Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

23
Jul21

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem: estendem conscienciosamente as toalhas na serradura da areia, protegem-se com óculos escuros do sol de papel, passeiam encantados no palco de Albufeira em que funcionários públicos, disfarçados de hippies de carnaval, lhes impingem, acocorados no chão, colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo, e acabam por ancorar ao fim da tarde em esplanadas postiças, onde servem bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas de televisão. Depois do Alentejo, evaporado na paisagem horizontal como manteiga numa fatia queimada, as chaminés que se diriam construídas de cola e paus de fósforo por asilados habilidosos, e as ondas que se diluem sem ruído na praia no crochet manso da espuma, faziam-no sempre sentir-se como os bonecos de açúcar nos bolos de noiva, habitante espantado de um mundo de trouxas de ovos e de croquetes espetados em palitos, a imitar casas e ruas [...]

 

António Lobo Antunes, O Conhecimento do Inferno (1980), Publicações Dom Quixote

22
Jul21

Viver noutro mundo

Maria do Rosário Pedreira

Sempre achei admirável pessoas de línguas diferentes apaixonarem-se, casarem-se e entenderem-se às mil maravilhas, porque tive na juventude um namorado flamengo com quem comunicava em inglês e faltavam-me sempre as palavras nos momentos certos... Um dos meus melhores amigos, diplomata, foi, porém, casado com uma japonesa que mal sabia falar inglês (e ele desconhecia o japonês) e viveram juntos muitos anos, embora o casamento se tenha desfeito quando saíram do Japão porque ela não se adaptou à vida na Austrália. No livro que leio neste momento, O País dos Outros, de Leïla Slimani, que já venceu o Goncourt com outro romance, Mathilde, uma jovem francesa, apaixona-se por Amine, um belo marroquino, durante a Segunda Guerra Mundial; e não hesita em segui-lo para Marrocos quando ele é libertado de um campo de prisioneiros, passando a viver num país em que estranha quase tudo: a língua, a sogra, as baratas, o calor tórrido, a falta de escolaridade da cunhada, a falta de liberdade das mulheres. Embora ame Amine e acabe por ter dois filhos dele (uma menina muito mística e um rapazinho mimado), da primeira vez que regressa à Europa por causa da morte do pai, sente uma identificação de tal modo grande com a sua pátria que chega a pensar em abandonar os filhos, esquecer-se de tudo e ficar para sempre no seu país, e não voltar ao país dos outros. Hoje existem muitíssimos jovens que adoram viajar para os confins do mundo (tenho uma sobrinha que andou a ajudar a reconstruir casas no Nepal depois de um terramoto e vai de férias para lugares como a Nicarágua...), mas será que conseguiriam viver em países que são mesmo outros mundos em todos os sentidos? Vale muitíssimo a pena ler este romance.

21
Jul21

O malfadado

Maria do Rosário Pedreira

Apesar de o Novo Acordo Ortográfico (NAO) já ter sido aplicado oficialmente há muitos anos, não tenho a certeza de que seja impossível voltar atrás, porque sei que muitos adultos (como eu) que eram profundamente contra o NAO nunca chegaram a utilizá-lo. Na editora onde trabalho deixamos à consideração dos autores portugueses se querem ou não utilizar o NAO, e a maioria não quer, mesmo os escritores mais jovens; mas há alguns que, por serem professores, pais ou funcionários públicos (em suma, por já estarem habituados a ele no quotidiano), optam pela nova ortografia. No entanto, apesar de darmos aos portugueses essa liberdade, aplicamos a regra do NAO às traduções que publicamos. Só que um dia destes, uma tradutora que também é escritora e, como escritora, não usa o NAO, também não o usou como tradutora e foi o cabo dos trabalhos na revisão do texto... Bem, acho que as duas grafias vão conviver pacificamente até já não haver ninguém do tempo da antiga e a nova emergir naturalmente. Será? Continuam, porém, a sair artigos contra o NAO e o que se segue é bem interessante. Deixo-vos com 9 argumentos contra o NAO.

