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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

21
Jan22

Nervosismo

Maria do Rosário Pedreira

Para quem aprecia a poesia, a revista Nervo está de volta, e o seu número 13 chegou mesmo no início do mês, mas ainda não tinha podido falar dele (parabéns pela longevidade da revista a Maria de Fátima Roldão!). Desta feita, o artista responsável pela capa e pelas ilustrações, reputado como outros que já têm dado a cara a esta revista literária, é Pedro Calapez. Com textos poéticos, participam vários nomes incontornáveis, como se diz agora, como Eduardo Chiote, Inês Lourenço ou António Barahona, a par de talentos mais jovens já firmados, como Andreia C. Faria e Jorge Roque, e também os visitantes estrangeiros Gemma Gorga, em tradução de Miguel Filipe Mochila (um tradutor com ideias extremamente interessantes sobre o ofício, que dá aulas na universidade de Porto Rico); Lamiae El Amrani, de Marrocos, traduzida por Zetho Cunha Gonçalves; ou ainda a brasileira Paula Glenadel. Consta ainda deste número um texto de Adelino Pires sobre os centenários de nascimento de Agustina Bessa-Luís e José Saramago. Se anda tanta gente a dizer que está na hora de virar a página, vamos tomar isso à letra e virar as páginas da primeira Nervo de 2022?

20
Jan22

Bons indícios

Maria do Rosário Pedreira

Em Portugal lê-se pouco, e também se lê muitas vezes mal (vale a pena olhar para os TOP e ver os livros dos primeiros lugares para concordar com isto). Ainda assim, apesar de em todo o lado se dizer que nunca a poupança cresceu tanto como neste período da pandemia (pudera, as pessoas não só tiveram medo de perder os empregos e quiseram garantir uns meses de sobrevivência, como sobretudo, em teletrabalho, não saíram para gastar dinheiro), a verdade é que em 2021 os Portugueses gastaram mais dinheiro em livros (as vendas de livros cresceram cerca de 14%, ao que leio). A juntar a isto, a Feira do Livro de Lisboa há muitos anos que não registava números tão bons, fosse nas receitas propriamente ditas, especialmente na Hora H, fosse no número de visitantes, que superou o dos anos anteriores, situando-se nos 350.000. Dizem também alguns inquéritos feitos em território nacional que as pessoas continuam a considerar um livro um dos melhores presentes que podemos dar e que, em consonância, ofereceram bastantes livros no último Natal. Bem, claro que 2021 continuou a ser um ano atípico, mas será que podemos pensar que são bons indícios para o futuro? Oxalá não seja tudo mera excepção.

19
Jan22

Dólitá

Maria do Rosário Pedreira

Quando era miúda, havia uma distribuidora que colocava nas papelarias e tabacarias portuguesas um monte de livros de quadrinhos e revistas brasileiras. Eu lia muitos Tios Patinhas nas férias, era uma fã do Peninha e detestava o Gastão, mas do que gostava a sério era de uma revista de actividades para crianças chamada Recreio, com textos para ler, figuras para recortar e montar, passatempos, jogos educativos e até ideias de presentes para pais e avós. Uma vez até levei um raspanete porque tinha levado as revistas sem autorização e preguei um calote na papelaria da dona Aninhas que a minha mãe teve de pagar... Mas nunca mais vi nada do género em Portugal, o que é uma pena, pois as crianças pequenas vão logo direitinhas aos telemóveis dos pais quando se querem entreter e já há estudos que dizem que a baixa do QI e a crise de criatividade estão ligadas à massificação do digital. Por isso apoiei a saída em Fevereiro próximo de uma revista infantil com o nome Dólitá, dedicada sobretudo a crianças até aos seis anos, que está aí numa campanha de crowdfunding na plataforma PPL e procura apoios até 28 de Janeiro. Histórias curtas para os pais lerem ao deitar, jogos, desenhos para pintar, bandas desenhadas sem texto para as crianças imaginarem a história, e tudo em material resistente para não ir logo parar ao lixo, há de tudo nesta revista de Mariana Mota Soares que desejamos que chegue depressa a todas as crianças. Para quem quiser apoiar, mando o link:

https://ppl.pt/dolita

 

