a nossa própria solidão. Saúde para todos!

26
Jan17

Obama Leitor

Maria do Rosário Pedreira

Numa entrevista concedida ao New York Times uma semana antes de deixar a Casa Branca, Obama declarou que os livros o ajudaram muito a sobreviver aos oito anos da presidência e que, aliás, sempre desempenharam um papel fundamental na sua vida desde a juventude, em que os levava nos seus passeios, ensinando-o a perceber quem era e quais eram, realmente, as suas ideias. Nos oito anos em que foi presidente dos Estados Unidos, nunca se afastou da leitura, considerando os livros uma excelente fonte de inspiração sobre as complexidades e ambiguidades da condição humana, bem como uma forma de abrandar  da confusão da vida política e ganhar distanciamento e perspectiva sobre as coisas, para poder pensar melhor e ter o equilíbrio necessário no momento de tomar decisões. Os escritos de Martin Luther King, Gandhi e Nelson Mandela foram, nessa medida, de grande utilidade, bem como as biografias de outros presidentes dos EUA. Mas Obama também confessa ter lido vários livros de ficção narrativa como escape, e inclui na sua lista obras de Roth, Bellow e V. S. Naipaul, mas também Junot Díaz e Jhumpa Lahiri, Marilynne Robinson, David Eggers e Zadie Smith. Ao novo presidente, acho melhor nem perguntarem o que anda a ler…

25
Jan17

Subserviência ou medo

Maria do Rosário Pedreira

Leio no The Guardian a notícia de que a Prémio Nobel da Literatura Svetlana Alexievich e mais de trinta outros escritores, entre os quais o autor de policiais de sucesso internacional Boris Akunin e o poeta Lev Rubinstein, deixam o PEN Club da Rússia, reagindo à expulsão de Parkhomenko, membro do staff e acusado de ser um provocador e querer destruir a instituição a partir do seu interior. Ao que parece, Parkhomenko, destituído pelos 15 membros da administração do PEN russo, não gostou que os colegas recusassem o seu pedido de apoio ao cineasta ucraniano Oleg Sentsov, a cumprir uma pena de 20 anos de prisão decretada pelo tribunal da Rússia por «actividades terroristas», e acusou no Facebook o mesmo PEN de não cumprir a obrigação de defender e promover a liberdade de expressão, como fazem todos os outros PEN em diferentes lugares do mundo. Svetlana Alexievich, na carta em que comunica o seu afastamento da organização, alerta para o facto de nos anos da Perestroika o PEN ter sido motivo de orgulho para os escritores russos, mas sublinha que agora a instituição os envergonha pela subserviência ao poder, o que só tinha acontecido – et pour cause – durante o estalinismo. E acrescenta que, um dia, Putin partirá, mas que esta triste página do PEN ficará gravada para sempre na memória de todos… Os escritores, é verdade, poderão até imortalizá-la.

24
Jan17

O balanço das mortes

Maria do Rosário Pedreira

O final do ano é sempre época de balanço – e os nossos jornais fazem por publicar as listas do que de melhor houve em termos de livros, filmes, álbuns de música, peças de teatro e exposições. E, logo que o novo ano se inicia, afadigam-se então quase sempre os mesmos jornalistas a anunciar as novidades que estarão em lojas, museus e salas de espectáculos durante o primeiro trimestre. Este mês de Janeiro, porém, houve um jornalista (Nuno Pacheco, do jornal Público) que fez um artigo contra a corrente e, quiçá «aproveitando» a partida de Mário Soares, escreveu sobre várias outras despedidas – ou seja, fez o balanço das mortes de artistas e outras personalidades que ocorreram em 2016, deixando-nos a todos mais pobres. Foi, como ele disse, um ano muito duro – e só na parte que mais toca este blogue, a dos livros, os óbitos foram muitos. Morreram autores de diversas áreas: Alvin Toffler, o autor do profético A Terceira Vaga (lembro-me bem do sucesso deste livro) e Elie Wiesel, o activista judeu que sobreviveu aos campos de concentração e acabaria por receber o Nobel da Paz; outros dois escritores que tiveram o mesmo galardão, mas na Literatura: o italiano Dario Fo e o húngaro Imre Kertész; a senhora que escreveu Não Matem a Cotovia, Harper Lee; o grandíssimo Umberto Eco, escritor plural; uma das três Marias, Isabel Barreno; o poeta brasileiro Ferreira Gullar, vencedor do Prémio Camões em 2010; Michel Tournier, autor de, por exemplo, Sexta-Feira ou a Vida Selvagem; o autor da famosa peça Quem Tem Medo de Virgina Woolf, Edward Albee; Lars Gustafsson, que escreveu o belíssimo A Morte de Um Apicultor; e mais meia dúzia de pessoas que se dedicaram à escrita em vários países do mundo. Ufa! Espero que 2017 não nos leve tantos.

23
Jan17

Rádio ao vivo

Maria do Rosário Pedreira

Já há vários anos que é possível assistir ao vivo à gravação do programa de rádio Ensaio Geral, da autoria de Maria João Costa, da Rádio Renascença, que acontece uma vez por mês na Livraria Férin, em Lisboa. Mas a jornalista associou-se recentemente a João Paulo Cotrim (entre outras coisas, o editor da Abysmo) para a realização de um outro programa radiofónico intitulado Obra Aberta, estreado no dia 12 de Janeiro na Sala Glicínia Quartim do Centro Cultural de Belém, às 18h00, e igualmente aberto ao público interessado (e igualmente emitido na Renascença). A ideia é juntar um escritor a um leitor na mesma mesa – na estreia Frederico Lourenço, galardoado com o Prémio Pessoa, e António de Castro Caeiro – e fazê-los falar dos livros que leram, dos autores de que gostam, das personagens que os marcaram, abrindo os livros ali mesmo, diante do público, e explicando os porquês. Não consegui ir, infelizmente, a este programa inicial, mas no dia 26 de Janeiro (a Obra Aberta é quinzenal) será a vez de António Mega Ferreira (escritor) e João Queiroz (leitor) dividirem o tempo entre páginas e quem sabe consigo sair  do trabalho a tempo de estar às seis da tarde em Belém… A coisa promete.