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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Mai14

Se bem me lembro

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei de Nemésio e do seu programa de TV que tinha o nome deste post. Lembrar é um exercício bem interessante, mesmo em literatura, e o grande cronista Ferreira Fernandes resolveu lembrar-se de se lembrar, entre outras coisas, do que foram os meses em Portugal antes do 25 de Abril nesse ano de 1974. Diz quem sabe que se inspirou em dois outros autores, Georges Perec e Joel Breinard (que se dedicaram a outros anos), e com as suas memórias desses quatro meses compôs um livro intitulado muito justamente Lembro-me Que (o de Perec chamava-se Je me souviens e deve ter sido o que mais directamente influenciou o autor, pois este estava em França antes da data que quer celebrar com esta obra). O livro, que já tinha sido editado há uns bons anos, volta a ver a luz das livrarias no quadragésimo aniversário da revolução, e não reúne lembranças pessoais de Ferreira Fernandes, mas episódios que ajudam o leitor a entender como era o País «nas vésperas da grande mudança», como diz o jornalista José Mário Silva, que recentemente recenseou o livro para o Expresso. São cerca de 300 fragmentos de crónica que descrevem o que se passou e o que se escreveu (às vezes propositadamente de forma enviesada para enganar a censura) nos jornais entre 1 de Janeiro e 24 de Abril, factos que podiam parecer irrelevantes mas que já apontavam para o que viria a suceder, e bem assim curiosidades do dia-a-dia, como preços de produtos que hoje nos fazem perceber melhor a crise em que estamos. Vale a pena ler e admirar o estilo deste cronista muito dotado.

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