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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

02
Dez22

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Tenho de confessar que habitualmente leio mais literatura traduzida do que nacional, mas não poderia falhar o mais recente romance de Lídia Jorge, Misericórdia, a cujo lançamento público, aliás, assisti e constituiu um belo momento, com leituras de Ana Zanatti e apresentação de José Tolentino Mendonça. Misericórdia foi, se percebi bem, um «livro pedido», mas não encomendado. A mãe da escritora, que estava num lar de terceira idade (e morreu durante a pandemia), pediu à filha que escrevesse sobre esses lugares onde muitos velhos passam os últimos anos das suas vidas. Lídia Jorge fez-lhe a vontade; e, a par do dia-a-dia narrado pela D. Alberti (ou Maria Alberta), que nos põe a par do que se passa na instituição (desde as amizades, as embirrações ou as queixas, até às comidas, às entradas de novos utentes, aos passatempos, às paixões e às visitas, também da morte, especialmente de noite), é-nos contada a relação da narradora com a filha e a obra da filha, que aquela vê demasiado soturna e sempre sobre fracos e oprimidos quando existem tantos homens e mulheres capazes de actos heróicos que certamente fariam vender o dobro dos exemplares. As figuras são muito verosímeis, sobretudo a da cuidadora brasileira que não larga o telemóvel; e, apesar de ainda ir a pouco mais de um terço e de o tema ser obviamente sério, não consigo deixar de sorrir com um mistério que envolve uma morte que quiçá pode ser explicada por algumas pessoas ignorarem que certas actos, praticados em determinada idade, comportam alguns riscos... Vamos ver o que se segue.

30
Nov22

Escrever e pensar

Maria do Rosário Pedreira

Tenho a clara suspeita de que me transformarei um dia destes em Velha do Restelo, se já não o sou; olho para certas decisões modernas e cada vez gosto mais de modos de ver antigos, ainda que, para falar com toda a franqueza, entenda algumas vantagens em termos práticos que as minhas opções difcilmente trariam. Contudo, lembro-me de copiar à mão parágrafos inteiros e listas de nomes de reis e rios para os meter na cabeça, e resultava, bem como de estudar muitas disciplinas tomando notas (para isso, sobretudo, serviam os cadernos, e não para copiar o sumário do quadro). A minha letra, de tanto que escrevi, foi-se ela própria parecendo mais comigo. Quando anoto o original de um autor, a minha caligrafia reflecte a minha zanga ou a minha alegria com o que leio, às vezes tanto como as próprias anotações... Há estudos que mostram que o papel é um suporte melhor do que o monitor porque facilita a localização e a memorização. Mas, sei lá porquê, a moda agora é a «desmaterialização» e, por isso, os alunos que este ano fizerem provas de aferição (dos 2.º, 5.º e 8.º anos de escolaridade) fá-las-ão exclusivamente no computador; os exames do secundário do próximo ano serão também feitos longe do querido papel. Percebo evidentemente o argumento ecológico (e o papel está caríssimo), o de quem corrige não ter de decifrar letras difíceis e o da correcção e atribuição de pontuação nas respostas ter muito provavelmente a ajuda preciosa da máquina, mas... Então a letra já não é importante? E escrever com a nossa mãozinha não ajuda a pensar? E o computador não se substituirá aos alunos na correcção de erros ortográficos e no completar de frases e palavras? Nem sei o que pensar.

29
Nov22

Calendário do advento

Maria do Rosário Pedreira

Quando eu era criança, a minha avó dava-nos um calendário do advento. Era suposto fazermos boas acções e irmos abrindo as portinhas de cartão todos os dias até podermos respirar fundo por termos sido bonzinhos e sabermos que iríamos ter presentes no dia de Natal. Hoje, porém, falo-vos do Calendário do Advento da RTP3, um programa de entrevistas de cerca de meia hora conduzidas pela jornalista Anabela Mota Ribeiro a propósito da quadra natalícia. Os convidados são personalidades de todas as áreas do conhecimento, que, puxando das suas memórias, falarão do que foram os seus Natais e, se for caso disso, trarão para a cena objectos, presentes, fotografias, enfim, tudo aquilo que possa ilustrar como têm vivido a quadra natalícia desde que eram crianças, não se esquecendo por certo de referir como as coisas mudaram com as mortes dos que eram próximos ou com os nascimentos de filhos ou netos. Se havia tradições em relação ao enfeitar da casa, ao que se servia na Consoada e outras particularidades, iremos sabê-lo passo a passo, pois as figuras que dialogarão com Anabela Mota Ribeiro pertencem a geografias e gerações diferentes. A série de entrevistas já começou no dia 27 com a fadista Aldina Duarte e, como um verdadeiro calendário do advento, irá até mesmo à véspera de Natal. Vamos ficar atentos?

