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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

31
Jul18

Até já

Maria do Rosário Pedreira

Amanhã vamos quase todos de férias, bem sei, pelo que este será o meu último post até ao dia 3 de Setembro (descansemos uns dos outros, que só nos faz bem). Espero conseguir ler os muitos livros atrasados que levo comigo, embora raramente consiga cumprir esse desiderato, e também aproveitar este mês para escrever uma comunicação e uns artigos que me «encomendaram». Desejo-vos, pois, que passem um feliz mês de Agosto (de férias ou a trabalhar) e que leiam, evidentemente. Este mês sairá para as livrarias a reedição de um livro de Mário Cláudio intitulado O Pórtico da Glória, que fecha a trilogia iniciada com A Quinta das Virtudes e seguida por Tocata para Dois Clarins e que aconselho a todos, sobretudo aos habitantes do Porto, cidade que foi pioneira no desenvolvimento industrial do nosso país e para onde vai viver o protagonista deste romance que venceu o Prémio PEN Clube Português de Narrativa em 1997 e o Prémio Eça de Queiroz em 1998. Bom descanso e boas leituras.

 

P.S. Pediram-me a divulgação de um projecto que me pareceu interessante sobre livros que se ouvem e, como tal, deixo o link para quem queira ler e dar a sua opinião: http://luizrobalo.blogspot.com/

 

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30
Jul18

Diário de um gato

Maria do Rosário Pedreira

Quem me conhece sabe que não vou muito à bola com gatos (pronto, não fiquem zangados, eu sei que entre os Extraordinários há imensos com gatos, mas eu sou mais cães). Também por isso estranhei quando, um dia destes, o jornal que leio em papel todas as manhãs dedicava uma página inteirinha a um gato lisboeta chamado Calvin Esparguete que é, segundo ali se dizia, o mais popular felino da colina de Santana, pois, embora tenha casa e donos, longe de querer ficar repimpado num sofá, o que gosta é de se pirar e fazer amigos pela cidade: a peixeira (pudera!), a merceeira (idem!), outros donos de gatos (que visita regularmente) e até o porteiro do Hotel Tivoli, que contou que este gato citadino, de pêlo cinzento e olhos verdes, só atravessa a Avenida da Liberdade quando o sinal abre, atrás dos peões, não correndo riscos desnecessários. Tem uma coleira com o telefone dos donos (como vai cada vez para mais longe, a dona recebe telefonemas para depois o ir buscar) e já se tornou conhecido dos habitantes da cidade e dos turistas por ser tão bonito e sociável apesar dos seus 16 (81) anos! Mas o que o fez merecer o destaque no jornal é o facto de ser o narrador de um livro escrito pela sua dona, a jornalista Filomena Lança, que passou a escrito as suas aventuras. O livro intitula-se Calvin Esparguete – Diário de Um Gato Citadino e é mesmo para todos os que gostam de gatos. A Dom Quixote publicou.

 

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27
Jul18

O pessoano

Maria do Rosário Pedreira

No verão, os jornais optam normalmente por cadernos ligeiros, com reportagens leves e questionários um tanto ou quanto cuscos – para que praia vais, qual é o teu prato favorito, o que vais ler nas férias, que viagem gostarias de fazer, coisas assim… Por sorte, este ano o suplemento P2 do Público resolveu sair durante o Verão com grandes entrevistas – e a que li no dia 16 de Julho a Jerónimo Pizarro feita por Isabel Lucas era mesmo interessante. Pizarro é colombiano – mas português de coração, uma vez que é doutorado em Linguística Portuguesa, é professor titular da cadeira de Estudos Portugueses na Universidade dos Andes, viveu em Portugal muitos anos e é um dos grandes especialistas mundiais na obra de Fernando Pessoa (com livros publicados na Tinta-da-China) para a qual foi despertado pelo Livro do Desassossego. Conta que se apaixonou pela literatura para fugir à violência da política (era jovem na época de Pablo Escobar e teve parentes sequestrados e mortos); e, aos 13 anos, já trabalhava na loja da avó para ganhar uns cobres para poder comprar livros (Dostoiévski, Cortázar, Hermann Hesse e muita poesia). Nós agradecemos que os estrangeiros cultos se interessem pelos nossos escritores e digam que Pessoa já se tornou imagem de marca e uma porta por onde muitos entram em Portugal. E percebemos quando Pizarro diz que uma das razões por que é tão bom viver em Portugal tem que ver com essa sensação de segurança que falta realmente em tanto lado. Entrevistado e entrevistadora estão de parabéns. Leitores, não percam a entrevista, por favor.

