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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

09
Dez19

Um lugar especial

Maria do Rosário Pedreira

Há lugares especiais pela sua beleza, mas não é a isso que me refiro. É de um lugar que é feito por pessoas especiais e que só é especial por causa da dedicação dessas pessoas, já que, vazio, ninguém daria nada por ele. Como sabem os Extraordinários (ou pelo menos suporão), ando há anos a correr o País de norte a sul, em lançamentos, leituras, debates, festivais literários, homenagens, muita coisa, enfim, e conheço bibliotecas velhas e novas e bibliotecários lidos e outros que não passam de burocratas que querem preencher as respetivas agendas culturais. Mas nunca tinha tido, até recentemente, o grato prazer de ir à Biblioteca de Perosinho, em Gaia, que, sem um tostão do Estado, está de pedra e cal há muitos anos, recebeu prémios e medalhas, e nasceu tão-só do desejo de uns estudantes de terem na sua zona um lugar aonde irem ler e ilustrar-se. Fui lá a uma sessão num sábado à noite, friozinho que bastasse, e fiquei de cara à banda com a quantidade de público e sobretudo a presença de adolescentes (e participativos, ainda por cima!). Tudo organizado ao mais ínfimo pormenor por Vítor Fontes e Anabela Cardoso, pessoas que são mesmo de grande coração, e com a colaboração de muitos que quiseram ouvir, perguntar, recitar poemas e ler textos. O Manel até disse que é para coisas assim que se fez o 25 de Abril... Esta é a prova de que, quando as pessoas querem muito e trabalham, conseguem. Obrigada, Perosinho.

06
Dez19

Crónica e contentamento

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica e ela aqui vai:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/23-nov-2019/ocidentalmente-11538949.html

Ainda ontem falava aqui de listas, e li que numa outra, esta no Brasil, o livro de Itamar Vieira Junior, Torto Arado, vencedor do Prémio LeYa no ano passado, ficou em terceiro lugar na categoria de ficção, atrás apenas de Roberto Bolaño e Silvina Ocampo, grandes nomes da literatura universal. Penso que Itamar Vieira Junior vai longe e desejo-lhe todo o sucesso do mundo. Penso também que os leitores e críticos brasileiros andavam sedentos de um livro como o seu, autêntico, belo, respeitador da herança de escritores como Érico Veríssimo (ou Guimarães Rosa, por exemplo, de quem acaba de publicar-se em Portugal uma nova edição de Grande Sertão: Veredas, que vou pedir de presente de Natal). Parabéns.

05
Dez19

Mudam-se os tempos

Maria do Rosário Pedreira

Os tempos mudaram muito nas últimas décadas – as novas tecnologias viraram tudo do avesso e criaram um homem diferente, menos virado para a paciência, o desfrutar, a calma, o esforço, a concentração. A literatura dita séria está a sofrer drasticamente com isto e os seus leitores serão cada vez menos. Alguém afirma que, agora, ficção é na Netflix e na HBO, mas sabemos que ler desenvolve outras capacidades, desde logo a da imaginação. Ler põe algo de nós nas coisas, e ver não, é receber e pronto. Por tudo isto e também pela falta de espaço, as grandes enciclopédias tornaram-se digitais e deixaram de imprimir-se em papel. E agora leio com espanto que uma colecção que em Espanha ombreava com a Pléiade francesa vai ser destruída e reduzida a tirinhas de papel. Trata-se das Obras Completas do Círculo de Lectores, empresa pertencente ao Grupo Planeta no país vizinho, que anunciou recentemente o seu fecho, já que se tornou perfeitamente obsoleto vender livros de porta em porta a leitores que não só não querem ler, como não têm onde guardar colecções encadernadas, pesadas, extensas… Günther Grass, Vargas Llosa, Juan Goytisolo, Manuel Vázquez-Montalbán… no lixo. É a mesma coisa por todo o lado. E, ainda que nos faça pena, crendo que alguém ainda as podia aproveitar, desenganemo-nos: já ninguém quer estes livros, porque já não há quase ninguém para os ler, sobretudo neste formato. Mudam-se os tempos, sim, e em certas coisas para pior.

