Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

11
Nov16

Ler ou escrever

Maria do Rosário Pedreira

Dizem que não é possível escrever sem ter lido e que as duas actividades são indissociáveis. Concordo, evidentemente. Calcula-se também que os escritores sejam as pessoas que mais lêem – e é verdade, basta ouvir Lobo Antunes a citar de cor tantos poetas e romancistas de cada vez que fala do que é escrever. E, porém, um dia, numa sessão dedicada à literatura em que participavam três ou quatro escritores, o moderador perguntou-lhes o que estavam a ler nesse momento e uma das intervenientes hesitou tanto que o público percebeu imediatamente que não estava a ler coisa nenhuma e, como dizem os brasileiros, «pintou um mau clima»; emendar a mão e oferecer dois ou três títulos estranhos – e franceses! – não ajudou ninguém a mudar de opinião... Muitos escritores dizem que, quando estão mergulhados num romance novo, simplesmente não lêem: estão tão colados às suas personagens que não conseguem estar com as dos outros – e não há mal nenhum nisso, até porque confessá-lo abertamente evitaria alguns incómodos como o que referi. Ouvi alguém dizer que Cardoso Pires, por exemplo, só lia revistas e literatura barata quando estava a escrever um romance – e se calhar os seus romances beneficiaram dessa atitude. Mas... deixar de ler? Temer as influências? Viver apenas com o próprio texto? Haverá coisa mais inspiradora para quem escreve do que a escrita alheia? Eu teria uma enorme dificuldade em agarrar-me ao meu texto e deixar o dos outros de fora, ou em não ler durante meses se estivesse a escrever um romance. Mas também sou preguiçosa para a escrita e prefiro a leitura. Nunca poderia ser uma escritora a sério, em suma. Bom fim-de-semana.

21 comentários

Comentar post

Pág. 1/2