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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Set14

Os sapatos de Agustina

Maria do Rosário Pedreira

Todos temos certamente saudades de ouvir falar de Agustina e de a ouvir a ela. Mas, enquanto não podemos fazê-lo, resta-nos prestar-lhe homenagem lendo o que escreveu. A Fundação Calouste Gulbenkian prepara-se para publicar, numa edição única com o título O Elogio do Inacabado, cinco manuscritos inéditos da senhora do Norte – que nos presenteou, entre outras obras-primas, com A Sibila –, precedidos por um prefácio da académica Silvina Rodrigues Lopes. A propósito desta notícia, não resisto a uma pequena história fútil. Não sou consumidora de alta-costura: primeiro, porque não tenho dinheiro; segundo, porque não tenho medidas (sou baixa e calço 35); terceiro, porque muitas das farpelas que por aí desfilam simplesmente não são vestíveis por ninguém com uma vida normal. Mas, curiosamente, houve uma coisa interessante sobre moda que aprendi com Agustina Bessa-Luís uma vez em que partilhei a sua companhia na Suíça. Estávamos num festival literário em Genebra e ela convidou-me para me juntar a ela e a Lídia Jorge numa visita ao centro da cidade. Eu desconhecia que íamos às compras e só o percebi quando ela repudiou a companhia de um macho-escritor que se preparava para ir connosco. A verdade é que Agustina trazia os catálogos dos grandes costureiros todos assinalados com o que queria ver e experimentar e, entre esses itens, estavam uns sapatos muito bonitos, uma criação Ferragamo. Entrámos na loja da marca e a escritora mostrou o que queria e disse que número calçava (se a memória não me falha, o 37). Quando a funcionária trouxe os sapatos, Agustina descobriu, porém, que lhe estavam um pouco apertados (o seu pezinho é gorducho) e calculei que a empregada se propusesse simplesmente trazer-lhe o número acima. Mas eis que, na alta-costura, para o mesmo comprimento de pé existem sapatos com a base estreita (para pés delgados) e com a base mais larga (ideais para os pés da nossa escritora). Uma grande ideia, claro, mas reservada apenas às lojas boas e caras. Com Agustina, enfim, aprende-se sempre qualquer coisa.

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