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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

13
Mai15

Autores brutinhos

Maria do Rosário Pedreira

Conta-se muita coisa acerca dos autores, sobretudo dos que já morreram e não podem contradizer as histórias e lendas à sua volta. Custa a crer que quem escreve certos livros tão bonitos possa, por exemplo, escarrar num lenço diante dos alunos numa sala de aula, mas isto mesmo me contou o meu irmão que fazia um grande escritor já falecido, seu professor de liceu nos anos da Revolução. (Se não adivinharam de quem falo, dispenso-me de vos desmanchar o boneco.) Também me disse um amigo do Manel, que conheceu pessoalmente Torga nos seus tempos de Coimbra, que não sabia como conseguira ele escrever bonito como escreveu e engatar uma francesa, tão avaro e brutinho era. Pois eu só conto o que me contam, mas sei de uma história muito gira que mete José Régio e Aquilino Ribeiro e na qual o primeiro, pouco depois de ter publicado o seu romance autobiográfico A Velha Casa (título que muitos acharam levemente pomposo), foi à Livraria Betrand do Chiado, à porta da qual estava plantado o segundo, que era, nesse tempo, uma autoridade nas letras deste país. Parece que, ao ver chegar o poeta, que até era baixote ao pé dele, Aquilino lhe terá dado uma boa palmada nas costas e perguntado, irónico: «Ó Régio, afinal, a velha casa ou não casa?» História engraçada esta, sem dúvida, tal como a do escritor, menos famoso do que os anteriores, Mário Braga que, partilhando com o muito franco (e algo bruto) Joaquim Namorado a narração demorada de um episódio a que assistira, concluiu dizendo que aquilo dava um romance. Ao que Namorado imediatamente retorquiu: «Ai dar, dava, mas por favor não o escreva.»

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