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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

10
Nov17

Economia para todos

Maria do Rosário Pedreira

Quando era pequena, tinha uma grande dificuldade em perceber por que motivo os banqueiros eram ricos se o dinheiro que estava depositado nos bancos não lhes pertencia. (Não sabia que eles o investiam nos seus negócios e que, em suma, o faziam render.) Um pouco mais tarde, o problema foi com as empresas em bolsa e o comprar e vender acções; e, mais tarde ainda, com a especulação financeira e a desvalorização da moeda. Embora tenha lido vários livros que me ilustraram sobre alguns assuntos, a economia para mim continua a ser basicamente misteriosa e impenetrável – e parece-me que talvez fosse bom a escola dar desde cedo algumas noções de economia aos alunos, até porque ela está presente no quotidiano de todos. Descubro então, quase por acaso, que o senhor Varoufakis (lembram-se dele?) escreveu há uns anos (e apenas em nove dias, caramba!, segundo conta no prefácio) um livro intitulado Falando de Economia com a Minha Filha, agora publicado também em inglês. Diz o ex-ministro grego nesta sua brevíssima história do capitalismo que economia é política e que, como tal, deve ser discutida em termos que todos entendam, incluindo a filha que era, na data da publicação da obra original, apenas uma adolescente. Acho que se calhar vou comprar a tradução inglesa do livro de Varoufakis e tentar realmente adquirir um conhecimento do qual estou francamente carente para compreender algumas notícias deste nosso mundo.

09
Nov17

Profético

Maria do Rosário Pedreira

Sinclair Lewis foi o primeiro escritor norte-americano a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1930. Mas o reconhecimento pelos seus romances satíricos, críticos dos políticos corruptos e do materialismo fútil da classe média americana não abarcava ainda o  livro de que falarei hoje, publicado em 1935, que se tornou uma obra profética após a eleição de Donald Trump. Escrito durante a Grande Depressão e publicado quando o fascismo começava a emergir na Europa de forma alarmante, Isso não Pode Acontecer Aqui conta a história de Buzz Windrip, um demagogo xenófobo e racista e que, apesar de praticamente iletrado, consegue derrotar Franklin Delano Roosevelt nas eleições presidenciais com a promessa de um regresso da América à prosperidade e ao orgulho, acabando por instaurar um regime ditatorial apoiado por forças militares altamente repressivas que nunca até ali os eleitores julgaram possível. No centro da acção, está Doremus Jessop, um jornalista do Connecticut que testemunha com horror a fragilidade da democracia e se torna um dos grandes resistentes à tirania, passando à clandestinidade. Oitenta anos depois da publicação original, este livro é assustadoramente atual.

 

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08
Nov17

Ler, beber e petiscar

Maria do Rosário Pedreira

Nem tudo o que acontece de interessante nos dias que correm se realiza nas grandes cidades – e Alcobaça, além de ser um lugar belíssimo que só por isso já merece visita, recebe pela quarta vez o festival Books & Movies – Festival Literário e de Cinema, que decorre entre 4 e 14 de Novembro e junta variadíssimas personalidades do meio cultural português para falarem de livros, filmes e muito mais «num clima de diálogo, de tolerância e de abertura» em espaços públicos da cidade. Este festival, organizado pela Câmara Municipal de Alcobaça, apresenta propostas para o público escolar e para o público em geral; e, no dia do fecho, às 18h00, na Granja de Cister, convida o escritor Paulo Moreiras (autor, simultaneamente, de romances literários e livros de gastronomia e etnografia) para falar da relação entre a literatura e a culinária, coisa que ele conhece como ninguém, não só por ter escrito sobre o assunto em livros como Pão & Vinho – Mil e Uma Histórias de Comer e Beber (e chorar por mais, claro) ou O Elogio da Ginja como ainda por ser alguém que escreve, cozinha e come muito bem. Se não puder ir a esta sessão, moderada por José Fanha, há muito mais. O programa completo segue no link abaixo.

 

http://www.cm-alcobaca.pt/pt/menu/1115/booksmovies.aspx

07
Nov17

BIS

Maria do Rosário Pedreira

Toda a gente sabe que um dos mais prestigiantes prémios literários portugueses é o que anualmente atribui a Associação Portuguesa de Escritores (APE) nas categorias de romance ou novela, poesia e ensaio. Na ficção, é muito raro um autor conseguir vencê-lo com um livro de estreia – e Ana Margarida de Carvalho ganhou-o com o seu primeiro romance, intitulado Que Importa a Fúria do Mar (o título parte de uma canção de Zeca Afonso). É também pouco comum este prémio ser atribuído mais de uma vez à mesma pessoa – em quase trinta anos, só houve seis autores que bisaram: Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes e Mário Cláudio; Agustina Bessa-Luís, Maria Gabriela Llansol e, agora, Ana Margarida de Carvalho! Mas o que penso aconteceu pela primeira vez foi um autor receber o Grande Prémio de Romance e Novela da APE-DGLAB pelos seus dois primeiros livros; e foi isso que aconteceu a Ana Margarida de Carvalho que, com Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, foi também finalista do Prémio P.E.N. de Narrativa (ganho por Ernesto Rodrigues) e do Prémio Oceanos (antigo PT), no Brasil, que vai ser decidido no dia 7 de Dezembro. Mais logo, pelas 18h00, no renovado Palácio Galveias, em Lisboa, Ana Margarida recebe o seu segundo prémio da APE na presença de alguns dos jurados e do Ministro da Cultura, o poeta Luís Filipe Castro Mendes. Apareçam.

