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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Mar17

Oceanos

Maria do Rosário Pedreira

É um oceano aquilo que evidentemente nos separa do Brasil; e a língua portuguesa, que tantas vezes achamos que também nos separa, vai agora unir-nos numa excelente iniciativa; o Prémio Oceanos (antigo Prémio Literário Portugal Telecom), ao qual até ao ano passado só podiam concorrer livros em língua portuguesa publicados no Brasil, passou há menos de uma semana a contemplar também todos os livros publicados em Portugal nas várias categorias a concurso. A sua curadora em Portugal será a jornalista Ana Sousa Dias. São boas notícias, claro, pelo valor e pela importância do galardão, já ganho, de resto, por alguns escritores portugueses, entre os quais Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe, embora com as edições brasileiras dos seus romances. O oceano vai também estreitar-se daqui a uns mesinhos, no momento em que abrir a Feira do Livro de Lisboa, pois o Pavilhão do Brasil, ausente do certame há meia dúzia de anos, vai regressar em força e dar um ar da sua graça entre 1 e 18 de Junho próximos (a feira este ano começa mais tarde). Tanto mar, tanto mar, mas afinal não tão difícil de navegar no que toca às letras.

13
Mar17

Uma odisseia

Maria do Rosário Pedreira

Em inglês, Ulisses é Odysseus – e o Ulisses de James Joyce, ainda que hoje seja considerado em todo o mundo um dos grandes clássicos da literatura do século XX, passou por uma autêntica odisseia até ser publicado e reconhecido como tal. Há até quem diga que a história da sua publicação terá sido tão complexa como o processo de escrita a que o autor irlandês dedicou muitos anos da sua vida. Segundo leio num blogue espanhol, quem o conta é Kevin Birmingham numa obra que se lê como um verdadeiro livro de aventuras e que relata como Ulisses, depois de ser considerado imoral no Reino Unido e ter tido, por isso, enormes problemas de distribuição, foi proibido nos EUA por causa de certas leis anti-pornografia e objecto de contrabando, entrando no território pela fronteira com o Canadá ou camuflado por outros produtos em barcos que chegavam da Europa. A primeira edição americana foi, aliás, uma edição pirata (um editor atrevido que sabia que tinha muitos leitores interessados no título censurado) e só nos anos 1930 foi possível publicar o livro livremente na América, conseguindo a grande editora Random House, certamente com a ajuda de bons advogados, ganhar um processo judicial que mudou a perspectiva do livro que tinham alguns juízes. Para quem quiser espreitar esta odisseia do outro Ulisses, o livro de Kevin Birmingham, na tradução espanhola, chama-se El libro más peligroso: James Joyce y la batalla por Ulises.

10
Mar17

Pecar

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã já deverá estar à venda em algumas livrarias (e até terça-feira nas restantes) o mais recente ensaio de Miguel Real, intitulado Nova Teoria do Pecado, sobre um assunto – o pecado, claro está – que, segundo a Bíblia, foi o início da nossa perdição (e tudo porque queríamos saber mais, comendo o fruto da árvore do conhecimento, o que hoje seria talvez razão para sermos elogiados). Mas este pequeno livro, na senda de outros do mesmo autor que formam já uma colecção (Nova Teoria do Mal, Nova Teoria da Felicidade, etc.), vai bastante longe, procurando os motivos pelos quais certos comportamentos foram considerados pecados pela Igreja e analisando as relações entre medo, culpa e poder, recuando até aos primórdios da História da humanidade. No final, reflecte também se nesta sociedade contemporânea em que vivemos (e que parece cada vez mais indiferente a tudo) ainda faz sentido falarmos de pecado ou castigo e se os muitos crimes que hoje se praticam pesam de facto nas consciências de quem os comete. Muito interessante, garanto.

 

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09
Mar17

Ressacar

Maria do Rosário Pedreira

Há quem adquira sentido de humor e uma alegria estonteante ao beber álcool, mas no dia seguinte é que são elas... Há também quem esteja de tal modo viciado em drogas duras que faça tudo (roubar, por exemplo) para que não lhe falte a dose seguinte, já que a ressaca acarreta, pelo que sei, dores insuportáveis. Nada disto se pode comparar, obviamente, com o vício da leitura; mas leio num blogue chamado Liprópatas que há gente que tem verdadeiras ressacas depois de ler determinados livros de forma intensa e intensiva. Começa logo porque o livro fatalmente tem um fim (presumo que o medo de que acabe seja uma pré-ressaca) e depois surge uma espécie de vazio (é ainda cedo para o substituir e, por isso, existe a tentação de voltar a ele e reler ou sublinhar as partes de que mais se gostou). Mas os efeitos secundários desta ressaca de leitura incluem também procurar todas as informações disponíveis sobre o autor na Internet, comprar todos os seus livros e, inclusivamente, tentar contactá-lo nas redes sociais e em clubes de fãs para exprimir opiniões pessoais e fazer elogios... O blog aconselha, para minimizar a ressaca, procurar um amigo que tenha lido o mesmo livro e falar com ele sobre a experiência. Se pensarmos naquele romance de Stephen King que deu origem a um filme – Misery –, facilmente concordaremos que o escritor deve ser deixado de fora das nossas ressacas.

