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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Jul20

Dádivas

Maria do Rosário Pedreira

Uma das coisas boas deste blog é quando os seus leitores contribuem também eles com ideias para posts, o que aconteceu recentemente com Octávio dos Santos, que me enviou um link para um artigo muito interessante sobre a meia centena de artistas que, em 1940, atravessaram a fronteira francesa antes que fosse demasiado tarde e foram salvos com a ajuda do cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, que nesses dias loucos deu vistos a centenas de pessoas. Mas, embora o facto não seja desconhecido da maioria dos Extraordinários e da maioria dos portugueses minimamente informados (recentemente foi aprovada por unanimidade no Parlamento a proposta de levar Sousa Mendes para o Panteão Nacional), a verdade é que só há algum tempo a investigação para uma tese de mestrado transformada em livro (A Lista de Aristides Sousa Mendes, de Ana Cristina Luz) trouxe à luz muitos nomes que não sabíamos estar entre os que o cônsul português salvou, tais como os do pintor catalão Salvador Dalì (e Gala, a sua musa e mulher), o pianista polaco Witold Malcuzynski (que inspirou Maria João Pires), o pintor Ivan Sors (que esteve refugiado na Figueira da Foz e foi retratado por Afonso Cruz no livro O Pintor debaixo do Lava-Loiça), o actor Robert Montgomery e muitos outros. A lista é longa e o livro sobre esta dádiva de Aristides às artes merecerá decerto ser lido.

Hoje recomendo, até porque vem a propósito, A Mais Preciosa Mercadoria, de Jean-Clude Grumberg, uma obra-prima minúscula sobre um casal que não teve a sorte de ter um Aristides Sousa Mendes no seu caminho, e o precioso Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho, acabado de sair em versão audiobook.

02
Jul20

Olhos nos olhos

Maria do Rosário Pedreira

Desde ontem que o Município de Oeiras está a desenvolver, na página do Facebook das suas bibliotecas, um projecto que dá pelo nome de Ler Olhos nos Olhos e se prolonga até dia 16, substituindo os encontros presenciais (como se sabe, desaconselhados em tempos de pandemia) por conversas online. Para quem gosta de entrevistas com escritores, estes são encontros virtuais a não perder, uma vez que incluem personalidades nacionais e internacionais de peso, que certamente terão coisas muito interessantes para partilhar com o público sobre o respectivo ofício e as suas experiências de vida (e é gratuito, pois claro!). Além de João Tordo, que ontem abriu as hostilidades, vamos poder então «olhar nos olhos» autores como Mia Couto e José Eduardo Agualusa, mas também pensadores e grandes leitores como José Pacheco Pereira; haverá ainda lugar aos nuestros hermanos Manuel Vilas ou Maria Dueñas, aos brasileiros Heloísa Buarque de Holanda, Milton Hatoum ou Nélida Piñon e à celebridade Paolo Giordano (que para isto não precisa, graças a Deus, da protecção dos guarda-costas), entre outros. Consulte a página do Município de Oeiras sobre os dias e horários de cada conversa. Terá direiro a 22!

 

(Ai, lá me esqueci da recomendação... Obrigada a quem me lembrou. Aproveitando o embalo do comentário de cp, vou corroborrar a escolha de António Luiz Pacheco para o livro de Kennedy O'Toole, mas dizer que o autor tem outro livrinho notável chamado The Neon Bible, que não sei se está cá traduzido e vale a pena ler.)

