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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

06
Abr20

Artistas

Maria do Rosário Pedreira

Li algures que Churchill, quando lhe perguntaram porque gastava dinheiro com a Cultura num momento em que todos os fundos deveriam ser invstidos no esforço de guerra, respondeu: Mas porque fazemos a guerra senão pela Cultura? Foi uma excelente resposta, evidentemente; e, embora os governos raramente atribuam uma fatia essencial do seu orçamento à Cultura (e até há pouco tempo nem ministro tínhamos nesta área em Portugal), a verdade é que, se não fossem os artistas, o período de confinamento que estamos a viver seria mesmo impossível de suportar. Sim, como passaríamos um mês (ou mais) dentro de casa sem livros, filmes, séries, visitas virtuais a museus, música, jogos? Tudo isso é obra de artistas, e é a sua obra que hoje nos ocupa maioritariamente o tempo livre (para quem não está em teletrabalho, o tempo quase todo). Por isso, são de louvar medidas que algumas instituições tomaram para apoiar os artistas que, de um momento para o outro, ficaram sem possibilidade de realizar dinheiro: uma construtora de Braga está a pagar os salários dos actores do teatro daquela cidade, a Câmara de Lisboa abriu uma linha de apoio a artistas que não beneficiavam de qualquer ajuda do município e vai pagar já os contratos celebrados, a Fundação Gulbenkian criou um concurso nacional de apoios de emergência à cultura... Espero que estas iniciativas se alarguem e difundam por todo o País e ao longo destes meses terríveis. Por muito que algumas pessoas achem que viveriam muito bem sem os artistas, esta é a hora para fazerem o teste da verdade.

03
Abr20

Crónica e criatividade

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica e aqui vai o link:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/14-mar-2020/falta-de-educacao-11921165.html

Noto que nestes tempos estou muito menos concentrada, que me custa muito mais ler um texto (a minha atenção está permanenemente a ser desviada por chamadas, apitos de emails, alertas dos jornais, notificações e também pensamentos negativos), mas acredito apesar de tudo que já haverá muita gente a criar com o pano de fundo dos tempos que estamos a atravessar; e, lendo a sempre interessante colaboração do meu confrade espanhol Adolfo García Ortega (abaixo o link), haveria realmente dezenas de ideias para contos ou mesmo romances. Basta ver as que ele enumera no seu texto.

https://www.zendalibros.com/dos-cabalgan-juntos-x/

 

Hoje recomendo A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano, com tradução de José C. Serra, uma pequena maravilha literária escrita com o rigor de um homem de ciência.

02
Abr20

Pequenas coisas

Maria do Rosário Pedreira

Geralmente, irritamo-nos por pequenas coisas, não por grandes: quando, por exemplo, nos alteram os planos de repente, ficamos fora de nós (eu, pelo menos, que gosto de planear tudo ao milímetro, fico). As pequenas coisas acabam por ter no nosso humor um peso maior do que as grandes; e é sobre as pequenas coisas que hoje vos falo, tendo como ponto de partida um convite que a Almedina fez ao escritor e historiador Sérgio Luís de Carvalho, que já foi (ou ainda é, não sei) director do Museu do Pão em Seia. Pois bem, ele foi encarregado de realizar um conjunto de pequenos videogramas de cerca de três minutos sobre curiosidades, bizarrias, factos estranhos e outras coisas igualmente pícaras da História de Portugal, com o título genérico História das Pequenas Coisas. Os primeiros episódios já estão online e deixo-vos abaixo o link do primeiro, que se intitula «Porque é que a famosa gripe espanhola não é espanhola?». Porém, se quer saber coisas sobre a origem histórica do termo «filho da mãe» ou sobre quem teve o primeiro acidente de carro em Portugal, aqui tem com que se entreter. E pode consultar o site da Almedina e procurar em «Observatório Almedina» para ver os outros episódios que vão sendo publicados. Há que passar bem o tempo, e de preferência a aprender, claro.

 https://www.youtube.com/watch?v=4TU5o_65jdA&t=52s 

Hoje recomendo Os Interessantes, de Meg Wolitzer, um dos livros grandes e dos grandes livros de que mais gostei nos últimos anos. Sobre a diferença de classes na última metade do século XX, com um grupo de adolescentes crescendo numa América em mudança.

