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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

09
Mar26

António Lobo Antunes

Maria do Rosário Pedreira

Indignaram-se alguns leitores deste blogue por eu não ter vindo a correr participar e lamentar a morte do escritor António Lobo Antunes na quinta-feira passada. Chegaram mesmo a acusar-me de «ostracismo» em relação a Lobo Antunes, como se me conhecessem. Caramba... Como dizia a minha avó, «um julgador por si se julga». Pois hoje queria, em primeiro lugar, dizer que um blogue não é um jornal diário e por isso não tem de dar notícias em cima da hora. Depois, eu não me encontro sempre diante do computador, e por acaso até estive bastante ocupada de manhã à noite nessa quinta-feira, fui ao hospital ver a minha mãe (que teve alta na sexta), fui a Setúbal a uma sessão com Itamar Vieira Junior na Livraria Culsete (e apanhámos imenso frio), jantámos tarde e cheguei a casa quase à meia-noite. E, além disso, não escrevo por escrever, e não diria decerto da obra de Lobo Antunes nada que não se saiba já ou que outros não digam bem melhor do que eu. Também não sou do género de vir aqui mostrar o livro autografado pelo génio, até porque raramente peço autógrafos. Mas, pronto, para contar se calhar uma história pouco conhecida sobre o eterno candidato português ao Nobel, esclareço que os seus dois primeiros livros (Memória de Elefante e Os Cus de Judas) saíram quando eu andava no segundo ano da faculdade e foram realmente uma bomba, nunca se tinha lido nada assim. Só que uma obra que, com o tempo, se tornou incontornável foi vista nessa altura por alguns professores de Letras como algo pretensamente moderninho e sem grandes qualidades, e lembro-me especialmente de um professor nos dizer «Credo, não leiam  isso»... Para mim, era estranho, claro, porque eu estava a adorar (ainda me lembro de, no primeiro livro, o escritor classificar as mulheres de acordo com a marca de cigarros que fumavam e de eu achar isso muito giro, se bem que as feministas radicais de hoje devam detestar), e valeu-nos a respeitadíssima professora Maria Alzira Seixo caminhar no sentido contrário aos seus colegas para nos tirar de cima o peso de acharmos que em termos literários éramos uns nabos e gostávamos do que não prestava. Depois desses dois livros que mencionei houve mais uns trinta, ficam cá para serem lidos, claro. E isso é que importa. Ostracismo? Se querem um blogue de notícias frescas ou selfies com os mortos, vão a outro lado.

06
Mar26

Inquietações

Maria do Rosário Pedreira

Está aí mais uma edição dos Prémios "Livro do Ano" da Bertrand Livreiros. Ficção portuguesa, ficção estrangeira, não-ficção, etc., muitos candidatos para o público eleger o do seu coração. Descubro que é preciso votar porque encontro apelos para isso de uma das minhas autoras (Luísa Sobral) que se diz entre os finalistas do romance nacional com o livro Nem Todas as Árvores Morrem de Pé. Mas, no mesmo dia, constato que outro dos meus autores, vencedor do Prémio LeYa com o romance Pés de Barro (Nuno Duarte), está exactamente na mesma situação. E, como a sabedoria popular ensina que não há duas sem três, deparo-me ainda com O Último Avô, de Afonso Reis Cabral, no rol de finalistas de ficção em língua portuguesa. São três romances que publiquei no ano passado e, claro, fico muito contente com a distinção destas três obras. Mas o problema é que só se pode votar uma vez. E eu não vou escolher, não posso. Gosto muito dos três livros e não faria a má acção de eleger só um. Claro que se perde um voto, mas às vezes mais vale isso do que ficar de consciência pesada ou ter posteriores arrependimentos. Enfim, vou gastar o meu voto nos livros traduzidos: é que também tenho na final Despedidas Impossíveis, o mais recente romance de Han Kang; que bom não ter mais concorrentes publicados por mim nesta categoria.

05
Mar26

Querer escrever

Maria do Rosário Pedreira

Em quase todos os festivais literários, há uma mesa-redonda cujo tema se prende com o momento exacto em que um escritor percebeu que escrever era o que queria fazer da vida. Já vos contei que Vargas Llosa contou um dia no México que descobriu que não estava sozinho nos seus problemas e tristezas ao ler na adolescência livros que falavam de outros que também sofriam, e que esse foi o primeiro passo para desejar viver outras vidas e escrevê-las. Partilhei igualmente a história de como Eduardo Halfon começou a escrever para aprender a língua do seu país, pois crescera nos EUA, e de engenheiro se tornou escritor. Esta semana, ouvi o escritor espanhol Miqui Otero ler no Instituto Cervantes um texto belíssimo onde, entre outras coisas, falou do momento em que despertou o seu desejo de viver outras vidas. Estava em casa com os pais e ouviram uma terrível explosão. Pensaram tratar-se de uma bomba, pois eram ainda os tempos dos assassínios da ETA, mas afinal estavam enganados: tinha sido uma garrafa de gás que explodira na casa em frente, mas os danos foram tantos que o rebentamento arrancou praticamente toda a fachada da vivenda. Assim, quando Miqui olhou para a casa vizinha pela sua janela, o que viu foi uma espécie de casa de bonecas, o interior com os dois andares e as divisões completamente à mostra: os quadros nas paredes, os móveis, os candeeiros no tecto, os pratos nas prateleiras, as almofadas nas camas. E, ao ver tudo isso minuciosamente, entrou na verdade na casa do vizinho e percebeu que queria saber como viviam as outras pessoas, que queria estar nessas vidas. Escrevendo, claro.