01
Jul20

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Não vale a pena esconder o meu gosto especial por Barnes, pois volta e meia cá venho eu falar de um dos seus livros, e sempre com o maior entusiasmo. Desta feita, aliás, já o referi de forma evasiva em dois posts da semana passada, um deles em que contei que andava a ler um livro sobre a morte que contava histórias dos últimos momentos de uns quantos autores, entre eles o malogrado Somerset Maugham, que acabou mal; o outro em que referi a ausência de epitáfio na campa dos irmãos Goncourt. Pois tudo isso foi lido na maravilha que é Nada a Temer, do querido Barnes, um autor que gosta muito de escrever sobre a morte (Os Níveis da Vida, O Papagaio de Flaubert são outros títulos que olham para ela, embora de maneiras diferentes). Porém, Nada a Temer é exclusivamente uma reflexão sobre a morte, a mortalidade, Deus, o que vem (ou não) depois de morrermos, o aborrecimento do acabar, os tempos sinistros que precedem o culminar da vida, quem tem medo da morte e quem, por sua vez, parece que não tem «nada a temer». Mas, para falar de tudo isso, Barnes tem um humor impagável que põe a nu episódios hilariantes que envolvem avós e pais, os amigos, os confrades e sobretudo o seu irmão filósofo, que espera ser enterrado no jardim de casa e fertilizá-lo. E está cheio de pequenas histórias deliciosas sobre escritores e artistas, como a de Rabelais (o autor de Pantagruel) que, no seu leito de morte, se despede dizendo: «Vou em busca do Grande Talvez.» Não percam. Fartei-me de marcar passagens memoráveis, eu, que raramente sublinho livros. É a minha recomendação para hoje. Nada a Temer, traduzido por Helena Cardoso para a Quetzal numa reedição muito recente.

30
Jun20

Redescobrir

Maria do Rosário Pedreira

Não sou muito de reler livros, sobretudo aqueles de que gostei muito, pois já apanhei uns baldes de água fria em releituras (num caso, a tradução era tão má que fiquei chocada por só o ter percebido tantos anos mais tarde). Por outro lado, tenho sempre tanta coisa para ler profissionalmente e tantos livros que vão saindo e me interessam que sobra pouco tempo para reler (mesmo que alguns clássicos lidos na adolescência ou nos primeiros anos de faculdade estejam sempre a chamar por mim das estantes). No entanto, para orientar as sessões do Próximo Capítulo, a comunidade de leitores da LeYa, reli O Nervo Óptico, de María Gainza, e descobri muitas pérolas que, das outras vezes, não tinha registado com a mesma atenção. Uma delas diz respeito a bibliotecas pessoais. Conta a história da visita da narradora a casa de uma amiga e a observação que faz das suas estantes «como um carteirista, lançando olhares furtivos». E continua: «sabia que o que estava a fazer era no fundo uma indiscrição, como remexer no armário dos remédios de uma casa de banho alheia. Não consigo evitá-lo, são ambos lugares que fornecem informação-chave sobre os seus donos.» Diz-me o que lês (e as drogas que consomes) e dir-te-ei quem és? Hum... Uma proposta muito interessante.

Como na semana passada se falou aqui de Stefan Zweig, hoje recomendo deste autor Novela de Xadrez, uma pequena pérola incrível.

29
Jun20

Fazer-se difícil

Maria do Rosário Pedreira

Gosto muito da expressão «fazer-se difícil», e ela hoje vem muito a propósito, uma vez que condiz bem com a história que vou contar. Roubei-a no mural do meu querido autor Itamar Vieira Junior (o vencedor do Prémio LeYa com Torto Arado) e é notável, sobretudo vinda de quem vem: Faulkner, que (não por acaso) é um dos autores preferidos de Lobo Antunes e que, muito ao avesso dos seus confrades norte-americanos (habitualmente secos na prosa e mais dedicados ao enredo e à estrutura), tem uma escrita muito pouco linear, frequentemente visceral e algo exigente. Ora, parece que uma jornalista lho fez notar ao longo de uma entrevista, perguntando-lhe o que diria ele às pessoas que liam duas e três vezes passagens dos seus livros e, ainda assim, continuavam sem perceber nada. William Faulkner respondeu com graça, aconselhando-os a tentar lê-las uma quarta vez... Sobre autores difíceis (e não é que se façam de difíceis, é mesmo o seu natural), e para homenagear a pátria de Itamar Vieira Junior, recomendo Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Preparem-se: demora a entrar,  e é para lá ficar dentro bastante tempo.