04
Dez19

Antes de tudo

Maria do Rosário Pedreira

Estamos entrados em Dezembro (o frio já se sente, e de que maneira) e a aproximar-nos a passos largos do final do ano. Em breve virá o discurso natalício – iluminações, compras, montar a árvore e o presépio, livros bons para oferecer a todos os amigos e parentes; e, nos próximos fins-de-semana, um a um, uma a uma, os jornais e revistas irão dedicar-se a um exercício que adoram e que todos os anos se repete: as listas dos melhores… livros, filmes, exposições, peças de teatro, séries, músicas, enfim… Por isso, antes desse tudo, proponho um bocadinho apenas, mas diferente porque vindo de fora: a lista dos melhores livros de 2019 pelo… The Guardian, claro. Além de ter imensas novidades, porque há sempre livros que não saem ou ainda não saíram em Portugal, quem opina sobre eles tem geralmente a cabeça no lugar. Além disso, dá uma boa panorâmica do que podemos esperar que se publique em Portugal no ano que vem (as traduções levam tempo), embora já estejamos, como verão, muito em dia. Os livros da nobelizada Olga Tokarczuk e o recentíssimo A Barata de McEwan, por exemplo, já estão disponíveis. Mesmo assim, dá para descobrir muita coisa nova. E em todos os géneros, não falhando sequer livros para meninos pequenos e gente que adora cuscar as celebridades.

https://www.theguardian.com/books/2019/nov/30/best-books-of-the-year-2019?utm_term=RWRpdG9yaWFsX0Jvb2ttYXJrcy0xOTEyMDE%3D&utm_source=esp&utm_medium=Email&utm_campaign=Bookmarks&CMP=bookmarks_email

03
Dez19

O uso abusivo do K

Maria do Rosário Pedreira

Agora, que já lá vai a estuporada Black Friday (em alguns casos, foi uma autêntica Black Week e não se conseguia estacionar em lado nenhum que tivesse lojas nas proximidades), vou voltar às questões ortográficas. É que todos os dias dessa «semana negra» recebia um e-mail e via um cartaz a caminho do trabalho que me irritavam profundamente. Diziam «Kuanto Kusta o que queres comprar?» e depois tinha a frase «Encontra Aqui» dentro de um rectângulo para carregarmos e vermos onde poderíamos gastar dinheiro. Mas não consigo perceber o porquê do «Kuanto Kusta» em vez de «Quanto Custa». Se escrevem com cores berrantes (nomeadamente laranja), ainda têm de introduzir o erro para chamar a atenção porquê? E, já agora, porque não são coerentes e acrescentam «o ke keres komprar»? Francamente, num país em que as pessoas falam e escrevem tão mal e se fez um acordo ortográfico cheio de palavras com redacções facultativas que só serviu para confundir os menos informados, acho que a publicidade devia ser obrigada a cumprir a ortografia vigente e, como em certos países, pagar uma multa valente de cada vez que prevaricasse. É por isso que os nossos jovens já usam «k» em vez «que» a maioria das vezes...

02
Dez19

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de abrir aos outros Extraordinários o livro que andamos a ler. E, no meu caso, trata-se de um clássico: A Lua e as Fogueiras, de Cesare Pavese, escritor italiano de quem li, infelizmente, poucos livros até agora, prometendo desde já corrigir-me. O que tenho em mãos é um dos últimos que escreveu (se não o último) antes de ter decidido acabar com a própria vida; e conta a história do regresso do Enguia (o nome que puseram ao protagonista em pequeno) à vila onde cresceu. Bastardo abandonado e entregue a uma família que o criou nos primeiros anos, vai depois aprender tudo numa quinta de produtores de vinho, cujo proprietário, o senhor Matteo, tem duas filhas adolescentes de um primeiro casamento, Irene e Sílvia, uma loira e outra morena, que atraem obviamente o pobre Enguia, mesmo sem o saber. Este, porém, de tanto observar a família para quem trabalha, percebe que terá de sair daquela quinta para um dia ser alguém, o que acontecerá mais tarde na América, donde regressa então rico e homem feito para revisitar os velhos amigos, entre eles Nuto, que nunca saíram da cepa torta, e assistir à tragédia que pode ser a vida de um menino num pequeno lugar. Simples, bonito, claro.

29
Nov19

Crónica e livros de Natal

Maria do Rosário Pedreira

Hoje é dia de crónica. Ela aqui vai:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/16-nov-2019/ler-eou-escrever-11518084.html

Para quem quiser oferecer livros no Natal, haverá uma Festa do Livro que começa já no dia 3 de Dezembro e vai até dia 24, todos os dias das 10h00 às 20h00, em Oeiras. Irá decorrer no Centro Comercial Galerias Alto da Barra (ao lado da NATO)  e será organizada pela BooksLive by BL Livreiros. A Livraria irá contar com milhares de livros e também com uma oferta cultural variada, com horas do conto e sessões de autógrafos. A não perder.

