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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Jun16

Eufemismos

Maria do Rosário Pedreira

Sempre detestei a palavra «falecer» e os seus derivados («desfalecer» ainda vá que não vá, mas é a única) e, nos livros que avalio regularmente, de potenciais autores, cada vez mais dou de caras com ela. Acho que muita gente tem medo da morte (ou da palavra «morte», ou de ambas), mas não entendo como pode alguém pensar que «falecer» é um verbo mais literário do que «morrer», ou que «falecimento» e «óbito», por exemplo, são mais bonitos do que «morte». Enfim, há palavras que metem medo, eu sei («cancro», por exemplo; os jornais usam geralmente «doença prolongada» – e às vezes, infelizmente, é uma doença fulminante); mas, de tanto as evitarem e substituírem por eufemismos, às vezes acabam por viciar-nos enquanto leitores. Há tempos, recebi uma newsletter de uma agência de autores em cujo cabeçalho se anunciava a «partida» de mais um escritor. Ora, como este ano já foram vários os que morreram (outros diriam «os que nos deixaram»), fiquei aflita e quis logo saber de quem se tratava. Apanhei um valentíssimo susto, porque não só se tratava de um velho amigo como, tendo-o visto na véspera e estando ele bem, deduzi que só podia ter acontecido algo inesperado e quiçá trágico. Li então com mais atenção as linhas seguintes e respirei fundo. Afinal, «partida» não era eufemismo, o escritor ia mesmo de viagem… O que a newsletter apregoava era o programa de uma agência de viagens que, pelos vistos, financia a vários autores uma ida a determinado país, da qual supostamente nascerá mais tarde um relato escrito. Ufa… Se chamassem sempre os bois pelos nomes, não era mau.

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