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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Out14

Coca-bichinhos

Maria do Rosário Pedreira

Quando a minha avó materna morreu, eu tinha oito anos e o último presente que recebi dela foi um livro ilustrado chamado A Menina Coca-Bichinhos. Durante o Verão, o meu irmão Jorge e eu brincávamos bastante com a bicharada (seguindo carreiros de formigas e observando ninhos de lagartixas) e, talvez por isso, o livro parecesse tão apropriado. Pois resolvi aceitar o desafio lançado por essa recordação e buscar no dicionário, à semelhança do que aqui fiz já com aves e vegetais, expressões construídas a partir de bichos mais pequenos. O Manel até disse que eu estava com bicho-carpinteiro, de tal maneira andava sempre a levantar-me para ir apontar mais um termo que me ocorria. Eu prefiro dizer que parecia um mosquito eléctrico, o que é, de qualquer maneira, bem melhor do que ser uma mosca morta ou uma barata tonta... Mas, para que conste, há também quem queira ser mosca, ou mosquinha, para poder estar onde não está e ouvir o que por lá se diz (quem esteja em pulgas para saber o que se passa); e quem perca a vergonha ao perguntar sistematicamente o que não é da sua conta e receba o epíteto de abelhudo (e o interpelado há-de queixar-se da perseguição com um «que melga!» ou mesmo «uma autêntica carraça!»). Quem anda desconfiado de alguém e com a pulga atrás da orelha pode também sentir um formigueiro avisador. Os que exigem dinheiro por tudo e por nada são verdadeiras sanguessugas. Os molengas são lesmas. A um garoto armado em adulto, diz-se frequentemente «já a formiga tem catarro». Chama-se verme a alguém capaz de coisas realmente vis. Estar em apuros é também estar em palpos de aranha. As coisas insignificantes são minhoquices. As portas velhas dos elevadores eram conhecidas como lagartas. Um cinema-piolho, expressão hoje desaparecida, era um cinema rasca. Percevejos era o nome dado a um certo tipo de pioneses. Uma sala às moscas está quase vazia. Nada-se mariposa, mas a paixão faz borboletas no estômago. Um certo zumbido dos despertadores é conhecido por besouro. Mulher com as medidas certas tem cinturinha de vespa, mas num vespeiro há normalmente muita maldade junta. Alguém que gosta de livros é uma traça. Popularmente, gafanhotos são perdigotos. No Brasil, grilo é preocupação. Gente com teias de aranha na cabeça é o que mais encontramos por aí e os andarilhos, equipamentos que servem para aprender a andar, também são conhecidos como aranhas ou aranhiços. Sempre adorei um modelo de Volkswagen a que se dá o nome de Carocha. E pronto, acho que já fui coca-bichinhos que bastasse. Qualquer dia dedico-me a animais maiores. Como dizem os irmãos brasileiros: Me aguardem.

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