06
Nov17

Pessoas e escritores

Maria do Rosário Pedreira

Uma das coisas de que mais gosto em Eduardo Lourenço é que ele é muito gente por detrás do grande intelectual e pensador que também é. Estar com ele é um prazer também por causa disso, por estar ao nosso lado como um de nós, com uma humanidade muito especial. Há escritores que são muito distantes – ou muito artistas, muito «elevados» em relação ao resto das pessoas (e isso irrita). Mas há outros que gostam tanto de escrever como de comer, conversar ou ir ao futebol (penso que Carlos de Oliveira, por exemplo, era um doido pela bola e uma destas pessoas muitíssimo «normais», apesar da fama e da importância). A este título, Jorge Amado é também um bom exemplo de «gente», e a história que li recentemente no mural do Facebook de Josélia Aguiar, a curadora da FLIP (o festival literário de Paraty), comprova-o. Quando o escritor brasileiro tomou posse como membro da Academia de Letras da Bahia vestiu o smoking da ordem para proferir o seu discurso; ao terminar, uma repórter aproximou-se dele para perguntar como se sentia. A resposta, segundo o Jornal do Brasil, foi a seguinte: «Muitíssimo suado, minha filha.»

03
Nov17

Em leilão

Maria do Rosário Pedreira

Recebi um e-mail sobre leilões – e tê-lo-ia apagado imediatamente se não tivesse reparado, numa rápida vista de olhos, que a coisa iria ocorrer na Cooperativa Árvore, no Porto, um lugar de culto a que não sou indiferente. Deitei então um olhar mais demorado ao texto para ficar a saber que estava em causa o património de um senhor que conheci há muitos anos e é admirado por muitíssimas pessoas: o livreiro portuense Fernando Fernandes, segundo Agustina «o maior dos livreiros portugueses», fundador da Livraria Leitura, passagem obrigatória de tudo o que era intelectual e leitor sério na Invicta ao longo de várias décadas. Pois bem, os tempos mudaram e Fernando Fernandes é agora obrigado, por razões de saúde e necessidade, a «desfazer-se» de 4000 peças!, incluindo 120 obras de arte (de pintores como Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, Zulmiro de Carvalho, Fernando Lanhas ou Júlio Resende) e 650 livros seleccionados, como Poesias Completas (1951-1981), de Alexandre O´Neil, com dedicatória assinada; Quadros Portuenses, uma edição de luxo de Agustina Bessa-Luís – com 10 aguarelas de António Cruz; ou até As Quatro Estações, de Jorge Sena, Eugénio de Andrade, Faria Almeida e Vergílio Ferreira, ilustrado a cores em folhas à parte. Não consigo imaginar o que será para Fernando Fernandes separar-se de uma colecção como a sua, embora ele confesse que ainda fica com muitos livros para ler. Parece-me, de qualquer modo, um terrível sinal dos tempos. (Os leilões decorrem até amanhã.)

02
Nov17

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Javier Cercas escreve estupendamente sobre personagens e acontecimentos reais num tom de romance em que é tudo inventado; em Espanha até se diz que escreve «romances de não-ficção». Sim, é mais ou menos isso – e o livro que ando a ler neste momento não é excepção. Chama-se O Monarca das Sombras e regressa ao período da Guerra Civil espanhola já visitado pelo autor no maravilhoso Os Soldados de Salamina, obra que o celebrizou. Depois de muito hesitar, em parte também por se encontrar nos antípodas políticos do seu protagonista, em parte por vergonha assumida, em parte por não querer entrar em litígio com parentes (incluindo a mãe), Cercas decidiu dedicar este livro a um tio-avô materno, Manuel Mena, que combateu ao lado dos Franquistas e morreu em 1938 na Batalha do Ebro, dois anos apenas depois de se ter alistado, tornando-se uma espécie de herói oficial da família (o pobre rapazinho «que morreu do lado errado da História»). Todos os que morrem jovens, com uma vida inteira por viver, invocam uma certa sensação de desperdício – e o sobrinho-neto de Manuel Mena quis saber mais sobre o passado desta figura de que, em Ibahernando, a terra onde nasceu (e donde os pais emigraram poucos anos mais tarde para a Catalunha), muita gente se orgulhava. Descobrir algumas coisas incómodas (e não só sobre o jovem combatente, mas também sobre outras gerações da família) faz, naturalmente, parte do processo. Ainda vou no primeiro terço do livro, mas já entendi que é para ler a correr até ao fim.

