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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

11
Mai15

Sinceridade

Maria do Rosário Pedreira

Recentemente, perdemos dois grandes vultos nacionais: Herberto Helder e Manoel de Oliveira. Os jornais deram-lhes naturalmente o merecido destaque, páginas e páginas de artigos sobre a sua vida e obra, com a recolha de testemunhos de figuras de proa, velhos amigos e confrades. Mas, como quase sempre nestas coisas, ao elogio unânime reagiram de imediato algumas vozes escandalizadas, alegando que os encómios eram, na maioria, todos iguais, o que de alguma maneira indiciava que muitos dos seus autores não conheciam assim tão bem nem o poeta nem o cineasta e alguns nem sequer gostavam realmente dos filmes do último. A este propósito, contaram-me recentemente uma história bem curiosa. Há uns bons anos, num evento cultural em França, participavam num debate António Lobo Antunes e Manuel da Fonseca; depois de terem dado o seu contributo, parece que o moderador lhes perguntou o que achavam da obra de Manoel de Oliveira, que em França tinha um enorme sucesso e era objecto de muitos prémios. Manuel da Fonseca resolveu ser sincero e disse que a achava uma grande chatice. Os ouvintes franceses ficaram então completamente chocados e ouviu-se um enorme burburinho na sala, impedindo sequer o moderador de intervir. Foi quando Lobo Antunes levantou a mão, pedindo silêncio à plateia (como sabem, é também um autor muito apreciado em França), que a sala se acalmou para o ouvir dizer: «O Manuel da Fonseca tem toda a razão.» Muitos outros não têm, claro, a coragem de ser assim sinceros.

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