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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

22
Mai18

Um dia para quem cria

Maria do Rosário Pedreira

Hoje, não sei se já sabiam, é Dia do Autor – e a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) vai premiar, a partir das 18h, um monte de autores, começando por celebrar os 50 anos de carreira de Fernando Tordo. Como a SPA faz também hoje 93 aninhos, a festa é a sério e terá o Presidente da Assembleia da República a presidir à entrega do Prémio de Consagração a Pacheco Pereira (autor de livros, artigos e boas ideias). Lerá a mensagem do Dia do Autor o cineasta e autor de livros e resenhas António-Pedro Vasconcelos e será entregue o Prémio José Mariano Gago a um autor de livros científicos. Lançar-se-á uma antologia de poesia lusófona e ainda um CD de homenagem a Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés, com dez canções originais. Como se não bastasse, também será conhecido o destinatário do Grande Prémio de Teatro Português e haverá condecorações para Fernando Rosas, Artur Anselmo, Maria Antónia Palla, Carlos Tê, Tino Costa, a Fundação Champalimaud, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, o Museu do Aljube, a Associação dos Deficientes das Forças Armadas e a Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES). Os prémios Pró-Autor irão para o radialista António Miguel, Mário Assis Ferreira, a Feira do Livro de Lisboa e a Monstra. Por fim, o presidente do organismo, José Jorge Letria, falará da importância a nível nacional e internacional da SPA, agora que foi eleita para a vice-presidência do Grupo Europeu de Sociedades de Autores e Compositores, com sede em Bruxelas. Bom dia aos autores e a mim também!

21
Mai18

O livro das rainhas

Maria do Rosário Pedreira

Guida Cândido surpreendeu-nos há cerca de dois anos com uma tentadora proposta, a de reunir cinquenta receitas de cinco livros de cozinha de cinco séculos diferentes. O livro, se ainda se lembram, chama-se Cinco Séculos à Mesa, tem uma versão abreviada em inglês para os que visitam Portugal e gostam de experimentar os pratos do País (arroz-doce, por exemplo) e, além disso, ganhou o Prémio Portugal Cookbook Fair 2017 e recebeu ainda o Gourmand Award na categoria de Receitas Históricas. Mas esta especialista em História da Alimentação, que não pára e gosta imenso de cozinhar com estilo, atreveu-se a este maravilhoso segundo livro que hoje vos trago. Comer como Uma Rainha – um belo título, aliás, que aponta para opulência e sofisticação – apresenta-nos o receituário da realeza portuguesa do século XVI ao século XX, partindo das ementas, livros de despesas, documentos, etc., de cinco rainhas de Portugal: D. Catarina de Áustria, D. Maria Francisca de Sabóia, D. Maria Ana de Áustria, D. Maria I e, por fim, D. Maria Pia de Sabóia, a mãe do gordinho rei D. Carlos. As receitas mostram bem as influências que as refeições tomadas na Corte sofreram com as «importações» de certos hábitos alimentares, uma vez que quase todas as rainhas eram originárias de países estrangeiros. A belíssima capa com uma reprodução de um quadro flamengo de Clara Peeters e o grafismo de Maria Manuel Laceda fazem desta obra um livro bonito e apetecível. O seu lançamento é amanhã, na Figueira da Foz, e estão todos convidados.

 

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18
Mai18

Nu contra a corrente

Maria do Rosário Pedreira

Enquanto o puritanismo vigente em algumas partes do mundo (nos EUA, por exemplo) pede a retirada dos museus de certos quadros e esculturas considerados ofensivos (as telas mais espectaculares de Balthus, imagine-se, e muito mais), o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) inaugura amanhã uma exposição temporária de obras de arte do seu acervo com um denominador comum: a nudez.  Chama-se (mas que nome tão bem arranjado!) Explícita e terá 70 obras de nus masculinos e femininos e até de algumas cenas de sexo, evocando, como consta da nota de promoção, as antigas «Salas Reservadas» de alguns museus, nas quais paredes inteiramente forradas a telas «concupiscentes» (a palavra é do próprio museu) vibravam no seu conjunto de tal forma que se sobrepunham ao choque que cada uma, individualmente, pudesse causar ao mais conservador dos visitantes. É preciso lutar contra a estupidez e a beatice que às vezes escondem coisas muito mais terríveis e obscuras, e estou contente com a circunstância de o nosso MNAA criar uma exposição temporária para fomentar o debate sobre se a arte pode ser proibida e sobre se os museus não devem realmente combater este falso puritanismo usando as armas que têm: a arte e a beleza. Bravo!

