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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

22
Mar19

Crónica e CCB

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de partilhar a crónica do Diário de Notícias. Aqui vai o link:

 

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/09-mar-2019/interior/de-joelhos-10652943.html

 

Ainda no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Poesia, amanhã à tarde haverá leituras no Centro Cultural de Belém, como, de resto, é hábito de há uns anos a esta parte. Alguns poetas portugueses (Nuno Júdice, Pedro Mexia, esta vossa criada...) e gente ligada à música (o fadista Camané, Luís Represas, entre outros) foram «arrebanhados» para ler poesia da América Latina. Lerei dois poemas, um colombiano e outro da Costa Rica. Se tiverem curiosidade em saber quais, apareçam no CCB depois de almoço. Bom fim-de-semana!

21
Mar19

Dia da Poesia

Maria do Rosário Pedreira

Hoje, não sei se sabem, celebra-se o Dia Mundial da Poesia e, à semelhança do que tem sido feito nos últimos anos, a Casa Fernando Pessoa inaugura uma feira do livro dedicada a este género literário no bairro de Campo d’Ourique, mais precisamente no Jardim Teófilo Braga, conhecido por Jardim da Parada. Nesta feira, de quinta a domingo, estarão presentes com stands próprios editoras pequenas que publicam preciosidades que, dadas as regras do mercado, nem sempre conseguem ser colocadas nas livrarias mais frequentadas. Falo, por exemplo, da Abysmo, da Mariposa Azual (não é gralha, é mesmo Azual), da Douda Correria, da Averno, que publicam poesia de autores excelentes. Esta tarde haverá um recital no antigo Cinema Europa, pelas 18h30, pela voz da actriz Beatriz Batarda, acompanhada pela música de Nuno Rafael, e amanhã um outro, da responsabilidade de João d’Ávila. Mas o programa é extenso, envolve também a Casa Llansol e pode ser consultado no link abaixo. Aproveitem!

 

http://www.jf-campodeourique.pt/wp-content/uploads/2019/03/cartaz-A4-Feira-do-Livro-JFCO-FPESSOA-2019.pdf

20
Mar19

Feminino plural

Maria do Rosário Pedreira

Alguém, acho que no Facebook, partilhou um texto muito interessante de uma escritora norte-americana chamada Grace Paley (confesso que nunca a li, mas fiquei com vontade). Dizia assim: «As mulheres escrevem de uma maneira diferente da dos homens. As mulheres sentem-se confortáveis falando do que é pessoal, ao contrário dos homens. As mulheres sempre compraram livros escritos por homens, sabendo que não eram livros sobre elas. Mas continuaram a fazê-lo com grande interesse, porque era como ler sobre um país estrangeiro. Os homens nunca devolveram essa gentileza.» A revista que citava a escritora Paley, uma publicação espanhola com edição  brasileira (seria o El País?), sugeria então livros escritos por mulheres que os homens deveriam ler. E, juntando alguns desses a outros de que me fui lembrando, forneço aqui mais de uma dúzia de títulos de ficção escrita por mulheres que porão certamente os homens a pensar (mas que todos devemos ler, independentemente do sexo). Eles aí vão:

 

  1. O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy
  2. Rebecca, Daphne du Maurier
  3. A Balada do Café Triste, Carson McCullers
  4. Cisnes Selvagens, Jung Chang
  5. Persépolis, de Marjane Satrapi
  6. Jane Eyre, de Charlotte Brontë
  7. Lila, de Marilynne Robinson
  8. Manual para Mulheres de Limpeza, Lucia Berlin
  9. A História de Uma Serva, de Margaret Atwood
  10. A Hora da Estrela, de Clarice Lispector
  11. Diários, Anaïs Nin
  12. Orlando, Virginia Woolf
  13. Bonjour Tristesse, Françoise Sagan
  14. A Campânula de Vidro, de Silvia Plath
  15. Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, Flannery O’Connor
19
Mar19

