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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

21
Nov13

Figuras públicas

Maria do Rosário Pedreira

Uma vez, estava eu em Serralves a visitar uma exposição de Julião Sarmento, veio ter comigo uma senhora com uma filha ainda pequena e perguntou-me, enfim, se eu era eu. Respondi-lhe que sim – e então, coisa mesmo inesperada, ela falou-me em voz muito baixa (estávamos num museu) da minha poesia e de como ela a teria ajudado a ultrapassar um terrível período da sua vida, confessando-me que, depois disso, era finalmente capaz de a ler sem chorar. Fiquei surpreendida: os escritores raramente são figuras públicas; e, apesar de eu ter ido a um programa de TV pouco antes daquele encontro, achei realmente estranho que alguém me reconhecesse e abordasse, sobretudo num local fora do meu contexto, um lugar que nada tinha que ver com livros. Na verdade, se virmos bem as coisas, um actor ou um cantor (mesmo que não tenha um sucesso por aí além) está mais do que habituado a sorrisos na rua e pedidos de autógrafos e certamente não se espanta de ser assim interpelado. Mas o escritor – excepto para um reduzido número de pessoas – é um nome na capa dos livros e pouco mais, e muita gente acha até que é assim que faz sentido, como se fosse crime sair da torre de marfim e aparecer às massas (mas, de facto, os raros que se tornam populares são logo criticados). Curiosa sobre aquela invulgar abordagem, não tardei, porém, a descobrir que não tinham sido os media a fazer nada pela minha fama: afinal, a senhora tinha feito parte de uma comunidade de leitores da Livraria Almedina, em Gaia, onde eu estivera para trocar impressões sobre os meus poemas…

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