 
 
 
 
 

 

28
Nov22

Excerto da Quinzena

Maria do Rosário Pedreira

De súbito, respirou fundo e disse:

– Isto faz-me lembrar...

[...] Que lhe fará isto recordar?, perguntei a mim mesmo. Será o pato na loja de ferragens? O cavalo do bar? O rapaz que chegava aos joelhos de um gafanhoto? Far-lhe-ia lembrar o ovo de dinossauro que encontrara certo dia e que a seguir perdera, ou o país que em tempos governara durante quase uma semana?

– Isto faz-me lembrar – repetiu ele – o tempo em que era rapaz.

Olhei para aquele velho, o meu velho, como os pés brancos e velhos metidos na água límpida do rio, nesses momentos que se contavam entre os últimos da sua vida, e de súbito pensei nele, simplesmente, como um rapazinho, uma criança, um jovem, com a vida inteira à sua frente, tal como a minha estava diante de mim. Até então nunca o vira daquele modo. E essas imagens – o hoje e o ontem do meu pai – convergiram e, nesse instante, ele tornou-se um ser misterioso, selvagem, simultaneamente velho e novo, moribundo e recém-nascido.

O meu pai transformou-se num mito.

 

Daniel Wallace, O Grande Peixe, tradução de Ana Falcão Bastos

25
Nov22

Em Beja

Maria do Rosário Pedreira

Eu bem sei que hoje era dia de partilhar um excerto de um livro, mas deixo isso para a próxima segunda-feira, pois estou sem tempo para subir ao escadote e tirar de lá um livro e, aliás, nunca é tarde de mais para uma citação. Na verdade, também aproveito nesta sexta-feira o espaço do blogue para publicitar uma actividade em que participarei mais logo, em Beja, na Biblioteca Municipal José Saramago, lugar onde conheci um grande bibliotecário, o saudoso Joaquim Mestre, há muitos anos, quando eu era ainda editora de José Luís Peixoto (e que graça era ver o Zé Luís falar com sotaque alentejano assim que começava a conversar com o Mestre). Mas, histórias à parte, a dinâmica Elsa Ligeiro, da Alma Azul, convidou-me para ir falar de poesia mais logo, às 19h00, a Beja; e, claro, vindo ela de longe só para isso, eu também não podia recusar. Assim, se estiver em Beja ou por perto, fica aqui feito este convite também a si, para aparecer se tiver vontade de ouvir, ou perguntar, sobre esta coisa maravilhosa que é a poesia. Até logo. O excerto virá na segunda.

Há Poesia no Jardim - Maria do Rosário Pedreira

 

24
Nov22

As Pequenas Coisas

Maria do Rosário Pedreira

Fala-se muitas vezes de pequenas coisas sem importância, mas estas de que hoje falo foram, pelo menos para mim, bastante importantes, porque corresponderam a momentos de leitura extremamente bem passados e fascinantes. Refiro-me ao pequeno romance Pequenas Coisas como Estas, da escritora irlandesa Claire Keegan, que foi finalista do Man Booker Prize e se lê em duas tardes ou duas noites. É uma daquelas pérolas que poríamos com prazer no nosso colar de livros queridos. Quando o terminei, achei até que o Frank Capra, se fosse vivo, de certeza que quereria fazer um filme a partir desta história, de mais a mais, porque o seu protagonista, Bill Furlong, dono de um depósito de carvão numa época de muito frio, é uma dessas personagens intrinsecamente boas que já são muito difíceis de encontrar na literatura. Estamos perto do Natal, e este homem, que vive desde sempre com a mágoa de ser filho de mãe solteira, fornece carvão a toda a vila; entre outros locais, a um convento para onde as famílias atiram rapariguinhas grávidas que ali são escravizadas nas lavandarias e privadas dos seus bebés. A história de Keegan, como ela logo previne, é uma ficção, mas parte de factos reais acontecidos na Irlanda ao longo de décadas, que incluíram milhares de mortes, e é uma lição de compaixão e bondade que dá gosto. Uma autora a reter.