18
Jan22

As possibilidades da ficção

Maria do Rosário Pedreira

Uma das autoras que mais recentemente descobri, a norte-americana Elizabeth Strout (que começou a publicar já tarde, como Saramago), está a tornar-se uma das minhas preferidas. Em primeiro lugar, porque se percebe logo que não se deixa influenciar pelas modas politicamente correctas, é ela própria em todos os momentos, custe isso a quem custar; em segundo lugar, porque é muito diferente dos escritores da sua geração e descobriu uma forma de fazer romances às fatias, introduzindo personagens novas em todos os capítulos, que compõem histórias independentes que quase podem ser lidas de forma autónoma, embora, claro, ganhem e se iluminem com tudo o resto. A minha mais recente leitura de Strout foi Tudo É Possível, e é fantástico como o anterior O Meu Nome É Lucy Barton é como uma preparação para este livro cheio de possibilidades, onde reencontramos figuras que já conhecemos mas uns anitos mais velhas, incluindo a própria Lucy Barton, que se tornou uma escritora famosa e regressa à sua aldeia natal para visitar o irmão, um rude afável e nervoso que a admira muito e até compra um novo tapete para a receber. Profundamente humana e sem lamechice, esta é uma literatura muito próxima das pessoas, sem paninhos quentes nem mitificações. A ler, portanto.

17
Jan22

De costas voltadas

Maria do Rosário Pedreira

Não é novidade para ninguém que, desde os anos setenta, as literaturas portuguesa e brasileira são mutuamente desconhecidas. Há, claro, uma elite que lê tudo, mas em Portugal essa elite é ainda mais pequena do que a elite que costuma comprar e ler livros traduzidos, por isso, já se vê porque quase não se publicam autores do Brasil em Portugal. O que eu não sabia é que em Espanha acontece algo semelhante e já há quem se queixe de uma espécie de segregação em relação aos autores latino-americanos. Jorge Carrió, o autor do fantástico Livrarias, escreve que, nas listas dos Livros do Ano na maioria dos jornais espanhóis, como o ABC ou o La Vanguardia, o El Pais ou o El Mundo, os livros referidos são quase todos espanhóis, ignorando-se a literatura da América Latina. Ora, quando existem tantos escritores latino-americanos que ganharam o Nobel da Literatura, que aconteceu de repente? Será que os muitos países que geraram autores universais como Borges, Cortázar, Neruda, Fuentes, Bolaño..., estão em queda em termos de criatividade ou, como defende Carrión, o problema é da concentração da indústria editorial em Espanha (só chegam à Europa os escritores latino-americanos que as editoras espanholas entendam publicar) e de algo que o autor do artigo denomina «centralismo neocolonial»? Confesso que me aparecem cada vez menos propostas de autores do outro continente e cada vez mais raparigas espanholas de todas as regiões que começaram a escrever ficção, mas não me tinha passado pela cabeça que havia uma razão por detrás disto. Aqui em Portugal, parece-me mais um desconhecimento puro e duro do que se passa no país grande que fala português.

14
Jan22

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

Eva, chama-se Eva, tem menos quatro anos do que eu, e foi sempre o exato oposto de mim: muito expansiva, divertia-se se tinha de passar o fim de semana nalgum dos restaurantes do meu pai, a correr entre as mesas e a brincar às empregadas. Quando o meu pai se matou, a Eva fechou-se em si mesma, passou a falar pouco ou nada, desenhava o tempo todo; era a sua forma de dizer o que queria dizer, que eu não sei o que era nem me importa muito. A minha mãe foi criada por dois tios, e sempre me pareceu curioso que antes do suicídio a minha irmã fosse tão parecida com o tio, o Chico, e depois se transformasse num decalque da tia Soledad, mas que nome tão bem dado. A Eva sempre funcionou por imitação: reproduzindo a atitude que lhe proporcionasse uma maior segurança. Não sei se lhe falta personalidade: é minha irmã, mas não a conheço lá muito bem. A sua vida nunca me interessou, nem na altura nem agora. Posso dizer-te que mal nos damos. No caso da Eva, a mudança de atitude foi de facto uma consequência da história do meu pai, parece-me. No meu caso, não. Eu já era assim.

Elena Medel, As Maravilhas, tardução de Vasco Gato

13
Jan22

O luto

Maria do Rosário Pedreira

Depois de termos perdido recentemente a enorme Joan Didion, talvez a pessoa que escreveu mais desassombradamente sobre o luto em livros como O Ano do Pensamento Mágico e Noites Azuis (respectivamente sobre as mortes do marido e da filha), volto a este tema por um pequenino livro de Chimamanda Ngozi Adichie, a escritora nigeriana que se tornou um fenómeno literário internacional, intitulado Notas sobre o Luto. Durante o que foi certamente um dos piores anos da sua vida, por conta da pandemia que a separou fisicamente da família (ela vive nos Estados Unidos, mas tinha os pais na Nigéria e alguns irmãos no Reino Unido, e não se viram durante muito tempo), o pai morreu sem se esperar. Parecia bem na última videochamada que os dois trocaram e, apesar da idade, nunca lhe falou de sofrer de quaisquer problemas de saúde. O choque foi enorme para a escritora, que era mesmo a menina do papá e que, para mitigar a sua dor, teve de escrever sobre o assunto alguns textos que são a sua forma de fazer o luto deste pai carinhoso e incrível, um académico sem peneiras e incorruptível num país onde ter status é, como veremos, bastante perigoso. São episódios partilhados por ambos, extremamente bonitos e sinceros, e também o relato do escândalo que é sempre qualquer morte imprevista, bem como a impossibilidade de sair para consolar e receber consolo, abraçando os que, tal como ela, sofreram o desgosto. Lê-se de um fôlego.