 

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17
Mai18

Acusações públicas

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, nas Correntes d’Escritas, houve uma memorável mesa-redonda numa noite de sexta-feira. Ninguém tinha combinado nada, mas os intervenientes resolveram todos fazer intervenções cheias de humor e, não bastando isso, uma autora espanhola que assistia na plateia resolveu interpelar um seu colega (que era  o único na mesa que não se ria por não perceber as piadas em português) e, fingindo-se sua mulher, fazer-lhe reprimendas e mandar-lhe recados em voz alta. Foi hilariante – até porque ele não se desmanchou –, mas todos sabiam que não passava de uma brincadeira de Angela Valvey com Ignacio Martínez de Pisón, ambos bastante jovens na altura e amigos um do outro. O mesmo, porém, não aconteceu ao premiado com o Pulitzer Junot Díaz, autor do admirável A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, de que falei aqui no blogue há uns anos. Estava num festival literário em Sydney, a falar de um artigo que escreveu recentemente na New Yorker sobre o facto de ter sido violado por uma pessoa que lhe era próxima aos oito anos quando uma senhora (Zinzi Clemmons) resolveu confrontá-lo ali mesmo com a sua má conduta com as mulheres e a tentativa de assédio sexual que lhe fizera uns anos antes, perguntando-lhe porque não aproveitara também o seu ensaio para pedir desculpa. Nem imagino como se pode sentir alguém numa situação destas (falo do escritor, embora certamente Zinzi também se deva ter sentido mal quando Junot Díaz a assediou). Dizem que o escritor deixou o festival e a Austrália depois de mais umas tantas raparigas se terem queixado do seu comportamento inadequado nas redes sociais e que depois fez uma declaração, pedindo desculpa, explicando que as sequelas do que sofreu na infância, tal como escrevera no artigo, incluem esta sua faceta, mas que está a corrigi-la e tem aprendido muito com o que se está a passar actualmente no mundo. O que não me parece é que Zinzi vá pedir desculpas pela acusação pública.

16
Mai18

O Estado e a arte

Maria do Rosário Pedreira

A história é conhecida, mas cito-a de cor por preguiça de ir à fonte: um general perguntou a Churchill porque gastava dinheiro com a cultura quando todo o dinheiro era necessário para o esforço de guerra; e ele respondeu-lhe que, se não fosse pela cultura, nem valeria a pena fazer a guerra. Lembrei-me desta frase a respeito de um interessante artigo do cineasta Luís Filipe Rocha no Público de 2 de Maio (leiam-no!) que falava da distância que houve sempre entre os artistas e o Estado em Portugal. Mas retive desse artigo uma história deliciosa que não conhecia sobre Beethoven e Goethe, que tinham uma grande admiração um pelo outro. Ao que parece, porém, só estiveram juntos e ao vivo durante meia dúzia de dias; e, ao passearem ambos de braço dado pelos jardins de Teplitz, cruzaram-se certa tarde com a imperatriz e vários outros membros da corte. Apesar de o compositor ter pedido ao escritor que se mantivessem de braço dado e seguissem caminho, pois os que aí vinham é que deviam desviar-se para os deixar passar, Goethe largou-lhe o braço e não resistiu a afastar-se para o lado, tirar o chapéu e fazer vénia. Beethoven, por seu turno, passou pelos príncipes sem lhes dar qualquer importância, tocando apenas no chapéu ao de leve, e esperou que o amigo terminasse os salamaleques para lhe dizer: “Esperei porque vos honro e prezo como mereceis: mas vós deste-lhes demasiadas honras.” Depois disso, Beethoven escreveu durante dezassete anos ao amigo, mas Goethe nunca lhe respondeu... A ligação entre artistas e governantes foi sempre complexa.

15
Mai18

Nervos

Maria do Rosário Pedreira

Lembram-se de vos ter aqui falado da revista de poesia Nervo? Pois bem, apesar de nunca se acreditar muito nestes projetos em Portugal, sobretudo por causa da característica falta de leitores para este género, a verdade é que a Nervo (com ou sem ataques de nervos, sei lá eu) parece ter ido avante, o que me traz muita alegria. Saiu, pois, o número 2 e – longe de conter apenas poetas desconhecidos, encontramos nas suas páginas nomes bem sonantes, como os de Nuno Júdice e A. M. Pires Cabral, André Domingues e até José Carlos Barros, um grande poeta de quem publiquei o romance Um Amigo para o Inverno, há uns anos finalista do Prémio LeYa (leiam, leiam). E escrevem nesta Nervo também autores de outras paragens: Ana Pérez Cañamares (Espanha), Debasish Lahiri (Índia), Júlia de Carvalho Hansen (Brasil) e Usha Akella (EUA). Desta vez, incluindo a capa (que vos deixo), o número é ilustrado por Américo Prata.

