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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

01
Jul14

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Gosto de conversar com os meus autores sobre os livros de que gostam e que andam a ler (coisas muito diferentes entre eles, evidentemente) e, em parte, estes bate-papos também me servem para descobrir que estou em falta com muitas coisas. Na última Feira do Livro de Lisboa, ouvi, por exemplo, David Machado falar com um tremendo entusiasmo de um romance que ainda vende 250 000 exemplares todos os anos nos EUA e deve ser um dos livros mais lidos pelos jovens (não crianças, entenda-se) norte-americanos. Trata-se de À Espera no Centeio, de J. D. Salinger, que fui ler imediatamente – e um pouco culpada pelo atraso. É um excepcional relato feito pelo protagonista, Holden Caulfield, um adolescente de boas famílias que acaba de ser afastado do terceiro colégio caríssimo em que foi matriculado, por falta de interesse e más notas (na verdade, só passou a Inglês, pois adora livros e tem imenso jeito para escrever, tal como, de resto, o irmão mais velho, que trabalha como argumentista em Hollywood). Sem saber como aparecer em casa depois de receber aquela notícia, iremos acompanhá-lo entre esse sábado e a quarta-feira seguinte (o dia em que é suposto reunir-se à família, em vésperas do Natal) e assistir em directo ao seu périplo por Nova Iorque, a uma solidão que nos magoa, uma desadaptação que gostaríamos de o ajudar a resolver, um sem-número de encontros que não contam nada, mas lhe ocupam o vazio, muitos copos e idas a bares, muitas recordações de engates, de marmelada e do carinho por esse irmão que morreu com uma leucemia e cuja morte é também a razão da «perdição» do jovem narrador. A linguagem – muito apropriada à idade de Holden e, aposto, de dificílima tradução (a tradução, a propósito, é de José Lima) – deve ter feito furor na época e ainda hoje serve certamente para que muitos leitores de dezasseis anos se identifiquem com o narrador. Mas, tenha-se a idade que se tiver, é difícil não gostar deste rapaz que não sabe o que há-de fazer com a sua inteligência e a sua integridade e que é de uma sensibilidade irresistível. Não se atrasem, pois, como eu, para a leitura deste livro.

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