01
Abr20

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Por acaso, não ando a ler um livro em português, mas o pequeno romance de um autor nascido no País Basco, de ascendência galega, que escreve em castelhano e mora na Catalunha (que mistura explosiva). O livro, Ama, de José Ignacio Carnero (assim se chama o «senhor Espanha»), foi-me recomendado pela minha autora Marta Orriols e, embora não tão «purgante» como Em Tudo Havia Beleza, de Manuel Villas, tem bastantes ressonâncias desse romance. «Ama» é a palavra mãe em euskera, mas é também a terceira pessoa do verbo «amar» em castelhano e em português, e este é um livro escrito com muito amor para fazer o luto de uma mãe. Olha para trás, para tudo o que não se fez e se podia ter feito, contando a vida de uma mulher que não teve muita sorte, mas até ao fim teve sempre uma grande dignidade: foi criada, migrante, pobre, doente, e sacrificou-se para dar tudo ao seu único filho, que hoje acha que não retribuiu como devia, mesmo que tenha passado com ela os últimos dias, os mais difíceis de todos, e lhe tenha dedicado esta peça literária. É, no fundo, um bonito testemunho sobre a orfandade e, ao mesmo tempo, um bom retrato da Espanha contemporânea.

 

Hoje, porque Ama será difícil de encontrar em Portugal, recomendo O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, com tradução de Nuno Camarneiro.

31
Mar20

Fados para uma cidade tristonha

Maria do Rosário Pedreira

O poeta António Carlos Cortez escreveu um poema-letra para esta Lisboa cujo fado não se tem podido ouvir, um fado sobre a Lisboa deserta, que publicou na sua página do Facebook (António Carlos Cortez Letras). Depois desafiou-me a dar-lhe resposta, como numa autêntica desgarrada, propondo um mano-a-mano que podia ser giro, mas demorado. Aceitei dar a primeira resposta, mas logo lhe disse que estava em teletrabalho e não poderia prosseguir «a conversa». Então, para não quebrar a corrente, combinámos que desafiaríamos outros poetas para escreverem fados sobre este momento do confinamento. E não só os poemas apareceram muito naturalmente (de Mário Cláudio, Nuno Júdice, Luís Filipe Castro Mendes, José Carlos Barros, Rui Cóias, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta..., alguns dos quais até repetiram a dose), como o apelo estendeu-se a alguns autores menos conhecidos e até a poetas populares que quiseram arriscar. Qualquer dia ainda temos antologia... Deixo-vos o meu fado, mas procurem os outros na página que referi, pois valem muito a pena.

 

«Fado da Lisboa doente»

 

Quem a viu e quem a vê,

Esta Lisboa onde moro.

Mas não perguntem porquê.

Pois, se explicar, ainda choro.

 

Na padaria da esquina

Já só se entra às pinguinhas

E até se tornou rotina

Estar a um metro das vizinhas.

 

Há fila para a farmácia,

Fila pró supermercado;

E nem é precisa audácia

Para se andar mascarado.

 

Nas traseiras do meu prédio

Uma jovem namorada

Tenta combater o tédio

Com uma videochamada.

 

A uns metros de distância

Parte um atleta em corrida;

Para manter a elegância

Há que fazer pela vida.

 

De resto, com a emergência,

Ficam as ruas desertas.

Podemos conferir a ausência

Pelas janelas abertas.

 

Está tudo em teletrabalho,

A olhar p’ró monitor.

Mas não encontro o atalho

Para vos falar de amor.

 

Dar beijos é só por escrito,

Que o vírus mata a valer.

E está tudo tão aflito

Que nem apetece ler.

 

Ai Lisboa, que saudade

Da tua irrequietude.

Mesmo que, em boa verdade,

Mais importante é a saúde.

 

Que tudo passe ligeiro,

E não afecte o meu ninho.

Da Praça do Areeiro

Envio um tele-beijinho!

 

Hoje proponho como leitura Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, com tradução de Ana Saldanha. (Dedico esta leitura às mulheres que estão desesperadas a pensar que não conseguem arranjar o cabelo até final de Maio...)

30
Mar20

As personagens cumprimentam-se

Maria do Rosário Pedreira

Tenho passado os dias a ler: provas de livros que serão publicados, obras originais de potenciais autores, livros publicados no estrangeiro para ver se me interessa traduzi-los, livros cá publicados (à noite, antes de dormir). E noto que a leitura recorrente de notícias sobre o Coronavírus e o isolamento forçado me estão a afectar mais do que gostaria quando dou por mim a já não conseguir separar as águas... Por exemplo, li agora uma cena de um livro em que os avós acenavam de longe a um rapazinho, num jardim das Caldas da Rainha, e pareceu-me bem; mas, quando eles resolvem ir ter com ele e sentarem-se todos numa esplanada, só pensava que deviam estar doidos e que nunca deveriam ter saído de casa. Infelizmente, sempre que aparece no texto que estou a ler um aperto de mão, um abraço, alguém que cumprimenta com um beijo, em vez de achar natural e passar adiante, não consigo deixar de pensar no perigo de contágio... Mas para onde me havia de dar, raios! Devo estar a ficar maluquinha com o encerramento... Por acaso acontece o mesmo a algum Extraordinário ou sou eu que sou mesmo um caso perdido (coisa que o nosso Anónimo de estimação adoraria)?