https://expresso.pt/opiniao/2016-05-11-Nove-argumentos-contra-o-Acordo-Ortografico-de-1990?fbclid=IwAR3MQOU9pVPab9VbTqd8ZrkqvwPB8utUA47NFfS8I4mZyHYsdZWOWg2rFLI

 

20
Jul21

Escrita Criativa

Maria do Rosário Pedreira

A  primeira vez que ouvi falar de escrita criativa, por oposição a escrita informativa, foi a respeito da formação universitária do escritor Ian McEwan, que publiquei ao longo dos meus primeiros nove anos de carreira editorial. A  biografia deste autor disponibilizada pela agente literária que o representava dizia expressamente que ele estudara Creative Writing na Universidade de East Anglia, uma instituição que se tornou aliás uma referência por ter deitado cá para fora muitos escritores e dos bons. Em geral, os cursos de Escrita Criativa em Portugal não estão ligados à Academia e a sua qualidade depende muito de quem os ministra e da experiência quer do orientador, quer dos frequentadores (que às vezes são meros curiosos que querem escrever um livro para oferecer a amigos). Agora, porém, a Universidade de Coimbra abriu um mestrado em Escrita Criativa orientado pelo Professor Manuel Portela e dizem-me que até o programa desse curso é já um livro. Parece-me coisa séria e divulgável, sobretudo porque pode andar para aí muita gente a hesitar no que estudar a seguir e as inscrições terminam já no dia 23 de Julho. Mais informações aqui:

https://apps.uc.pt/courses/PT/course/9202

 

cartaz_mestrado_escrita_criativa.jpg

 

19
Jul21

Heróis da TV

Maria do Rosário Pedreira

Na minha infância havia uma série de TV de grande sucesso baseada nos livros de Maurice Leblanc. Chamava-s Arsène Lupin, e o protagonista era um cavalheiro-ladrão inesquecível dos anos 1930. Hoje a Netflix desenterrou o herói, pondo-o na sua série Lupin, cujo protagonista lê os livros de Leblanc e se inspira neles para surripiar umas quantas coisas e vingar a memória do pai injustiçado... Pois bem, a figura do ladrão de casaca está em alta e acaba de sair O Último Amor de Arsène Lupin. Embora escrito em 1936, este livro  só foi publicado nos anos noventa, quando uma neta do autor encontrou uma pasta com o original em cima de um armário e, vendo do que se tratava, o entregou à editora. Nesta história, o ladrão de casaca guarda religiosamente um livro que foi de um ilustre antepassado – um general que serviu Napoleão – e que os Serviços Secretos britânicos procuram; e, simultaneamente, salva um tesouro incalculável que pertence ao seu último e único amor. É num cenário de intriga, pistas falsas, traições e paixão ardente que a história que fecha a saga de Arsène Lupin se desenrola. Todos os ingredientes dos romances anteriores do herói estão reunidos neste livro de despedida, cheio de reviravoltas inesperadas e até, quem sabe, com um final feliz. Para quem goste do género.

Screen Shot 2021-05-17 at 12.20.34.png

 

16
Jul21

Paraísos

Maria do Rosário Pedreira

Hoje vou levar finalmente a segunda dose da vacina (levei a Astrazeneca, daí que, mesmo com a antecipação de quatro semanas, tive de esperar até hoje); e, porque da outra vez fiquei completamente KO durante mais ou menos um dia e meio, deixo-vos um post leve e bonito do qual não espero comentários que exijam uma resposta da minha parte. Ora, se foi Jorge Luis Borges quem disse que o lugar mais próximo do Paraíso só podia ser uma biblioteca, pois muitos arquitectos por esse mundo deram-lhe seguramente ouvidos, tratando de fazer das bibliotecas locais realmente belos, confortáveis, incríveis. O jornal The Guardian mostra-nos então cinco obras-primas culturais entre todas as guardadoras de livros. Ficam na Austrália, na Bélgica, na Noruega, na Holanda e na China. São as finalistas do prémio anual atribuído a uma biblioteca pública, que tem em conta não apenas o funcionalidade do projecto arquitectónico, mas também o catálogo, a ligação à comunidade e, claro, a tecnologia da informação disponível. Veja estas beldades no link abaixo. Eu cá não queria estar no lugar do júri, mas talvez a biblioteca australiana seja a minha preferida. Até segunda!