04
Mar26

Ler para ser livre

Maria do Rosário Pedreira

A semana passada e parte desta semana passei-as com Itamar Vieira Junior em muitas atividades bonitas e concorridas ligadas à leitura: no festival Correntes d'Escritas, em comunidades de leitores na Maia e em Perosinho, em Santarém numa escola profissional onde me admirei com (e admirei) o silêncio de 400 jovens enquanto ouviam o escritor brasileiro, e também em Cascais. Foi nesta última cidade que, numa sessão com cerca de cem pessoas, aprendi uma coisa maravilhosa relativa a um programa que envolve pessoas que estão presas no Brasil. Sabendo como a leitura é muitas vezes salvífica e cria empatia, no Sistema Prisional brasileiro existe um projecto que permite aos reclusos a diminuição da pena através da leitura. Chama-se, creio, Remissão em Rede e, além de formar leitores, faz com que todos os reclusos que completam um livro e sobre ele escrevem, digamos assim, uma recensão ou um resumo possam beneficiar de uma diminuição de x dias da pena a que foram sentenciados. O programa está há quatro anos a ser pensado para Portugal e em breve vos darei notícias sobre o assunto. Hoje é só para dizer que sempre acreditei que os livros nos tornam mais livres e que por isso gostei mesmo desta ideia. 

03
Mar26

Hoje não há post

Maria do Rosário Pedreira

Desculpem, mas, além de estar a acompanhar autores que vieram para as Correntes e têm várias actividades esta semana, a minha mãe foi internada enquanto eu estava na Póvoa de Varzim com um princípio de pneumonia. Está estável (já refila com a comida), mas tem 101 anos e, portanto, é sempre uma situação delicada. Assim que possa, volto ao blogue, prometo.

02
Mar26

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há tempos pediram-me que prefaciasse as histórias infantis de Clarice Lispector, que vão sair na editora Fábula. São incríveis, claro, e sobretudo muito diferentes do que geralmente são os textos para crianças. Nestas histórias, quase todas com animais, a grande escritora brasileira interpela os seus leitores constantemente e até pede desculpa às crianças por ter deixado morrer os peixinhos de aquário do filho, por se ter esquecido de os alimentar. Clarice conta ter escrito literatura para a infância apenas porque o filho mais velho achou que, se ela escrevia para os outros, teria de escrever também para ele; e, de facto, se lermos Perto do Coração Selvagem ou A Paixão segundo G.H., não imaginamos Lispector a escrever para a pequenada. Mas claro que ela sabe o que faz. Foi talvez o tal prefácio a levar-me ao último romance da autora, A Hora da Estrela, que ainda não tinha lido e que foi escrito pouco antes da sua morte. A obra cruza duas personagens: um escritor chamado Rodrigo e Macabéa, uma dactilógrafa provinciana, feia e sem graça que vai para o Rio de Janeiro trabalhar, mas passa os dias sozinha porque nunca se adapta à vida na cidade. O mais engraçado é que quem conta a história de Macabéa é Rodrigo, o escritor que inveja até certo ponto a liberdade da sua personagem. A edição, muito bonita, é da Companhia das Letras, que publicou mais uns quantos romances desta autora.

24
Fev26

Correntes

Maria do Rosário Pedreira

Pois é, aí estão as Correntes d'Escritas mais uma vez e, antes de falar do que se vai passar por lá, um aviso: parto para a Póvoa de Varzim hoje à tarde e só voltarei ao blog no dia 2 ou 3, por isso não estranhem o silêncio (no regresso contarei certamente alguma coisa do encontro). Terei lá cinco autores (Afonso Reis Cabral, Sara Duarte Brandão, Itamar Vieira Junior, a espanhola Rosario Villajos e o jornalista José Carlos de Vasconcelos); mas são mais de cem os convidados, e desta feita o homenageado será José Carlos de Vasconcelos, de quem acabo de publicar um livro de poesia chamado Os Sete Sentidos e Outros Lugares, que terá o seu lançamento dia 27, às 12h00, no Teatro Garrett. Além das mesas, que acontecem todos os dias de manhã e à tarde, poderemos ver as exposições, uma delas da cantora Márcia, e assistir à antestreia do filme De Lugar Nenhum sobre o escritor Valter Hugo Mãe, de Miguel Gonçalves Mendes (os dois estarão no palco a seguir ao filme para uma conversa). Haverá também uma homenagem a Francisco Guedes (um dos fundadores do festival Correntes d'Escritas), teatro e até entrevistas ao vivo a Dulce Maria Cardoso, Alfredo Cunha e muitos outros. As Correntes não param. 

