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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

18
Set20

Calvinices

Maria do Rosário Pedreira

Uma das maiores injustiças da Academia Nobel, quanto a mim, foi não ter dado o galardão ao talentosíssimo escritor italiano Italo Calvino, um fabuloso inventor de modos, estilos e universos literários que, além disso, tinha um humor notável. Bem sei que era ainda bastante jovem quando morreu, mas o Nobel já tinha contemplado escritores mais novos (Camus, por exemplo). Já aqui devo ter falado de vários dos seus livros, mas hoje lembrei-me de Palomar, mais outra maravilha de originalidade e empatia. O livro acompanha um senhor chamado Palomar em várias situações (desde as férias na praia até às compras no talho) para nos mostrar que nunca há só um ponto de vista sobre as coisas e que, se formos como Palomar, nunca conseguiremos escolher entre duas coisas de ânimo leve nem deixar o cérebro descansar um segundinho que seja. Basta ler o capítulo sobre a rapariga em top less e as questões que o senhor Palomar se põe sobre qual deverá ser o seu procedimento ao passar por ela para se saber que até à última página vamos ter muito com que nos deliciar. Leia-se este autor, por favor, com ou sem Nobel.

17
Set20

Três irmãos

Maria do Rosário Pedreira

Muitos dos escritores, nos primeiros tempos da pandemia, viveram aquilo a que eu chamaria agora, para simplificar, um «período branco», querendo com isso dizer que a tensão provocada pelo medo da doença e/ou o confinamento os impediu de criar. Contudo, isso é coisa que não se pode dizer de Gonçalo M. Tavares, que não parou um instante de dar à pena e cujo diário foi/está a ser publicado pelo semanário Expresso há várias semanas (embora não na íntegra, o que indicia que ainda há-de sair provavelmente o todo num livro). Mas não foi só: escreveu no mesmo período a peça Os Três Irmãos, encenada pelo coreógrafo Vítor Hugo Pontes e com estreia marcada para amanhã no Teatro Viriato, em Viseu. O texto fala de uma família em espaço fechado e do «desaparecimento» de alguns dos seus membros sem que os outros se possam despedir deles, o que é uma excelente alegoria destes tempos negros. É igualmente uma boa notícia que uma coisa tão negativa como este vírus sirva para a criação,  que é coisa positiva. Em Lisboa, o espectáculo só poderá ser visto lá para Fevereiro, no S. Luiz. O meu livro preferido de Gonçalo M. Tavares é Jerusalém, que aconselho vivamente.

16
Set20

Tempos duros

Maria do Rosário Pedreira

Vivemos tempos duros e já aprendemos que um simples vírus, uma coisita de nenhum tamanho, pode de repente mudar o mundo todo, matar milhões de pessoas, alterar hábitos enraizados, provocar depressões, desemprego e divórcios, suprimir a sociabilidade e o afecto, tornar negros negócios que antes frutificavam. Foi também uma coisa de nada (no caso, uma mentira: a de que o líder eleito encorajava a entrada do comunismo na Guatemala) que mudou o rumo do país quando, em 1954, um golpe de Estado orquestrado pela CIA derrubou o governo. É disto que fala o mais recente romance de Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura e autor de grandes romances, muitos dos quais já mencionados aqui no blogue. Chama-se Tempos Duros, está classificado como um thriller histórico e, segundo o El Pais, mostra como as coisas poderiam ter sido bem diferentes se não fosse, de facto, essa mentira. Para ler e aprender. Publica a Quetzal. A tradução é de Cristina Rodríguez e Artur Guerra.

15
Set20

Boas notícias

Maria do Rosário Pedreira

Uma das excelentes notícias de hoje é que o meu braço-direito aqui na editora, a Madalena Escourido, se tudo correr bem, se doutorará daqui a pouco. Por causa das restrições, não pude, como gostaria, ir vê-la defender a sua tese (sobre Afonso Cruz, Patrícia Portela e Joana Bértholo) na Universidade de Coimbra, mas estarei diante do computador a acompanhar esse momento alto roendo as unhas. Outra boa notícia é a de que o enorme leitor e bibliófilo Alberto Manguel, nascido argentino e naturalizado canadiano, que foi leitor de Borges em jovem, escreveu livros magníficos sobre a leitura e reuniu uma das mais fascinantes bibliotecas de sempre, vem viver para Lisboa, onde dirigirá um Centro de Estudos da Leitura num palacete que a nossa Câmara lhe cedeu para instalar os seus 40 000! volumes que, assim, poderão ser vistos (e consultados) pelos portugueses. Claro que, até tudo estar pronto, vai demorar não menos de dois anos, mas... o tempo passa num instante. Só boas notícias.

