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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

02
Mar15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Quando estava na Temas e Debates, nos primeiros anos deste século, publiquei um autor colombiano maravilhoso, de quem o grande García Márquez disse ser alguém a quem de bom grado passaria o testemunho. Os romances que dei à estampa foram Rosario Tesouras e Paraíso Travel e, já depois de eu ter deixado a editora, saiu ainda Melodrama, mas com a chancela da Quetzal. Tinha de algum modo perdido o rasto a Jorge Franco (que no meu tempo assinava Jorge Franco Ramos, mas deve ter-se fartado de ser referido como Ramos, o nome da mãe, no estrangeiro), mas ele agora ganhou um dos prémios de língua espanhola mais prestigiantes, o Prémio Alfaguara, e é precisamente o livro galardoado – O Mundo de Fora – que me encontro a ler neste momento. É bom matar saudades deste escritor que sabe contar uma história como ninguém e desenha personagens que ficam na nossa memória para sempre. Aqui, um ricaço – de castelo, limusina, criados para tudo e uma filha que é uma princesa de conto de fadas – é sequestrado por um gangue de rapazes aselhas que o fecham numa cabana, o remetem a um quartinho onde existe apenas um catre, e tentam pedir por ele um resgate. Mas nem Dom Diego colabora (não se deixa fotografar nem escreve um bilhete pelo seu punho para mostrar que está vivo), nem a sua família parece querer negociar com o chefe dos sequestradores – o absolutamente fantástico Mono, frustrado, mandão, cheio de devaneios sexuais mas com problemas de erecção com a namorada Twiggy (outra grande personagem), cansado da sua quadrilha de estúpidos e medricas e fascinado quer pela filha do sequestrado, quer por um rapaz que adora motos e relógios caros e o sabe levar como ninguém. Com saltos ao passado – para afinal descobrirmos porque Dom Diego tem a vida que tem e o seu castelo colombiano (um capricho seu, e não, como se possa pensar, um delírio de pato-bravo, porque o homem é um gentleman) – vamos acompanhando os dias e as conversas entre sequestrado e sequestrador, um mano-a-mano notável de que a esta hora ainda não sei quem sairá vencedor. Recomendo vivamente esta pérola.

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