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08
Mar17

Livro-retrato

Maria do Rosário Pedreira

Será que as nossas bibliotecas dizem realmente quem somos? Quantos dos livros que temos na estante foram efectivamente lidos por nós? Quantos estarão lá apenas porque alguém no-los ofereceu (e não estou a pensar em presentes dados por amigos e familiares que julgam, pelo menos, conhecer-nos, mas nessa grande quantidade de obras que nos vêm parar às mãos em festivais, congressos, bibliotecas públicas, câmaras e muito mais sem, na verdade, o desejarmos). É possível traçarem-nos um retrato fiel pelos livros que guardamos em casa? Bem, depois da morte de Doris Lessing, que recebeu o Prémio Nobel da Literatura, Nick Holdstock foi convidado a organizar a sua biblioteca (4000 volumes!) e, ao contrário do que esperava, o caos que encontrou não definia a sua proprietária: ela tinha de tudo, e muito desarrumado – filosofia ao lado de ilusionismo; mesmo na cozinha, havia muito mais do que livros de culinária, nomeadamente uma obra sobre os gulags na Albânia que não poderia certamente ser tida por uma receita saudável. Além disso, os livros não tinham praticamente vestígios da Doris Lessing leitora: nem cantos dobrados, nem sublinhados, nem mesmo o nome dela no frontispício, ainda que trouxessem frequentemente a marca dos seus autores em dedicatórias (de Raymond Carver, Alberto Manguel, Allen Ginsberg, entre outros). Nick Holdstock pensava que, ao folhear os exemplares, encontraria anotações importantes que queria seleccionar para um possível futuro biógrafo de Lessing, mas as voltas saíram-lhe trocadas... Agora, que o Manel e eu decidimos reunir as nossas duas bibliotecas para nos livrarmos dos repetidos e arranjarmos espaço para o que ainda virá, é que já ninguém nos poderá tirar o retrato como leitores.

07
Mar17

Camões no Porto

Maria do Rosário Pedreira

Uma das coisas que mais admiro no escritor Mário Cláudio é a sua generosidade. Ao contrário de muitos outros autores consagrados, que não lêem nada das gerações que se lhes seguem, Mário Cláudio disponibiliza-se frequentemente para ler as obras de jovens e principiantes e lhes dar a sua sincera opinião (outra virtude, porque não é pessoa para mentir). Foi, de resto, por ter lido o texto de uma autora que considerou merecedora de uma boa chancela editorial para os seus escritos que me encaminhou há tempos um romance de Isabel Rio Novo. Na altura, eu tinha tanta coisa para ler que, enquanto as costas não folgassem, como diz o ditado, sugeri à Isabel que concorresse ao Prémio LeYa – e o seu romance (Rio do Esquecimento) acabou por ser finalista nesse ano. Mário Cláudio ficou contente por ver que não era o único a reconhecer o talento desta escritora – e agora decidiu ir ainda mais além, convidando-a para apresentar no Porto o seu Os Naufrágios de Camões, recentemente publicado. Não era qualquer escritor firmado que escolheria para apresentar livro seu uma escritora não muito conhecida e com obra ainda relativamente escassa. Tiro-lhe o chapéu, claro, e aproveito para convidar todos os que estão perto da Invicta para vir ouvir este par logo à tarde, num lugar muito bonito, a condizer com a literatura.

 

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06
Mar17

O rato do campo e o rato da cidade

Maria do Rosário Pedreira

O título deste post é o de uma fábula que li na infância; e veio-me à cabeça por causa de um artigo publicado no Diário de Notícias sobre escritores que se afastaram da cidade e migraram para a "província". É sabido que, por exemplo, Alexandre Herculano, decepcionado com o rumo que a nação tomava, se exilou em Vale de Lobos e resolveu dedicar-se à agricultura; o mesmo fez o brasileiro Raduan Nassar, vencedor da mais recente edição do Prémio Camões, que escreveu três pequenos livros admiráveis e logo se recolheu numa fazenda. Mas, embora alguns autores que vivem longe da capital se queixem que é por isso mesmo que têm menos atenção da crítica e do público, hoje há muitos escritores activos que moram longe das grandes urbes – e não é por isso que perdem notoriedade. Sai-lhes seguramente mais barato (é o que diz o poeta Miguel Manso, que se mudou para perto da Sertã) e, quando precisam de parar para resolver alguns problemas das suas narrativas, o ar livre e a ausência de barulho e poluição tornam-se bastante mais agradáveis e inspiradores (é o que diz Luísa Costa Gomes a respeito dos quilómetros de areal que tem como vizinhos todo o ano). Com as estradas modernas e as comunicações sofisticadas, é hoje muito mais fácil viver fora dos grandes centros e não perder com isso. Mesmo assim, todos os entrevistados do artigo – Joel Neto e Afonso Cruz, além dos já mencionados – já viveram em Lisboa e foi aí, provavelmente, que o seu nome se firmou.

