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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

24
Jun14

Americanos intranquilos

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há uns tempos, alguém quis retirar As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, dos programas de ensino nos EUA, alegando que tinha passagens racistas e ignorando completamente a época em que o livro fora escrito. A guerra, tanto quanto sei, foi perdida, mas deixou lastro... Leio, um pouco abespinhada, que os estudantes de várias universidades norte-americanas (do Michigan à Califórnia) se juntaram para pedir aos professores de Literatura que certas obras venham acompanhadas de uma espécie de advertência (como as bolinhas vermelhas ao canto nos programas televisivos que podem afectar pessoas mais sensíveis) para a eventualidade de ficarem perturbados ao longo da leitura. Alguns alegaram sofrer de stress pós-traumático ao ler obras com cenas de violência sexual, racismo, o Vietname e misoginia (raparigas que foram violadas na infância, veteranos de guerra e negros marginalizados estão entre os que reclamam um aviso sobre o que vão ler). Alguns professores ficaram irritados, dizendo que os alunos deviam confiar no seu bom-senso e que, além disso, provocar faz parte da sua função e aceitar desafios torna-se fundamental para crescer intelectualmente. Um docente de sociologia achou até ridículo que os alunos fossem poupados às coisas que os chocam ou magoam, defendendo que, sem enfrentarem os seus fantasmas, nunca mais se libertarão deles. Harold Bloom diz que toda a literatura é «trauma» e que as reivindicações não devem ser levadas a sério. Mas os estudantes estão a unir-se, Estado a Estado, para exigir os avisos. A questão está, pois, longe de estar resolvida.

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