Pai

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é Dia do Pai, e tenho muitas saudades do meu. Ao contrário de mim, que tenho tendência para a melancolia, o meu pai tinha um talento natural para a graça e um sentido de humor incrível. E possuía um manancial de histórias formidáveis para contar, que deveríamos ter gravado ou apontado enquanto era vivo, já que o mais provável é que se percam na nossa geração (os netos eram quase todos bastante pequenos quando ele morreu e alguns nem nascidos eram). Pois houve alguém (a editora Esfera dos Livros) que teve agora uma belíssima ideia e que, mesmo que o objectivo tenha sido apenas facturar à custa de filhos preguiçosos que não sabem o que oferecer ao pai neste dia, acertou na mouche. Criou um livro-caderno (sim, lá dentro as páginas são todas brancas), intitulado Pai, Conte-Me a Sua História, para que os filhos entrevistem os pais sobre a vida deles e registem as suas memórias, passando juntos momentos que de certeza não esquecerão. (As recordações do pai escritas pela mão do filho também podem ajudar os mais novos a melhorar a sua caligrafia, claro, uma vez que hoje a juventude se limita praticamente às teclas quando quer comunicar). Este é um bom presente para pai e filho que, mais tarde, pode vir a ser lido a netos e bisnetos, mantendo vivas as histórias da família.

18
Mar19

Lágrimas de crocodilo?

Maria do Rosário Pedreira

Li com atenção em vários jornais, diários e semanários, artigos e crónicas lamentando o fecho da Tema. A Tema era uma loja muito antiga na Praça dos Restauradores, em Lisboa, que vendia a melhor selecção de jornais e revistas estrangeiros em Portugal inteiro. Lá, era possível encontrar coisas mais ou menos fáceis de encontrar noutros sítios como o Le Figaro, o The New York Times, o Nouvel Observateur ou o The Guardian, publicações para grupos mais restritos como o Magazine Littéraire, a New Yorker ou a London Review of Books, mas também imprensa muito específica dedicada à moda, ao design, à arquitectura, ao cinema, à fotografia, à ciência..., em suma, a qualquer coisa de que nos lembremos (li no Público que até sobre látex havia lá uma revista, calculem). A Tema fechou portas e, pronto, toda a gente chorou, chamando-lhe até um "escândalo cultural". E percebo que tenham chorado pessoas como Miguel Esteves Cardoso, criadas desde pequeninas com a cultura inglesa, ou embaixadores que se habituaram a ler a imprensa estrangeira, ou artistas que aprenderam com o que se faz lá fora, ou intectuais que acompanham a "cena internacional". Mas, entre os que choraram, haveria assim tantos a ler, ainda hoje, jornais em papel? Não creio. Vejo cada mais mais gente a consultar as notícias online gratuitamente e cada vez mais apelos dos jornais a que os leitores contribuam com alguma coisa. Por isso, qual é a admiração com o fecho da Tema? Não aguentou ela muito tempo? Se ninguém já lê jornais em papel, como ter uma loja de porta aberta para os vender?

14
Mar19

Quintas de leitura

Maria do Rosário Pedreira

Hoje o post é pobre porque estou a norte, na Invicta, para participar nas Quintas de Leitura, um espectáculo de poesia no Teatro do Campo Alegre, às 22h00, dedicado à minha escrita para fado. E, como estou com uma bestial rinite, porque apanhei sol na cabeça no domingo passado e um ventinho no pescoço a que devia ter estado atenta, o meu nariz pinga e a minha voz está uma lástima, embora haja pessoas que consideram o rouco sensual, mas eu já passei dos 50... Os diseurs vão ser, além desta vossa criada, Jorge Mota, Pedro Lamares e a fadista portuense Patrícia Costa. A conversa será com o grande Rui Vieira Nery, e cantará no final o enorme António Zambujo. Tenho mesmo sorte de ter comigo estas pessoas todas. Até me vou esquecer da rinite. Amanhã ponho apenas o link da crónica, não dá para mais. Obrigada pela paciência.