03
Mar17

Porquê sozinho?

Maria do Rosário Pedreira

Ler é uma actividade solitária, é um facto. Claro que se pode ler em voz alta para alguém que não vê, ou até em grupo, numa aula de Língua Portuguesa, lendo um texto a várias vozes. No entanto, para uma leitura atenta requer-se algum recolhimento. E, porém, se há pessoas que não gostam de ir ao cinema sozinhas – por não terem depois com quem trocar impressões sobre o filme –, agora também há muitas maneiras de ir ter com alguém para discutir um livro que se acabou de ler. A revista Time Out/Lisboa publicou, de resto, uma lista de clubes e comunidades de leitura espalhados pela cidade. Parece que o mais antigo destes clubes se chama Missa e tem como objectivo falar sobre a Bíblia, mas há muitos mais. As livrarias (Leituria, Ler, Almedina...) têm quase todas actividades relacionadas com a leitura e debate à volta dos livros, bem como algumas instituições (a Culturgest, por exemplo) que todos os anos organizam comunidades de leitores que se debruçam sobre livros relacionados com temas específicos. Além delas, porém, alguns bares (Povo, A Viagem, Titanic sur Mer...) oferecem também agora a possibilidade de ler poesia ou falar de livros em vez de beber e dançar (ou ao mesmo tempo). Assim, se está desesperado por falar com alguém acerca do que leu, não fique sozinho: escolha o lugar que lhe parecer melhor.

02
Mar17

Em desuso

Maria do Rosário Pedreira

Já há muito tempo que não dedicava um post a palavras ou expressões que caíram ou estão a cair em desuso; e foi porque o Manel chamou a alguém à minha frente «rapioqueiro» – aplicável a quem gosta de folia – que, de repente, me lembrei do assunto e resolvi recolher alguns termos de que gosto e já raramente ouço por aí.  Os sinónimos apresentados para «rapioqueiro» no Dicionário Priberam são, de resto, quase todos pouco correntes nos dias de hoje, como «pândego», «patusco» (que gosta de «patuscadas»), «gaiteiro» ou «farrista». O «pândego», vocábulo que a minha avó usava frequentemente para designar alguém que fazia rir e se sabia divertir, levou-me a outros com que ela me definia em criança e que acho estarem também a desaparecer, pelo menos da boca dos mais jovens: «rabina», «arisca», «diabrete», «mafarrica» e «levada da breca». Esta última expressão era utilizada por ela não só com o sentido de «travesso» ou «irrequieto», mas também com a acepção de «desembaraçado» ou «despachado». Aos saloios, a minha avó chamava «pategos» – já não ouço ninguém dizer isto há que tempos, mas o termo constava daquele excerto do Júlio Dantas que mostrei aqui no blogue há dias; e também se servia de uma palavra que aprecio muito – «ratatinhado» –, que nenhum dos dicionários que consultei regista (com muita pena minha), referindo-se a coisa mal feita, apressada, atamancada ou a uma roupa que devia ser o número acima. Acrescento ainda a palavra «cotomiço» (alguém pequeno) e a expressão «já a formiga tem catarro» (esta ainda se usa, creio, mas é um achado). E, por hoje, é isto.

01
Mar17

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Ando a saltitar entre dois livros, curiosamente da mesma editora e ambos com belíssimas capas. O primeiro foi-me oferecido pela sua tradutora, Maria do Carmo Figueira, no Natal passado, e escreveu-o uma nigeriana – Helen Oyeyemi – que tem uma frescura e uma imaginação difíceis de encontrar. Chama-se O Que não É Teu não É Teu e é uma colectânea de contos, alguns bastante longos, todos eles relacionados com chaves (ou fechaduras) que, como a contracapa anuncia, são um «convite à descoberta de um universo onde a beleza poderá existir». E existe – pelo menos no fraseado original e no delírio às vezes um pouco «latino-americano» da sua autora, que é seguramente um nome a reter e a acompanhar. Entre um conto e outro, espreito também A Avó e a Neve Russa, do português João Reis (também ele tradutor, e de gente bem respeitável como Knut Hamsun), um ainda jovem escritor que nos oferece – até onde li, umas cinquenta páginas – uma narrativa cheia de ternura e  humor sobre a relação entre um menino de dez anos (o narrador) e a sua querida Babushka, a avó russa que foi vítima do desastre nuclear de Chernobyl e alguns anos depois, a residir no Canadá, continua a sofrer as sequelas do acidente na forma de uma tosse persistente que não prenuncia nada de bom. Acho que vou continuar assim, a entremear ambos os livros, até chegar ao fim de um deles. Para já diria que os dois valem a pena!