23
Nov22

Rimas

Maria do Rosário Pedreira

Os autores que publico, se estiverem a ler este post, devem pensar que vou falar das minhas anotações nos seus originais, porque não raro faço círculos à volta de palavras próximas e escrevo à margem: «Evite esta rima.» As rimas em prosa nem sempre soam bem, mas na poesia e, sobretudo, nas letras de fados e canções ajudam à harmonia ou são mesmo necessárias. Há vários dicionários de rimas, bem como um número apreciável de sites na Internet que, quando estou a fazer uma letra para alguém, costumo consultar (um deles, curiosamente, chama-se Poeta Vadio). E, recentemente, recebi uma mensagem de uma pessoa que não conheço, mas sabe seguramente que sou uma utilizadora deste tipo de recursos, e que creio ter-me escrito do Brasil. Diz-me no e-mail enviado: «Eu criei essa ferramenta pensando em facilitar a vida de quem faz poesia (inclusive a minha), e seu funcionamento é muito simples: basicamente, você digita o início ou terminação desejada, clica em "procurar palavras", e então a ferramenta apresenta os resultados de um banco com mais de 1 milhão de palavras portuguesas que compilei de dicionários e similares.» Dá muito jeito, asseguro, e por isso deixo aqui o link para os eventuais interessados. Obrigada ao autor.

https://comofazerumpoema.com/dicionario-de-rimas/

 

22
Nov22

Centenário de Natália

Maria do Rosário Pedreira

Há muitas escritoras portuguesas dignas de nota, claro, mas Natália, pela sua figura, a sua voz, a sua intervenção pública, é realmente inesquecível, mesmo para quem só a viu e nunca a leu. Incluí-a no meu livro juvenil Portuguesas Extraordinárias e incluí-a também na recente antologia de poemas para fado que assino com Aldina Duarte, Esse Fado Vaidoso, uma vez que muitos textos seus foram cantados por várias vozes do fado. Vai sair em breve sobre si uma biografia da escritora Filipa Martins, que já tinha sido autora do  guião de Três Mulheres (uma série sobre Natália, Snu Abecassis e Vera Lagoa), bem como participado com entrevistas importantes no documentário sobre Natália da autoria de Joaquim Vieira; e hoje mesmo, para celebrar o centenário da autora nascida em 1923, a Sociedade Portuguesa de Autores homenageia a escritora com um concerto na Reitoria da Universidade de Lisboa às 21h30 (a transmitir na RTP no ano que vem), no qual desfilarão apenas intérpretes mulheres, entre as quais Ana Bacalhau, Amélia Muge, Rita Redshoes, Mafalda Veiga e Kátia Guerreiro, que cantarão poemas da escritora açoreana musicados por Renato Júnior. Viva Natália!

21
Nov22

Direitos das crianças

Maria do Rosário Pedreira

Em 1959, ano em que nasci, passaram-se coisas boas, entre as quais a adopção pela Sociedade das Nações da Declaração dos Direitos da Criança, o primeiro texto do mundo que foi adoptado por todos os países sem reservas. Este texto, que tivera uma versão inicial nos anos vinte, foi ampliado em 1959 e também quarenta anos depois, em 29 de Novembro do ano de 1989, passando então a chamar-se Convenção dos Direitos da Criança; ora, dada a proximidade da efeméride, a revista Visão Júnior, pela pena de Fernando Carvalho,  inclui um interessante artigo em que selecciona livros infantis que servem como ponto de partida para as crianças saberem e respeitarem estes direitos de que são as protagonistas. Tu e Eu e Todos, de Marco Farina, fala, por exemplo, do que torna uma criança única, abordando os temas da diferença e da igualdade. Já a Carta aos Líderes do Mundo, assinada conjuntamente por Maria Inês Almeida (portuguesa) e Flávia Lins da Silva (brasileira), é um apelo de uma menina de doze anos para que quem manda no mundo cuide do estado do Planeta para as gerações futuras. Assim como Tu, de Raquel Salgueiro e Jorge Margarido, está mais focado no problema da tolerância; mas há mais livros, claro, que ajudam a transmitir aos mais pequenos os direitos consagrados nos documentos que lhes são dedicados. De pequenino se torce o pepino.

18
Nov22

Uma visita desassossegada

Maria do Rosário Pedreira

O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, um dos mais espantosos e originais livros da literatura portuguesa, celebra 40 anos de publicação (e depois da primeira edição muitas mais se seguiram, revistas e aumentadas). Estando, por isso, em destaque na Casa Fernando Pessoa, será esta a obra sobre a qual este sábado se debruça a rubrica Residências Pessoanas: Especialistas na Casa. Um dos maiores conhecedores desta e de outras obras do autor, o professor Fernando Cabral Martins, da Universidade Nova de Lisboa, será desta feita o guia que levará os interessados a uma visita à área museológica e à biblioteca da Casa, sempre com a tónica no Livro do Desassossego, partilhando conhecimentos e histórias singulares e respondendo a seguir às perguntas do público. A sessão acontece às 15h00 de sábado 19 e terá a duração de uma hora e meia, sendo necessária a compra de bilhete (online ou na bilheteira da Casa Fernando Pessoa) para poder participar. Vá lá, desassosseguem-se.

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