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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

10
Jul17

A biblioteca do futuro

Maria do Rosário Pedreira

Plantar árvores? Sim, decididamente! E desta vez são abetos, um milhar de lindos abetos, que crescerão (já estão a crescer, aliás) nos arredores de Oslo. Para quê? Ora leiam, que a história é bem bonita. Desde 2014, escritores de vários países enriquecem todos os anos aquilo que será a biblioteca do futuro, oferecendo um manuscrito de sua autoria para ser impresso apenas em 2114, quando os abetos agora plantados forem centenários; então, serão cortados e transformados em papel, dando origem a antologias que reunirão textos de todos os autores envolvidos no projecto (depois da escritora canadiana Margaret Atwood, que foi a primeira convidada, a biblioteca do futuro já recebeu um texto do britânico David Mitchell e, em 2017, foi o poeta islandês Sjon, autor de algumas letras para canções de Björk, a oferecer o seu manuscrito). A graça – dizem os autores – está em escrever para um público que ainda não nasceu e será obviamente muito diferente dos leitores actuais das suas obras. Espera-se por isso que cada autor contribua com algo próprio da sua época que ilustre essa nova geração sobre o passado. Esta longa espera por um livro – cem anos – faz parte de um projecto de celebração da slow life na Noruega, de que fazem já parte uma espécie de Arca de Noé vegetal, que é uma reserva de sementes destinada a preservar a diversidade, e uma slow TV. Ideias bonitas.

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07
Jul17

Perplexidade e horror

Maria do Rosário Pedreira

A propósito de uma crónica de Ana Sousa Dias no Diário de Notícias (ou, melhor, de uma não-crónica, pois foi sobre o que não escreveu que eu acabei por ir bisbilhotar), descobri uma história tão romanesca que tinha mesmo de se transformar em livro (que eu saiba, ainda não traduzido entre nós, mas pode ser que alguém se lembre disso). Sacha Batthyany, um jornalista húngaro, sabia que descendia de aristocratas e que tinha tido uma tia-avó condessa muito respeitada, mas, como vivia na Suíça desde pequeno, estava mais ou menos afastado desse ramo da família. Um dia, porém, uma colega do jornal mostrou-lhe uma história terrível que acabava de ser publicada – e fê-lo porque o apelido do jornalista era incomum e coincidia com o de uma das personagens envolvidas na reportagem. Tratava-se do relato de uma festa em 1945, pouco antes do fim da guerra, num castelo que pertencia à tia-avó do jornalista, em que, a seguir ao jantar, os convidados tinham assassinado 180 judeus que trabalhavam como escravos na propriedade... e a convite do amante da anfitriã. O jornalista ficou perplexo e horrorizado e decidiu tirar tudo a limpo. Começou por interrogar o pai – que sabia da história – e foi descobrindo que não só a maior parte da família estava a par desse baile que acabara em tragédia para os judeus, mas também alguns dos seus membros nem sequer reprovavam realmente o que acontecera. Decidiu então pedir uma licença no jornal, investigar apesar das pressões da família para não o fazer (a tia-avó, ao que parece, ajudara muita gente no final da guerra a fugir para a Suíça) e escrever um livro que, na versão inglesa, se chama A Crime in the Family e narra o terrível episódio que desencadeou tudo, mas também os entraves e todas as peripécias da investigação.

 

06
Jul17

Enchouriçada

Maria do Rosário Pedreira

Eu bem sei que, às vezes, faço uns posts que são mais ou menos «encher chouriços» (até já me acusaram disso aqui), mas a verdade é que é raro o dia em que não ponha o dedo no ar aqui no blogue e, por isso, tenho desculpa (perdoo-me a mim mesma, pelo menos) para a falta de imaginação e de assunto. De qualquer maneira, talvez isso não seja razão para que regularmente me mandem convites da Confraria Gastronómica dos Enchidos (estou a falar a sério) e, ainda por cima, da parte do seu Grão-Mestre… Não sou assim uma grande consumidora de enchidos na forma alimentar (já na literária a profissão obriga-me a ler muito livro que também não passa de encher chouriços) e, no geral, nem sequer leio muito sobre comida. Fico, porém, surpreendida com a produção livresca à volta do tema dos enchidos de que sou mensalmente informada; e, desta feita, a obra para cujo lançamento sou convidada (dia 15, às 17h30, no Centro de Exposição de Odivelas) chama-se Bodas de Madeira da Confraria dos Enchidos e, para comemorar as ditas bodas (cinco anos), conta a história dos enchidos, falando dos diversos tipos de enchidos, apresentando receitas que incluem enchidos e juntando depoimentos de outras confrarias (do Mel, da Chanfana…) sobre a matéria. Enfim, para quem goste de enchidos, pode ser uma boa opção. E eu lá enchi mais um chouriço.