 

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14
Mai18

Shoah

Maria do Rosário Pedreira

Para começar, se não viram o filme com o título do post, de Claude Lanzmann (tem dez horas e é para ir saboreando), vão já comprar o DVD para ficarem a saber o que foram os campos de concentração e extermínio nazis sem ter de ver imagens de nenhum deles (ou vendo-as na cabeça, a partir dos testemunhos dos entrevistados). Nem tudo está perdido, porém, se quiserem inscrever-se para, amanhã e depois, frequentarem as Jornadas sobre a Shoah e Outros Genocídios no Auditório 1 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, organizadas pelo Instituto de História Contemporânea e o Mémorial de la Shoah, de Paris. A coordenação e moderação estarão a cargo de Irene Pimentel, Esther Mucznik e Bruno Boyer. Os intervenientes são investigadores e historiadores oriundos de França e Portugal e os temas abarcam a questão da memória e do esquecimento; os refugiados na Europa nos anos 30 e 40; os perpetradores nazis; a visão do mundo nacional-socialista e a ideologia salazarista; a atitude de Portugal face à Shoah; os crimes em massa, entre os quais os de Timor Leste, do Ruanda e da ex-Jugoslávia; a violência em massa do estalinismo e a violência colonial. A entrada é livre, mas é preciso fazer inscrição pelo link abaixo. Quem me dera ir!

 

jornadasshoah@fcsh.unl.pt

11
Mai18

A favorita

Maria do Rosário Pedreira

Antes de irem para fim-de-semana, deixo-vos – como faço de há uns anos a esta parte – um desafio: votarem na vossa livraria preferida, desde que fique em Portugal. O concurso é lançado anualmente pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e o prazo para votar acaba já no dia 25 deste mês, que é também a data da abertura da 88ª edição da Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII (e lá vou eu). Para escolher a sua livraria favorita, deverá votar online (deixo o link abaixo), e dar a resposta a duas ou três perguntas que se prendem com a cidade onde se situa e aquilo que mais gosta na livraria do seu coração. No ano passado, venceu a Livraria Buchholz em Lisboa e a vencedora deste ano será revelada durante a feira, que estará aberta até ao dia de Santo António, 13 de Junho. A escolha é sua.

 

https://nit.pt/coolt/livros/qual-e-a-melhor-livraria-de-portugal-a-escolha-e-sua

 

10
Mai18

Bons encontros

Maria do Rosário Pedreira

Há encontros felizes e este foi um deles. Estava eu nas Correntes d’Escritas a apresentar o fresquissimamente publicado A Febre das Almas Sensíveis (esta febre é a tuberculose e algumas das almas sensíveis escritores de língua portuguesa que a contraíram), de Isabel Rio Novo, quando, na altura dos autógrafos, uma senhora veio ter comigo. Era a Dra. Leonor Furtado, Inspectora-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) e ali mesmo se disponibilizava para acolher uma sessão em torno romance em Lisboa; não só por a IGAS ser uma entidade ligada à saúde, o que já seria uma razão compreensível, mas sobretudo porque as suas instalações foram em tempos justamente o hospital dos tuberculosos, junto ao Cais do Sodré, e, como tal, vinha o mais possível a propósito falar lá, onde tudo aconteceu, deste magnífico romance que foi finalista do Prémio LeYa em 2017. Depois de alguns contactos e muita simpatia, essa apresentação, num formato diferente do habitual, decorrerá hoje a partir das 17h00 na biblioteca do IGAS e contará, além da da referida  inspectora-geral e da jornalista Isabel Nery (que é quem modera a conversa), com a presença da Dra. Graça Freitas, Directora-Geral da Saúde, que também falará desta doença que foi um flagelo e que, se não tivermos cuidado, poderá voltar a sê-lo. Espero que possam vir e aí segue o convite para que nos acompanhem.

 

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09
Mai18

O emoji de assustada

Maria do Rosário Pedreira

Não aprecio especialmente os Emojis (e ainda lhes chamo Smiles, mas percebo que os que estão tristes, assustados ou zangados não podem ter nome de sorriso); uso-os muito raramente no Facebook e vou, a partir de agora, desusá-los completamente, e tudo por causa de uma história terrível que me contaram há uns dias. Um colega editor e jornalista, que trabalha actualmente num projecto para crianças e adolescentes, tem uma amiga e colaboradora que é psicóloga clínica e tem estado a estudar muito a sério a dependência dos ecrãs (em particular) e dos aparelhos tecnológicos (em geral) por parte dos mais novos. Contou-lhe ela que, nestes tempos smartfónicos que atravessamos, alguns miúdos já não têm contacto visual entre eles, vivem de cabeça mergulhada nos monitores de telefones, iPads e computadores, e que já atendeu no seu consultório crianças a quem fez um teste: mostrava-lhes fotografias de pessoas aborrecidas, enojadas, tristes, irritadas, felizes, sorridentes – enfim, um sem-número de estados – e era suposto que as crianças em causa identificassem essas emoções-sensações. O problema é que muitas já não são capazes de reconhecer num rosto humano o que a pessoa está a sentir… E, porém, debitam na ponta da língua todos os Emojis possíveis e imaginários que lhes mostram… No futuro, teremos todos um círculo amarelo em lugar de cara? Fiquei muito assustada.