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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

11
Mar14

Beber e criar

Maria do Rosário Pedreira

Contaram-me que, num programa de televisão (Prós e Contras, apresentado por aquela senhora a quem falta algum savoir-faire), uma qualquer miúda tonta, querendo defender as praxes universitárias, terá dito que também os jornalistas principiantes eram praxados e supostamente obrigados pelos colegas mais velhos a uma bebedeira de absinto (estou a contar o que li, pode não ter sido exactamente assim). Acredito que a vertigem do absinto, bebida por excelência dos simbolistas, com o seu altíssimo teor alcoólico, tenha ajudado à criação de algumas belas páginas de Verlaine ou Mallarmé, mas nunca me constou que tivesse sido útil aos que escrevem diariamente em jornais e têm de trabalhar as mais das vezes sob pressão e em resposta rápida a um acontecimento preciso. Nem sequer tenho ideia de que nas redacções haja o costume de consumir em horário de trabalho bebidas alcoólicas inspiradoras ou causadoras de um certo relax espiritual. Mas eis que leio numa breve coluna de um diário português que determinado grupo de comunicação social pretende instalar o hábito de soprar o balão por parte dos funcionários à entrada nas suas instalações. Desconheço se a iniciativa tem por base alguns amargos de boca (suponho que o absinto nem seja assim tão amargo) decorrentes de notícias esparvoadas provocadas por eflúvios alcoólicos, mas, a menos que o actual absinto também já venha bastante adulterado, custa-me a acreditar, de tal modo a prosa que hoje leio nos jornais é devedora de voo literário...

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