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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Mai17

Críticos e escritores

Maria do Rosário Pedreira

Aconteceu em Espanha, mas vale a pena reter em qualquer lado. Um escritor viu um romance seu duramente criticado num jornal. Num texto curto, o crítico aproveitava mesmo assim mais de metade do espaço para dizer que o facto de a crítica ter vindo a perder prestígio fez com que o mercado ganhasse poder e muitos autores, para satisfazerem as exigências comerciais das editoras, entregassem produtos de qualidade duvidosa. Comentava o escritor atingido que a crítica tem, obviamente, razões para se queixar: recebe cada vez menos dinheiro e tem cada vez menos espaço (até porque aumentou o número de blogues literários, alguns mais lidos do que os suplementos dos jornais); mas contestava a afirmação de que, sem a vigilância da crítica, os escritores se tivessem tornado escravos do mercado, como se os críticos estivessem numa espécie de intocável Olimpo e não fizessem parte desse mesmíssimo mercado. É sabido que a imprensa actual tem tantos ou mais constrangimentos do que os escritores e que, especialmente em Espanha, há grandes grupos que detêm editoras e jornais e que, por isso, alguns jornais nunca criticam negativamente livros de autores publicados por chancelas do seu grupo… Além disso, diz o escritor, sempre houve livros bons e maus, independentemente do prestígio da crítica, tal como sempre houve bons e maus críticos, independentemente de os livros terem ou não qualidade. Curiosamente, ele não contesta o que o crítico diz sobre o seu livro (subtil e inteligente), mas apenas a sua arrogância, a sua superioridade moral, ao suspeitar dos escritores sem pensar por um segundo que os críticos estarão sob a mesmíssima suspeita. Porém, o mais interessante é quando, no final, reivindica um espaço de diálogo para críticos e escritores, uma vez que a relação é desigual: os críticos têm poder sobre a recepção e a aceitação da obra de um escritor, enquanto os escritores não o têm sobre o que os críticos escrevem. E conclui: emitir juízos de valor de cima de um pedestal não é útil nem para o leitor nem para a literatura – e talvez essa seja também uma das razões por que a crítica tem vindo a perder prestígio. Muito interessante.

 

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