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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

22
Jul15

O eterno desacordo

Maria do Rosário Pedreira

Pois é, a discussão sobre o Novo Acordo Ortográfico (NAO) está para durar – e isto mesmo se infere da declaração do vice-presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o juiz Sebastião Póvoas, sobre a matéria, ao dizer que a resolução do Conselho de Ministros que obrigou as escolas e todos os organismos do Estado, incluindo os Tribunais, a aplicarem o NAO é inconstitucional «a título orgânico», violou «os princípios da separação de poderes» e, entre outras coisas, não respeitou a «equiordenação entre os órgãos de soberania». Diz, aliás, que o NAO nem sequer se encontra verdadeiramente em vigor, porque não foi ratificado por todos os Estados que o subscreveram (Angola e Moçambique, por exemplo), não estando, por isso, em vigor «na ordem jurídica internacional». E acrescenta que (transcrevo do jornal Público) «coloca em causa princípios e direitos consagrados na Constituição da República, como o “princípio da identidade nacional e cultural”, o “direito à Língua Portuguesa” e o “princípio da independência nacional devido às remissões para usos e costumes de outros países”». E, se um juiz do Supremo o diz, quem sou eu para o contradizer?

5 comentários

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    LSR 22.07.2015 13:25

    Deve ser um péssimo treino para esses estudantes da ortografia simplificada, que depois têm de aprender inglês, a língua franca actual, que tem uma das ortografias mais caóticas do mundo; e porém há um consenso alargado de que é uma das línguas mais fáceis de aprender.

    O português, entretanto, continuará a ser falado em países de baixa escolaridade onde o analfabetismo funcional atinge percentagens como 70 por cento (Brasil - dados oficiais de lá),

    Daqui a 10 anos, quando se estiver a escrever as habituais crónicas de balanços nos jornais (como se escreveu 10 anos depois da adesão á UE e ao euro), vai-se aceitar que o acordo não serviu para criar um mercado comum de livros, não serviu para dar mais visibilidade à língua portuguesa, não serviu para torná-la uma das línguas oficiais ou de trabalho da ONU, não serviu para aumentar as traduções de obras - porque nada disso vai acontecer por obra e graça do AO, como desejavam os seus arquitectos. Simplesmente não há exemplos de uma reforma ortográfica, em qualquer país do mundo, ter obtido todos os resultados que os fautores do AO imaginaram para ele.

    Então, volvidos 10 anos, todos vão cair na real, mas é claro que será tarde demais para emendar a estupidez.
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    Artur Águas 22.07.2015 16:16

    Permita-me que discorde de si quando afirma que o inglês é "uma das ortografias mais caóticas do mundo". Exatamente o contrário: a simplicidade ortográfica e sintática foram uma boa ajuda para que se tornar-se "língua franca". Usei o inglês como língua do meu dia à dia de emigrante durante 7 anos. O francês e o alemão tentaram sê-lo antes do inglês, mas as complexidades várias destas duas línguas foram fator adverso para a sua difusão universal. Bem sei que houve o império universal inglês primeiro, e a hegemonia americana depois e agora, e essa herança histórica terá sido o fator essencial da difusão universal do inglês. Para mim, a vantagem primordial da ortografia simplificada não é a de vir a ser adotada pelos outros países lusófonos (é, de qualquer modo, muito mais próxima esta ortografia da dos PALOPS do que a do português de antes do AO), é simplesmente não ter que se escrever letras que não são lidas. A ortografia ganha em ser o grafismo simples e exato da fala. Claro que o que acabo de escrever é discutível, sobretudo para os linguistas. Mas é a minha sincera opinião.
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    LSR 22.07.2015 17:09

    Permito-lhe o desacordo, mas sugiro-lhe o seguinte teste: peça a alguém para lhe repetir umas dez palavras inglesas, daquelas menos conhecidas, daquelas que o Sr. Águas nunca tenha ouvido. Depois tente escrevê-las baseado no modo como foram pronunciadas. Vai depressa verificar que se enganou a escrevê-las todas por causa da vasta diferença que há entre som e grafia.

    Obviamente não podemos conduzir este teste com fidelidade, mas tente imaginar que ouve estas palavras pela primeira vez - you, yes, that, thing, house, car. No som o que lhe diria que é y e não i, que é you e não iu? Que é yes e não iess? Que é that e não tat ou dat? Que é thing e não ting ou ding? House e não hauz? Car parece fácil, mas numa língua com kapas, como saber pelo som que não é kar?

    O Sr. Águas que defenda o AO com os argumentos que tiver, mas deixe-se de desonestidade intelectual. Você sabe tão bem quanto eu que a ortografia inglesa não faz sentido nenhum, e que só com a memória é que se aprende.
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    Artur Águas 22.07.2015 18:34

    Caro LSR, por favor não me acuse de desonestidade intelectual por eu afirmar que a simplificação ortográfica prevista pelo AO retira da ortografia as consoantes que não têm qualquer som.
    Obviamente que todas as línguas têm regras diferentes quanto à sonoridade das letras e seus agrupamentos, em particular das vogais. Não passa pela cabeça de ninguém querer ler inglês lendo palavras inglesas com os sons, letra a letra, que essas letras têm em português (é o modo ridículo como o brasileiro médio tenta ler e falar inglês).
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