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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

07
Jan15

Uma balada muito simpática

Maria do Rosário Pedreira

Não sei se os leitores deste blogue – mais avessos à poesia do que à ficção – já ouviram falar de Margarida Vale de Gato, poetisa e tradutora de poetas, entre os quais René Char, Christina Rossetti e W. B. Yeats (e também de prosadores como Henry James ou Oscar Wilde). Acontece que ela é também uma lutadora e ficou em estado de choque quando a Junta de Freguesia da Penha de França resolveu deslocar a sua biblioteca do solar que ocupava há muitos anos para um miserável piso térreo num prédio que pertencera à EPUL, alegando que a Junta (que agora agrega também a freguesia de S. João) precisava de mais espaço (e um solar vinha a calhar, digo eu). Depois de petições, audições com os responsáveis e uma manifestação, nada se conseguiu para reverter a situação, pelo que o que restou à poetisa foi, como ela diz, esta «graçola amarga, ou grosseira esperança», a balada que aqui reproduzo e peço que façam circular. A bem dos livros e dos leitores, claro.

 

Balada do Guarda-Livros da Penha de França

Isto são versos datados.
De gancho, engajados, démodés.
Isto é um poema de época.
É uma letra de intervenção do tempo
em que uma biblioteca tinha um palácio.
Tínhamos mapas antigos. Tínhamos
cartazes de anúncios, tínhamos capas de peles
de animais, tínhamos livros de vestir
bonecas e tínhamos volumes pequeninos,
com 100 anos para lá de velhos,
havia no palácio pessoas que estudavam os livros
e não eram os reis, havia pessoas
que tratavam dos livros e não eram os aios.
 
Os livros podem sempre estragar-se
com a humidade e mais catástrofes.
Os bichos comem os livros com certa
facilidade, fazem carreiros
dentro do miolo, são do tamanho de uma unha,
se fossem maiores comiam um livro ao dia.
E conforme os livros eles vão ficar sujos.
Temos de evitar. Com mau tempo os livros
estragam-se e empolam, os livros como
a comida não podem ficar ao Sol.
 
De repente, um despacho, ninguém pergunta.
De um dia para o outro uma alínea
e tropeça o palácio debaixo dos sapatos
de pelica da presidente da junta
que logo tratou de se descalçar.
Pôs-se à vontade e ligou ao património
para mandar vir obras. — E os livros?
indagaram as pessoas dos computadores
que chamam os livros pelos elevadores.
— Os livros fazem, claro, parte das obras.
proferiu a senhora vereadora, que dormitara
ao consultar a comissão na hora do chá.
Arranjamos-lhes uma cave aconchegada.
— E a humidade?
— A humidade é o menos — precaveu a assessora
da divisão da direção — fazemos-lhes um terraço
para enxugarem ao relento.
— E os leitores?
— Evidentemente — triunfou o relator
admirando o relatório — aqui está o leitor
tipo de perfil. Aqui têm a planta
da auditório polivalente.
 
A coleção de História de velino é que ficou deslocada.
A cidade atual dispensa Tito Lívio.
Não se pode tomar chá nem café perto dos livros,
os livros só servem para o passado
e para o imaginário. Não há impacto
societal entre livros e funcionários.
 
O guarda-livros, assim retiradas as espécies
das estantes, assim dos arquivos as fichas, assim
escolhidas para lixo as pouco queridas,
levantando nos aros as pregas do nariz, medita:
Pode haver uma praga que justifica pôr uma pastilha
para dar cabo dos bichos ou ser juiz de mim.

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