14
Set20

Lugar para Dois

Maria do Rosário Pedreira

De um finalista do Prémio LeYa, o livro de que hoje vos falo é para ler e ouvir (sim, inclui códigos que podem ser lidos com um telemóvel para se escutar uma canção alusiva ao episódio, até porque uma das personagens é um músico, e o autor, Miguel Jesus, também). Trata-se de Lugar para Dois, cuja acção decorre maioritariamente em Moçambique e que é tão cinematográfico que quase sentimos os cheiros e ouvimos os ruídos do mato. Conta a história de um homem bem-sucedido que, no final dos anos 1950, poderia escolher o futuro que quisesse, mas um acidente estúpido com a filha enche-o de uma culpa de que não se consegue libertar. Tenta recomeçar a vida longe e instala-se num lugar recôndito de Moçambique, onde uma velha negra o ajuda nas tarefas domésticas e lhe leva jornais que o põem a par dos movimentos independentistas nas Colónias e das mudanças por que a Metrópole vai passando. Porém, apesar do desejo de ficar sozinho, uma inscrição no tronco do embondeiro que enfeita a propriedade diz que aquele é um «lugar para dois», insistindo na paternidade que lhe estava destinada. E, por mais que Daniel a renegue por duas vezes, é nesse caminho que acabará por encontrar o próprio perdão. Belo, duro, ternurento – com uma banda sonora exclusiva! – este é um romance excepcional.Lugar_Para_Dois K 3D (2).jpg

 

 

11
Set20

Os dias de Mário Cláudio

Maria do Rosário Pedreira

Este domingo teremos a última oportunidade na Feira do Livro de Lisboa de comprar livros do escritor Mário Cláudio (e de outros autores, bem entendido). Entre os seus títulos publicados pela Dom Quixote, encontra-se Tríptico da Salvação (o romance a que foi atibuído recentemente o Prémio de Romance e Novela da APE-DGLAB, sendo Mário Cláudio o único autor a ter recebido este galardão por três vezes), mas também um volume acabadinho de «sair do forno» da LeYa intitulado Três Novelas, que reúne os seus primeiros três trabalhos de ficção há muito esgotados e que nunca tinham sido publicados num só volume: Um Verão Assim, As Máscaras de Sábado e Damascena. Paralelamente, sai o volume de ensaios comemorativo dos seus 50 anos de carreira, Trilogia do Belo, com organização de Maria Celeste Natário e José Vieira e textos de muitos estudiosos da obra do mestre. Na próxima segunda-feira, o escritor recebe o Prémio da APE na Fundação Gulbenkian, numa cerimónia em que serão respeitadas todas as normas de segurança. Estes são mesmo os dias de Mário Cláudio.

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10
Set20

Viajar sem sair do lugar

Maria do Rosário Pedreira

Estes não são os melhores tempos para viajar, mas há maneiras de o fazer sem sair do lugar, e ler sobre viagens é uma delas. Falo-vos hoje, por isso, de Pés na Terra, de Raquel Ochoa, autora que venceu o Prémio Agustina Bessa-Luís com A Casa-Comboio e que já publicou várias biografias e romances históricos. Pés na Terra ensina-nos que «em viagem vive-se às vezes um século inteiro num só dia» e que «viajar é a melhor forma de compreender quem somos». Nele, Raquel Ochoa, que é também guia de viagens e aventureira, mostra-nos que, com ou sem mapas, o mundo é um lugar onde o observador é tão importante como o observado e que enfrentar a natureza tal como ela é faz de nós mulheres e homens maiores. O volume reúne memórias de viagens aos cinco continentes, fazendo-nos olhar para o mundo contemporâneo como algo incrivelmente belo, mas também cheio de desigualdades e contradições. As experiências da autora (sobretudo como mulher que viaja sozinha, enfrentando o risco e o preconceito), as peripécias inesperadas, as provações e o desconforto a par da superação, do deslumbramento e da pacificação são o guia ideal para quem queira sair do seu umbigo para o umbigo do mundo, de mochila às costas ou sentado no sofá. Raquel Ochoa estará hoje na Feira do Livro às 18h30 e no sábado às 16h30 para autografar os seus livros. Apareça.