26
Jun20

Competências e capacidades

Maria do Rosário Pedreira

Há quem diga que, depois da pandemia, nada será igual; há quem, pelo contrário, declare que, passada a fase pior, tudo voltará a ser como antes (Houellebecq dizia-o num artigo recentemente publicado no Expresso). Acredito que haja mudanças... A quantidade de coisas que deixámos de comprar e que percebemos que realmente não nos fazem falta é uma delas (e o dinheiro vai ser menos para muita gente); mas mudará também a forma como os pais olham para os seus filhos pequenos, pois finalmente passaram com eles o tempo que só lhes dedicavam à hora do banho ou aos fins-de-semana. E talvez tenham descoberto que eles se entretêm maravilhosamente com um livro de histórias, uma corda de saltar, uns lápis de cera e meia dúzia de carrinhos com mais felicidade do que com o inglês, os cavalos, as aulas de piano, o atelier de cerâmica... Tomara. Como diz, numa entrevista que li há meia dúzia de dias (embora tenha mais de um ano), um homem muito sábio (refiro-me a Laborinho Lúcio), hoje «encharcamos de tal maneira as crianças com competências que nem chegamos a descobrir quais são as suas verdadeiras capacidades». Ter nascido e brincado antes do nascimento da Internet dá de facto esta lucidez impressionante. Espero que da pandemia possa nascer realmente algo de positivo quanto a este assunto.

Hoje recomendo um livro que dá para grandes e pequenos e pode ser lido pelos pais aos filhos: Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez. O autor foi Prémio Nobel da Literatura em 1956, embora em Portugal seja um desconhecido.

25
Jun20

Alusões e outras ligações

Maria do Rosário Pedreira

Como editora, prezo muito a inovação, uma vez que, à medida que o mundo avança, é cada vez mais difícil fazer-se ou encontrar-se o nunca visto. Mas, embora o material da escrita seja o mesmo que usamos para pedir uma bica em Lisboa ou dizer «continuação» no Porto com o sentido de que tudo fique bem, a verdade é que ainda há pessoas capazes de ter ideias diferentes. E, para variar, hoje nem falo nos artistas propriamente ditos, mas nos que «editam» e não são, por causa disso, menos originais. Refiro-me, por exemplo, à professora Rosa Maria Martelo, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que assina um livro intitulado Antologia Dialogante na Assírio e Alvim, do qual constam poemas de variadíssimos autores de épocas diferentes que, isso mesmo!, dialogam entre si. Imaginem quantos versos de Camões se escondem por aí em poemas alheios... Pois a professora caçou-os (a estes e a outros, citados, glosados, em alusões mais discretas ou mais óbvias) e constrói uma interessante colectânea poética, toda ela teia, que é também uma espécie de jogo de espelhos. E alguns dos poetas que «roubam» (e que bem o fazem) aos antecessores também acabarão roubados, o que tem certa graça. Enfim, para quem gosta de poesia e jogo limpo, uma obra inovadora.

E, como falei de Camões, é ele quem hoje vos recomendo (a lírica, mesmo que Os Lusíadas sejam a obra maior da nossa língua), até porque, no centenário de Amália Rodrigues, que se comemora desde segunda-feira passada, faz sentido reler um soneto do mestre que está na origem de uma das maiores inovações da diva: cantar os eruditos!

24
Jun20

Humildade ou vaidade

Maria do Rosário Pedreira

No livro de João Tordo que referi recentemente neste blogue, Manual de Sobrevivência de Um Escritor, numa espécie de conselho àqueles que querem tornar-se escritores e submeter o seu primeiro manuscrito a um editor, o autor recomenda que sejam humildes e saibam ouvir. Mas também conheço muitos jovens escritores que entendem humildade como subserviência e preferem não publicar o seu livro a ouvir uma crítica ou ter de mexer uma linha no seu manuscrito. A humildade tem que se lhe diga... Li recentemente que os famosíssimos irmãos Goncourt (sim, aqueles que deram nome ao célebre prémio literário francês e são referidos sempre que alguém fala dos intelectuais da sua época), escritores e homens ricos e cultos que conheciam absolutamente todos os confrades e artistas seus coetâneos, têm na sua sepultura em Montmartre apenas os respectivos nomes e as datas de nascimento e morte, mais nada. Porém, se a maioria das pessoas sempre interpretou tal facto como prova da sua humildade, a verdade é que o comentário de Jules Renard no seu diário sobre esta situação faz cair na decisão uma nódoa de ambiguidade. Humildade?, duvida Renard. Qual quê! Pelo contrário, eles acharam que eram de tal forma conhecidos que bastavam os seus nomes para toda a gente saber quem ali repousava...