28
Nov19

Língua portuguesa em crise

Maria do Rosário Pedreira

No mesmo dia em que leio a notícia de que a UNESCO oficializou o dia 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa, leio também como esta é tão maltratada nas nossas televisões. Em tempos, trabalhou comigo uma rapariga que tinha feito uma especialização em legendagem e tradução e se queixava de não arranjar colocação em nenhum dos canais existentes porque o trabalho era realizado havia anos pelas mesmas pessoas, que levavam pouco e por isso não eram substituídas. Eu não vejo muita televisão, embora já tenha apanhado erros cabeludos nos rodapés; mas desconhecia que estes são cada vez mais regulares; e Isabel A. Ferreira, no blogue O Lugar da Língua Portuguesa, conta: «A legendagem em Portugal é uma vergonha nacional. Diz da pobreza cultural e linguística em que o país está mergulhado.» E a seguir fala de «ignorância«, «analfabetismo», «falta de brio profissional» e, claro, da «forretice dos empregadores, que pagam uma ninharia». Então, o problema persiste? Pior, agrava-se: no artigo de Isabel A. Ferreira mostra-se a fotografia do ecrã de um telejornal da SIC em que, no rodapé, além de uma falta de concordância entre sujeito e predicado (que também é cada vez mais comum, mesmo na oralidade, em entrevistas), a palavra «produzido» aparece «pruduzido»… Enfim, criam-se especializações para quê, se depois o trabalho é sempre para quem leva menos dinheiro? Não há profissionalismo... nem vergonha. E a língua portuguesa ressente-se.

27
Nov19

Rapazinho com cem anos

Maria do Rosário Pedreira

Já ouviu falar de Lawrence Ferlinghetti? Se não costuma ler poesia, é natural que não, embora seja um dos nomes mais importantes da Beat Generation em matéria de poetas (com Allen Ginsberg, autor do famoso Uivo, e Gregory Corso). Mesmo assim, é difícil que não venha a ouvir falar dele nos tempos mais próximos em Portugal. É que o senhor Ferlinghetti (faço a devida vénia quando escrevo «senhor»), quase a completar cem anos, sabe-se lá como ainda conseguiu sacar um livro da cartola. Surpresa das surpresas, desta vez trata-se de um romance! Ao que parece, é semi-autobiográfico e preenchido por memórias do escritor. Chama-se (que título tão bonito) Rapazinho, e o agente de Ferlinghetti (que também já tem a linda idade de 98 anos) já o vendeu em não sei quantos países. Por cá, sai na Quetzal, que, ao anunciá-lo, refere: «É uma fonte de conhecimento literário com alusões ao mundo e à vida literária do autor, à sua geração, e um convite ao maravilhamento. Um romance leve, luminoso e destinado a recordar o mundo como ele devia ser.» Vamos ter de conferir.

Em tempo, a pedido da Maria, ponho a capinha.

Rapazinho.jpg

 

26
Nov19

Canetas

Maria do Rosário Pedreira

Todos nós, que escrevemos – e não falo apenas de escrever para publicar, mas de redigir notas, letras, cartas, mensagens, listas, crónicas, poemas… –, temos sempre certas canetas de que gostamos mais. Actualmente, a minha preferida é uma caneta Uniball de tinta preta (uso também muito a vermelha quando estou a editar) que, por fora, é maioritariamente cinzenta e de que compro muitos exemplares ao longo do ano. Não cansa, é macia, nem fina nem grossa. Mas, quando era adolescente, a escolha era mesmo reduzida (lembram-se do anúncio Bic Laranja, Bic Cristal? Pouco mais havia...), pelo que fiquei muito contente quando, talvez por volta dos 14 anos, a minha avó me ofereceu uma esferográfica Parker, que era macia e contribuía menos para aquele calo que se formava no dedo médio de tanto escrever. Depois, num repente, apareceu tudo e mais alguma coisa, e a Parker ficou obviamente para trás, soterrada por marcas mais cotadas, como a Montblanc. E não é que hoje, no meio daquela publicidade que invade diariamente as nossas caixas de correio electrónico, me aparece um reclame da Parker, que eu já julgava mais do que defunta? Mostrava um modelo novo e dizia assim: «A Parker nasceu em 1888, na Grã Bretanha, como fabricante de canetas de luxo. […] quando a ocasião sugere um presente memorável, quando nenhum presente comum serve, escolha uma bela caneta Parker. Será uma lembrança que vai combinar com o seu bom gosto.» Bateu cá uma saudade… Qualquer dia ainda volto à velhinha Parker. (Passe a publicidade.)