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09
Set20

Heranças

Maria do Rosário Pedreira

Há uns tempos, muito antes da pandemia, num dia chuvoso, fui ali para os lados da Sé participar nas filmagens de um episódio de uma série de TV dedicada aos vencedores do Prémio Literário José Saramago, cujo autor é o jornalista Carlos Vaz Marques e a realizadora Graça Castanheira. A série Herdeiros de Saramago, que vai falar de vários escritores e da sua vida quotidiana e passada, era para estrear em Junho, mas atrasou-se com o diabo do vírus. No último sábado, porém, vi em ante-estreia, no Indie, quatro episódios: o respeitante à brasileira Adriana Lisboa, os que se dedicam a Paulo José Miranda (o primeiro vencedor) e Ondjaki (que ganhou em 2013) e aquele em que eu mesma fiz uma perninha (João Tordo). Fiquei muito bem impressionada. Na TV verei, por isso, os outros, que serão sobre José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, Andréa del Fuego, Julian Fuks, Bruno Vieira Amaral e Afonso Reis Cabral). Estreiam na RTP em Novembro. Deixo-vos com uma foto do mais recente premiado numa das cenas do seu episódio.

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Sugiro como leitura os livros destes herdeiros do Nobel. Há muito por onde escolher.

 

08
Set20

Belezas do cosmos

Maria do Rosário Pedreira

Não é segredo para ninguém que iniciei a minha carreira nos livros pela mão de um cientista (já escrevi sobre isso aqui no blog) e que trabalhei nos primeiros nove anos de actividade numa editora especialmente vocacionada para a divulgação científica. Nessa editora, o campeão de vendas era Carl Sagan, o físico de Cornell que, na altura, tinha um programa de televisão belíssimo chamado Cosmos, que era também o título do seu livro mais vendido. Mas não era por ser um homem de ciência que descurava as letras, e é dele uma das mais interessantes frases sobre a leitura. Ela aí vai, caçada um destes dias no Facebook no mural de um amigo brasileiro (deixo tal qual encontrei): «Que coisa incrível é um livro. É um objeto achatado feito de árvore com partes flexíveis nas quais imprimimos uma porção de rabiscos escuros e esquisitos. Mas basta olhar para ele e você está dentro da mente da pessoa, talvez de alguém morto há milhares de anos. Através dos milênios, um autor está falando claramente e silenciosamente dentro da sua cabeça, diretamente com você. A escrita talvez seja a maior das invenções humanas, unindo pessoas que nunca se conheceram umas às outras, cidadãos de épocas distantes. Os livros rompem os grilhões do tempo. Um livro é a prova de que os humanos são capazes de realizar magia.» Grande verdade.

 

Em tempo (porque me chamaram a atenção de que não sugerira qualquer livro, mas Cosmos era também uma sugestão): de Carl Sagan, O Cérebro de Broca, cuja tradução foi feita por mim aos vinte e tal anos.

07
Set20

Resistir ao tempo

Maria do Rosário Pedreira

A Dom Quixote teve em tempos, se não me engano, uma colecção cujos títulos eram escolhidos por António Lobo Antunes. Um desses, com prefácio da sua pena, é uma daquelas novelas exemplares que tem tudo para resistir ao tempo, pois mantém-se profundamente actual, apesar de terem passado mais de uma centena de anos sobre a sua publicação. Trata-se de A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, um livrinho com menos de cem páginas, que conta abreviadamente a história da vida de um juiz desembargador: da infância ao casamento, da sua primeira colocação até ao posto cimeiro da sua carreira, dos seus momentos felizes na infância até uma vida de aparências sem qualquer felicidade e, por fim, aos tempos que antecedem a sua morte e que lhe permitem olhar para trás e fazer um balanço que é, afinal, de muita dor e remorso. E, ainda que a prosa de Tolstoi nos remeta sempre para um tempo que não é o nosso, conseguimos rever-nos perfeitamente nos sentimentos de Ivan Ilitch e concluir que o ser humano permanece o mesmo em todas as épocas, o que é especialmente visível na primeira cena da novela, em que a notícia da morte de Ivan Ilitch leva imediatamente os seus colegas a pensar em qual deles irá ocupar o seu lugar (e também no jogo de cartas que os espera a seguir ao velório). Uma pequena obra-prima que nunca passa de moda. É isto a verdadeira literatura.

A autora

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