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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

29
Out15

Em terra de cegos

Maria do Rosário Pedreira

Quem tem olho é rei. Falo em sentido figurado, claro, porque Pablo Lecuona, argentino que cegou ainda na infância, tem dois olhos que de pouco lhe servem, mas criatividade e inteligência que ultrapassam a cegueira de muitos com dois olhos sãos. Acaba de ganhar um importante prémio para a sua biblioteca digital para cegos, com cerca de 50 000 livros, galardão que lhe foi atribuído pela Organização dos Estados Americanos entre mais de 600 projectos concorrentes. Lecuona nunca se deixou abater pela sua deficiência, desloca-se pela cidade de Buenos Aires sozinho, apesar de a cidade estar pouco preparada para os invisuais, viaja pelo mundo a partilhar a sua experiência e fundou em 1999 a TifloLibros (o nome tem por base a ilha de Tiflos, onde, segundo a mitologia, os cegos eram banidos), projecto que foi desenvolvendo ao longo dos anos com pouquíssimos recursos, mas que hoje tem já mais de 7500 inscritos e 300 instituições parceiras e ao qual vão dar seguramente muito jeito os 75 000 dólares do prémio. A Internet, as impressoras em braille, os computadores e telemóveis adaptados, abriram caminho a que pessoas cegas ou com visão reduzida tenham uma autonomia nunca antes imaginada e possam ler os livros de que gostam. Lecuona foi convidado para debater e incentivar um Tratado Internacional sobre direitos de autor no que respeita a edições em braille e o TifloLibros é dado internacionalmente como exemplo feliz de inclusão social e respeito pelos direitos dos deficientes. Lecuona não vê, mas tem visão que nunca mais acaba.

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