https://www.theguardian.com/books/gallery/2021/jul/07/a-cultural-masterpiece-the-worlds-best-new-public-libraries-in-pictures?CMP=Share_iOSApp_Other&fbclid=IwAR3bJptTeUID3UyAxCnAGQHZI2dxr9H5Ie18mbRBqgUWQu0sa20Hn6hki6s

 

15
Jul21

Tarrafal

Maria do Rosário Pedreira

Leio algures que existe um memorando de entendimento entre Portugal e Cabo Verde para propor o campo de concentração do Tarrafal, a que alguém chamou «o campo da morte lenta», a Património da UNESCO. Não só é uma forma de fazer com que não se esqueça, e assim não se repita, o horror, mas também um modo de convocar visitantes para o arquipélago sem ser apenas pelo clima e a paisagem. Conheço o Tarrafal, com as suas montanhas altas que parecem ter rostos desenhados na pedra, e com as suas praias de água transparente e coqueiros. Quando ali estive, da primeira vez que fui em trabalho à cidade da Praia (depois disso já fui mais três) levaram-me também a ver o Campo de Prisioneiros e, apesar de então estar bastante destruído e abandonado, deu para perceber as provações por que passaram os presos políticos que ali foram encerrados. Publiquei dois romances que evocam o Tarrafal: Que Importa a Fúria do Mar, de Ana Margarida de Carvalho, e O Diabo Foi Meu Padeiro, de Mário Lúcio Sousa. O primeiro insere na ficção um velho sobrevivente português, o outro faz-se homenagem a todos os que, na realidade, estiveram presos no campo em épocas distintas: portugueses, angolanos, guineenses e cabo-verdianos. Ambos os livros devem ser lidos para que não esqueçamos, enquanto o Tarrafal não se torna Património da Humanidade por direito próprio.

14
Jul21

Revelações

Maria do Rosário Pedreira

Há cerca de dez anos, o escritor Mário Cláudio, que completou pouco antes da pandemia 50 anos de actividade literária, publicaria a exaustiva biografia de um bisneto de Camilo Castelo Branco, Tiago Veiga, poeta que a maioria dos portugueses desconhecia até então, embora o mesmo Mário Cláudio já tivesse ajudado a dar à estampa dois ou três pequenos poemários da sua autoria. Tiago Veiga, apesar de ter privado com confrades e gente ilustre de vários países, ser letrado e cosmopolita, escolheu viver retirado no Alto Minho e no anonimato, razão pela qual, quando Mário Cláudio publicou a biografia, muita gente pensou tratar-se de um heterónimo ou de mera invenção... Mas, descontando os milagres do Photoshop, um dos cadernos de imagens inserido no volume Tiago Veiga: Uma Biografia inclui uma foto do poeta com Mário Cláudio tirada, creio eu, nos anos setenta, quando se conheceram. Pois bem, depois de publicada a biografia, apareceram novos elementos sobre Veiga, entre eles um interessantíssimo diário da segunda mulher, uma pintora irlandesa, e o escritor Mário Cláudio teve de se despedir da figura com mais um pequeno volume dividido em três partes, intitulado Embora Eu Seja Um Velho Errante. É sobre essa nova obra que o autor conversará logo à tarde com o jornalista Valdemar Cruz numa sessão virtual que será transmitida na página de Facebook da Dom Quixote às 18h30. Faça-nos companhia e ficará a saber certamente uns quantos segredos.