Nunca li nada de Renard (a não ser pequenas citações em livros de outros autores), mas ando mesmo com vontade de o fazer (até porque essas citações aparecem em obras de escritores muito distintos e de idades diferentes). Não posso, por isso, recomendá-lo para já, mas conto fazê-lo em breve. Li em jovem, para uma cadeira de Francês, parte de uma biografia de Maria Antonieta feita pelos irmãos Goncourt, mas não sei se está cá traduzida. Escolho então um romance que recebeu o Prémio Goncourt já neste milénio e que fala do mundo dos artistas e críticos com verrina que baste (como a de Jules Renard): O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq.

23
Jun20

Velhice e morte

Maria do Rosário Pedreira

Agora, que por causa da pandemia todos pensamos mais frequentemente na morte e, sobretudo, no medo de morrer, as cenas em que a morte está presente nos livros que lemos saltam mais à vista e tenho vindo a sublinhar algumas (eu, que nem sou de sublinhar livros). Mas, pior do que o medo de morrer, é certamente o medo de ficarmos diminuídos mentalmente com o tempo, ou mesmo de perdermos o tino, o que para um artista será, creio, ainda mais terrível. Stravinsky, quando já estava no fim da vida e a mulher lhe perguntava se precisava de alguma coisa, respondia brilhantemente que apenas precisava de ter a certeza da sua própria existência, o que é também uma forma de se assegurar da própria lucidez e saber-se vivo. Somerset Maugham não teve grande sorte quanto a isso, pois diz-se que, depois dos oitenta, baixava as calças em qualquer lado e fazia cocó atrás dos sofás, num caricato e triste regresso à primeira infância. Goethe, porém, manteve-se com a cabeça fresca até muito tarde (sobretudo se tivermos em conta que no seu tempo as pessoas morriam bastante mais novas do que hoje); passou os 80 anos com uma saúde de ferro e a mente a funcionar em beleza (Fausto é dessa altura) e só aos 83 acabou por sucumbir a uma trombose e perder a fala, mas diz-se que, mesmo assim, continuou a escrever letras na manta que lhe cobria as pernas, com pontuação e tudo!, como só pode acontecer a um verdadeiro génio. Sobre o livro em que tudo isto e muito mais nos é contado, falarei um dia destes, quando o terminar.

Hoje recomendo, por piedade deste fim de Maugham, que não merecia, O Fio da Navalha, o Véu Pintado ou A Servidão Humana, mas ele foi um autor prolixo, há muito por onde escolher.

22
Jun20

Taprobana

Maria do Rosário Pedreira

Todos os que leram e estudaram Os Lusíadas devem lembrar-se bem da palavra «Taprobana» logo na primeira estrofe. Porém, se lhes perguntarem onde fica, muitos provavelmente já não o saberão. Pois bem, Taprobana foi um dos nomes que o Sri-Lanka teve no passado, além, claro, de se ter chamado Ceilão (coisa de que não nos teremos esquecido tão facilmente). Vem isto a propósito de um thriller histórico de Eduardo Pires Coelho, cujo título é justamente Taprobana, que cruza a história da chegada dos Portugueses a essa ilha no século XVI (e as batalhas que ali travaram com os cingaleses) com a morte misteriosa de um cientista do Sri Lanka na Lisboa actual, morte essa que está relacionada com um mosteiro que já existia no tempo em que Portugal dominou o Ceilão. Com muito ritmo e suspense, cheio de informação histórica interessante (e desconhecida da maioria dos leitores, aposto), agradará a quem goste de uma boa história e também de História. Mas, se quiserem saber mais, esta semana vai haver um evento dedicado ao livro no Museu da Farmácia que será transmitido em directo online e ficará gravado, circulando nas redes sociais. Eu vou estar a ver.

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Sem desvendar porquê, mas relacionado com este livro, recomendo a consulta de um clássico português do século XVI: Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia..., de Garcia de Orta.

 

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