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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

24
Fev14

Livro sem Ninguém

Maria do Rosário Pedreira

Acabo de publicar um dos romances finalistas do Prémio LeYa de 2012 (o autor quis revê-lo), intitulado Livro sem Ninguém, que é um projecto altamente original, uma vez que conta uma história abdicando das personagens. Como? Pois bem: na rua do arco-celeste há sete casas, cada uma de sua cor; e também um café, uma horta, um jardim, uma florista, uma sucata e uma escola. Mas, embora lá vivam pessoas, esta história é contada apenas pelas coisas que lhes pertencem à medida que vão mudando de lugar, e por isso o livro é sem ninguém. Ainda assim, durante este ano extraordinário, acontece de tudo na rua: há quem se apaixone e quem se separe, quem nasça, quem morra, quem mate e até quem, depois do trauma, comece uma vida nova. Há bengalas (e, portanto, há velhos), há fraldas e bicicletas com rodinhas (e, portanto, há crianças) e, de vez em quando, há até um skate parado num pátio (e, portanto, há jovens também). Mas, como em todas as ruas, havemos de encontrar nesta preconceitos, dúvidas, alegrias, segredos e desgostos (quando o violino cigano se ouve ao longe, chora uma terrível injustiça e, quando a bengala se parte contra o muro, é certamente a raiva que a move). Enquanto isso, o tempo vai passando sem darmos por ele, mas a montra da florista e o que se colhe ou semeia na horta nunca nos deixam afastar do mês em que estamos. Pedro Guilherme-Moreira usa o microcosmos da rua para desenhar o retrato da sociedade contemporânea e abordar questões tão polémicas como a xenofobia, a violência doméstica, a repressão sexual ou o envelhecimento. E – o que é um milagre – sem precisar de ninguém.

 

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