convite_embora eu seja_proposta.jpg

 

13
Jul21

Viajar e ficar

Maria do Rosário Pedreira

Agora, que em Portugal se vacina a população a uma velocidade estonteante (devemos ser dos mais rápidos da Europa, tentando compensar a irresponsabilidade das pessoas), faço fé em que as férias de Verão, mesmo com umas pequenas multidões a banhos, sejam mais tranquilas e menos contagiosas. Por enquanto, porém, estamos mais ou menos proibidos de viajar, e quando digo isto refiro-me ao facto de termos de fazer um teste com resultado negativo para podermos entrar num hotel ou num restaurante se a localidade for de risco elevado. Mesmo assim, se tivermos de ficar «em terra», há sempre a consolação da leitura, e podemos até ler sobre viagens, de preferência um especialista como Paul Theroux, do qual acaba de sair na Quetzal um conjunto de ensaios que dá pelo nome de Figuras numa Paisagem, no qual, sempre com os lugares como centro, o grande viajante revela enigmas pessoais e literários e facetas desconhecidas encontradas na obra de várias personalidades, desde Henry David Thoreau a Graham Greene, passando por Georges Simenon ou Joseph Conrad. Neste livro, desenham-se ainda perfis, sempre ligados à ideia de viagem, como o de Elizabeth Taylor durante uma viagem de avião ou o de Robin Williams numa visita à cidade da maçã. Parafraseando o Museu da Farmácia, a quem roubei a imagem abaixo, a melhor cura é a cultura.

Medicina.png

 

12
Jul21

Um mapa literário

Maria do Rosário Pedreira

Os mais velhos entre os leitores deste blogue lembrar-se-ão talvez de Bernard Pivot, um intelectual francês que ficou conhecido sobretudo pelo seu programa de televisão chamado Bouillon de Culture. O talento e a cultura abrangente de Pivot tornaram o seu programa um dos mais vistos e duradouros de sempre e até houve um episódio dedicado especialmente à literatura portuguesa que foi filmado no Palácio Fronteira, em Lisboa. Mais tarde, Pivot publicou um livro no qual destaca, com gradações de cinzento, os 100, 50 e 10 livros essenciais para ficar a conhecer a literatura de determinado país (são  muitos os países, mas já não me lembro quantos; e não sei onde o arrumei, senão dir-vos-ia que livros portugueses escolheu, mas recordo-me de que o último mencionado era O Memorial do Convento). Ora, um pouco na mesma senda, Backforward 24, pseudónimo de um leitor experimentado que, pelos vistos, publicou um livro com a lista dos romances que crê serem representativos de cada país (um apenas por país), criou agora um mapa literário, pondo imagens dos títulos e capas desses romances nos espaços ocupados pelos países. Claro que um só romance em cada país é manifestamente insuficiente e redutor, mas diz quem sabe que o autor do mapa não incluiu apenas clássicos, mas também obras contemporâneas. Eu adoraria saber que livro escolheu para Portugal, mas estou farta de olhar para o mapa e não consegui descortinar. Pode ser que alguém lá chegue antes de mim. Mas desde já acho tremendamente discutível que os Estados Unidos estejam representados por Não Matem a Cotovia, ainda que concorde com a escolha de Ulisses para a Irlanda. Aí está o link, se quiserem ver. Calculo que a tradução do texto tenha sido automática pois em vez de «Ernesto Sabato», aparece «Ernesto de sábado». Dêem o devido desconto.

https://www.pensarcontemporaneo.com/o-mapa-literario-do-mundo-os-romances-mais-representativos-de-cada-pais/?fbclid=IwAR2H1PIB2YRmJsaRIN6f2GNXYbLUmUd-OKjKewhMMvyKaHBPaqx-xnOXmtA

 

P. S. Afinal, descobri o pedacinho da Europa e o nosso livro é Memorial do Convento.

b798e33d97efdc5ea1312d818c804f94.jpg

 

 

A autora

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D