12
Jan22

Cavalos-marinhos

Maria do Rosário Pedreira

Aqui há uma semana, mais coisa menos coisa, recebi uma mensagem muito especial de um Extraordinário. Além do que dizia a própria mensagem, que era só para mim, havia um link para um texto de um blogue que, curiosamente, me fez lembrar A Metamorfose dos Pássaros, um filme de Catarina Vasconcelos que ganhou já vários prémios internacionais. Não sei se o viram, mas é um objecto artístico muitíssimo especial sobre o amor, a distância e a orfandade (e as coisas que definem algumas pessoas) a que eu chamaria, para resumir, um poema cinematográfico. Por isso me pareceu que ele aqui cabe, até porque o texto do filme talvez pudesse ser lido em vez de ouvido, de tal modo é, a todos os níveis, literário, mas sem que isso torne o filme chato (podia acontecer) ou difícil (costuma acontecer, mas não é o caso). Voltando ao início, há uma cena muito bonita no filme em que a mãe que tem o marido ausente e os seis filhos pequenos em casa recebe de longe um cavalo-marinho fossilizado e o põe, como um brinco, na orelha. Ora, o texto que recebi na mensagem do Extraordinário tinha também que ver com  um cavalo-marinho e, por isso e por achar que deve ser lido, partilho-o convosco. Bons filmes, boas leituras.

https://luizrobalo.blogspot.com/2022/01/cavalo-marinho.html 

11
Jan22

Da vida do editor

Maria do Rosário Pedreira

Por detrás de um livro sério, está quase sempre um editor. Muitas vezes, a sua tarefa é apenas a de escolher e difundir uma obra traduzida, mas de outras existe um trabalho de fundo que permanece diluído no livro final, até porque o autor é quem deve brilhar. É talvez por isso que a maioria dos leitores não conhece os nomes dos editores que publicam os seus autores preferidos (quando muito, saberá os nomes das chancelas que dirigem), o que torna ainda mais justo que um prémio de cidadania que tem como patrono Vasco Graça Moura, atribuído pela Estoril-Sol desde 2015, tenha contemplado este ano o grande editor Zeferino Coelho, cujo impressionante currículo não só inclui a publicação da obra de José Saramago, de Levantado do Chão até à sua morte, como também de oito prémios Camões (entre os quais Sophia, Mia Couto ou, mais recentemente, Paulina Chiziane) e ainda o lançamento de muitos jovens escritores literários com vozes muito interessantes, como Patrícia Portela, Sandro William Junqueira ou Joana Bértholo. Grande leitor de memórias e biografias, Zeferino Coelho sucede, neste prémio, a nomes como Emílio Rui Vilar, Carlos do Carmo, Maria do Céu Guerra ou Eduardo, Lourenço. Parabéns!

10
Jan22

Memória de uma voz

Maria do Rosário Pedreira

Há histórias que parecem ficção. Uma delas contou-a Nelson Ferreira da Silva no Facebook e eu reproduzo-a aqui no blogue, porque merece ser partilhada. Como todos os que já perderam alguém importante certamente sabem, a memória da voz é uma das coisas que mais rapidamente desaparecem. Ora, também todos os que já foram a Londres devem saber que, no metro, estão sempre a avisar-nos «Mind the gap» para vermos bem onde pomos os pés ao entrar e sair da carruagem. Pois parece que uma certa viúva se deslocava diariamente a uma estação da Northern Line do metro londrino por ser do falecido marido a voz que prevenia nos altifalantes «Mind the gap».  Acontece que, com as modernices, as mensagens humanas foram sendo substituídas em todas as estações por vozes robotizadas e, um dia, aconteceu o mesmo à mensagem que a viúva vinha expressamente ouvir. Ela procurou então a empresa para pedir a antiga gravação. Só que, ao contar a sua história, aconteceu o milagre: não só lhe conseguiram o que pediu, como até repuseram a gravação original na estação de metro. Parece ficção, disse eu quando comecei a escrever este post. E é numa ficção, lembrada (e muito bem) por Maria Manuel Viana (a tradutora) como comentário a esta história (para ser mais concreta, em Dia de amanhã, de Ignacio Martínez de Pisón), que uma viúva vai ao cinema todos os dias para ouvir a voz do marido que era quem dobrava o actor principal.

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