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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

01
Jun15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Acabo de ler (por não ter conseguido parar enquanto não via virada a última página) O Meteorologista, de Olivier Rolin, autor francês de quem li outros romances, dos quais o meu preferido até hoje era Porto Sudão (e já aqui escrevi sobre ele), mas este não lhe fica atrás. É um livro apaixonante por muitas razões, investigado até ao osso, cuidadoso, muito bem escrito e realmente original (como uma radiografia de um tempo feita através da biografia de um homem). Evoca – e até cita às vezes – Tudo Passa, de Vasily Grossman (outro grande romance) e debruça-se sobre a história exemplar de um meteorologista que amava as nuvens, cumprindo com brio as suas tarefas na direcção do instituto meteorológico ao serviço da Rússia e do Partido. Mas estamos na época do Grande Terror estalinista, em que denunciar, caluniar e mentir podem salvar a pele. E eis que, como em O Processo de Kafka, este homem relativamente apagado, que acreditava no regime mesmo sendo filho da aristocracia latifundiária, se vê apanhado nas malhas das grandes purgas estalinistas sem saber como nem porquê (talvez lhe bastasse ser filho da aristocracia latifundiária); escreve então do gulag para onde é levado cartas nas quais tenta educar à distância a filha pequena, que não mais verá, através de desenhos e adivinhas, e presentear a sua jovem mulher com figuras feitas de pedrinhas representando o próprio Estaline de quem nunca deixa de esperar a correcção da injustiça. Morrerá fuzilado em 1937, mas isso – bem como a maneira e o local onde tudo acontece – só se saberá em meados dos anos 1990 (é importante ler este livro também para percebermos até que ponto foi a paranóia colectiva da URSS no tempo do Grande Terror). Sobrarão os seus desenhos para a filha, o motor que levou Rolin a pesquisar a história do seu protagonista. Com um final absolutamente notável, uma reflexão lúcida e desarmante, este é um daqueles livros que mexem connosco e nunca mais nos deixarão sossegados. Se não devemos esquecer nunca o Holocausto, também nunca mais podemos esquecer este período negro da história russa. Indispensável ler esta obra-prima.

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