26
Jul18

Olimpíada

Maria do Rosário Pedreira

Parece-me que nunca teria chegado a ler a versão integral da Odisseia se a obra não tivesse sido traduzida para português, e bem! (obrigada, Frederico Lourenço, pelo incrível trabalho e pela elegância do texto em português). Mas, graças à tradução, li-a de fio a pavio e, desde então, tenho-a no coração como um dos mais belos textos que se escreveram (nem teria resistido ao tempo se assim não fosse), o primeiro – julgo – do cânone ocidental de Harold Bloom (e de todos nós). Também por isso, dei especial atenção a uma pequena notícia que saiu recentemente no Público, anunciando que o fragmento mais antigo desta obra atribuída a Homero – treze versos escavados numa placa de argila – foi encontrado no decorrer de escavações na antiga cidade de Olímpia por arqueólogos que há três anos «vêm trabalhando em torno dos vestígios de um templo de Zeus naquela região do Peloponeso, berço dos Jogos Olímpicos». A peça regista um pequeno excerto do Canto XIV da Odisseia, que descreve o regresso de Ulisses a casa e o seu reencontro com o porqueiro Eumeu. Transmitido oralmente durante séculos, o texto, ao que parece, foi registado em rolos ainda antes da era cristã, e este tesouro agora encontrado pode datar do século III. Que descoberta olímpica!

25
Jul18

Imposturas literárias

Maria do Rosário Pedreira

Reproduzo quase na íntegra uma história engraçada que li no blogue ou no mural de Facebook de Francisco Seixas da Costa, aonde vale quase sempre a pena ir (e o «quase» é capaz de estar a mais). Talvez os mais novos leitores do blogue não o conheçam, mas para muitas gerações, havia um poema que as famílias recitavam, que toda a gente sabia de cor e que aparecia nas selectas literárias da antiga quarta classe ao longo de décadas: tratava-se de Balada da Neve, de Augusto Gil, e o seu início rezava assim: «Batem leve, levemente, / Como quem chama por mim. / Será chuva? Será gente? / Gente não é certamente / E a chuva não bate assim.» Estava Seixas da Costa a falar justamente deste poema quando passou por ele o poeta Nuno Júdice, a quem logo comunicou estar, por coincidência, a falar de um seu confrade. Depois de saber de quem se tratava, Júdice comentou que tinha sido enganado por Augusto Gil. Mas, não sendo poetas contemporâneos (Gil morreu em 1929), Seixas da Costa quis investigar a razão de tal comentário. E Nuno Júdice explicou-lhe que, sendo algarvio, nunca tinha visto neve, mas que, já adulto, quando teve a experiência do primeiro nevão, constatou que a neve não batia coisa nenhuma, que não há nada mais silencioso… A poesia, enfim, tem direito a mentir.

 

24
Jul18

No original

Maria do Rosário Pedreira

Foi, julgo, na minha geração que o inglês ganhou decididamente ao francês (as músicas, os filmes, as séries  inglesas e americanas com legendas, tornaram-se muito mais cativantes para os jovens portugueses de então do que Aznavour ou Brel, de que gosto tanto, e uma série que devorei na infância-adolescência chamada Belle et Sébastien, com uma cadela São Bernardo e uma criança). Hoje, no nosso país, toda a gente fala inglês – há uns dias a rapariga que estava na caixa do supermercado desenvolveu um diálogo tão irrepreensível com uns clientes estrangeiros que os deixou de cara à banda. (Mas de que estariam eles à espera, hã? Os portugueses têm um inegável talento para as línguas!) Também por isso, o número de livros lidos originalmente em inglês aumentou muito nos últimos anos em Portugal; não só as pessoas viajam mais e compram livros no estrangeiro, como existe uma grande oferta de edições em inglês, em paperback e bolso, às vezes muito mais baratas do que as traduções, em várias livrarias online. Por outro lado, há quem goste de ler sem a mediação de um tradutor e quem não tenha paciência para esperar pela edição portuguesa. Recentemente, publicaram no Clube do Autor o romance do norte-americano André Aciman Chama-me pelo Teu Nome, que deu origem a um filme que passara uns meses antes nas salas de cinema portuguesas. Mas, entre a exibição do filme e a publicação da tradução, já se tinham vendido cerca de 2500 exemplares em inglês (Call me by your name é o título original). Qualquer dia, não valerá mesmo a pena traduzir certas coisas.

23
Jul18

Medo e falta de ar

Maria do Rosário Pedreira

Como é segunda-feira e estou sem ideias – o fim-de-semana faz muito mal às cabeças –, vou escrever sobre uma ninharia. Estava a ler um texto um dia destes e encontrei a palavra «espavorido», de que gosto muito por ser tão gráfica; e, não tinham passado dez minutos, apareceu-me o vocábulo «esbaforido»… Na minha cabeça, olho para estas duas palavras e a imagem que se forma é mais ou menos igual: a de alguém que vem a correr, talvez a fugir, despenteado e com a roupa ao vento. No meu íntimo, o sentimento subjacente às duas palavras é muito semelhante, mas não há como uma consulta ao Dicionário Houaiss para ver que não tenho razão. «Espavorido» tem dentro a palavra «pavor» e, na verdade, quer dizer «apavorado» (outra palavra com susto dentro). Porém, «esbaforido» significa «aquele que respira com dificuldade», e a palavra – está bom de ver – deriva de «bafo». Embora o pavor possa tornar uma pessoa ofegante (ou seja, esbaforida), estas duas palavras que pareciam quase irmãs gémeas não têm, afinal, qualquer parentesco. Para mim, foi divertido descobri-lo e a partir daqui desenhar na minha mente duas imagens diferentes, uma para cada palavra. Para os Extraordinários, uma boa semana de descobertas é o que desejo a todos. Sem medo nem falta de ar.