05
Jul17

Imperdível

Maria do Rosário Pedreira

A editora E-Primatur está a fazer um trabalho notável na recuperação de obras e autores portugueses um pouco esquecidos e, mesmo que não ignorados, por vezes mal tratados. Já aqui falei da Obra Essencial de Mário de Sá Carneiro preparada por Pessoa para a Presença (e muito bem tratada por Vasco Silva) e, desta feita, refiro-me à proeza que significa a publicação das Obras Completas de Mário-Henrique Leiria, de quem, aliás, a mesma editora já tinha publicado, numa espécie de ante-estreia, Casos de Direito Galático e Outros Textos Esquecidos. Este primeiro dos três volumes das Obras (com introdução, organização e notas de Tania Martuscelli, especialista em modernismo português e brasileiro e professora universitária no Colorado) inclui, entre outros, os mais emblemáticos textos do grande Mário-Henrique Leiria, quase lendários, cheios de humor negro e muito políticos, os Contos  do Gin Tonic (ao que parece bebia-se bastante gin no seu grupo de amigos surrealistas, de que faziam parte Cesariny e Cruzeiro Seixas), que ainda tenho numa edição da Estampa, com um friso de carantonhas feias na capa e o título dentro de uma bola (é isto a velhice?). O segundo volume reunirá os textos poéticos e o terceiro os manifestos e ensaios, além de cartas e desenhos, já que o autor era também artista plástico. Imperdível.

04
Jul17

A importância de se chamar...

Maria do Rosário Pedreira

Acaba de sair para o mercado um livro intitulado Os Apelidos Portugueses, de Carlos Bobone, que é decerto bastante oportuno, tendo em conta que os Portugueses são muito ciosos de alguns dos seus apelidos, mesmo num mundo cada vez mais informal. Mas não espere uma lista de nomes e a explicação da origem de cada um, pois não é nada disso. Mais interessante, a obra conta como os apelidos surgiram ao longo do tempo – muitas vezes baseados no nome do progenitor (Rodrigues, filho de Rodrigo), mas também inspirados nos nomes de terras ou lugares donde as pessoas eram oriundas (da Maia, como o protagonista do Eça), em alcunhas, maneiras por que as pessoas eram conhecidas (conheço uns Bastos que moravam numa calçada e acabaram sendo os Calçada Bastos), títulos, etc. De três apelidos simples em 1932 (um da mãe e dois do pai), em 1958 passámos a poder usar quatro apelidos simples e, em 1997, quatro apelidos simples ou compostos (nomes como Castelo-Branco ou Espírito Santo) a que podem ainda somar-se os dos cônjuges (até quatro, parece-me!). E a ordem é hoje muitas vezes arbitrária, porque as famílias querem manter certos apelidos finos e, por vezes, se só há raparigas, está tudo tramado. Do mesmo modo, há irmãos que vão buscar apelidos diferentes aos pais – e até filhos que têm apelidos de avós que os pais não têm. Enfim, a obra, que conta muita da nossa mania das fidalguias sobretudo com os «de» e os «e» para tornar os apelidos mais sonantes, conta a história de um senhor que se apresentou na casa de outro como D. Luiz Fernandes de Rello de Vasconcelos e Menezes. Ouvindo esse nome comprido ao mordomo, o anfitrião comentou que eram precisas então várias cadeiras... Vale a pena espreitar, pois aprende-se sempre qualquer coisa.

03
Jul17

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

 

Depois de o seu romance Teoria Geral do Esquecimento ter sido vencido por A Vegetariana na final do Man Booker International Prize de 2016, José Eduardo Agualusa conseguiu agora, com o mesmo livro, arrecadar o International Dublin Literary Award, no valor de 100 000 euros (25 000 dos quais vão para o tradutor, o que é justo). Estavam a concurso autores importantes como Pamuk, Anne Enright (de quem publiquei um romance há muito tempo) e o nosso querido Mia Couto – e o prémio é tão mais gratificante porque quem nomeia os candidatos são bibliotecas públicas de todo o mundo que também participam na votação dos livros finalistas. Numa forma de felicitar Agualusa por esta proeza, leio então o seu mais recente romance, A Sociedade dos Sonhadores Involuntários (mesmo que me tenha intrigado o título, pois acho difícil sonhar-se voluntariamente, mas que sei eu?), que junta, por causa dos sonhos, um jornalista cujo sogro, próximo do poder, é bastante castrador, uma artista plástica moçambicana radicada na Cidade do Cabo, um neurocientista brasileiro, um ex-guerrilheiro, todos num país dominado por um regime totalitário (está-se mesmo a ver qual é o país). Dedicado, entre outros, a Luaty Beirão e Nito Alves, este romance, segundo Mia Couto, «é tecido com os mais delicados materiais da poesia». Eu cá ainda vou  na página 40 e estou dentro de uma espécie de resort com bungalows, a ler a história de um menino que recolheu do zoo um leãozinho. Vamos ver no que vai dar. A edição é da Quetzal.