31
Out17

O menino e a menina

Maria do Rosário Pedreira

O politicamente correcto às vezes (quase sempre) enerva… E aquela história de não poder haver livros e brinquedos diferentes para meninas e meninos é um bocado irritante. Todos conhecemos meninas que adoram ser princesas e rapazes que só querem carros e bolas, e isso é tão normal que até se diz que uma menina é maria-rapaz se preferir correrias ao ar livre a brincar aos pais e às mães (era o meu caso, supostamente por ter um irmão pouco mais velho). Enfim, tudo quanto é demais é erro, e agora foi a vez da Real Academia Espanhola (RAE) se insurgir contra a forma como os políticos se dirigem ao eleitorado, com um «caros e caras» e «todos e todas», que considera um abuso do politicamente correcto, uma vez que os falantes de espanhol (e o mesmo acontece com os de português) não estão necessariamente a discriminar quando usam o plural masculino «caros» ou «todos» para se referirem a homens e mulheres, nem precisam de mudar a sua língua para fugir ao sexismo. O relatório da RAE critica as novas tendências linguísticas usadas por universidades, sindicatos e governos regionais em Espanha, que propõem a utilização de palavras como «cidadania» para substituir «os cidadãos» (cá também houve a polémica do Cartão de Cidadão acho que por causa do BE) ou «o professorado» para falar de professores dos dois sexos. O jornal argentino La Nación concorda, dizendo que não é preciso ser lexicógrafo para perceber que a palavra «infância» não equivale a dizer «os miúdos». O autor do relatório defende que «o uso genérico do masculino para designar os dois géneros está muito enraizado no sistema gramatical espanhol» e que não faz sentido «forçar as estruturas linguísticas». E foi aprovado por unanimidade pelos membros da Academia, da qual fazem parte muuuuuuuuuitos escritores. Então, aqui no blogue, quando eu falar de Extraordinários, não estou a omitir as mulheres, certo?

30
Out17

Influência e influências

Maria do Rosário Pedreira

Numa recente entrevista ao vivo conduzida pela jornalista Isabel Lucas na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, o grande romancista norte-americano Jonathan Franzen «pediu» para não responder a uma pergunta sobre os autores que mais o influenciaram. Essa pergunta é sempre incómoda para um escritor (e também para os escritores que não cita e ainda estão vivos e gostariam de ter influenciado os mais novos); incómoda porque talvez um crítico a sério perceba melhor quais são as influências de um escritor do que ele próprio (por vezes, até as inventam – como quando disseram que a minha poesia era claramente influenciada por um livro que nunca li). Contudo, o mesmo Jonathan Franzen, numa entrevista ao The Guardian, confessou que a obra que certamente teve mais influência na circunstância de se tornar escritor (atentem na nuance, pois não é a mesma coisa que Isabel Lucas lhe perguntou em Lisboa) era As Crónicas de Narnia, essa série juvenil do britânico C. S. Lewis que vendeu mais de 100 milhões de exemplares em todo o mundo e na qual as crianças entram num guarda-fatos e saem do outro lado num mundo mágico. Aí convivem com feiticeiras boas e más, animais humanizados, criaturas míticas, estrelas, anões e sei lá que mais. Embora durante muitos anos esta colecção de aventuras fantásticas tenha parecido a muitos uma obra menor, a verdade é que levanta questões muito interessantes e tem um leque de personagens capaz de fazer qualquer jovem querer ser outra pessoa – ou, como no caso de Franzen, querer ser escritor. Nesta perspectiva, o poeta que mais me influenciou a escrever poesia foi seguramente João de Deus – mas isso não tem nada que ver com as outras influências de que ela provavelmente sofre.

27
Out17

Descobertas

Maria do Rosário Pedreira

No ano passado (ou no anterior, já não sei muito bem) fui a Coimbra à Casa da Escrita participar numa apresentação da minha Poesia Reunida por uma investigadora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Teresa Carvalho. Não a conhecia até então, mas passei a estar mais atenta ao seu nome e descobri que não só escrevia regularmente artigos sobre literatura portuguesa ou recensões na imprensa como também era presença regular em festivais na qualidade de entrevistadora e apresentadora de autores. Ontem, muito por acaso, à procura de um livro de que precisava e já não sabia onde tinha metido, descobri uma edição da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) de uma obra intitulada 55 Vidas e Obras de Grandes Autores Portugueses, assinada justamente por Teresa Carvalho (a edição já tem uns cinco anos), obra que lhe foi encomendada na sequência de uma exposição (A Celebração dos Autores) na qual a SPA homenageava cerca de quatro dezenas de autores portugueses, todos eles membros daquela Sociedade. A colecção de olhares sobre as figuras inclui nomes como Alexandre O'Neill ou Aquilino Ribeiro, David Mourão-Ferreira ou Eugénio de Andrade, António Botto ou Fernando Namora. Mas os autores não são apenas escritores, e constam do volume nomes de criadores como o de António Variações ou Frederico de Brito (um homem do fado), Mário Viegas ou Viana da Mota, Carlos Paredes ou Jorge Peixinho… e, por exemplo, alguns menos óbvios como Humberto Delgado e Ribeirinho. Enfim, vou espreitar. Não sei se só os membros da SPA tiveram direito a um exemplar, mas tenho sorte de ter sido uma feliz contemplada.