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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

20
Nov14

Trabalhar e escrever

Maria do Rosário Pedreira

Hoje muitos escritores (sobretudo lá fora) são profissionais da escrita e vivem disso a tempo inteiro (a alguns pagam-lhes avanços chorudos sobre os direitos dos seus próximos livros, quantias que julgaríamos impensáveis fora do universo de Hollywood); mas nem sempre foi assim e, ao longo de séculos, os escritores tiveram profissões que frequentemente nada tinham que ver com o gosto pela escrita, podendo apenas exercitar a pluma nos tempos livres. Mas não seriam essas experiências laborais de algum modo enriquecedoras para a literatura dos próprios? Ou seja: teria escrito Melville o famoso Moby Dick se não tivesse trabalhado a bordo de uma baleeira, ou Dickens descrito tão magnificamente as crianças e os jovens da classe operária se não tivesse ele mesmo trabalhado numa fábrica logo aos seis anos de idade? Pessoa, já se sabe, era empregado num escritório bastante desinteressante, tal como Kafka era administrativo numa companhia de seguros; pode pensar-se que nada disto inspirava ambos, mas não teria sido o tédio destes lugares a desenvolver a veia criativa de ambos? Leio que Nabokov, quando se mudou para os EUA, era o curador de uma colecção de borboletas num museu universitário e que escreveu vários textos sobre borboletas e traças (a borboleta pode ser uma metáfora de Lolita, de resto). E Jack Kerouac lavou pratos – uma excelente iniciação para quem anda Pela Estrada Fora e tem de ganhar dinheiro rápido para alimentar os custos da viagem. Em suma, ter uma profissão «ao lado» será uma frustração ou um motor da criatividade?

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