23
Fev26

Demasiado afins?

Maria do Rosário Pedreira

Já me recomendaram o autor há bastante tempo, mas ainda não tinha conseguido chegar aos seus livros. Um dia destes, estava numa livraria a comprar presentes para oferecer a dois amigos que fazem anos com apenas três dias de intervalo, e os meus olhos pousaram numa capa que dizia Quem Matou o Meu Pai, de um livro de Édouard Louis. Comprei-o também (os outros, para quem esteja curioso, eram de Svetlana Alexievich e John Banville). É um livrinho para uma noite, uma coisa mesmo pequena; e, quando o comecei a ler, pensei que afinal já o tinha lido, de tal modo me era completamente familiar; mas percebi essa sensação umas páginas mais adiante, quando o autor menciona Didier Eribon e diz que teria sido impossível escrever sem antes ter lido Didier. Claro! Quem Matou o Meu Pai lembrou-me (demasiado) Regresso a Reims, no qual também é mencionada essa relação difícil entre um pai bastante bruto e o seu filho homossexual, que começa por ser silenciosa (e até por isso violenta, de dentes a ranger) e, quando o filho se torna um autor conhecido, o pai orgulhoso já só quer falar dele aos amigos. Talvez devesse ter começado por outro livro de Édouard Louis, porque este tem a mesma temática de Regresso a Reims mas não é tão bom, já que o livro de Édouard Louis não foge à política, mas aborda-a de forma mais vingativa, pelo que os políticos fizeram e não fizeram ao pai, enquanto Eribon parte da família para desenvolver toda uma teoria sobre como o seu pai, que fora sempre comunista, se voltou para a Extrema-Direita. Tenho de ler agora outro dos livrinhos de Édouard Louis, esperando que não me lembre mais ninguém.

20
Fev26

O Porto em Lisboa

Maria do Rosário Pedreira

O Porto é uma cidade que está sempre a gerar boa música e boa poesia. Basta pensarmos que Rui Veloso e Rui Reininho são do Porto ou que Sophia e Eugénio também são (embora Sophia se tenha mudado para Lisboa a dada altura da sua vida). Mas é inegável que, ainda hoje, brotam como cogumelos no Porto músicos de sucesso como Miguel Araújo (um dos "ujos" que fizeram 27 Coliseus, o outro era alentejano); e poetas extremamente dotados como Daniel Jonas, Andreia C. Faria ou Rui Lage. É deste último autor, nascido em 1975, um romance que ganhou o Prémio Agustina Bessa-Luís intitulado O Invisível, e variados livros de poesia que foram no seu conjunto contemplados com o Prémio da Fundação Inês de Castro. Rui Lage escreve semanalmente uma crónica no Jornal de Notícias, é autor de ensaios, foi professor universitário e deputado, sendo actualmente assessor no Parlamento Europeu. Ora, deste multifacetado escritor apresentará hoje à tarde Pedro Mexia o livro de poesia Física Espiritual, na Livraria da Travessa, às 18h30. Vale de certeza a pena lá ir.

19
Fev26

Livros e canções

Maria do Rosário Pedreira

Sabemos que os livros inspiram filmes e peças de teatro, mas que tenham também estado na base da composição de conhecidas canções já não é tão óbvio. E, porém, Alexis Petridis escreve sobre o assunto um interessante artigo no The Guardian que eu, apesar de perceber muito pouco de música, gostei de ler. Selecciona vinte canções e a literatura que as "provocou" mais ou menos directamente; e começa por referir que uma das músicas que ouvi muito ao longo da vida, Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, resulta de um conselho dado por Marianne Faithfull a Mick Jagger para que lesse Margarida e o Mestre, de Mikhail Bulgakov. Já outra pérola da minha juventude, a canção Both Sides Now, de Joni Mitchell, foi inspirada por uma passagem sobre nuvens do romance Henderson, o Rei da Chuva, de Saul Bellow, que a cantora leu durante uma viagem de avião. Parece que The Sensual World, de Kate Bush, é uma fantasia a partir de Molly Bloom de Joyce. David Bowie quis escrever um musical baseado em 1984, de Orwell, mas, como os herdeiros se opuseram, casou 1984 com sua a própria visão do Apocalipse na canção Diamong Dogs. O Perfume, de Patrick Süskind, é a obra de que partiu a canção Scentless Apprentice, dos Nirvana. Já os The Cure se inspiraram em O Estrangeiro, de Camus, para escrever Killing an Arab. A canção Firework, de Katy Perry, tem por base Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac; e até a menina Taylor Swift se identificou com uma personagem dos romances de Nancy Mitford para a sua canção The Bolter. Enfim, músicos que lêem...

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