20
Jul18

Flybraries

Maria do Rosário Pedreira

Conhece a palavra «flybraries»? Calculo que não, mas, na prática, quer dizer «bibliotecas a bordo de aviões». A ideia foi da easyJet, uma companhia aérea que pretende promover a literacia e incentivar a leitura e vai fazê-lo sobretudo no âmbito dos mais pequeninos, transportando clássicos da literatura infantil (17 500 exemplares em sete línguas, incluindo o português) em 300 aviões (livros como Alice no País das Maravilhas ou O Livro da Selva constam desta flybrary). O director de marketing da easyJet para Espanha e Portugal explica que esta iniciativa tem que ver com o facto de o desempenho na leitura dos alunos do 4º ano ter piorado muito entre 2011 e 2016 (já escrevi aqui sobre o assunto) e de esta campanha combinar de certa forma entretenimento e pedagogia: «Queremos que voar seja uma experiência enriquecedora, divertida e memorável, não apenas para os adultos, mas também para as crianças, e consideramos que colocá-las em contacto directo com alguns dos maiores clássicos da literatura infantil será uma experiência enriquecedora em todos os aspectos.» Esperemos que sim, que algum livro torne mesmo a viagem memorável e faça a criança querer ler mais. De todos os modos, há mais aliciantes e, para as crianças entre 6 e 12 anos, em viagens no espaço Europeu, a campanha inclui um concurso no qual meninos e meninas escreverão pequenas histórias completando a frase «Eu olhei pela janela e vi…» e, com sorte, poderão ganhar viagens para toda a família. A história vencedora será ilustrada e publicada na revista que viajará em todos os aviões da easyJet. Tiro o chapéu. Quem poderia pedir mais a uma companhia aérea?

19
Jul18

Um novo Nobel

Maria do Rosário Pedreira

Irritados por tudo o que aconteceu recentemente com a Academia Sueca, que adiou a entrega do Prémio Nobel da Literatura para uma data indefinida e afastou umas quantas pessoas do processo decisório, uma série de intelectuais suecos, sobretudo escritores e jornalistas, resolveu criar uma sociedade a que chamou «Nova Academia» como forma de protesto. Instituiu um prémio alternativo que já tem 47 candidatos oriundos de todo o mundo, nos quais podemos todos votar até dia 14 de Agosto (basta ir ao site, ao que parece). Entre esses, contam-se escritores como Elena Ferrante, Ian McEwan, Paul Auster ou Joyce Carol Oates (os norte-americanos estão, de resto, muito bem representados), mas também nomes menos prováveis, como a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e uma dúzia de suecos de que nunca ouvimos falar, além da autora de Harry Potter, J. K. Rowling, o que é de admirar… Em todo o caso, podemos divertir-nos um pouco com este concurso, já que não temos o outro. O vencedor será anunciado em Outubro, como é habitual com o Prémio Nobel, e irá haver uma cerimónia formal para entrega do galardão no dia 10 de dezembro. A Nova Academia será dissolvida um dia após a cerimónia formal, o que também tem alguma piada. Haja imaginação.

18
Jul18

Booker de ouro

Maria do Rosário Pedreira

Qual medalha de ouro, o Man Booker Prize lançou a ideia de se eleger o Booker dos Bookers dos últimos 50 anos. E há uma semana, mais coisa menos coisa, o vencedor do último Golden Booker foi um romance divino chamado The English Patient (o autor é Michael Ondaatje, nascido no Sri Lanka mas de nacionalidade canadiana), que ganhara o Booker ex-aequo com Sacred Hunger, de Barry Unsworth, no ano de 1992, e que por cá foi publicado pela Dom Quixote e traduzido com o título O Doente Inglês, embora o filme nele baseado, de 1996, realizado por Anthony Minghella, viesse com a tradução coxa de O Paciente Inglês (e, ainda por cima, o protagonista não tinha mesmo paciência nenhuma, bem pelo contrário, apesar de ter todas as razões para isso). A obra, que tem passagens maravilhosas que o filme não podia manter sob o risco de se tornar chatíssimo (as viagens ao deserto em solitário) foi traduzido em cerca de 40 línguas e deu liberdade ao autor para largar tudo e escrever apenas, como tantos ambicionam. Quando recebeu o prémio, Ontaatje contou que tudo começou com uma cena (um homem queimado a conversar com a enfermeira) que ele julgou ser o arranque de uma novela curta, com muitos diálogos, à europeia. E depois acabou escrevendo mais de 300 páginas fascinantes, à inglesa. Se nunca leu, tome nota.