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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

26
Jun14

Blues café

Maria do Rosário Pedreira

Estamos sempre a tempo de apanhar o comboio do passado – e eu estou apostada em fazer ainda algumas viagens que deveria ter empreendido há muitos anos. A Feira do Livro ajuda-me normalmente a recuperar o tempo perdido com os seus saldos, e este ano não foi excepção. Por uns míseros euritos – já não sei se dois, se três –, comprei essa pequena maravilha que faltava às minhas leituras (sim, é uma vergonha, e nem tenho desculpa, pois foi um dos livros de juventude do Manel) chamada A Balada do Café Triste, de Carson McCullers, escrito em 1951 (a tradução é de José Guardado Moreira, embora o escritor José Rodrigues Miguéis tenha traduzido outros livros da autora) e considerado por Tennessee Williams uma das obras-primas da literatura em língua inglesa. As personagens tinham tudo para dar errado – uma estrábica, um corcunda e um ex-presidiário – mas a verdade é que ficam ao nosso lado todo o tempo como amigos que não queremos deixar e dos quais nos vamos apiedando à vez (ou com os quais nos vamos irritando). E, como se estivéssemos dentro do café (que abre as suas portas por acaso e as fecha para sempre depois de um combate desigual), vamos prestando atenção a todos os que por lá se sentam bebendo o whisky que Miss Amelia destila (a muitos as mulheres não os deixam beber em casa) e acompanhando, com respeito e alguma mágoa, a vida desta rapariga rica do Sul que esteve casada apenas dez dias e se apaixonou uns anos mais tarde por uma criatura bastante atípica. Mas não é a história que importa, é uma maneira de escrever brilhante, com apartes inesperados, interpelações curiosas ao leitor e descrições belíssimas. Tristes, como o café, ficamos por ser tão pequenino, tão rápido de ler.

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