30
Jun17

Ignorância

Maria do Rosário Pedreira

Contaram-me que muitos americanos nunca viram um peixe senão em filetes, no prato, e que ficam estarrecidos quando lhes servimos aqui em Portugal um corpo escamoso, com uma espinha a meio, além de rabo e cabeça, ficando sem saber o que fazer com ele (mas depois gostam, claro). Também me disseram que, nos EUA, quando pedem a algumas crianças para desenharem uma galinha, elas a desenham depenada e embalada, tal como a encontram no supermercado. O Washington Post noticiou, porém, recentemente algo de bradar aos céus que até parece brincadeira... ou mentira. Publicando os resultados de um estudo realizado por um Centro de Inovação Americano, declara que 16 milhões de adultos norte-americanos (cerca de 7% da população) acham que o leite achocolatado que se vende nos supermercados provém de vacas castanhas, desconhecendo, aliás, que o chocolate é feito de cacau, leite, açúcar... Enfim, torna-se para mim cada vez mais claro como é que Trump chegou a presidente... Bom fim-de-semana!

29
Jun17

Ai, Dylan

Maria do Rosário Pedreira

A escolha de Bob Dylan para vencedor do Prémio Nobel da Literatura está desde o início envolta em polémica. Primeiro, foi o facto de se tratar, acima de tudo, de um escritor de canções, e não de um escritor no sentido mais tradicional; depois, foi o silêncio do premiado, que esteve sei lá quanto tempo sem atender o telefone à Fundação Nobel e sem se pronunciar sobre a circunstância de lhe terem atribuído o galardão. Quando finalmente decidiu acusar o toque e parecia que tudo correria bem, faltou à cerimónia marcada para a entrega do prémio, em Estocolmo, alegando compromissos enquanto músico (sabe-se lá se com uma remuneração superior à do prémio, que é de 820 e tal mil euros). Mesmo assim, era obrigatório entregar o discurso de aceitação para poder receber o valor do prémio e só uma semana antes de o prazo terminar Dylan se dignou a fazê-lo; o discurso, que julgo estar disponível online para quem o queira ler, falava de alguns livros que marcaram o músico-autor (que escolheu, aliás este nome artístico por causa do poeta Dylan Thomas), entre os quais se destacava o romance Moby Dick. Mas agora uma professora diz que ele roubou várias frases sobre a obra de Melville a um site de resumos de obras literárias usado especialmente por estudantes de literatura que não têm vontade de ler os livros de fio a pavio... Oh dear! A polémica não pára. 

28
Jun17

Livraria favorita

Maria do Rosário Pedreira

Há cada vez menos livrarias de jeito em Portugal – e muitos já se habituaram a comprar livros em supermercados, tabacarias e bombas de gasolina. Mas frequentar uma livraria que tenha pessoas que sabem o que fazem é muito diferente de fazer perguntas a um funcionário que se limita a ir ao computador para ver em que prateleira está o livro A ou B. É por isso que todos os anos os Portugueses são convidados pela APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) a votar na sua Livraria Preferida – e é bom quando vemos recompensado o esforço e o trabalho de livreiros que conhecemos e apreciamos. Foi o caso, por exemplo, da A das Artes, em Sines, que já ganhou este prémio no ano passado e foi agora eleita a livraria com melhor atendimento, e é o caso da Livraria Buchholz, desde 1965 junto ao Marquês de Pombal, em Lisboa, que, além de ser um espaço bonito que cheira a cultura por todos os lados, tem uma equipa muito simpática e eficiente. Parabéns por ter sido a Livraria Preferida dos Portugueses em 2017!

27
Jun17

As vozes do silêncio

Maria do Rosário Pedreira

Já de há alguns anos a esta parte que a Fundação Calouste Gulbenkian, com a supervisão de Helena Vasconcelos, promove um concurso de leitura de textos literários – muitos de poesia, mas não só – feita por jovens. No fim-de-semana passado, os vencedores da edição de 2015 do Dá Voz à Letra (assim se chama a iniciativa) – João Teixeira, Matilde Anjos, Maria Casquinha, Pedro Freitas e Rita Sousa – realizaram um pequeno espectáculo dirigido por Carlos Pimenta e com sonoplastia de Tiago Jónatas intitulado Sons no Silêncio, aproveitando o belo cenário da clareira do Jardim da Gulbenkian. Os textos, escolhidos por Helena Vasconcelos, construíam um diálogo entre dois poetas (a que alguém chamou também uma espécie de duelo): Fernando Pessoa (melhor dizendo, Álvaro de Campos) e um poeta norte-americano que aquele muito admirava (e nós também): Walt Whitman, autor do fabuloso Leaves of Grass (Folhas de Erva). Terá sido estupendo, mas, para quem não sabia ou não pôde ir (o meu caso) vai haver uma repetição no próximo fim-de-semana (dias 1 e 2 às 16h00) – e a melhor notícia é que a entrada é livre.