13
Mar19

Literatura e empatia

Maria do Rosário Pedreira

Leio um artigo maravilhoso do grande Alberto Manguel sobre a capacidade que a literatura tem de nos tornar pessoas melhores. Diz ele que um dos seus livros de infância foi o romance Coração, de Edmundo de Amicis (que curiosamente o Manel também refere sempre como um dos que mais o terão marcado em jovem), hoje praticamente esquecido. É a história de um rapaz genovês que sai de casa para ir à procura da mãe, que trabalha na Argentina, e Manguel conta que chorou pela dor do rapaz e se perguntou se seria capaz de fazer o mesmo. E que, daí em diante, muitas das personagens dos romances – Jane Eyre, Anna Karénina, Robinson Crusoe, Dom Quixote – o ensinaram a pôr-se na pele do outro e a perceber o que era realmente o sofrimento e a alegria alheios.  Diz que a literatura, não tendo aparentemente utilidade, tem-na, justamente por nos tornar muito mais atentos para o outro, disponíveis para escutar as suas angústias, nomear as nossas e partilhar problemas quotidianos. E conclui que isso é mais importante hoje do que no passado, pois muitas lutas têm hoje de se fazer de forma colectiva e solidária (em relação às crises migratórias, por exemplo). Depois apresenta números de um estudo universitário sobre a relação entre a leitura literária e a empatia. E ela existe, claro: quem lê literatura é de longe mais empático. Se ensina crianças e jovens, pense nisto.

 

A pedido de várias famílias, junto os links pedidos:

 

https://www.nytimes.com/es/2019/03/03/literatura-empatia/

http://science.sciencemag.org/content/342/6156/377.abstract?sid=f192d0cc-1443-4bf1-a043-61410da39519

 

12
Mar19

O obsceno literário

Maria do Rosário Pedreira

Ouço e leio que Bolsonaro, para criticar a pornografia, postou também ele pornografia, não fossem as pessoas não saber o que era e precisarem de ver um exemplo especialmente edificante. Obscenidade por obscenidade, o melhor é ter em atenção a colecção de livros «obscenos» que a British Library está a digitalizar, obras escritas entre 1658 e 1940, mas com especial tónica nos séculos XVIII e XIX, em que a literatura dita erótica ou pornográfica (eu sei lá qual a melhor classificação) floresceu. Todos conhecemos o Marquês de Sade, evidentemente, mas desconhecemos, por exemplo, John Cleland, que escreveu em 1748 um romance intitulado Fanny Hill que, segundo o artigo da Open Culture, não desilude nem como livro pornográfico nem como literatura de entretenimento. Muitos outros títulos, proibidos na sua época, tiveram como destino os «cofres» da British Library, sobretudo para não chegarem às mãos do público (o que os queria ler e o que os queria destruir)  – o que acabou por ser bom pois tornou agora fácil a sua digitalização para todos os subscritores dos Arquivos de Sexualidade e Género da biblioteca. E, segundo o que leio, há obras imensamente interessantes, escritas por homens e mulheres, em variadíssimas épocas, sobre educação sexual, homossexualidade e fluidez de género. Para os interessados, há mais informações (entre as quais deliciosas capas) aqui:

 

http://www.openculture.com/2019/02/the-british-library-digitizes-its-collection-of-obscene-books-1658-1940.html

11
Mar19

A poesia como cura

Maria do Rosário Pedreira

Foi o grande poeta John Milton, o autor de Paraíso Perdido (cuja tradução portuguesa é do poeta Daniel Jonas), quem disse que a palavra tem a capacidade de curar uma mente perturbada e é um bálsamo para as feridas. Pois bem: uma sua leitora do século XXI, Deborah Alma, poetisa também, decidiu abrir a primeira farmácia de poesia, como nos conta o sempre gratificante The Guardian. Aí, a poeta de urgência vai receitar, em vez de analgésicos, comprimidos para dormir e antidepressivos, poemas de Blake, Eliot, Shakespeare, Elizabeth Bishop, Robert Browning e muitos mais, à semelhança do que tem andado a fazer na última década numa ambulância que é também uma biblioteca itinerante de poesia, mas agora num espaço fixo de um antigo convento. Diz que está a ficar velha para andar por aí a conduzir e que se apaixonou pelo lugar, com estantes, prateleiras e armários antigos que fazem aquela farmácia de poesia parecer mesmo uma antiga farmácia. Em dois anos conseguiu pagar a hipoteca e agora está mesmo apostada em ajudar quem precisa por meio da poesia, que é o género literário que, segundo Deborah, mais fala à alma das pessoas, mais dialoga com os leitores e os ajuda, por exemplo, a perceber que não são os únicos a sofrer de determinado desgosto, ou perda, ou depressão. No espaço aberto ao público vai haver também uma secção infantil, um gabinete de consultas, um café e um auditório para leituras, performances, oficinas e até refúgios para quem quiser escrever. Por cá, ouço dizer que mais de 40% dos portugueses sofrem de uma ou mais doenças crónicas. E se se pusessem a ler poesia, hã?