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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

01
Dez15

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Nestes tempos obscuros, o religioso é muitas vezes um tema sensível; mas, ao mesmo tempo, falar das aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos na Cova da Iria pode parecer descabido, atrevido ou até fora do tempo, sobretudo se for numa ficção presumivelmente séria. Porém, é mesmo esse, curiosamente, o ponto de partida do último livro de José Luís Peixoto, uma novela intitulada Em Teu Ventre, que se divide pelos meses de Maio a Outubro de 1917, ano das supostas aparições da Virgem a três primos que pastoreavam. Lúcia, a mais velha, é a protagonista, e o autor trabalha sobre as memórias da verdadeira Lúcia (a dos segredos de Fátima) para lhe construir na infância o quotidiano, no qual há irmãs casadas e solteiras que se juntam aos domingos, um irmão que cuida dos animais, um pai bebedolas com tendência para o jogo e, mais importante do que todos, uma mãe ríspida e crente que repudia as visões da menina, menina que – o leitor sabe – ouve na sua cabeça respostas de árvores, flores e lenços com quem conversa. Concentremo-nos, porém, na mãe – Maria de seu nome – pois este é também um livro sobre a maternidade, já que, a par da história da relação de Lúcia com Maria, temos, entre parênteses, uma voz que fala e que é de outra mãe – a do escritor? – para acusar, lembrar, recriminar o filho pela indiferença, a falta de atenção e de reconhecimento. Para temperar estes dois textos, versículos como os da Bíblia, em duas colunas e numerados, que dão voz a um filho que fala com a sua mãe e que, não por acaso, é o próprio Deus. Dito isto, fica certamente quase tudo por dizer, mas é preciso voltar à leitura para o descobrir.

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