Para hoje sugiro O Filho, de Philipp Meyer, um livro em que o protagonista só se salvou do jugo dos índios porque estava vacinado...

27
Mar20

Crónica e paciência

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica e o link aqui vai:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-mar-2020/um-virus-com-estilo-11894110.html

Os pais de crianças mais pequenas devem andar um bocado desesperados, obrigados que estão a mantê-las confinadas ao espaço da casa, e sabendo nós como algumas das casas devem ser pequenas... Sobretudo os que, além de tomar conta dos filhos, estão em teletrabalho. Mas há um livro bonito que ensina as crianças a aceitar situações diferentes. Chama-se A Aldeia Verde e Vermelha, é de Paulo M. Morais, tem ilustrações de Sandra Sofia Santos, e foi publicado pela Tcharan. É a minha sugestão para hoje. Para os mais velhos, Pátria, de Fernando Aramburu, sobre a ETA, o País Basco e o que une e separa duas famílias tão amigas. Bom fim-de-semana.

26
Mar20

Esqueci-me

Maria do Rosário Pedreira

E não é que me esqueci do post para hoje? Isto é do confinamento forçado, desculpem... Bem, agora também não tenho tempo para quase nada. Vou por isso socorrer-me do jornalista João Morales, que gravou recentemente conversas espontâneas com escritores e outras personalidades na última edição das Correntes d'Escritas que vão sendo colocadas no Blog BranMorrighan. A primeira é com a Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes, justamente os “pais” das Correntes d' Escritas. Desculpem o mau jeito. Obrigada, João Morales. Aqui vai o link.

https://www.branmorrighan.com/2019/03/conversas-de-correntes-joao-morales.html

Aproveito para sugerir um clássico: Fome, de Knut Hamsun. A edição que me espreita ali da estante é da Cavalo de Ferro e a tradução de Liliete Martins (imperdoável esquecimento nos outros casos em que aconselhei livros não ter mencionado os tradutores, desculpem).

25
Mar20

Os dias da poesia

Maria do Rosário Pedreira

Sábado passado foi Dia Mundial da Poesia, embora a poesia devesse ser de todos os dias. Como é habitual de há vários anos para cá, a Casa Fernando Pessoa tinha um programa de actividades muito cheio para sábado: a feira do livro de poesia no Jardim da Parada, que tem sempre edições difíceis de encontrar nas livrarias, e várias sessões de leitura no auditório da Casa, entre elas uma realizada por Maria Rueff. Mas nada disso pôe fazer-se, pois manda a lei que estejamos bem recolhidinhos em casa para evitar o contágio. Em todo o caso, a directora da Casa Fernando Pessoa não parou para nos poder oferecer uma série de «poemas que ficam no ouvido», lidos não apenas pela actriz, mas por muitíssimas pessoas, algumas das quais se voluntariaram para alegrar os nossos dias. A sessão pode ser vista a partir daqui:

https://www.youtube.com/watch?v=FHaRx5FOJEU&list=PLGrO2Wlu5PWBNei9EFnPExNdkJjODkAYc&index=2&t=0s

Hoje, aconselho Stoner, de John Williams, um grande romance sobre um homem que, como nós, adorava os livros.

24
Mar20

Grande artista escondido

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, quando comecei, ainda tão nova, a ir à Feira do Livro de Frankfurt, conheci um casal da edição do qual nunca mais me separaria: a Maria da Piedade Ferreira, que é hoje a editora de António Lobo Antunes na LeYa, mas passou por variadísimas chancelas, como a Bertrand, a Difel, a Quetzal e a Gótica; e o Rogério Petinga, um artista que fez algumas das capas de livros mais lindas que Portugal já teve. Ambos, com Maria Carlos Loureiro e Francisco Faria Paulino, foram os fundadores da editora Quetzal, que primou sempre pelo bom gosto extraordinário quer na escolha dos autores (Duras, Tabucchi, Julian Barnes...), quer na imagem gráfica. Fico orgulhosa de ter publicado lá o meu primeiro livro de poesia, com capa de Rogério Petinga. Na Gótica, que os dois fundaram mais tarde, foi também ele que fez as capas dos meus livros seguintes. Infelizmente, este grande artista escondido (sim, era um homem discreto e metido consigo) deixou-nos na sexta-feira passada. Espero que a sua obra gráfica possa ser um dia mostrada a todos, pois é notável. Paz para ele.

Sugiro hoje um livro que foi editado originalmente pela Quetzal com capa do Rogério Petinga: O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes. Imperdível ainda hoje.

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