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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

07
Jul15

Estranho estrangeiro

Maria do Rosário Pedreira

No ano em que Albert Camus, Prémio Nobel da Literatura, faria cento e dois anos, falo aqui daquele que é o seu primeiro romance, O Estrangeiro, de que Lucchino Visconti fez um filme que vi há muitos anos e do qual, infelizmente, me lembro muito pouco. Nascido na Argélia, Camus faz acontecer aí a acção deste livro, que se inicia precisamente com a morte da mãe do narrador, um homem que aparenta uma estranhíssima insensibilidade quanto a tudo (mesmo a morte da mãe), ainda que a certa altura se diga que são justamente os seus sentimentos que impedem muitas vezes que sejam diferentes as suas reacções. A morte da mãe não é, pois, um verdadeiro desgosto, mas mais um aborrecimento que o obriga a tomar o autocarro até ao asilo, a assistir a um velório no qual adormece, a acompanhar um enterro sob o sacrifício de um sol ardente. E desse incidente passaremos para um quotidiano no qual o protagonista se envolve com uma antiga colega (mas nem parece gostar muito dela) e com um vizinho pouco recomendável que quer dar uma lição a uma mulher árabe com quem andava e que o enganou. É por causa dele, de resto, que o narrador matará um homem e se verá a braços com a justiça. E é no período em que se encontra preso que mais estrangeiro o sentiremos, incapaz de colaborar com o advogado para salvar a própria pele, ilustrando a tese existencialista de que cada homem constrói o seu próprio destino. Segundo se diz, O Estrangeiro recebeu influências da literatura norte-americana (especialmente de Hemingway) – e é de facto algo seco, directo, essencial; mas traz um desconcerto muito peculiar que é altamente apelativo, mesmo que não consigamos criar muita empatia com o seu estrangeiro. Ou sobretudo por isso. A ler, evidentemente. A tradução é de António Quadros.

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